Vingança

Era o último dia de escola do ano. Tiramos nossos trabalhos das paredes, arrancamos as páginas em branco dos nossos cadernos e as pusemos em uma pilha, para que fossem usadas como papel de rascunho. Quando todo mundo saiu para cantar no coro naquela tarde, cruzei os braços, abaixei a cabeça e fechei os olhos. Pela primeira vez na vida, eu me senti melhor na escola do que em casa.

Um barulho me fez levantar a cabeça. A sra. Pierce estava fechando a porta. Ela disse: “Ninguém vai sentir minha falta por uns cinco minutos”. E se sentou ao meu lado.

“Judith, espero que você não se importe, mas eu gostaria de conversar um pouco com você antes do fim do dia e, se não for agora, provavelmente não terei outra chance. Você não fala muito, mas ando muito preocupada com você nos últimos tempos e queria ver se está tudo bem. O que o seu pai disse quando você pediu para ele vir falar comigo?”

Engoli em seco. “Falou que ia dar um pulo aqui”, eu disse, “mas não por agora, porque ele está muito ocupado.”

A sra. Pierce falou: “É uma pena. Queria muito que ele viesse”. Ela suspirou e disse: “Judith, tenho uma carta aqui. Gostaria que você a entregasse a seu pai. Diga a ele que é muito importante que leia”. Ela me olhou. “Combinado?”

Mordi os lábios e fiz que sim.

Aí ela tirou um pedaço de papel do bolso e me ofereceu. Ela disse: “Judith, aqui está o meu número de telefone. Normalmente não faço isso, mas, se você precisar conversar com alguém no Natal, por favor, ligue para mim”.

“Obrigada”, falei.

“Na verdade”, ela continuou, “no que ano vem, independentemente de eu conseguir falar com seu pai ou não, vou arrumar ajuda para você. Acho que tem muita coisa se passando nessa sua cabecinha, e nós poderíamos ajudar muito, se soubéssemos com o que estamos lidando.”

“O que você quer dizer com isso?”, eu disse e fiquei com medo.

“Você não precisa se preocupar com nada”, ela falou, “é só ajuda de profissionais.”

Eu não sabia o que aquilo significava e nem queria saber.

Ela se levantou e disse: “Eles já devem estar terminando. É melhor eu voltar para lá”.

Olhei para o papel e de repente meus olhos se encheram e meu coração começou a bater muito rápido. “Senhora Pierce”, falei.

“Sim, Judith?”

“Tem uma coisa que eu preciso dizer, mas não sei se posso.”

“Pare!”, Deus disse. Mas eu já tinha começado.

A sra. Pierce voltou para o meu lado. “Pode falar, Judith. Estou ouvindo.”

Eu me senti tonta. “Se eu contasse que fiz uma coisa ruim...”

“Sim?”

“Se eu contasse que fiz uma coisa muito ruim... uma coisa imperdoável...”

“Judith...”

“Não!”, interrompi. “Se essa coisa fosse muito ruim mesmo...”

A sra. Pierce pôs a mão no meu braço. Ela disse, bem suave: “Judith, não quero menosprezar o que você está me contando, mas tenho certeza de que você não é capaz de fazer nada muito ruim”.

“Eu sou!”, falei. “É muito pior do que você pode imaginar!”, e comecei a chorar.

Ela esperou, me entregou um lenço e depois disse: “E você não pode me contar?”.

Balancei a cabeça.

“Você falou com seu pai sobre isso?”

Balancei a cabeça. “Ele me avisou... ele me disse que ia dar problema, mas eu não acreditei nele...”

A sra. Pierce ficou vermelha. Ela balançou a cabeça e disse: “Judith, vou telefonar para o seu pai. Quanto antes eu conversar com ele, melhor”.

Quando ela falou isso, comecei a respirar bem rápido e ela pôs a mão no meu braço e disse: “Judith, por favor, tente não ficar preocupada. Tenho certeza de que, o que quer que você tenha feito, foi com a melhor das intenções, e seu pai vai entender. Eu preciso tentar conversar com ele, de verdade”.

Naquela tarde, a sra. Pierce leu para nós o último capítulo de A menina e o porquinho, em que Charlotte morre, mas fica feliz porque fez tudo o que podia para salvar Wilbur, e as pessoas acham que o que ela fez foi um milagre. É claro que o verdadeiro milagre é que era uma coisa muito difícil para Charlotte fazer porque ela estava morrendo, mas mesmo assim ela fez. Enquanto todos nós saíamos correndo, a sra. Pierce ficou em pé ao lado da mesa, falando: “Tenham um fim de ano maravilhoso! Não comam torta demais. Quero todos vocês em perfeitas condições no ano que vem”. Quando passei, ela disse: “Não se esqueça do que conversamos, Judith”. E eu fiz que sim.

Quando cheguei em casa, queimei a carta da sra. Pierce na estufa e fiquei feliz por ter conseguido queimar antes de ler, porque só de pensar no Pai lendo a carta eu já morria de medo. Mas enfiei o número do telefone no meu diário. Depois subi a escada e deitei na cama, fiquei contando os dias que faltavam até voltar para a escola. Pensei em como aquilo era estranho, querer voltar. Aí fiquei com frio e me cobri.

Um pouco depois, parou um carro. Ouvi a porta bater, o portão se abrir e uma voz de homem falar: “Força aí”.

Eu me levantei e espiei pela janela, mas, quem quer que fosse agora já estava entrando, dei um pulo porque a porta bateu contra o batente. Alguém disse: “Deixa comigo”, e me pareceu que era Mike.

Corri pelo patamar para a escada. Parei na metade do caminho e meu coração também parou, porque era Mike, e ele estava com o braço em volta de alguém que parecia o Pai, mas não dava para ver direito porque a pessoa que parecia o Pai estava com o braço em volta dos ombros do Mike e parecia que seu rosto tinha sido apertado de lado e estava sangrando e seu olho estava inchado e retorcido como o de um feto.

Mike falou: “Opa!”, quando me viu. Depois, disse: “Está tudo bem, pequena. Seu pai só caiu de uma escada. Ele vai ficar legal. Agora corre pra pegar uns panos molhados, pode ser?”.

Devo ter continuado sem me mexer no meio da escada porque Mike insistiu: “Vai lá, garota esperta”. Mas eu ainda não conseguia sair do lugar, até que a pessoa que parecia o Pai disse: “Estou bem, Judith”, e a voz também soava um pouco como a do Pai, tirando o fato de que a boca daquela pessoa parecia cheia de alguma coisa.

Subi a escada e fui para o banheiro, comecei a molhar um pano na pia. No meio do processo, minhas pernas se dobraram e me sentei na borda da banheira, sabia que o Pai não tinha caído da escada, sabia que era alguma coisa a ver com o que havia acontecido com Neil e tive certeza absoluta de que alguém tinha feito aquilo com o Pai e de que essa pessoa era Doug Lewis.

Eu me levantei, fechei a torneira e fui com o pano para o andar de baixo. O Pai estava sentado à mesa, com uma bacia ao lado. Mike tocava seu olho com um algodão e a cabeça do Pai ia um pouco para trás toda vez que Mike chegava mais perto. Pus o pano sobre a mesa e Mike disse: “Garota esperta. Seu pai vai ficar chuchu beleza. Agora você pode fazer um chazinho pra gente?”.

Fui até a pia e escutei Mike dizer em voz baixa: “Você devia ter me deixado levar você para o hospital”. O Pai falou alguma coisa e cuspiu na bacia.

Levei duas xícaras de chá para a mesa, mas acho que Mike esqueceu o que tinha pedido. Terminou de fazer o curativo no olho do Pai e disse: “Levante a camisa”, e, quando o Pai fez o que ele mandava, eu vi sangue na sua barriga e uma marca vermelha que parecia a sola de uma bota.

O Pai pôs a mão em cima do olho e o tocou de leve. Tirou a mão e pôs de novo, como se tivesse esquecido o que tinha acabado de fazer um segundo antes. Quando Mike terminou de fazer os curativos, o Pai se deitou no sofá. Sua cara estava branca e seus braços e pernas estavam largados que nem os de um boneco de pano. Mike disse: “Vou voltar amanhã depois do trabalho com umas compras”. O Pai ergueu a mão, mas Mike cortou: “John, eu estou falando, não pedindo”, e o Pai deixou seu braço cair de novo. Mike disse: “Pelo menos dessa vez você vai ter que ceder e deixar alguém tomar conta das coisas”. Aí ele passou o braço pelos meus ombros e me apertou. Ele disse: “Fique de olho para ele não se meter em mais confusão, beleza?”.

Depois, falou com uma voz diferente: “Ele vai ficar bem, Judith. Seu pai é durão”. Mas o Pai não parecia durão. Ele parecia morto.

Nenhum som no quarto. Atrás da janela, a luz da rua se derramava sobre o jardim negro e a cerejeira destruída. Minha mandíbula estava dura demais para falar. Eu disse na minha cabeça: “É por causa do Neil, não é? É por causa do que fiz acontecer com ele”.

“Olho por olho”, a voz disse. “Dente por dente. Vida por vida.”

Comecei a chorar. “Mas o Pai não está morto.” Comecei a tremer, meu corpo inteiro. “Por que Você não protegeu ele?”

Deus disse: “Meus caminhos são inescrutáveis”.

Falei: “É muito conveniente esse negócio de ser inescrutável, não é?”.