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Hanio voltou ao hospital, juntou rapidamente as suas coisas e saiu. Assegurando-se de que ninguém o seguia, regressou ao apartamento e começou de imediato a pôr tudo em caixas.

— Então, vai finalmente deixar-nos? E logo agora que parece já restabelecido? Bom, tenho pena que se vá embora. Lamento, mas não posso devolver o dinheiro que já pagou relativamente às rendas dos próximos seis meses — disse o porteiro.

— Pode ficar com ele — retorquiu Hanio.

— Para quem é ainda jovem, não há dúvida de que anda a sair-se bem na vida… — comentou o porteiro com cara de inveja. Parecia estar a saborear pedaços de comida que ainda se encontravam num qualquer sítio dentro da boca, como se fosse uma vaca a ruminar.

Não havia muito para empacotar. Hanio tinha poucos livros que quisesse levar consigo e costumava deitar fora as roupas de que já estava farto, pelo que era apenas preciso desmontar a mobília e meter o resto em três caixas grandes de cartão. Encontrou o rato de brincar com quem em tempos tentara partilhar o jantar e lançou-o para dentro de um deles.

A pequena carrinha da empresa de mudanças que tinha contratado já aguardava em frente ao apartamento. O condutor contemplava despreocupadamente uma frágil cerejeira junto à porta de uma casa do outro lado da rua. Era a época de as cerejeiras estarem em flor, mas esta não devia ter mais do que uns dez botões abertos. Como o condutor não parecia disponível para dar uma ajuda, Hanio foi trazendo a mobília para baixo sozinho, a pouco e pouco. Talvez por não estar ainda fisicamente a cem por cento, ou porque as cenouras lhe tivessem caído mal, a verdade é que após ter transportado apenas duas cadeiras ficou alagado em suor. O porteiro, metido lá dentro em qualquer sítio, também não apareceu para dar uma ajuda.

Enquanto se esforçava para descer as escadas com a mesa apoiada num só ombro, sentiu que o peso desaparecera como por milagre e, olhando para cima, viu, surpreendido, que o mais velho dos dois homens que o tinham acompanhado lhe tinha pegado.

— Deixe-me ajudá-lo. Você ainda está em fase de recuperação.

Logo a seguir, Hanio viu o outro homem pular rapidamente os degraus da escada dois a dois.

— Quer que leve estas caixas lá para baixo? — perguntou ele.

Não demorou muito a que tudo fosse carregado na carrinha.

— Muito obrigado — disse Hanio. — Mas eu tinha-vos pedido para não me seguirem.

— Nós não andamos a segui-lo — disse o primeiro homem. — Achámos apenas que tínhamos a obrigação de fazer alguma coisa por si. A nossa experiência diz que as pessoas que nos tratam bem acabam por desaparecer sem deixarem rasto. É uma coisa que se compreende perfeitamente. Tem a nossa palavra de que o vamos deixar em paz a partir de agora, mas, se precisar de alguma coisa da nossa parte, ligue-nos a qualquer hora. Pomo-nos onde precisar num instante.

— Suponho que andam sempre armados para o caso de ser necessário…

— Claro — disse o homem espontaneamente, ao mesmo tempo que lhe estendia o cartão de visita com uma expressão de genuína honestidade no rosto. No cartão constava o nome, Makoto Uchiyama, uma morada e um número de telefone, mas nenhuma indicação de profissão.

— Para onde se vai mudar? — perguntou ele, manifestando amavelmente o seu interesse em saber.

— Não tenho resposta para essa pergunta. Nem eu próprio sei — respondeu Hanio, olhando para trás de si enquanto subia para o lugar ao lado do condutor. A carrinha arrancou lentamente, quase contra vontade, deixando para trás os dois homens, que ficaram a acenar debaixo da cerejeira.

— Para onde? — perguntou normalmente o condutor.

— Setagaya — respondeu Hanio, mencionando o primeiro nome que lhe veio à cabeça.

A verdade é que não tinha qualquer destino em vista. Levava dois cheques no bolso, um de dois milhões de ienes e outro de duzentos mil. Enquanto ia olhando as ruas envoltas em pó e pólen, fez as contas, pela primeira vez, ao dinheiro que ganhara desde que começou o seu negócio: cem mil do velho, o seu primeiro cliente; quinhentos mil do incidente que acabou com a mulher a suicidar-se; duzentos e trinta mil do filho da vampira; dois milhões e duzentos mil do último caso.

Tinha ganho em muito pouco tempo um total de três milhões e trinta mil ienes, o que equivalia a cerca de um milhão por mês. Estava longe de ser um mau negócio. O rendimento era dez vezes superior ao que recebia como redator publicitário. Tinha usado algum dinheiro na renda do apartamento, mas o que ficou garantia-lhe uma vida de certo luxo durante bastante tempo. É claro que um cantor popular ou uma estrela de cinema ganham muito mais, mas, por outro lado, têm também muito mais despesas e não têm possibilidade de levar uma vida tão descontraída como a sua. Recebia imensa atenção das outras pessoas com o mínimo esforço da sua parte, e até tinha experimentado o prazer de uma vampira lhe sugar o sangue.

Pareceu-lhe que seria o momento ideal para fazer uma pausa no negócio de vender a sua vida. Porque não experimentar uma vida despreocupada e luxuosa durante algum tempo, nesta zona da cidade? Se chegasse à conclusão de que lhe era agradável viver dia após dia sem qualquer objetivo concreto, continuaria a viver dessa maneira. Se viesse depois a pensar que era preferível morrer, tinha sempre a opção de reabrir o seu negócio.

Sentia-se senhor da sua liberdade individual e compreendia cada vez menos os motivos pelos quais as pessoas se casam e ficam depois presas umas às outras a vida inteira, ou se satisfazem como funcionários de empresas onde têm de trabalhar sempre sob as ordens de alguém até à reforma. O melhor era gastar aquele dinheiro todo. E, quando acabasse, podia sempre optar pelo suicídio.

Suicídio…

Quando a palavra lhe surgiu, sentiu-se dominado por uma espécie de náusea psicológica. «Seja qual for a posição que se tenha acerca disso», pensou Hanio, «matarmo-nos porque tivemos um contratempo é uma desproporção que exige um esforço enorme.» Mas se conseguimos finalmente ter o tempo que procurávamos e falhamos, perderemos até a vontade de mexer um braço para ir buscar o cigarro que está ao nosso alcance. Queremos fumar, isso é certo, mas o cigarro parece estar a uma grande distância. Sentimos que é preciso fazer um esforço acima do normal para o gesto simples de nos levantarmos e estendermos a mão para o maço de cigarros, tal como acontece quando temos de empurrar um carro que empanou. E isso é uma outra forma de suicídio.

— Para que zona de Setagaya? — perguntou o condutor ao passar pela Sétima Circular de Tóquio.

— Ora, deixe-me cá ver. Olhe, leve-me a um desses sítios onde há imobiliárias e agências de emprego.

— Quer dizer que ainda não decidiu para onde se vai mudar?

— Realmente, ainda não.

— Incrível — disse o condutor, que, apesar de pronunciar essa palavra, não parecia surpreendido.

Hanio reparou numa imobiliária à esquina do cruzamento com a rua que levava à estação de Umegaoka. Tinha as janelas cheias de anúncios com quartos e casas para alugar.

— Pare ali, se não se importa. Acho que pode estacionar mesmo em frente.

O condutor emitiu uma espécie de grunhido surdo como resposta.

Hanio abriu com firmeza a porta deslizante e a agente imobiliária, uma mulher à volta dos cinquenta anos, roliça e de pele clara, cumprimentou-o. Estava sentada à secretária a folhear uns papéis. No canto da sala havia um modesto sofá almofadado, algumas cadeiras e uma floreira com pequenas rosas artificiais. Na parede estava colado um mapa da zona.

— Procuro um quarto para alugar — disse Hanio. — Ou talvez o anexo de uma casa ou coisa parecida, de modo a poder entrar e sair à vontade sem incomodar ninguém. Se possível, com refeições incluídas. Tem alguma coisa?

— Deixe-me ver. De momento, não me estou a lembrar de nada — disse a mulher. — Mas está disposto a pagar quanto, aproximadamente?

— Cinquenta mil por mês, ou talvez um pouco mais. É claro que as refeições seriam consideradas à parte.

— Um momento, por favor.

Enquanto consultava os ficheiros, a porta de vidro abriu-se novamente e entrou uma mulher jovem, de calças. Quando a viu, a empregada da agência imobiliária fez uma careta que mostrou bem o seu desagrado.