O quarto cheirava mal. Era uma mistura de suor e outros odores exalados por homens enfiados havia demasiado tempo num espaço pequeno. Também continha um laivo de medo. Isso perturbava profundamente Samir Fadi, embora compreendesse a causa. Estavam a caçar um fantasma — alguém que começara, silenciosa e paulatinamente, a matar os seus irmãos havia quase um ano. Samir não poderia alterar essa situação, nem os factos. Quanto mais tempo os homens esperavam, mais entediados ficavam, mais as suas mentes divagavam. Não era difícil ver nos rostos jovens que a natureza agressiva da operação se dissipava sob o peso da monotonia. Cada um recalculava as suas probabilidades de sucesso, que se iam movendo na direção errada.
Samir não se deixava tomar por tal fraqueza. Receberiam aquele fantasma com um poderio militar avassalador e livrariam a causa de um grande problema, e ele seria celebrado como herói. Isso não era coisa pouca para ele. Havia muito que sentia que Alá tinha planos magnificentes para si e, quando regressasse daquela operação com a cabeça do assassino, desfrutaria da glória que tanto merecia.
Samir fora o afortunado que se deparara com os primórdios de uma solução. Todos tinham ficado chocados ao saber que aquilo era obra de um só homem. Fizera a pergunta mais básica: “Como é que se encontra e mata um assassino que ninguém conhece?” Tinham usado as suas fontes na Europa e em Moscovo, sem nada obterem. Parte do conselho continuava a argumentar que não poderia ser um único homem. Tinham de ser várias equipas a operar em simultâneo. O espanhol, contudo, defendia a sua posição. A sua fonte era irrepreensível. Além da fonte, o espanhol tinha conseguido deitar a mão a alguns dos relatórios da polícia, preenchidos após os vários assassinatos. Todos os relatórios apontavam para o facto de ser obra de um só homem. Teria sem dúvida uma rede de apoio e financiamento, mas um só homem era responsável pelas mortes.
A resposta à pergunta de Samir fora igualmente simples. O espanhol disse ao conselho que tinham de preparar uma cilada. Samir fora escusado das sessões seguintes. Só o Conselho Executivo poderia participar na decisão, mas ele já tinha percebido os traços gerais. Precisavam de um alvo de peso para levar o assassino a mostrar-se. Esse alvo de peso estava naquele momento a dormir ao fundo do corredor, três portas adiante. Samir não soubera a identidade do engodo até sete dias antes, quando ele e a sua equipa chegaram a Viena. Durante quatro dias, tinham estado encafuados num quarto de hotel, ligeiramente mais pequeno do que aquele, e depois, naquela quarta manhã, saíram e partiram para França. Todos viajaram sozinhos, de fato e gravata, mas no mesmo comboio. Quando chegaram a Paris, foram recebidos pelo espanhol e por um irmão de confiança que preparara o quarto de hotel com armas e equipamento de vigilância.
O engodo chegara de avião horas depois no mesmo dia e, após um breve almoço no hotel, saíra para ir às compras. Um por um, a intervalos aleatórios, os homens de Samir entraram no hotel e instalaram-se em quartos diferentes, espalhados por vários andares. Ao cair da noite, enquanto o engodo jantava fora com uma prostituta, todos se reuniram no único quarto ao fundo do corredor. Esperavam-nos submetralhadoras com silenciadores. Tanto o espanhol como Samir eram da opinião de que o assassino atacaria à noite. O mais provável era que fosse antes do amanhecer e no quarto de hotel, onde poderia controlar a situação. Samir via a sensatez disso, mas parecia-lhe que a janela de oportunidade era demasiado pequena. Do pôr do sol ao raiar do sol, tinha os homens em alerta total. Durante o dia, dois homens estavam sempre em alerta, só para jogar pelo seguro. Os outros três homens voltavam para os seus quartos, pediam serviço de quartos e dormiam.
Depois de quatro noites em Viena e já três em Paris, Samir via que os homens começavam a duvidar da sensatez daquela operação. A ideia de que se atrevessem a questionar a sua autoridade perturbava-o muito. Ele tinha escolhido cada um daqueles homens pela disciplina, pelas competências e, sobretudo, pela obediência absoluta às suas ordens. Foi-lhes dito desde logo que aquela missão requereria muita paciência. Que provavelmente seriam necessárias várias viagens para que o assassino se mostrasse, mas Samir e o espanhol tinham sido categóricos. O assassino apareceria e, quando o fizesse, eles estariam a postos para atacar.
Ao longo dos últimos dois meses, Samir sentia que tinha ficado a conhecer aquele assassino. Era um homem de nacionalidade desconhecida que se infiltrara na organização deles e começara a matar metodicamente os financiadores, traficantes de armas, soldados rasos e facilitadores que permitiam que a organização e as organizações irmãs se mexessem pela Europa, o Médio Oriente e o Norte de África. Graças ao espanhol, Samir estudara detalhadamente cinco das mortes e tinha a certeza de que compreendia como o assassino pensava. Estava preparado para o enfrentar; só queria que fosse o quanto antes.
Verificou as horas, olhou em redor e abanou a cabeça, indignado. Havia duas camas de solteiro e dois dos seus homens estavam deitados em cima delas, a usar as roupas de ir à rua, com as cabeças encostadas às cabeceiras. Ambos tinham adormecido, com as armas no colo. Um terceiro homem encontrava-se numa cadeira junto à porta, debruçado, com a cara enterrada nas mãos. Samir não via, mas não se admiraria se também estivesse de olhos fechados. O quarto homem, pelo menos, estava atento, sentado em frente aos dois monitores. Estes proporcionavam dois ângulos do quarto ao fundo do corredor. Também estava de auscultadores. Nas primeiras noites, todos se tinham revezado avidamente a escutar e assistir ao líbio anafado a ter sexo com uma prostituta. Ao fim de sete noites, aquilo já não era novidade. Ainda assim, Samir reparou que, apesar da aparente falta de saúde, o líbio era extremamente viril.
Isso fê-lo pensar se seria capaz de fazer o mesmo, e ainda nem tinha trinta anos. Samir não era pio, no que dizia respeito à fé. Era muçulmano, mas deixava as santas prostrações aos mais devotos. Via-se como um soldado encarregado de levar a luta do Islão aos judeus imundos e ao resto do Ocidente decadente. Para passar despercebido, precisava de agir como eles e, se isso implicasse beber o álcool deles e deitar-se com as mulheres deles, pois que assim fosse. Desde que insinuar-se naquela cultura lhe permitisse matá-los em maior número, tinha a certeza de que Alá o compensaria.
Levantou-se e esticou o pescoço para um lado e para o outro. Media cerca de um metro e sessenta e tinha imenso orgulho do seu físico. Não tinha nem um grama de gordura no corpo perfeitamente esculpido. Usava o cabelo asa de corvo a meio entre as orelhas e o pescoço, seguindo a moda muito popular entre os jovens franceses. Havia um espelho por cima da cama e ele deteve-se para estudar o seu reflexo antes de passar o cabelo para trás de cada orelha. Olhou depois para o peito, sob a t-shirt branca e justa, e assentiu com a cabeça, aprovando. Tinha feito milhares de flexões para manter os seus músculos rijos como rochas. Isso fê-lo pensar que seria uma boa ideia que os homens se levantassem e fizessem umas quantas flexões para porem o sangue a fluir. Por acaso, lançou um olhar de relance aos monitores de videovigilância e algo lhe chamou a atenção. Avançou rapidamente para os ecrãs e abanou o homem que estava incumbido de os vigiar.
— Muhammad — murmurou Samir —, viste aquilo?
Ali, no ecrã a preto-e-branco, uma figura nebulosa movia-se pela suíte. Samir sentiu a garganta a constringir-se. O assassino estava ali. Virou-se e bateu nos pés dos homens nas camas. Controlando-se para não gritar, disse-lhes:
— Ele está aqui. Levantem-se, seus idiotas.
Em seguida, agarrou na sua submetralhadora com silenciador e alinhou os homens nas devidas posições, distribuindo chapadas e empurrões conforme necessário. Segundos depois, estavam a postos junto à porta.
Tinha o coração a mil e as expressões de olhos arregalados dos seus homens diziam-lhe que estavam a passar pelo mesmo. Levou a mão à maçaneta da porta e assentiu uma vez com a cabeça antes de a abrir de supetão. Os homens passaram por si exatamente como tinham treinado, saindo para o corredor na direção da suíte à direita. Samir corria atrás do último homem. Lá à frente, ouviu alguém tropeçar e viu Jamir a recuperar o equilíbrio, evitando a queda. Maldisse-se por não os ter acordado antes para que estivessem preparados. Sabia que o assassino atacaria antes do amanhecer. Deveria ter tido os homens a postos. Pelo menos dois deles tinham sido arrancados aos sonhos. Esperava que ao menos se tivessem lembrado de tirar a trava de segurança das armas antes de avançarem. Com um passo tremido, Samir apercebeu-se de que ele próprio se havia esquecido de o fazer.
Abdul era o primeiro da fila e tinha praticado o movimento seguinte. Samir dissera-lhe que não hesitasse.
— Não te preocupes connosco. Manda a porta abaixo e começa a disparar. Nós vamos estar mesmo atrás de ti.
Samir estava agachado ao pé da porta, com o cano fino e preto do silenciador apontado para cima. Tinha o dedo no gatilho e, ao ver Abdul dar um passo atrás para arrombar a porta com um pontapé, sentiu um alto seco na garganta. Engoliu com força e então a fechadura saltou da estrutura e a porta escancarou-se. Samir esperou um segundo e empurrou o irmão para que se juntasse à luta. Ainda no corredor, ouviu o fluxo constante das armas à sua frente a soltarem o seu ataque letal contra o assassino, ao que um sorriso matreiro se abriu no seu rosto. O assassino não poderia ter sobrevivido àquela investida. Depois daquela noite, Samir tornar-se-ia uma lenda entre os seus pares.