Natal

No dia seguinte, recebemos um cartão de Natal da tia Jo. Ela mesma tinha feito o cartão, como de costume, e colado uma foto na parte da frente. Na foto, ela estava de cabelo bem curtinho, usava um enorme par de brincos de clave musical e sorria com um chapéu de festa na cabeça. Estava de braços dados com duas outras mulheres e parecia que a foto tinha sido tirada no jardim dos fundos de alguém, à noite. Ela estava com uma cara de quem tinha tomado sol.

O cartão dizia: “Feliz Natal. Penso muito em vocês dois. Adoraria ver vocês. Venham nos visitar. Com amor, Jo”. Logo abaixo, uma longa linha de beijos. Cheirei o cartão, mas ele não tinha cheiro de nada. Mas pensei em como os dedos da tia Jo tinham passado por ali. Imaginei a tia Jo sorrindo para mim, do jeito que ela estava sorrindo na foto. Perguntei ao Pai se eu podia ficar com o cartão e ele disse que podia, então preguei o cartão na parede acima da minha cama. Ele fazia o quarto inteiro parecer diferente, como se tivesse aberto uma janela e o ar fresco viesse entrando.

No sábado depois do Natal, tio Stan veio ver o Pai. Chegou logo depois do jantar. O Pai ofereceu a ele uma xícara de chá, mas o tio Stan não quis. Foram para a sala da frente e fecharam a porta. Eu não conseguia escutar nada, então fui para o meu quarto, me sentei no chão e peguei meu diário, mas fiquei só olhando para a página.

Ouvi a porta lá embaixo. Tio Stan falou: “O anúncio será feito amanhã”, e o Pai disse: “Obrigado”.

Uma meia hora depois, o Pai bateu à minha porta. Tomei um susto, guardei o diário embaixo da tábua e disse: “Pode entrar!”.

Ele se empoleirou no braço da cadeira ao lado da minha escrivaninha e falou: “Judith, preciso contar uma coisa para você. Me desculpe, mas é isso mesmo. Tio Stan acabou de sair daqui, tivemos uma longa conversa: no encontro de amanhã será anunciado que eu vou ser Removido. Quero que você saiba que estou de acordo com isso”.

“Ah”, eu disse. Não levantei os olhos.

“Eu sei que vai ser um choque para você, mas é a única coisa que posso fazer de plena consciência neste momento. O que quero dizer é: isso não significa que você tem que parar de ir aos encontros; ficarei mais que feliz em levar e buscar você. Quero que você faça o que bem entender.”

Não sei por quanto tempo ele continuou falando. Ouvi o Pai dizer: “Judith?”.

Engoli em seco. “Tudo isso é por causa da perseguição aos meninos?”, perguntei. Mas, na verdade, agora o porquê não fazia muita diferença.

“Por causa disso — e de mais umas coisas”, respondeu o Pai. Ele suspirou. “Acho que já faz um bom tempo que venho fazendo as coisas do meu próprio jeito.”

Eu estava me sentindo quente e achei que ia desmaiar. “Mas você ainda acredita em Deus, não acredita?”

O Pai deu uma risadinha bem pequena. “Não sei mais no que acredito.” Ele se levantou. “Mas, se você quiser ir amanhã, levo você.”

Balancei a cabeça.

“Você não quer ir?”

Balancei a cabeça.

“Está bem.” Ele saiu em direção à porta. Parou e disse: “Ah”. Remexeu nos bolsos. “Stan pediu para entregar isso aqui.” Abri o pedaço de papel. Nele estava escrito:



D. S. Michaels

The Old Fire Station

Milton Keynes

MK2 3PB



Caro Irmão Michaels,

Aqui é Judith McPherson, a menina com quem você conversou depois da sua fala sobre a semente de mostarda. Você me deu algumas sementes, lembra? Espero que você esteja bem.

Estou escrevendo para agradecer por você ter vindo até a nossa congregação. Sua fala mudou minha vida. Quando cheguei em casa, fiz um milagre acontecer, e muitos outros depois, mas o primeiro foi naquela noite, depois que você nos falou sobre fé. Eu fiz nevar colocando neve na minha maquete de mundo. Há um mundo no meu quarto, feito de sucata. Fiz neve nesse mundo e aí nevou de verdade, você se lembra?

Depois disso fiz nevar de novo e aí fiz parar de nevar. Depois trouxe de volta o gato da nossa vizinha e depois castiguei um menino da escola. Mas agora ele está batendo na porta da nossa casa o tempo todo e ontem o pai dele ameaçou o Pai na Cooperativa e o chamou defura-greve.

A polícia não está ajudando muito. Ninguém acredita que eu fiz milagre algum. O negócio é o seguinte: tento fazer mais milagres agora ou não? Ter poder não é tão fácil quanto parece.

Você disse que tudo o que precisávamos fazer era dar o primeiro passo, mas agora parece que não posso mais voltar para o início. Acho que teria sido melhor para mim se eu nunca tivesse descoberto meu poder. Agora estou confusa sobre um monte de coisas e o Pai também está.

Irmão Michaels, aconteceu uma coisa terrível. Eu fiz os meninos virem até a nossa casa e o Pai começou a ter problemas com os mais velhos porque ficou com raiva. Eu deveria ter imaginado que ele ficaria, mas não imaginei, e, como Deus diz, fazer coisas é fácil, difícil é desfazer. O Pai não é mais ele mesmo. Acho que ele pode estar com Depressão.

Irmão Michaels, amanhã o Pai será Removido da congregação.

Eu sei que o Pai vai voltar a andar na linha, mas tenho certeza de que ajudaria muito se você viesse conversar com ele. Você também poderia rezar por nós. Você se importaria em rezar agora mesmo? Porque o Fim já está bem perto.

Já faz um bom tempo que não venho me sentindo eu mesma e acho que estou ficando doente. Espero que não seja a Depressão, pois ouvi dizer que ela é contagiosa. Irmão Michaels, quando você passou pelas portas do salão naquela manhã, achei que você era um anjo ou alguma coisa do tipo, e foi por isso que ninguém conseguiu escutar de onde você vinha. Tenho certeza de que, se tem alguém que pode nos ajudar, esse alguém é você.

Falando nisso, as sementes de mostarda não cresceram nem um pouco. Se você pudesse me dizer onde posso conseguir mais algumas, ficaria muito agradecida. Espero que você não tenha conseguido as sementes nas terras da Bíblia, porque, se foi assim, vai demorar muito para conseguir mais.

Sua Irmã,

Judith McPherson