Eu estava escrevendo no meu diário quando levantei os olhos e vi o Pai de pé no vão da porta. Escondi o diário e perguntei: “A gente vai sair para pregar?”.
“Não.” Seus olhos estavam sombrios. “Ponha umas roupas velhas e desça.” Não tive tempo para perguntar mais nada porque ele já tinha ido embora. Um minuto depois, ouvi a porta dos fundos bater e outros barulhos. Guardei meu diário debaixo da tábua do piso, pus macacão e pulôver, desci. O Pai estava carregando umas pranchas de madeira. Ele botou um pote de pregos na minha mão e disse: “Leve isso lá para a frente”, então fui para o jardim e fiquei esperando.
O mundo estava azul e amarelo e brilhava que nem diamante, e o ar estava tão frio que queimava meu nariz. Parecia que tinham desenhado o contorno da montanha com um alfinete. Um sabiá se empoleirou nos galhos da cerejeira e começou a cantar, e as notas esfriavam como gotas de chumbo quando caíam sobre mim.
O Pai apareceu depois de um minuto com um serrote, as pranchas e dois engradados de leite. Colocou os engradados de leite no chão e passou a primeira prancha por cima deles. “Segure firme”, ele me disse e eu segurei a ponta da prancha. Ele começou a serrar. Seu corpo estremecia a cada movimento e o som rasgava o ar. Seu rosto ficou vermelho. A primeira tábua caiu no chão e ele pegou mais uma.
Era horrível segurar pranchas. Quando os dentes da serra emperravam, a tábua me levava junto. Quando a serra entortava, eram os meus dentes que rangiam.
O Pai começou a apoiar as tábuas cortadas contra o muro do jardim. Eu não sabia onde ele iria colocá-las, porque já havia um muro cercando o nosso jardim e, em cima do muro, as grades, como em todos os outros jardins, mas comecei a passar os pregos para ele. O Pai colocava uma tábua de cada lado da grade e esmagava os pregos tão fundo na madeira que saíam lascas, tão fundo que as cabeças dos pregos desapareciam. Martelou pregos por toda parte, em todos os ângulos; chegou a martelar o dedo, e o sangue escorreu por sua mão.
Quando ele acabou de forrar as grades com as tábuas, começou a pregar mais outras em cima das primeiras. As tábuas eram de tamanhos e espessuras diferentes. Começavam e terminavam em pontos diferentes. Se não fossem compridas o bastante, o Pai martelava mais uma. Se ficava uma brecha entre as tábuas, ele cobria com cimento e pedras ou pedaços de tijolo. Achei que ele iria se pregar na grade também, se pudesse.
Ele não olhou para mim e não falou comigo. Por volta das dez horas, começou a fazer barulhos como um animal. Os barulhos me davam nojo e meus braços pareciam líquidos. Ele disse: “O que você está olhando?”, e virei a cabeça para ele não ver que eu tinha começado a chorar.
Ele trabalhou a manhã toda, não parou nem para comer ou beber, sua respiração enchia o ar com grandes nuvens. Continuei passando as coisas assim que ele pedia gritando. Ele tirou o pulôver e sua camisa estava empapada de suor.
Um pequeno grupo de pessoas se reuniu na calçada do outro lado da rua. A sra. Andrews estava lá, junto com o sr. Evans e o sr. Andrews. Acho que eles nunca tinham visto uma cerca subir tão depressa. Às onze e meia, o sr. Neasdon saiu de casa e veio até a calçada. Ficou com as mãos na cintura, piscando rápido.
O Pai não o viu, ou fingiu não ver. “McPherson!”, o sr. Neasdon gritou, “o que está acontecendo?”
“Cerca!”, disse o Pai.
O sr. Neasdon perguntou: “Não passou pela sua cabeça avisar os vizinhos antes de começar?”.
“Martelo!”, o Pai berrou. Entreguei o martelo para ele.
O sr. Neasdon passou os olhos pela rua e voltou a olhar para o Pai. Balançou a cabeça e olhou para o outro lado. Jogou as mãos para os céus. Depois se virou mais uma vez para o Pai e perguntou: “Isso vai ficar de que altura?”.
“Eu não sei!”, o Pai disse. Botou mais uma tábua no lugar. “Prego!”
A sra. Pew enfiou a cabeça entre as grades do outro lado do jardim e perguntou: “John, você quer uma xícara de chá?”.
“Nada de chá, obrigado, senhora Pew!”, o Pai respondeu.
Ela mexeu no aparelho auditivo. “Eu tenho Tetley, se você quiser.”
“Nada de chá! Obrigado, senhora Pew!”, o Pai disse.
O sr. Neasdon falou: “Epa, epa! Só um minutinho! Eu quero saber de que altura essa cerca vai ficar! Ela já está tapando a luz no nosso jardim e é horrorosa! Você não pode fazer essas coisas sem consultar a gente”.
O Pai continuou martelando.
O peito do sr. Neasdon começou a subir e descer. “Sabe de uma coisa, já estou por aqui com você! Você fica com esse negócio de Fim do Mundo para cá e de Armagedom para lá e não faz greve — mas agora passou dos limites! Isso não vai ficar assim!”
O Pai berrou: “Prego!”.
A sra. Pew reapareceu e perguntou: “E chá de ervas?”.
Os olhos do sr. Neasdon se arregalaram. Ele voltou para dentro e bateu a porta.
A sra. Pew voltou depois de um tempo, mas dessa vez só ouvimos uma voz dizendo: “John! John! Também tenho de menta, se você preferir!”.
Começou a escurecer às cinco da tarde. O grupo de pessoas do outro lado da rua foi para dentro das casas. Achei que eles viriam perguntar se o Pai ficaria naquilo a noite toda, mas ninguém veio pedir para ele parar.
O Pai me mandou ir para dentro, mas eu estava me sentindo mal e queria ficar perto dele, então continuei entregando as tábuas de madeira. Mas eu estava com frio. “Já não está bem alta agora?”, perguntei, enfim.
“Bem alta?”
“Não dá mais para ver a rua.”
“Não está nem na metade!”, ele rebateu e tacou cimento na tábua, como se estivesse dando uma lição nela.
Pouco depois disso, eu estava entregando uma tábua para o Pai quando uma farpa entrou na minha mão. Ele não viu. Tentei puxar a farpa, mas ela se partiu e depois começou a doer sempre que eu passava a madeira para ele. Já estava bem escuro, o Pai pendurou um lampião no alto das tábuas e continuou trabalhando, cambaleando em cima de outros dois engradados de leite. Ele me pediu para ir buscar as sacolas cheias de vidro para reciclagem e, quando voltei, ele pulou em cima das sacolas e depois enfiou os cacos no cimento da parte de cima das tábuas e nas brechas entre as tábuas onde o cimento ainda estava fresco, pelo lado de fora. Entramos às nove. Seu rosto estava vermelho e em volta de seus olhos havia dois círculos brancos. Ele tomava chá e suas mãos tremiam. Disse que agora só faltava fazer um portão novo e que faria isso no dia seguinte.
Jantamos em silêncio. Doía só de segurar o garfo. Mas eu nem estava com fome. De repente, falei: “Você se esqueceu de agradecer”.
O Pai parou de comer. Depois engoliu a comida em seco e pegou a xícara de chá. “Bom, agora já foi”, ele rebateu.
Fiquei encarando o Pai. Ele limpou o resto do prato, arrastou a cadeira e disse: “Já acabou?”. Não respondi, mas mesmo assim ele recolheu meu prato e foi para a pia.
“O que há com você?”, ele perguntou enquanto lavávamos a louça.
“Nada.”
“Alguma coisa tem, sim. Vamos lá, fale logo.” Aí ele parou de enxaguar os pratos e disse de supetão: “O que há com a sua mão?”.
“Nada.”
Ele pegou o prato que eu estava enxugando e abriu minha mão. A pele em volta da farpa estava vermelha e saltada. Quando ele a tocou, dei um pulo. “Por que você não me falou nada?”, ele disse com uma voz totalmente diferente, e eu encolhi os ombros e olhei para o outro lado.
O Pai fechou a torneira. Falou para eu me sentar e saiu da cozinha. Quando voltou, trouxe um antisséptico, algodão, uma latinha de gaze e uma agulha. Puxou uma cadeira e se sentou na minha frente, pegou minha mão e começou a cutucar a farpa com a agulha.
O rosto do Pai agora parecia completamente vazio. Eu sentia sua respiração nos meus dedos. Ele estava sendo cuidadoso, então não doía, mas mesmo assim meus olhos se encheram e não pude olhar para cima.
Ele pegou uma gaze e tirou a embalagem, depois a pressionou sobre o corte. “Aí mesmo”, falei, e ele pressionou mais. “E aí também.” Ele pressionou a gaze mais um pouco. À nossa volta, a cozinha ficou muito quieta.
E então ele se levantou, como se de repente tivesse se lembrado de alguma coisa, e disse: “Isso vai resolver”.
Falei: “Você acha que eu preciso de um curativo?”.
A escuridão voltou a seu rosto. Ele disse: “É só uma farpa, Judith”.
Pus a mão sobre a gaze e vi o Pai ir embora.