Dois dias antes do Natal, Elsie e May vieram e bateram na cerca. Eu não teria escutado se não estivesse no jardim, mas estava sol e eu não queria ficar dentro de casa.
“Ooooieeee!”, May chamou.
“Oláááá!”, chamou Elsie.
“Ei!”, eu disse.
“Judith!”, elas gritaram. “Você está bem, minha querida?” Pareciam um pouco inseguras: eu não lembrava que elas não tinham visto a cerca.
“Estou, sim!”, respondi. “Esperem aí, vou pegar a chave.”
“Estamos com saudade!”, disse Elsie.
“Esperem aí!”, falei. “Volto num minuto.”
“Posso pegar a chave?”, perguntei ao Pai quando entrei na cozinha. “Elsie e May estão lá fora.”
“Ah.” O Pai levou as mãos aos olhos. Depois balançou a cabeça e disse: “Não tenho condições de cuidar disso agora”.
Olhei firme para ele. “É a Elsie e a May.”
“Eu sei quem é e falei que não tenho condições de cuidar disso agora. Fale para elas que eu não estou bem, só isso.”
Olhei para ele. “Mas você...”, eu disse de repente. Uma luz branca e morna se acendeu na minha cabeça. “Você está bem.”
O Pai disse em voz baixa: “Não vou ficar aqui discutindo com você: fale para elas que agradeço a gentileza, mas não quero ver ninguém no momento”.
Eu estava respirando rápido. “Mas faz uma década que a gente não vê ninguém!”, falei. Minha voz tremia e estava ficando alta demais. “E se eu quiser ver as duas? Eu moro aqui também!”
O Pai deu um pulo na cadeira. “Eu não quero ver ninguém no momento, Judith, está bem? Eu não quero ver ninguém!”
Fiquei parada por uns instantes, depois saí correndo. No corredor, recuperei o fôlego e enxuguei o rosto. Abri a porta da frente, fui até a cerca, chamei May e Elsie, disse que o Pai não estava se sentindo muito bem.
“Ah, coitado... Mas você está bem, coração?”, elas murmuraram ao mesmo tempo.
“Estou, sim.” Encostei a cabeça na cerca.
“Ah, bom...”
Ficamos em silêncio por um minuto ou dois. “A gente pode fazer alguma coisa por você?”
“Não. Obrigada.” Fechei os olhos.
“Bom, então tá... a gente já vai — mas a gente se vê logo, logo, no encontro.”
“É.”
“Dê um abraço no seu pai por nós.”
“Diga que vamos pensar nele.”
“Tchau, queridinha.”
Ouvi as duas descerem a rua, escorreguei pela cerca e me sentei no chão.
Não falei mais com o Pai pelo resto do dia, mas ele nem percebeu porque também não andava falando muito. Mais tarde naquela noite, ele veio ao meu quarto e se sentou na cama. Não parecia se importar se eu estava dormindo ou não, mas fingi que estava; ele cheirava a cerveja e eu fiquei com medo.
“No fim, iremos vencer”, falou. “Eles acham que acabaram com a gente, mas não acabaram!” Passou a mão na minha cabeça, sua mão estava fria e pesada, foi como receber o toque de uma coisa morta. Senti a beira da cama balançar e aí ele soltou um pum.
Ele disse: “Mas o que eu...”
Aí ele fez um barulho que me pareceu um “Gah!” e pôs as mãos na cabeça e começou a esfregar o cabelo e a resmungar. Depois começou a rir, e enquanto dava risada não parava de esfregar a cabeça.
Depois que ele foi embora, não me mexi por um bom tempo. Não queria respirar, mas não tinha como. Devo ter pensado que, assim que o corpo do Pai começasse a melhorar, ele voltaria a ser ele mesmo, mas não estava funcionando, então tinha mais alguma coisa errada, e eu não queria nem pensar no que era. Pela primeira vez, pensei que o Pai tinha Depressão. A Depressão era um pecado porque significava que a pessoa tinha perdido as esperanças em Deus.
E concluí que bater nas portas, quebrar janelas, enfiar cabeças na privada, tocar fogo nas coisas e até ser atropelado não chegavam nem perto disto, porque, o que quer que isso fosse, não podia ser visto, não podia ser tocado e não podia ser corrigido. Não podia ser consertado como uma porta, ou um olho, ou um dente, ou uma casa.