Meu nome é Judith McPherson. Tenho dez anos de idade. Na segunda-feira aconteceu um milagre. É assim que vou chamá-lo. E fui eu que fiz tudo. Foi por causa do que Neil Lewis tinha falado sobre enfiar minha cabeça na privada. Foi porque eu estava com medo. Mas também foi porque eu tive fé.
Tudo começou na sexta à noite. O Pai e eu estávamos comendo cordeiro e ervas amargas na cozinha. Cordeiro e ervas amargas são Coisas Necessárias. Nossas vidas estão cheias de Coisas Necessárias porque estamos vivendo nos Últimos Dias, mas Coisas Necessárias quase sempre são difíceis, que nem rezar. Rezar é necessário porque o Armagedom está próximo, mas a maioria das pessoas não quer ouvir pregações e às vezes grita com a gente.
O cordeiro representa os primogênitos que Deus matou no Egito e também representa Cristo, que morreu pela humanidade. As ervas amargas relembravam aos israelitas a amargura da escravidão e como era bom estar na Terra Prometida. O Pai diz que são ricas em ferro. Mas gosto de pensar nos cordeiros em um campo, não no meu prato, e quando tento engolir as verduras amargas, minha garganta fecha. Naquela sexta à noite, eu estava com mais dificuldade para comer do que o normal, por causa do que Neil Lewis tinha falado. Depois de um tempo, desisti e soltei o garfo. Eu disse: “Como será que é morrer?”.
O Pai ainda estava com o macacão da fábrica. A luz da cozinha fazia buracos em volta dos seus olhos. Ele disse: “O quê?”.
“Como será que é morrer?”
“Que tipo de pergunta é essa?”
“Estou só pensando.”
Seu rosto estava sombrio. “Coma logo.”
Enchi o garfo com as verduras amargas e fechei os olhos. Queria ter tapado o nariz, mas o Pai iria ver. Contei e engoli. Depois de um instante, eu disse: “Quanto tempo uma pessoa consegue sobreviver com a cabeça enfiada debaixo d´água?”.
“Quê?”
“Quanto tempo alguém sobrevive debaixo d´água?”, perguntei. “Sei lá, acho que essa pessoa vai durar mais se já estiver acostumada. Pelo menos até alguém encontrar ela. Mas e se for a primeira vez? Se quem estiver empurrando quiser que essa pessoa morra — e eles querem —, sei lá, se estiverem segurando a cabeça dela debaixo d´água?”
O Pai disse: “Do que você está falando?”.
Olhei para baixo. “Quanto tempo alguém sobrevive debaixo d´água?”
Ele disse: “Eu não tenho a menor ideia!”.
Engoli o resto das ervas amargas sem mastigar, depois o Pai tirou os pratos e trouxe as Bíblias.
Nós lemos a Bíblia todos os dias e depois ponderamos sobre o que acabamos de ler. Ler a Bíblia e ponderar também são Coisas Necessárias. Ponderar é necessário porque é o único jeito de descobrirmos o que pensamos a respeito de Deus. Mas os caminhos de Deus são inescrutáveis. Isso significa que você pode passar a vida ponderando e, mesmo assim, não saber o que pensar. Quando tento ponderar, minha mente escorrega para outras coisas, como um jeito de fazer uma piscina e degraus com um bastidor de bordado para a maquete de mundo no meu quarto, ou quantas balas de pera posso comprar com as moedas que tenho no bolso, ou quanta ponderação ainda falta fazer. Mas depois nós sempre conversamos sobre o que ponderamos, então não dá para fingir que você ponderou quando, na verdade, não ponderou nada.
Estava escurecendo do lado de fora da janela. Dava para ouvir os garotos andando de bicicleta na ruela de trás. Subiam uma rampa e, toda vez que desciam, a tábua retumbava. Olhei para o Pai. Eu sabia, só pela forma como suas sobrancelhas saltavam, que devia prestar atenção. Sabia, pelo modo como seus óculos brilhavam, que não devia interrompê-lo. Olhei para baixo, enchi o peito e segurei o ar.
“No nono ano, no décimo mês, no décimo dia do mês, a voz do Senhor me foi dirigida: ‘Filho do homem, anota este dia, este dia exatamente, porque o rei da Babilônia atacou Jerusalém...’.”
Depois de vinte e cinco segundos, a sala começou a pulsar e minha respiração escapou em sopros curtos. Esperei um minuto e prendi o fôlego novamente.
Um cachorro latiu. Uma tampa de lixeira bateu. Os segundos pingavam do relógio sobre a estante da lareira. Depois de vinte e cinco segundos, a sala começou a pulsar de novo e soltei o ar mais uma vez. Deve ter sido um movimento brusco, porque o Pai levantou os olhos e disse: “Você está bem?”.
Abri bem os olhos e fiz que sim com a cabeça.
“Está acompanhando?”
Fiz que sim outra vez e abri ainda mais os olhos. Ele me olhou com as sobrancelhas baixas e recomeçou a leitura.
“‘Suas impurezas são uma infâmia. Porque tentei purificar-te, mas tu não quiseste ficar livre das tuas impurezas, e agora não ficarás pura até que se acalme minha cólera contra ti. Eu, o Senhor, o disse.’”
Esperei dois minutos inteiros e prendi o fôlego.
Segurei. Continuei segurando.
Eu disse: “Vou conseguir. Não vou me afogar”.
Eu me agarrei aos braços da cadeira. Firmei os pés no chão. Afundei o traseiro no assento. Estava nos vinte e quatro segundos quando o Pai disse: “O que você está fazendo?”.
“Ponderando!”, respondi e minha respiração saiu de uma vez só.
Uma veia se agitou na têmpora do Pai. “Você está muito vermelha.”
“É que é um trabalho duro.”
“Isso não é brincadeira.”
“Eu sei.”
“Você está acompanhando?”
“Estou!”
O Pai soltou um pouco de ar pelo nariz e começou a ler de novo.
Esperei três minutos inteiros. Depois prendi o fôlego mais uma vez.
Enchi cada pedacinho do meu corpo com ar: meu estômago, meus pulmões, meus braços e minhas pernas. Meu peito doía. Minha cabeça martelava. Minhas pernas saltitavam.
Não percebi que o Pai tinha parado de ler. Não vi que estava olhando para mim até ele dizer: “Mas o que é que está acontecendo aqui?”.
“Não estou me sentindo muito bem.”
Ele pôs a Bíblia de lado. “Vamos deixar uma coisa bem clara. Eu não estou lendo isso para divertir você. Não estou lendo isso para o meu bem. Estou lendo porque isso vai salvar a sua vida. Então trate de se sentar direito, pare de se remexer e comece a prestar atenção!”
“Certo”, eu disse.
Ele esperou um minuto e depois começou a ler de novo. “‘Chegou a hora. Eu agirei, não desistirei, não terei dó nem me arrependerei. Os teus caminhos e as tuas ações te julgarão’, declara o Senhor.”
Eu tentava acompanhar, mas só conseguia pensar na privada, só conseguia ouvir a descarga, só conseguia sentir as mãos me empurrando para baixo.
“Então me perguntaram: ‘Porventura não nos vais explicar o que significam estas coisas?’. A isso respondi: ‘Eis o que me falou o Senhor: Isto dirás à casa de Israel’... Judith!”
O Pai leu essa parte de qualquer jeito, sem parar, nem olhar para cima.
“Quê?” Meu coração se enroscou no pulôver.
“Continue a leitura, por favor.”
“Oh.”
Olhei para a página que fervilhava de formigas. Eu me virei e meu rosto ficou quente. Eu me virei de novo e meu rosto ficou mais quente ainda.
O Pai fechou sua Bíblia. Ele disse: “Vá para o seu quarto”.
“Eu vou ler!”, rebati.
“Não, você obviamente tem coisa melhor para fazer.”
“Eu estava escutando!”
O Pai disse: “Judith”.
Eu me levantei.
Minha cabeça estava muito quente, como se estivessem passando coisas demais por ela. Estava confusa também, parecia que tinha sido chacoalhada. Fui até a porta. Pus a mão na maçaneta e disse: “Não é justo”.
O Pai levantou os olhos. “O que foi?”
“Nada.”
Seus olhos flamejaram. “Melhor assim.”