Eu me sentei do lado da banheira e fiquei falando: “Eu não entendo, não entendo, não entendo”.
Limpei a boca e puxei a descarga.
Fui para o meu quarto, arranquei o papel-celofane e recolhi o milharal. Bati a terra e joguei a grama fora. Pus as pessoas de volta onde elas estavam e guardei os baldes d´água. Eu disse: “Não entendo. Eu não queria causar um incêndio. Eu estava só brincando”.
“Será que você não percebeu que qualquer coisa que você faça pode virar realidade?”, disse a voz.
“Não!”, respondi. “Eu achava que tinha que fazer as coisas de propósito.”
“Quando você fez o milharal, você estava com medo”, Deus disse. “O medo pode fazer as coisas acontecerem. É que nem rezar por um desastre.”
“Mas isso significa que qualquer coisa pode acontecer a qualquer hora”, falei, “que as coisas vêm do nada — do nada!”
Deus disse: “Talvez valha a pena considerar que a maquete de mundo ganhou vida própria”.
“Então eu vou jogar tudo fora!”, rebati. “Não vou ficar com essas coisas! Aliás, não sou eu! É Você! Não sou eu quem faz as coisas acontecerem! Você fez o incêndio! Eu falei que não ia fazer mais nada acontecer e eu falei sério. Eu não quero o poder! Eu não quero ter nada a ver com isso!”
“O poder às vezes é uma criatura difícil de domar”, Deus disse. “Às vezes não dá para saber com certeza quem é o mestre e quem é o servo. De qualquer modo, temo dizer que você não pode simplesmente devolvê-lo.”
“Por que não?”, perguntei. “Ninguém falou nada sobre ter que ficar com ele.”
“Bom, você se tornou muito útil para Mim. E, além disso, não pode ficar pegando e largando o poder, sabe?”
“Então é muito simples”, falei. “Não vou fazer mais nada — nunca mais.”
“Falar é fácil, difícil é fazer.”
“Você vai ver!”
“O poder não vai embora”, Deus disse.
“Por favor, pegue de volta”, falei e mordi o lábio bem forte, para segurar o choro. “Nada acontece do jeito que eu queria. Alguma coisa sempre dá errado.”
“É porque Nada e Alguma Coisa têm uma relação mais estreita do que as pessoas pensam”, Deus disse.