Sobre Franklin Hoenikker – o garoto de rosto magro falava com o tom de voz e a convicção de um kazoo. Ouvi dizer que alguns homens do exército só falavam groselha. Esse era o caso do general Hoenikker. Pobre Frank. Era quase incompetente no trato social, tendo passado uma infância furtiva como Agente Secreto X-9.
Agora ele tentava ser cordial e persuasivo comigo, dizendo coisinhas agradáveis como: “Gosto do seu estilo!” e “Quero falar sem rodeios com você, de homem para homem!”.
Levou-me até o lugar que chamava de seu “esconderijo”, para que pudéssemos “… dar nome aos bois e deixar tudo rolar naturalmente”.
Descemos degraus talhados em um penhasco e chegamos a uma caverna natural que ficava ao mesmo tempo debaixo e atrás da cachoeira. Lá havia algumas mesas de desenho, três cadeiras escandinavas, brancas e finas, e uma estante com livros de arquitetura em vários idiomas: alemão, francês, finlandês, italiano, inglês.
Tudo estava iluminado por lâmpadas que pulsavam com o arfar do gerador.
A coisa mais admirável naquela caverna estava nas paredes: pinturas feitas com uma ousadia infantil, com uma argila grossa, terra e cores de carvão semelhantes às dos homens dos primórdios dos tempos. Não precisei perguntar a Frank o quão antigas eram aquelas pinturas. Consegui datá-las de acordo com os temas tratados. Não eram pinturas de mamutes, tigres-dentes-de-sabre ou de ursos itifálicos em tocas.
As pinturas mostravam várias facetas de Mona Aamons Monzano – a garotinha.
– Era… era aqui que o pai de Mona trabalhava? – perguntei.
– Isso mesmo. Ele foi o finlandês que projetou a Casa da Esperança e da Misericórdia na Selva.
– Eu sei.
– Mas não foi por isso que eu o trouxe aqui embaixo.
– Tem algo a ver com seu pai?
– Tem a ver com você. – Frank pôs a mão em meu ombro e olhou-me nos olhos. O efeito era perturbador. Frank queria inspirar camaradagem, mas seu rosto só me trazia à mente a imagem de uma coruja minúscula e bizarra, empoleirada num poste branco, cega pela luz.
– Talvez seja melhor ir direto ao assunto.
– Não faz sentido ficar enrolando – ele disse. – Ouso dizer que sou ótimo em julgar o caráter das pessoas, e gosto do seu estilo.
– Obrigado.
– Acho que nós dois podemos nos dar muito bem.
– Tenho certeza disso.
– Temos coisas que se encaixam.
Fiquei grato quando ele tirou a mão do meu ombro. Ele entrelaçou os dedos como se fossem dentes de uma engrenagem. Imagino que uma mão representava ele mesmo e a outra, a minha pessoa.
– Precisamos um do outro. – Frank sacudiu os dedos entrelaçados para mostrar como as engrenagens funcionavam.
Fiquei em silêncio por um tempo, embora mantivesse uma atitude amigável.
– Entende o que quero dizer? – perguntou Frank, por fim.
– Você e eu… nós vamos fazer algo juntos?
– Isso mesmo! – Frank bateu palmas. – Você é um homem mundano, habituado a falar em público, e eu sou uma pessoa mais técnica, habituado a trabalhar nos bastidores, fazendo as coisas acontecerem.
– Como você pode saber que tipo de pessoa eu sou? Acabamos de nos conhecer.
– Suas roupas, o jeito como você fala. – Ele pôs a mão no meu ombro de novo. – Gosto do seu estilo.
– Já disse isso.
Frank estava doido para que eu acompanhasse seu pensamento, queria que eu ficasse empolgado como ele, mas eu ainda estava perdido.
– Devo presumir que… que você está me oferecendo uma espécie de emprego aqui, aqui em San Lorenzo?
Ele bateu palmas. Estava deliciado.
– Isso mesmo! O que me diz de 100 mil dólares por ano?
– Minha nossa! – gritei. – O que eu preciso fazer para ganhar todo esse dinheiro?
– Praticamente nada. E você poderia beber em cálices de ouro toda noite, comer em pratos de ouro e ter um palácio todinho seu.
– Qual é o emprego?
– Presidente da República de San Lorenzo.