Pouco antes do amanhecer, sonhei que estava na Terra Gloriosa. Estava escuro e eu fugia para salvar minha vida, escutava passos e, de quando em quando, um grito: “Por ali!”.
Não entendia como as pessoas sabiam por onde eu passava, porque não estava deixando nenhum rastro e nem fazendo qualquer barulho. Então vi uma trilha de pó brilhante reluzindo no escuro, e ele estava caindo do meu bolso, onde eu tinha guardado a pedra que o velho senhor tinha me oferecido, mas quando pus a mão no bolso, só senti um buraco, e, escorrendo pelo buraco, o pó cintilante.
Arranquei minha jaqueta e a joguei longe, corri ainda mais, mas a trilha continuava. Eu tropeçava e caía e me levantava de novo, e então corria a diferentes velocidades, muito rápido em um momento — e os campos e colinas ao meu redor pulavam para lá e para cá, do jeito que fazem quando você está na garupa de um cavalo ou em um filme bem antigo de bangue-bangue — e devagar no outro, como se tudo fluísse que nem mel ou melado, e era pior porque eu não conseguia mexer minhas pernas rápido o bastante.
Por mais que eu corresse, o pó continuava caindo, e pensei que a pedra devia ser enorme, maior que o universo, e eu não tinha me dado conta. Eu corria e corria, tentando lembrar onde a terra cedia espaço às tábuas do assoalho, mas no lugar onde as dunas de areia deveriam ter acabado havia mais dunas e onde as colinas deveriam ter acabado havia mais colinas. A Terra Gloriosa continuava sempre, do jeito como eu tinha imaginado, só que agora eu queria que ela terminasse e que chegasse logo a porta, ou o aquecedor ou o fim do tapete.
Tive que parar um pouco para recuperar o fôlego e, quando me curvei, vi a razão por que o pó não parava de cair: eu estava cheia de pó, eu era feita de pó, e tinha buracos por todo o meu corpo. E, quando comecei a correr de novo, entendi que em breve não restaria mais nada de mim, a não ser limpadores de cachimbo, lã e um pouquinho de feltro.