O maior milagre de todos

Fechei a porta do quarto e percorri o patamar e nada era real. Desci a escada, degrau por degrau, segurando no corrimão, e eles também não eram muito reais. No pé da escada, uma luz passava pela vidraça da porta da cozinha. Atravessei o corredor e virei a maçaneta.

O Pai estava sentado à mesa, de costas para mim. Ele era a única coisa que parecia de verdade. Fechei a porta.

Dava para ver sua camisa subir e descer. Dava para ver a luz refletindo nos seus cabelos. Dava para sentir seu cheiro e escutar sua respiração. Fiquei ali por uma eternidade, só ouvindo e olhando para ele.

De repente, ele se virou. Pôs a mão no peito e disse: “Você quase me mata de susto”.

“Desculpe.”

“Achei que você estava dormindo.”

Sua voz já não estava grossa e seus olhos não estavam mais turvos e sua cara tinha ficado cinza, em vez de vermelha. Ele disse: “Subi para botar um cobertor em cima de você. Não queria acordar você...”. Ele parecia muito triste.

O Pai parou de falar e fiquei feliz porque eu tinha muito que dizer a ele e não me restava muito tempo. Respirei fundo e disse: “Pai, me desculpe por ter criado problemas para você com os mais velhos e me desculpe por não ter ouvido o que você disse sobre os milagres”.

Ele balançou a cabeça e passou a mão nos cabelos. “Ah, Judith, não é culpa sua. Realmente você não ajudou muito, mas ia dar problema de qualquer jeito, com a greve e tudo o mais.”

“Não!”, falei, e meu coração batia forte. “Fui eu! Se você soubesse metade das coisas que fiz!”

O Pai disse: “Está bem. Não vamos falar nisso agora”.

Baixei a cabeça e disse: “Eu fiz tudo”.

Aí o Pai falou: “Judith!”, então eu fiquei quieta.

Ele pôs o indicador e o dedão nos cantos dos olhos, como se eles estivessem ferindo seu rosto. Quando tirou os dedos, seu rosto parecia ainda mais cinza que antes e seus olhos estavam mais vermelhos e cansados do que nunca. Ele disse: “Me desculpe pelo seu quarto”.

“Está tudo bem.”

Ele pôs a cabeça nas mãos. “Não está tudo bem, não, mas agora já foi. Eu estava bêbado.” Tirou a cabeça das mãos e disse: “Você sabe que eu amo muito você, não sabe?”.

As palavras saíram muito estranhas. Rolaram para o meio da cozinha e ficaram se agitando ali entre nós, ficamos ouvindo até elas sossegarem e depois se fez um grande silêncio.

Eu estava tentando pensar rápido, estava tentando pensar no que dizer, mas era complicado porque meu coração doía e estava difícil de respirar. O Pai voltou a se virar para a mesa. Ele disse: “Eu amo você mais do que você sabe”.

Então meu coração começou a doer mais do que tinha doído em toda a minha vida e achei até que ele tinha se partido, mas pelo menos soube o que dizer. Eu disse: “Eu sei, sim”. E, de repente, sabia mesmo.

Eu me lembrei de que ele tinha cuidado de mim esse tempo todo, apesar de eu ter feito a Mãe morrer, tinha me levado ao médico quando eu era pequena e lido a Bíblia para me ajudar a falar, ele tinha me alertado sobre os milagres para me proteger, não tinha falado nada sobre a greve para não me deixar preocupada, tinha corrido atrás dos garotos para me proteger, pegado minha mão para eu não ficar com medo quando andamos no meio das bicicletas, me perdoado quando menti, construído a cerca para me manter segura, fingido que o bilhete passado pela porta não era sobre mim, sentado na minha cama depois do acidente e me dito que tudo ficaria bem, tinha se oferecido para me levar ao encontro, apesar de ele não poder participar, comprado peixe frito com batatinha e caminhado de mãos dadas comigo por dezessete quilômetros naquele dia, e ainda iria me levar para dar uma volta de balão.

Ele estava dizendo. “Não fui um pai muito bom para você, mas eu tentei. Tem umas coisas que nunca consegui falar para você, coisas sobre o tempo logo depois que sua mãe morreu, você de repente estava lá, pedindo atenção, pedindo cuidado, pedindo tantas coisas, e eu não tinha nada — droga, eu mal podia cuidar de mim mesmo. Às vezes não consigo nem olhar para você, porque você me lembra muito a sua mãe.” Ele suspirou. “Isso não deve estar fazendo muito sentido...”

Ele estava dizendo outras coisas também, mas falava muito rápido e eu ainda estava pensando na primeira coisa que ele tinha dito, aquele negócio de me amar. O que ele falou depois não tinha muita importância. Finalmente ele parou de falar, mas não olhou para mim, e eu fiquei feliz, porque ele não gostava de ver gente chorando. Ele disse: “Bom. A gente tem que olhar para o futuro agora”, e eu falei: “É”, mas sem pensar direito.

Aí ele falou, suavemente: “Já é quase amanhã. É melhor você subir”. E me lembrei de que era tarde demais, muito mais tarde do que ele ou qualquer outra pessoa podia imaginar, e que eu só tinha descido para dar adeus, mas ainda não conseguia partir.

Ele disse: “A gente conversa melhor amanhã”.

“Tá bom.”

“Boa noite, Judith.”

“Boa noite.”

Como não me mexi, ele se virou, e fui até a porta. “Pai?”

“Sim?”

“Não se preocupe com nada! Vai ficar tudo bem. Vai ser melhor do que você imagina.”

Ele deu risada, um som seco que se partiu ao meio, fez que sim com a cabeça, mas não se virou de novo.

Ele disse: “Vá para a cama, Judith”.

Não consegui pensar em mais nada a dizer, então olhei para ele pela última vez e abri a porta. Fechei a porta atrás de mim e enxuguei o rosto. Subi a escada, passo a passo, segurando no corrimão.