16

— O segundo dia de qualquer operação de vigilância é sempre o pior — disse Jackie.

— Porquê? — perguntou William, mantendo os binóculos assestados na entrada do porto.

— No primeiro dia, é fácil manter a concentração, mas no segundo a adrenalina da perseguição e a expectativa começam a desaparecer.

— E no terceiro?

— Instala-se o tédio. As pálpebras tornam-se cada vez mais pesadas e temos de esforçar-nos para nos mantermos acordados. Mas pelo menos sempre é melhor do que ter de ouvir as tuas histórias enfadonhas, capazes de adormecer alguém que sofra de insónias. Aposto que a Beth não precisa de contar carneirinhos à noite.

— Pelo menos, desta vez sabemos exatamente aquilo que procuramos — disse William, ignorando a provocação. — Ao contrário da tua viagem a Guildford à procura de um Picasso roubado que afinal não existia.

— Nem me lembres isso — disse Jackie. — Desta vez, o capitão do porto não podia ter sido mais solícito. Só há dois ferries para veículos que chegam hoje de Zeebrugge, ambos da Townsend Thoresen, e, como estamos à procura de um carro com uma rulote atrelada, não será difícil de identificar, embora tenhamos de verificar na mesma a placa de matrícula de todos os carros, só para prevenir.

— Para onde foram as três rulotes que avistámos ontem?

— Uma foi para um parque de rulotes, em New Forest, onde o proprietário reside. A segunda vai a caminho da Escócia e, segundo o sistema informático da polícia, a terceira pertence ao reverendo Nigel Oakshot da paróquia de Sandhurst, no Berkshire. Decidimos dar-lhe o benefício da dúvida.

William riu-se.

— E hoje? Quando é que chega o primeiro ferry?

— O Anthi Marina deve chegar por volta das onze e vinte e descarregar no terminal um ou dois. Só nos aproximamos da doca quando o virmos. Não queremos ser detetados por um dos agentes aduaneiros que a brigada anticorrupção tem sob vigilância. O que estás a ler? — perguntou ela, olhando para o livro que William tinha no colo e perguntando a si mesma se ele teria ouvido uma palavra do que ela tinha dito.

— A história das docas de Felixstowe.

— Aposto que é uma leitura apaixonante…

— Sabias que o terreno circundante é propriedade do Trinity College, em Cambridge, e um dos seus bens mais valiosos?

— Fascinante.

— O tesoureiro da universidade na altura, um tal Tressilian Nicholas, comprou seiscentos hectares de terreno em nome do Trinity College, em 1933, que incluíam uma estrada que levava às docas então abandonadas. O seu sucessor, um tal Bradfield, percebeu o seu potencial e agora é o maior porto da Grã-Bretanha e rende uma pequena fortuna à universidade.

— Mal posso esperar para ouvir o final da história — disse Jackie.

— Lorde Butler.

— Quem é esse?

— Um antigo ministro e professor do Trinity — replicou William, que começou a ler diretamente do livro. — «Butler perguntou a Bradfield numa reunião sobre questões financeiras se ele tinha a noção de que a universidade possuía uma mina de estanho na Cornualha que não apresentava lucro desde 1546, ao que o tesoureiro redarguiu, numa frase que ficou famosa: “O professor há de descobrir que, nesta universidade, olhamos para as coisas a longo prazo.”»

— Eu também estou a olhar a longo prazo — disse Jackie, ao avistar o Anthi Marina no horizonte. — Se nos guiarmos pelo dia de ontem, deve chegar mais ou menos dentro de quarenta minutos. É melhor irmos andando se quisermos garantir o nosso ponto de vigia preferido.

William apertou o cinto de segurança enquanto Jackie punha o motor a trabalhar e descia lentamente pela Bath Hill em direção às docas. Estacionou no mesmo lugar onde tinham passado tantas horas infrutíferas no dia anterior. Pelo menos, o último ferry chegara pouco depois das dez, permitindo-lhes registarem-se numa pensão manhosa em frente ao mar antes da meia-noite. O proprietário parecera surpreendido quando reservaram quartos separados.

Depois de Jackie ter estacionado o carro num sítio bem escondido, deixaram-se ficar os dois ali sentados em silêncio, enquanto viam o barco avançar lentamente em direção ao porto.

Não tiveram de esperar muito tempo até o primeiro veículo aparecer na doca. Jackie, de binóculos na mão, ia lendo em voz alta cada matrícula a Paul, que tinha ficado a aguardar pacientemente na cave da Scotland Yard. William, sendo um homem prevenido, também as anotou no seu bloco de notas. Quando o último carro passou pela alfândega, nem sinal de qualquer rulote. Jackie baixou os binóculos e perguntou:

— A que horas chega o próximo ferry?

— Duas e cinquenta — disse William, percorrendo o horário com o dedo. — O Saxon Prince.

— Temos tempo mais do que suficiente para almoçar. Filetes de peixe com batatas fritas?

— Outra vez, não. Isso foi o que comemos ontem.

— E voltaremos a comer amanhã, se levar a minha avante — disse Jackie. — Regra de ouro. Quando estás preso num porto a fazer vigilância, come sempre o pescado local. É muito mais fresco do que o fricassé de bacalhau que servem no Ritz. E devias saber disso, já que vais lá muitas vezes.

— Só lá fui duas vezes — disse William. — Mas e se ficarmos aqui presos o resto da semana?

— Aceito um kebab — replicou Jackie, virando o carro e dirigindo-se para o estabelecimento que lhe fora recomendado pelo agente de plantão na polícia local.

— É sempre um bom sinal — disse Jackie ao estacionar, para depois se juntarem à enorme fila que esperava à porta da loja.

O inspetor estagiário Adaja passou a hora de almoço a verificar no sistema informático da polícia todas as matrículas que Jackie lhe fornecera. Algumas multas de estacionamento, outras por excesso de velocidade, um crime de condução sob o efeito do álcool e uma mulher apanhada a passar um sinal vermelho, que foi multada em vinte libras e teve uma penalização de dois pontos na carta de condução. Quando Paul entrou em contacto via rádio para comunicar os resultados a Jackie, ela deitou mais vinagre no bacalhau e disse:

— Mas que malcomportada!

Depois de terminarem o almoço — comido de uma folha de jornal enquanto caminhavam pela marginal —, Jackie e William regressaram à sua posição estratégica no topo da falésia.

Depois de estarem a contemplar o mar em silêncio durante meia hora, Jackie desembainhou a espada uma segunda vez.

— Ainda tens esperança de chegar a inspetor-chefe? — perguntou.

— Porque é que me perguntas isso se já sabes a resposta?

— Porque só há dois tipos de inspetores na Polícia Metropolitana e é óbvio que te enquadras na segunda categoria, naqueles que esperam ser promovidos.

— E qual é a primeira?

— A maior das duas, de longe — disse Jackie. — Ratos velhos, que perceberam que se forem promovidos a inspetor-chefe deixam de poder meter horas extra. É por isso que a Polícia Metropolitana tem tantos inspetores entre os quarenta e os cinquenta anos. Muitos deles ganham muito mais do que os seus superiores e, ao mesmo tempo, provocam um bloqueio que impede outros colegas como eu de subirem na hierarquia. A verdade é que é mais fácil ser promovido a inspetor-chefe do que a inspetor.

Era a primeira vez que William ouvia Jackie a falar com azedume sobre alguma coisa.

— Se pusermos o Rashidi atrás das grades — disse ele —, tenho a certeza de que não será preciso muito tempo para voltares a coser as três listas no teu uniforme.

Mas arrependeu-se imediatamente das suas palavras, pois só serviriam para lembrar a Jackie que ele tinha sido nomeado inspetor na sequência da sua despromoção.

— Bem — disse ela —, por acaso tenho de admitir que o pagamento das horas extraordinárias me tem permitido desfrutar de alguns dos pequenos luxos da vida. Embora às vezes me pergunte se as pessoas terão noção da quantidade de agentes que há por aí sentados em carrinhas estacionadas em ruelas, para o caso de uma marcha de protesto se tornar incontrolável.

— É um preço que vale a pena pagar — replicou William. — Caso não tenhas reparado, a polícia antimotim russa não fica propriamente sentada em carrinhas se as pessoas pensarem sequer em protestar.

— Por falar nisso, menino de coro, vou ver se durmo uma soneca. Acorda-me quando chegar o próximo barco.

Jackie recostou-se no banco, fechou os olhos e adormeceu em poucos minutos. William gostava de poder fazer o mesmo, mas a sua mente recusava-se a descansar, mesmo à noite. Olhou para o mar cinzento e deserto e pensou em Beth. Caramba, tinha tido muita sorte, e não faltava muito para serem uma família de três pessoas. Mais uma razão para esperar que a promoção de que Jackie falara não estivesse muito distante. Pensou no que significava ser pai. Se fosse um rapaz, poderia ser o lançador de críquete pela Inglaterra, ao passo que a filha poderia ser a primeira mulher diretora da National Gallery.

Entretanto, os seus pensamentos focaram-se em Miles Faulkner, cujo julgamento começaria na semana seguinte no tribunal de Old Bailey. Havia tanta coisa que dependia do testemunho de Adrian Heath… William tinha gostado de saber pela irmã que Booth Watson telefonara para o escritório de Sir Julian no início da semana, a propor uma confissão de culpa para a acusação menos grave de posse, desde que a Coroa deixasse cair o crime de intenção de fornecer. Não ficou surpreendido quando Grace lhe disse que o pai tinha recusado delicadamente a proposta. A seguir, pensou em Assem Rashidi. Naquela segunda-feira, depois de ter saído ao meio-dia da Marcel & Neffe, Rashidi tinha apanhado o metro para Stockwell e depois mudado para a Linha Vitória que acabava em Brixton, onde o inspetor estagiário Adaja estava à espera dele. Paul não fizera qualquer tentativa de o seguir quando ele saíra da estação, tendo regressado à Scotland Yard no metro seguinte. Quando Lamont exigiu saber porquê, Paul explicou que Rashidi tinha sido recebido no exterior da estação por meia dúzia de capangas que estavam sempre a olhar em todas as direções, para se assegurarem que ninguém o seguia. Pelo menos, já sabiam onde devia ficar o matadouro de Rashidi, mas não estavam mais perto de o localizar naquela que era praticamente uma zona interdita, embora a polícia nunca fosse admitir isso. Talvez o agente infiltrado de Jackie conseguisse finalmente resolver esse problema.

Depois, William pensou em Lamont, em cujo comprimento de onda ainda não conseguira entrar. O superintendente não se dava ao trabalho de disfarçar o facto de continuar a vê-lo como um menino de coro, e a Paul como um imigrante. E, por fim, pensou em Hawk, que pairava acima de todos eles.

William voltou ao mundo real quando avistou um ponto no horizonte. Esperou até conseguir distinguir o nome Saxon Prince na proa e depois acordou Jackie. Ela despertou por completo em poucos instantes, como se nunca tivesse adormecido, outra coisa que ele gostaria de conseguir fazer.

— O Saxon Prince está a entrar no porto — disse ele.

— Que venha neste, por favor — murmurou Jackie em jeito de lamento, ligando o motor do carro.

Voltaram a descer a Bath Hill e regressaram ao seu ponto de vigilância favorito, que lhes proporcionava uma visão perfeita do barco a entrar no porto, sem dar muito nas vistas. Não demorou muito tempo até o primeiro veículo descer a rampa.

Com os binóculos apontados aos carros à medida que estes se dirigiam para a alfândega, Jackie ia transmitindo uma vez mais as matrículas a Paul, na Scotland Yard.

De repente, exclamou numa voz muito mais animada:

— Não posso crer! Passa o rádio ao chefe, Paul, depressa!

Entregou os binóculos a William, que focou a sua atenção num Volvo que avançava lentamente pelo cais. Tinha agora a resposta para a pergunta que ficara por responder e perguntou a si mesmo como iria Lamont reagir. Devolveu os binóculos a Jackie.

A próxima voz que ouviram através do rádio disse rispidamente:

— Qual é o problema, Jackie?

— Um Volvo com uma rulote a reboque acabou de sair do ferry e dirige-se para a alfândega.

— E? — disse Lamont com alguma impaciência.

— Não vai acreditar nisto, mas é o HM que está sentado ao volante e o Tulip vem ao lado dele, no lugar do passageiro.

— Onde estão eles agora?

— Na fila, à espera para passar pela alfândega. E, uma vez que sou eu a agente de ligação, não sei bem o que devo fazer a seguir.

— Esperem. Não os percam de vista enquanto troco impressões com o comandante.

O rádio encriptado ficou calado durante tanto tempo que, se não fosse o crepitar ocasional, Jackie teria pensado que perdera o contacto. Por fim, ouviram a voz inconfundível de Hawk. Simples e objetivo.

— Tem a certeza, inspetora estagiária Roycroft?

— Sim, senhor — disse ela com firmeza, de binóculos ainda apontados ao Volvo.

— Ainda estão na fila?

— Não, senhor. Um agente aduaneiro está a verificar o carro e outro está a conversar com o Tulip. Agora, estão a sorrir e a mandar segui-los. — Fez uma curta pausa. — Mais dois minutos e vamos perdê-los — disse, esforçando-se por não carregar no acelerador.

— Fique quieta, inspetora estagiária Roycroft — disse Hawk. — Não podemos dar-nos ao luxo de pôr em perigo um agente infiltrado, e se o produto vai ser entregue no matadouro do Rashidi, algures em Brixton, isso pode ajudar-nos a encaixar uma das últimas peças do puzzle. Repito, fique quieta.

William arrebanhou o rádio da mão de Jackie.

— E se o seu agente infiltrado mudou de lado, comandante? Nesse caso, ficaremos sem saber a localização da fábrica e teremos perdido dez quilos de cocaína e a hipótese de pôr o Tulip fora de combate.

— Isso não é possível! — exclamou Jackie, quase a gritar. — O Ross nunca mudaria de lado — acrescentou, violando uma regra fundamental.

— Talvez o seu agente infiltrado esteja apenas a contar-nos metade da história — disse William calmamente. — Como o senhor está sempre a lembrar-nos, estes cartéis de droga movimentam muito dinheiro, o que deve ser uma tentação até mesmo para o agente mais escrupuloso.

Isto silenciou Jackie, quanto mais não fosse porque nunca tinha ouvido ninguém falar ao comandante daquela maneira.

— Tem toda a razão, inspetor Warwick — disse o comandante num tom igualmente calmo. — Como sou eu e a inspetora estagiária Roycroft que estamos a trabalhar com este agente infiltrado, é possível que estejamos demasiado envolvidos. Por isso, Bruce, a decisão final é sua.

Lamont voltou à linha de imediato:

— Não conheço o agente pessoalmente, comandante, mas ele nunca o dececionou no passado. Portanto, não vejo razões para acreditar que tenha mudado subitamente de lado. De qualquer forma, se eles avançassem, podíamos estar a pôr a vida dele em perigo. O meu conselho seria dar ordem de retirada ao inspetor Warwick e à inspetora estagiária Roycroft. E há mais uma coisa a ter em consideração. Não ia ajudar nada os nossos colegas, caso sejam esses dois agentes aduaneiros que eles têm sob vigilância.

— Bem visto. Mais uma razão para ambos regressarem imediatamente à Scotland Yard.

— Sim, senhor — disse William, parecendo pouco convencido.

Ele e Jackie ficaram a ver o Volvo entrar na estrada principal e desaparecer de vista.

— Obrigado, Bruce — disse o comandante, desligando o rádio e terminando o contacto com Felixstowe.

Depois de regressar ao gabinete, Hawksby pegou no telefone que tinha na secretária e disse:

— Angela, tem um maço de Marlboro vazio à mão?

— Sim, senhor.

— Pode trazer-mo?

Angela tirou um maço de uma gaveta, levou-o para o gabinete do chefe e deixou-o em cima da secretária sem que trocassem uma palavra.

Passados vinte minutos, o comandante pegou novamente no telefone.

— Angela, se alguém ligar, vou estar ausente durante cerca de trinta minutos.

Voltou a pôr o papel de prata no maço de cigarros vazio antes de o guardar num bolso interior. A seguir, apanhou o elevador para o rés do chão e caminhou em direção à Catedral de Westminster.