Aprendi que você é capaz de fazer coisas que não sabia que era capaz de fazer na noite em que desci para a rua e limpei a bagunça que os garotos tinham deixado. Aprendi que nada é impossível e que só parecia impossível porque ainda não tinha acontecido. São coisas úteis de saber.
Na segunda-feira, Neil não falou nada sobre nossa visita à sua casa. Talvez porque seu pai tivesse dito para ele não mexer comigo, mas também podia ser porque a sra. Pierce não tirava os olhos de mim. Ela implicou com Neil por causa de sua ortografia, de sua gramática, da sujeira embaixo de suas unhas e de seu atraso em relação à turma. Ele não disse nada, mas o peguei olhando para mim mais de uma vez. Quis gritar: “Eu não estou fazendo nada com você! E nunca mais vou fazer nada com você!”, mas fiquei quieta.
Naquela noite, falei para Deus: “Não estou fazendo nada contra ele, mas o Neil ainda está bravo”.
“Você não pode fazer mais nada agora”, Deus respondeu. “Você já rodou a engrenagem. Fazer as coisas é fácil, difícil é desfazer.”
“Bom, não estou fazendo mais nada acontecer”, eu disse. “E nunca mais vou fazer nada acontecer!”
“É o que veremos”, Deus falou.
Não fiz nada de novo na Terra Gloriosa naquela semana, só contei histórias. Contei uma história sobre um balão vermelho que queria ir cada vez mais alto e foi indo até chegar ao espaço sideral, mas depois de um tempo já não sabia ao certo por onde subir mais, nem que direção era para a frente ou para trás, nem para onde era o futuro e para onde era o passado — e, no fim, não sabia direito nem se estava indo para algum lugar.
Contei uma história sobre um esquimó que pescou um peixe enorme e eles ficaram amigos e o peixe não queria mais voltar para o mar. Mas ele não podia viver na terra com o esquimó, porque ficava quebrando o gelo onde o esquimó estava, então eles fizeram um barco com barbatana de baleia e o peixe rebocou o esquimó e nunca mais se viu nenhum dos dois.
Contei uma história sobre um tocador de rabeca que tocava tão lindamente que até os pássaros nas árvores começaram a cantar suas canções para ele, noite e dia. O único momento em que ficavam quietos era quando o rabequista tocava para eles, mas ele não podia tocar à noite e não conseguia dormir e não conseguia comer e, por fim, quebrou a rabeca e saiu correndo.
Contei uma história sobre um campo de milho. O milho estava verde e chamou o sol para aquecê-lo. O sol aqueceu o milho e o milho ficou amarelo. O milho se lançou ao céu. Ele floriu, ele rompeu, ele tocou o azul. “Aqueça-nos um pouco mais”, ele disse. O sol lambeu as espigas de milho. O milho ficou escuro. Sussurrou e farfalhou. Um pouco de fumaça apareceu na beira do milharal. Um pouco de fogo também. “Aqueça-nos um pouco mais”, disse o milho. As chamas eram feitas de papel-celofane. Elas se espalhavam com o vento. O milho começou a estalar. Alguém foi até a cidade mais próxima e tocou o sino da praça. O povo da região veio com baldes, mangueiras, bules e jarros cheios d´água. Mas, embora tenham trabalhado a tarde inteira e embora o milho gritasse que estava queimando, o sol não parou; em pouco tempo não havia mais nada onde antes estava o campo de milho.
Eu achava que a Terra Gloriosa estava ficando feia. Não conseguia me lembrar de por que eu tinha começado a construí-la. As ruas pareciam confusas, os campos marrons, os rios parados, o sol era só uma lâmpada, o mar de espelho era uma ideia estúpida. Talvez fosse isso mesmo, pensei. E me perguntei que outras coisas eu não andava percebendo com clareza.
Então me ocorreu que eu andava me preocupando com Neil Lewis quando, na verdade, deveria estar me preocupando com o Pai. Na quarta-feira, fui até a venda da esquina comprar doces e um jornal dizia: CHOQUES VIOLENTOS ENTRE PIQUETEIROS E TRABALHADORES RESULTAM EM TRÊS PRISÕES. Tinha uma foto de um homem deitado na frente de um caminhão que estava tentando passar pelos portões da fábrica, a polícia com escudos, capacetes e cavalos enfrentando homens com tacos de beisebol e tampas de lixo. Um homem com sangue escorrendo no rosto era puxado pelo pulôver. Fiquei tão espantada que nem me mexi. O Pai não tinha me contado nada daquilo.
Fui até o alto da rua, olhei colina abaixo para a fábrica e vi como era estranha na verdade, uma fera adormecida, uma coisa negra com chaminés, torres, escadas e canos e, acima dela, enormes nuvens de fumaça que nem nuvens de sopros. E em algum lugar lá dentro estava o Pai.
Os garotos batiam todas as noites, mas o Pai já não ia lá fora. Mais garotos que antes, garotos maiores, uns quatro ou cinco, e lá estava Neil no meio deles, cuspindo, falando palavrão, pulando nas costas dos outros. O Pai telefonava para a polícia, mas, quando eles chegavam, os garotos já tinham ido embora. Virou uma brincadeira, eles davam no pé rua abaixo assim que ouviam os carros. A polícia não encontrava ninguém, nós íamos para a cama, os garotos voltavam e começava tudo de novo.
Na noite de quinta-feira aconteceu uma coisa diferente. Nenhuma batida, só um barulho na caixa de correio. O Pai esperou um minuto e depois foi para a sala. Ficou de pé junto à porta com um pedaço de papel nas mãos.
“O que é isso?”, perguntei.
O rosto do Pai estava vazio. “Nada”, ele respondeu. “Nada, não.”
“É um recado dos meninos?”, eu quis saber.
Ele disse: “Judith. Por favor”. Como se ele estivesse machucado, como se eu o estivesse machucando. Ele nunca tinha falado comigo desse jeito e eu voltei para a cozinha.
“Eu gostaria que vocês enviassem um carro”, escutei o Pai dizer. “Eles ainda estão aqui... Sim... Não posso falar no telefone.” Ele ficou em silêncio por um tempo. Quando voltou a falar, foi mais baixo. Ele disse: “Vou falar uma coisa para o senhor, vocês estão cometendo um grande erro... Sim. Vou fazer, com certeza. É a primeira coisa que vou fazer”.
“Você vai levar o bilhete para a delegacia?”, perguntei quando ele entrou na cozinha.
“Judith, gostaria que você não ficasse escutando quando falo ao telefone.” Ele jogou mais carvão na estufa, fechou a porta com firmeza e disse: “De agora em diante, não quero mais que você vá para a escola pela rua de trás, vá pela rua principal, entendeu? E não saia do parquinho na hora do recreio”.
“Tá bom”, respondi.
“E fique longe daquele garoto. Ele não é boa pessoa. Vou conversar na escola amanhã; se a polícia não vai fazer nada, talvez eles possam fazer alguma coisa.”
“É mesmo?”, eu disse. Comecei a me sentir mal.
“É”, ele respondeu. “Isso tem que acabar.”
Estávamos sentados junto à estufa quando, alguns minutos depois, algo atingiu a porta da frente com força. Gritaram. As vozes pareciam mais velhas que as de Neil e Lee, e havia risadas. Mais um golpe na porta e ouvimos as moitas se partirem no jardim. O Pai tossiu para limpar a garganta, bruscamente, e me pareceu que ele não estava conseguindo respirar direito.
Nós dois ficamos bem quietos enquanto os ruídos continuavam e o ar à nossa volta parecia cada vez mais escasso. Continuavam, continuavam. E continuavam. Eu não entendia como ruídos podiam paralisar alguém, mas era isso o que eles estavam fazendo. Queria me mexer mais do que nunca, mas não conseguia. A pele do Pai estava estranha, parecia que alguém estava apertando os lados da sua cabeça. De repente ele deu um pulo e foi até o aparador. Ele pegou a Bíblia, abriu em uma página e me entregou. “Leia”, ele disse.
“Quê?”
“Leia.”
“Qual parte?”
“Qualquer uma.”
Fiquei parada, só olhando, e ele falou: “Vai logo!”.
“Quanto ao rei da Assíria, eis o que diz o Senhor: Ele não entrará nesta cidade, não atirará contra ela uma flecha, não a atacará com escudos, não a cercará de trincheiras. Pelo mesmo caminho por que veio, voltará; ele não entrará nesta cidade, oráculo do Senhor.”
“Mais alto”, o Pai falou.
“Eu protegerei esta cidade, e a salvarei, por amor de mim e do meu servo Davi. O anjo do Senhor saiu e matou cento e oitenta e cinco mil homens no acampamento dos assírios. De manhã, ao despertar, só havia cadáveres.”
“Mais alto!”
Mas minha garganta doía demais. O Pai tomou a Bíblia das minhas mãos e começou a ler. Segurava o livro longe do corpo e lia em voz alta e clara, com o queixo empinado. Leu até o relógio da sala bater nove horas, entre as risadas e as vozes lá de fora, e eu de cabeça baixa.
Um carro de polícia passou de novo, logo depois das nove, mas dessa vez o Pai não tinha chamado e fiquei me perguntando quem tinha chamado, imaginei que talvez fosse a sra. Pew ou o sr. Neasdon.
O Pai me mandou dormir no quarto do meio e não perguntei por quê. Ele demorou muito para subir; antes disso, eu o escutei passando a tranca na porta da frente e arrastando alguma coisa pesada.