Apresentação

Há sete anos participo da construção de um processo de intervenção coletiva dos trabalhadores bancários sobre as questões de saúde relacionadas ao seu trabalho, a partir das Lesões por Esforços Repetitivos (LER), que se tornaram, em curto espaço de tempo, a mais comum das doenças do trabalho.

A transposição de parte dessa experiência coletiva para o papel, sob o formato de tese acadêmica e livro, embora não se constituísse uma finalidade em si, sempre fez parte do projeto original, por acreditarmos, eu e seus proponentes - a então diretoria da Associação dos Funcionários do Banco do Estado de São Paulo (AFUBESP) e as sucessivas diretorias do Sindicato dos Bancários de Campinas e Região (SEEB/Campinas) - ser um dos meios de facilitar um movimento que precisava e continua precisando do envolvimento de outras forças sociais e de foros mais amplos para, ao menos, sustar o crescimento desse grupo de doenças.

Não houve qualquer preocupação prévia com métodos ou modelos de investigação, entendendo-se que ele ou eles deveriam ser gerados a partir da conjuntura e circunstâncias que permitissem a maior aproximação possível com a realidade que se queria conhecer para, se possível, transformar. Diria que todos os textos que nesses anos elaborei sobre adoecimento bancário e LER, inclusive este, independentemente de conteúdos, métodos e formatos, se constituíam em meios para a intervenção coletiva pretendida, quase que subprodutos.

Os trabalhadores bancários, com seu saber, sua capacidade técnica, seu adoecimento no fazer, suas reflexões sobre o trabalho e sua maturidade de cidadãos organizados e solidários, são os artífices desse movimento. Trata-se, afinal, de uma construção eminentemente política com repercussões sociais que podem ser muito profundas e amplas, especificamente no campo da saúde pública, merecendo além do esforço que fazem os próprios trabalhadores, a solidariedade de todos. Só assim ela ganhará dimensões que façam frente às suas determinantes e conseqüências.

Todavia, os que edificam, mesmo com a soberania da prática e em terreno próprio, mas sabidamente acidentado, como estão fazendo os trabalhadores bancários, não prescindem de aportes teóricos e das práticas de outros. É aí que me insiro, como portador de um outro tipo de saber e experiência que presumo útil para fundamentar, aferir, corrigir em tempo e validar em outros foros, o andamento da obra projetada, tendo sempre presente que esta, como toda construção social, é a expressão de um conflito histórico, extraordinariamente dinâmico e não resolvido entre o capital e o trabalho.

De antemão, fique claro que o acompanhamento e aferições da obra inacabada não se circunscrevem ao momento em que torno público este texto. De uma ou outra forma, eles prosseguem e dela fazem parte, tanto quanto suas conseqüências, esperadas ou não. O que faço agora é uma narrativa do seu andamento até aqui, acrescida de reflexões, hipóteses, teses e antíteses, prenhes de subjetividade, que julgo pertinentes e que podem, de algum modo, contribuir para o entendimento das relações entre trabalho e saúde e, mais especificamente, sobre trabalho bancário e LER. É com este preâmbulo e ressalvas que passo a falar da pesquisa e deste livro, em particular.

Nesse meio tempo, tenho me reunido incontáveis vezes e em circunstâncias e de modos vários com os bancários: em seus locais de trabalho, nas suas entidades representativas, em seus encontros e congressos, em cursos de capacitação, seminários, reuniões dos seus núcleos de saúde e de negociação, sempre privilegiando formas interativas para que nossas convivências, percepções e representações, as minhas e as deles, estivessem, tanto quanto possível, mais próximas entre si e da realidade social, de mutabilidade imanente. No decorrer desse período, em que aprendi muito mais do que ensinei, aflorou a necessidade de ter elementos mais substantivos à mão para que eles comprovassem o que uma das formas de seu adoecimento coletivo e crescente revelava: a magnitude do problema LER, até 1992 tido pelas empresas bancárias e, no caso particular, pela administração da instituição mais estudada, como inexistente ou sem importância.

Assim, uma de minhas tarefas estava definida: deveria ajudar a dar visibilidade a esse adoecimento coletivo, conceituar e estabelecer os marcos teóricos da questão LER, selecionar métodos de aferição exeqüíveis, dinâmicos e passíveis de validação científica sobre essa forma de adoecimento, sua relação com o trabalho e conseqüências sociais, pouco importando se os dados com que viria a trabalhar assumiriam forma numérica ou outra linguagem.

Foi e está sendo uma árdua e sofrida experiência a dos adoecidos de LER — em sua maioria ainda vivendo subjetivamente sua dor e perdas, todos amargurados com incompreensões, descasos e discriminações mais ou menos generalizados - transpor um mundo até aqui desconhecido de padecimento individual e preconceitos. Isso vem requerendo uma negociação difícil das vítimas consigo, com seus familiares e circunstantes, com os companheiros de trabalho, com os médicos e instituições que os assistem e até com os dirigentes de suas entidades, no sentido de fazê-los crer da sua dor e incapacidade e, a partir daí, possibilitar a existência de um movimento coeso e competente capaz de viabilizar uma outra negociação mais difícil e necessária com o patronato e com a sociedade distanciada.

Ver-se-á neste texto que à negação inicial da empresa em reconhecer a existência da doença e o problema LER, seguiu-se uma política de ocultação. Mesmo quando no curto espaço de três anos o número de adoecidos cresceu de modo explosivo, a administração continuou negando. Esse comportamento que persiste colocou a necessidade de, passo a passo, coletar informações, organizá-las, estudá-las, dar-lhes formato de provas documentais, divulgando-as da forma mais ampla possível. Era mandatária a socialização dessa realidade fragmentada sobre o adoecimento por LER em uma empresa com 1.700 dependências dispersas pelo estado de São Paulo e em alguns outros.

Foi assim que se conseguiu chegar a um primeiro encontro dos adoecidos de LER do Banco do Estado, realizado em 20 de agosto de 1994 na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, com o comparecimento de 350 deles e três meses depois de um segundo, em 26 de novembro na Faculdade de Medicina da mesma Universidade, com a participação de 150 adoecidos.

Não temos notícias de outros encontros no País que reunissem tantos adoecidos do trabalho de uma mesma doença, com a particularidade de pertencerem a uma única empresa. Pareceu-me revelar que as demandas insatisfeitas desses trabalhadores estavam, afinal, se corporificando e ganhando o pretendido caráter coletivo. Foi no primeiro desses encontros que tivemos a oportunidade de iniciar a aplicação do questionário que instrumentaliza materialmente esse estudo. Passaram-se, pois, dois anos entre o início das discussões e práticas interativas sobre trabalho, saúde e LER (1992), com os trabalhadores bancários, à aplicação do referido questionário junto a esses trabalhadores (1994). Percebe-se como tem sido lento, difícil e cauteloso esse aprendizado, compartilhado por centenas de sujeitos que embora vivam individualmente dolorosa experiência, caminharam e ainda caminham para a compreensão de que além do sofrimento, partilham entre si e com os companheiros não adoecidos muitas outras coisas em comum, e que se faz necessário forjar estratégias para cuidar, ao lado dos aspectos individuais da doença, das outras dimensões coletivas presas ao trabalho e à vida social.

A caminhada não tem tido, e não se esperava que tivesse, a participação ativa de todos, nem a mesma força nos passos, porque 'a tomada de consciência' e o fazer político e coletivo, ainda quando fundamentados no sofrimento, não acontecem assim. Não surpreende que dos 1.223 bancários afinal conhecidos como tendo LER em meados de 1994, apenas metade haja respondido ao questionário proposto para avaliar a situação de sua doença. Ainda assim é uma taxa de resposta expressiva e pouco freqüente em nosso meio.

Retorno tão significativo e a revelação quase unânime da própria identidade parecem indicar a existência de uma necessidade concreta e coletiva e de que essa parcela de trabalhadores, como todo trabalhador, acostumada a dar prioridade às reivindicações de caráter econômico e ao assistencialismo comum, estava se deslocando para reivindicações coletivas e mais diferenciadas no campo da saúde. A proposta trabalhada no cotidiano vinha sendo esta, de convencimento sobre a necessidade desse fazer político e coletivo, tanto mais difícil porque transita de permeio com o sofrimento individual, às vezes, próximo ao desespero e com sufocados sentimentos de perda, medo e ceticismo.

Desde o começo, houve o compromisso de devolver, sempre de forma pública e escrita, especialmente aos adoecidos, os resultados dos nossos achados para que eles refletissem sobre a realidade comum, propusessem e participassem das ações propostas, algumas executadas, outras em andamento, várias barradas, sobretudo aquelas do âmbito interno da empresa.

Os contratempos têm sido muitos, menos nos aspectos teóricos do projeto do que nas ações que pudessem evitar ou minimizar as LER. Vários eram esperados, outros não; alguns restritos à instituição mais de perto estudada, outras no campo mais geral das conjunturas políticas e econômicas do País. Por isso, fica difícil, e talvez impossível, demarcar os limites entre a responsabilidade da empresa e a do Estado com uma tendência neoliberal mais forte nesta década, como testemunham a reformulação bancária em curso e a intervenção do Banco Central no BANESPA, iniciada em dezembro de 1994 e que se arrasta até hoje.

Muito do que escrevi e refleti sobre LER nesse período é público e chegou primeiro ao conhecimento dos bancários, especialmente dos trabalhadores desse banco. Mas o escrito de agora, se outra originalidade não tiver, revela modos de fazer, de perquirir, de juntar indícios, entender os sinais, alguns aparentes, outros não tanto, permitindo saídas para caminhar investigando, fazendo e tentando mudar. Um caminhar cheio de ziguezagues, de idas e vindas, nunca definitivo, mas que tem progredido.

Faço a introdução discutindo A violência explícita do trabalho que caracteriza os dois ciclos anteriores de desenvolvimento e crise do capitalismo, procurando mostrar como a violência das relações sociais se projeta no trabalho e recorta como sombra a morbi-mortalidade da classe trabalhadora. Uma violência bruta e visível que resultou e ainda resulta em doenças e em um número incontável de mortes, muitas em acidentes catastróficos.

Em seguida discorro sobre o que chamo de A violência oculta, modos de adoecer e morrer do trabalho no ciclo atual do capitalismo, uma violência abrandada, mais sutil, oculta e ocultada, tomando como exemplo os bancos, o trabalho e a categoria bancária.

Teço breve histórico sobre a evolução das atividades bancárias no Brasil, a partir do início do século XI X e, em particular, do Banco do Estado de São Paulo (BANESPA), criado em 1926, quando o governo do estado assume o controle acionário do Banque de Credit Hipotecaire et Agricole de São Paulo. Mostro como esse banco, acompanhando o segundo ciclo de desenvolvimento do capitalismo no País, após 1930, cresce extraordinariamente em todos os sentidos, inclusive em número de trabalhadores, que passa de duas dezenas para os 35 mil do início da década atual e discorro sobre o conteúdo do trabalho bancário.

Aponto, em seguida, os modos de adoecer e morrer dos bancários, detendo-me mais especificamente sobre as lesões das partes moles e superiores do aparelho locomotor atribuídas ao trabalho (LER). Trata-se de um modo de adoecimento coletivo de tendência crescente, cuja causalidade do trabalho, apesar de menos direta e menos aparente e dramática, tem sido reconhecida em todo o mundo, a partir do final da década de 50. Afirmo, aí, ser as LER uma doença emblemática do novo ciclo de desenvolvimento e crise do capitalismo, iniciado nos países centrais nos anos subseqüentes à Segunda Grande Guerra e acelerado nos anos 70, cuja característica mais visível e comentada é a tecnologia da automação eletroeletrônica. Adianto que não tomo as tecnologias como determinantes de qualquer adoecimento em si, mas como um dos seus componentes em decorrência de sua apropriação gananciosa e de sua incorporação e uso só adequados para o capital.

Descrevo, após, o caso das LER no BANESPA, em seu aspecto quantitativo, fundamentado em um questionário com 147 variáveis respondidos por 525 adoecidos, no qual analiso as várias características da amostra como estado civil, gênero, escolaridade, 'tempo de sujeição', hierarquia, função, subnotificação de casos, tempo de demora e freqüências de diagnóstico, localização das lesões, exames complementares, terapias, estado da doença, sofrimento psíquico, tempo de afastamento e incapacidade de trabalho etc.

Em seguida, procedo à análise e transcrevo, quase literalmente, apenas ordenando tematicamente, a 'fala dos adoecidos'. São 346 depoimentos espontâneos, acrescentados como 'observações' aos próprios questionários respondidos. A opção por assim produzir foi mais do que metodológica: havia o compromisso de fazer ecoar as suas queixas e nada melhor, pareceu-me, do que proceder dessa maneira, dando, ao mesmo tempo, a oportunidade de quem as 'ouvisse' as analisasse a seu modo.

Por último, discuto as formas de insubmissão e resistências individuais, grupais e os movimentos histórico-sociais dos trabalhadores em defesa de sua saúde e de sua capacidade de trabalho, detendo-me, no final, na discussão sobre o movimento social das LER e suas perspectivas.

Meus sinceros agradecimentos à Associação dos Funcionários do Conglomerado do Banco do Estado de São Paulo e da Caixa de Assistência e Beneficência do Banco do Estado de São Paulo (AFUBESP), em especial ao seu então presidente, Antonio de Pádua Chagas (1992-1996). Foi a preocupação com a saúde dos seus representados que fez surgir nesse banco o movimento sobre as Lesões por Esforços Repetitivos, originando, assim, esta investigação.

Ao Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Campinas e Região, nas pessoas dos seus sucessivos presidentes André Von Zubhen, Davi Zaia e Afonso Lopes da Silva, pela posição de vanguarda desse sindicato no campo da saúde e o consistente trabalho em torno das LER.

Ao médico e caixa de banco, Leandro Antonio Konig, diretor da área de saúde da AFUBESP (1992-1996), a quem devo colaboração insubstituível em fases deste estudo.

Aos professores Arnaldo Augusto Franco de Siqueira e Jair Lício Ferreria Santos, respectivamente ex-diretor e diretor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo que compreendendo, desde o primeiro momento, as Lesões por Esforços Repetitivos como uma questão maior de saúde pública, abriram as portas dessa casa.

Aos professores Jorge da Rocha Gomes e João Vicente Assunção, respectivamente ex-chefe e chefe do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, pelo apoio ao estudo das questões aqui abordadas.

À psicóloga Paula G. Galeano, secretária-executiva do Programa para a Prevenção, Detecção, Diagnóstico e Tratamento Precoces das Lesões por Esforços Repetitivos na Categoria Bancária, por ensinar-me a lidar melhor e, afinal, chegar a ter simpatia por um dos vilões desta história, o computador.

À Anna Maria Stokinger, auxiliar de secretaria deste projeto, pela permanente disponibilidade e colaboração.

A bibliotecária Cecília Michiko Itani Forti, já falecida, então diretora de Divisão do Centro de Apoio ao Desenvolvimento de Assistência Integral à Saúde da Secretaria do Estado de São Paulo, por sua colaboração pessoal e amiga.

E, finalmente, aos professores Maria Cecília de Souza Minayo, Jorge Rocha Gomes, Diogo Pupo Nogueira, Amélia Cohn e Everardo Duarte Nunes, que constituíram a banca examinadora da tese que deu origem a este livro e que, na ocasião, sugeriram sua publicação.