101.

Como meus antecessores, declarei Bokonon um fora da lei

Escrevi meu discurso em uma sala redonda e simples ao pé de uma torre. Lá havia uma mesa e uma cadeira. O discurso que escrevi também era redondo, simples e pouco mobiliado.

Era otimista. Era humilde.

Achei impossível não pedir ajuda a Deus. Nunca havia precisado da ajuda Dele e nunca acreditei que esse tipo de ajuda estivesse disponível.

Naquela hora, descobri que precisava acreditar – e acreditei.

Além disso, eu precisaria do apoio das pessoas. Pedi uma lista de pessoas que deveriam ser convidadas para as cerimônias e vi que Julian Castle e seu filho não estavam na lista. Mandei mensageiros convidá-los imediatamente, já que eram os que mais tinham familiaridade com o meu povo, com exceção de Bokonon.

Quanto a Bokonon:

Pensei em convidá-lo a se juntar ao meu governo, iniciando, assim, um período de justiça, paz e felicidade para o povo. E pensei em ordenar que sumissem com aquele horrendo gancho de uma vez por todas e depois comemorar o ato com grande alegria.

Mas então entendi que esse período de paz e justiça teria de oferecer algo mais do que um homem santo em uma posição de poder. Também teria de incluir uma fartura de coisas gostosas para comer, bons lugares para se viver, boas escolas, bons hospitais, diversão para todos, e trabalho para quem quisesse trabalhar – coisas que nem eu nem Bokonon tínhamos condições de oferecer.

Dessa forma, o bem e o mal tiveram de permanecer separados. O bem na selva, e o mal no palácio. O entretenimento do teatro era tudo o que tínhamos para oferecer às pessoas.

Ouvi uma batida na porta. Um criado disse que os convidados haviam começado a chegar.

Enfiei meu discurso no bolso e subi as escadas em espiral da minha torre. Cheguei ao parapeito mais alto do meu castelo e de lá contemplei meus convidados, meus criados, meu penhasco e meu mar de águas mornas.