87.

O meu estilo

Sobre Franklin Hoenikker – o garoto de rosto magro falava com o tom de voz e a convicção de um kazoo. Ouvi dizer que alguns homens do exército só falavam groselha. Esse era o caso do general Hoenikker. Pobre Frank. Era quase incompetente no trato social, tendo passado uma infância furtiva como Agente Secreto X-9.

Agora ele tentava ser cordial e persuasivo comigo, dizendo coisinhas agradáveis como: “Gosto do seu estilo!” e “Quero falar sem rodeios com você, de homem para homem!”.

Levou-me até o lugar que chamava de seu “esconderijo”, para que pudéssemos “… dar nome aos bois e deixar tudo rolar naturalmente”.

Descemos degraus talhados em um penhasco e chegamos a uma caverna natural que ficava ao mesmo tempo debaixo e atrás da cachoeira. Lá havia algumas mesas de desenho, três cadeiras escandinavas, brancas e finas, e uma estante com livros de arquitetura em vários idiomas: alemão, francês, finlandês, italiano, inglês.

Tudo estava iluminado por lâmpadas que pulsavam com o arfar do gerador.

A coisa mais admirável naquela caverna estava nas paredes: pinturas feitas com uma ousadia infantil, com uma argila grossa, terra e cores de carvão semelhantes às dos homens dos primórdios dos tempos. Não precisei perguntar a Frank o quão antigas eram aquelas pinturas. Consegui datá-las de acordo com os temas tratados. Não eram pinturas de mamutes, tigres-dentes-de-sabre ou de ursos itifálicos em tocas.

As pinturas mostravam várias facetas de Mona Aamons Monzano – a garotinha.

– Era… era aqui que o pai de Mona trabalhava? – perguntei.

– Isso mesmo. Ele foi o finlandês que projetou a Casa da Esperança e da Misericórdia na Selva.

– Eu sei.

– Mas não foi por isso que eu o trouxe aqui embaixo.

– Tem algo a ver com seu pai?

– Tem a ver com você. – Frank pôs a mão em meu ombro e olhou-me nos olhos. O efeito era perturbador. Frank queria inspirar camaradagem, mas seu rosto só me trazia à mente a imagem de uma coruja minúscula e bizarra, empoleirada num poste branco, cega pela luz.

– Talvez seja melhor ir direto ao assunto.

– Não faz sentido ficar enrolando – ele disse. – Ouso dizer que sou ótimo em julgar o caráter das pessoas, e gosto do seu estilo.

– Obrigado.

– Acho que nós dois podemos nos dar muito bem.

– Tenho certeza disso.

– Temos coisas que se encaixam.

Fiquei grato quando ele tirou a mão do meu ombro. Ele entrelaçou os dedos como se fossem dentes de uma engrenagem. Imagino que uma mão representava ele mesmo e a outra, a minha pessoa.

– Precisamos um do outro. – Frank sacudiu os dedos entrelaçados para mostrar como as engrenagens funcionavam.

Fiquei em silêncio por um tempo, embora mantivesse uma atitude amigável.

– Entende o que quero dizer? – perguntou Frank, por fim.

– Você e eu… nós vamos fazer algo juntos?

– Isso mesmo! – Frank bateu palmas. – Você é um homem mundano, habituado a falar em público, e eu sou uma pessoa mais técnica, habituado a trabalhar nos bastidores, fazendo as coisas acontecerem.

– Como você pode saber que tipo de pessoa eu sou? Acabamos de nos conhecer.

– Suas roupas, o jeito como você fala. – Ele pôs a mão no meu ombro de novo. – Gosto do seu estilo.

– Já disse isso.

Frank estava doido para que eu acompanhasse seu pensamento, queria que eu ficasse empolgado como ele, mas eu ainda estava perdido.

– Devo presumir que… que você está me oferecendo uma espécie de emprego aqui, aqui em San Lorenzo?

Ele bateu palmas. Estava deliciado.

– Isso mesmo! O que me diz de 100 mil dólares por ano?

– Minha nossa! – gritei. – O que eu preciso fazer para ganhar todo esse dinheiro?

– Praticamente nada. E você poderia beber em cálices de ouro toda noite, comer em pratos de ouro e ter um palácio todinho seu.

– Qual é o emprego?

– Presidente da República de San Lorenzo.