Como será que é morrer?

Há um mundo no meu quarto. É feito das coisas que ninguém quis mais e das coisas que eram da minha mãe, que ela deixou para mim, e passei boa parte da vida fazendo esse mundo.

O mundo se estende da segunda tábua do assoalho depois da porta e vai até o aquecedor embaixo da janela. Tem montanhas junto à parede, onde o quarto é mais escuro, e imensos penhascos e cavernas. Tem rios descendo das montanhas pelas encostas e para as pastagens, e é aqui que ficam as primeiras casas. Então há um vale, campos e a cidade e, depois da cidade, mais algumas fazendas, e logo a seguir fica a praia e a estrada da praia, uma floresta de pinheiros, a baía e o píer e, finalmente, bem perto do aquecedor debaixo da janela, o mar, com umas pedras e o farol, alguns barcos e criaturas marítimas. Pendurados no teto, em fios bem curtos, ficam os planetas e as estrelas; em fios um pouco mais compridos, o sol e a lua, e nos fios mais compridos de todos, nuvens e aviões, e a luminária é um balão de ar quente.

O mundo se chama a Terra Gloriosa. O Livro de Ezequiel diz que Deus jurou tirar os israelitas da escravidão e trazê-los para uma terra maravilhosa. De onde manariam leite e mel. Onde não faltaria nada, era um milagre, um paraíso. Era tão diferente de tudo que iria se destacar como uma joia e era chamada de “a mais gloriosa de todas as terras”. Quando fecho a porta do meu quarto, as paredes se afastam e surgem planetas, arco-íris e sóis. O chão se abre e aparecem campos e estradas a meus pés, centenas de pessoas pequeninas. Se estendo a mão, posso tocar o topo de uma montanha; se eu sopro, agito o mar. Levanto a cabeça e olho direto para o sol. Fico feliz quando entro no meu quarto. Mas, naquela noite de sexta-feira, não senti nenhuma dessas coisas.

Fechei a porta e me encostei nela. Fiquei pensando se não deveria descer de novo e contar ao Pai por que estava prendendo a respiração. Mas, se eu contasse, ele só iria dizer: “Você falou para o professor?”, e eu diria: “Falei”, e o sr. Davies teria dito: “Ninguém vai enfiar a cabeça de ninguém na privada”, e o Pai diria: “Então está tudo bem”. Mas eu sabia que Neil iria enfiar minha cabeça na privada de qualquer jeito. E fiquei me perguntando por que o Pai nunca acreditava em mim.

Eu me sentei no chão. Um tatu-bola saiu rastejando debaixo dos meus joelhos, balançando as antenas, as patas arranhando o assoalho. Parecia um tatu normal, só que bem pequenininho. Fiquei vendo o tatu escalar as dunas de areia da Terra Gloriosa e me perguntei se ele conseguiria achar o caminho de volta. Fizemos um experimento com tatuzinhos na escola. Construímos um labirinto de massinha e contamos o número de vezes que eles viravam para a esquerda ou para a direita. Eles quase sempre viravam para a esquerda. É por isso que não conseguem pensar sozinhos. Eu me perguntei se isso significava que o tatu-bola iria sair um dia ou se ficaria lá dando voltas até morrer na forma de uma bolinha crocante.

A escuridão se fechava sobre o vale feito um livro entre capas pretas. Foi caindo sobre as ruas esburacadas, sobre telhados e antenas, ruelas, lojas, lixeiras e postes, sobre os trilhos do trem e as imensas chaminés da fábrica. Em breve a escuridão apagaria as luzes. Por um momento, elas brilhariam como nunca, mas seriam tragadas por fim. Se você olhasse para o céu, veria seu brilho por um instante. Depois, nada. Eu me perguntava como seria morrer. Era que nem dormir ou que nem acordar? Era o fim do tempo? Ou o tempo continuava para sempre?

Talvez tudo o que eu pensava que era de verdade se revelasse de mentira, e tudo o que não era de verdade, fosse. Não sei por que comecei a procurar o tatu-bola. De repente parecia muito importante encontrá-lo, mas eu não conseguia, embora ele estivesse ali poucos segundos antes, e não tinha ar suficiente no quarto, era como se alguém riscasse um fósforo e todo o oxigênio fosse queimando.

Eu me sentei e encostei na parede, meu coração começou a bater forte. Alguma coisa vinha na minha direção, rolando que nem uma nuvem baixa no horizonte. A nuvem chegou. Ela encheu minha boca e meus olhos, de repente ouvi um rugido e as coisas aconteceram muito rápido e ao mesmo tempo, e aí eu estava sentada com as costas na parede e o suor corria dos meus cabelos e me senti mais estranha do que jamais tinha me sentido na vida.

E se eu tivesse que descrever como me senti, diria que era como uma caixa virada de cabeça para baixo. E a caixa ficou surpresa porque estava vazia.