H. Lowe Crosby acreditava que ditaduras eram quase sempre coisas boas. Não era uma pessoa horrível, tampouco um idiota. Para ele, o melhor era enfrentar o mundo com uma certa gozação caipira, mas muitas das coisas que dizia sobre a indisciplina da humanidade não eram apenas engraçadas, como também verdadeiras.
O único momento em que o humor e a razão o abandonaram foi quando ele afirmou o que achava que as pessoas realmente deveriam fazer com seu tempo na Terra.
Ele acreditava firmemente que as pessoas haviam sido criadas para fabricar bicicletas para ele.
– Espero que San Lorenzo seja tão bom como lhe falaram – eu disse.
– Só preciso falar com um homem para saber se é ou não – disse ele. – Quando “Papa” Monzano me der sua palavra de honra sobre algumas questões a respeito dessa ilhazinha, pronto. É assim que é, é assim que será.
– Uma coisa que gosto – disse Hazel – é que todos eles falam inglês e são cristãos. Isso torna as coisas bem mais fáceis.
– Sabe como eles lidam com o crime lá? – Crosby me perguntou.
– Não.
– Simplesmente não há criminalidade. “Papa” Monzano desestimulou o crime de uma forma tão terrível que as pessoas ficam com vontade de vomitar só de pensar nisso. Ouvi falar que dá para largar uma carteira no meio da calçada e voltar uma semana depois. Ela estará no mesmo lugar, com tudo dentro.
– Hum.
– Sabe qual é a punição por roubo?
– Não.
– O gancho – disse ele. – Sem multas, sem condicional, sem os trinta dias na cadeia. É o gancho. É o gancho para roubo, assassinato, incêndio proposital, traição, estupro, voyeurismo. Viole uma lei, qualquer uma, e vá para o gancho. Todo mundo consegue entender isso, e San Lorenzo é o país mais bem comportado do mundo.
– O que é o gancho?
– Eles pegam uma forca, sabe? Duas traves e uma viga. Então eles pegam uma espécie de anzol gigante e o penduram na viga. Daí, levam a pessoa que foi burra o bastante para violar a lei, enfiam a ponta do gancho em sua barriga até sair pelo outro lado, depois a soltam e ela fica lá pendurada, e, por Deus, lá se vai mais um maldito criminoso arrependido!
– Santo Deus!
– Não digo que seja um bom sistema – disse Crosby –, mas também não digo que é ruim. Às vezes fico pensando se algo assim não resolveria a delinquência juvenil. Talvez o gancho seja um pouco extremo demais para uma democracia. Enforcamentos públicos talvez sejam mais apropriados. Pendurar alguns daqueles ladrões de carro adolescentes em postes, na frente de suas próprias casas, com cartazes no pescoço dizendo: “Mamãe, aí está o seu garoto”. Faça isso algumas vezes e tenho certeza de que as empresas que vendem travas de ignição faliriam, seguindo o caminho das fábricas de assentos traseiros de porta-malas e de estribos para carros.
– Vimos essa coisa no porão do Museu de Cera em Londres – disse Hazel.
– Que coisa? – perguntei.
– O gancho. Na Câmara dos Horrores, no porão, tinha uma pessoa de cera pendurada no gancho. Parecia tão real que me deu vontade de vomitar.
– Harry Truman não parecia nadinha com o Harry Truman – disse Crosby.
– Como?
– As estátuas de cera – disse Crosby. – A estátua de Harry Truman não parecia nem um pouco com ele.
– Mas a maioria era bem parecida – disse Hazel.
– Era alguém específico que estava pendurado no gancho? – perguntei a ela.
– Acho que não. Só uma pessoa qualquer.
– Só para demonstração? – perguntei.
– Sim. Havia uma cortina preta de veludo em frente ao gancho e você tinha que empurrá-la para ver. E havia um aviso afixado na cortina, dizendo que as crianças não podiam ver aquilo.
– Mas as crianças viam – disse Crosby. – Havia crianças lá, e todas viram.
– Um aviso como aquele é como erva-dos-gatos para crianças – disse Hazel.
– Como as crianças reagiram quando viram a pessoa no gancho? – perguntei.
– Ah – disse Hazel –, reagiram da mesma forma que os adultos. Olharam e não disseram nada, apenas foram ver a próxima atração.
– Qual era a próxima atração?
– Uma cadeira de ferro em que um homem havia sido assado vivo – disse Crosby. – Ele foi assado vivo por ter assassinado o próprio filho.
– Só que, depois que assaram o homem – Hazel relembrou, brandamente –, descobriram que, no final das contas, ele não havia assassinado o filho.