capítulo 1
JOE ESTAVA SENDO ENTERRADO três dias após ter sido morto.
Maya usava uma roupa preta, tal como condizia às viúvas enlutadas. Sob o sol inclemente, por vezes sentia-se de volta ao deserto em que havia passado tantos meses. Nem sequer ouvia os clichês proferidos pelo pastor da família. Olhava vagamente para a escola do outro lado da rua.
Sim, o cemitério ficava em frente a uma escola de ensino fundamental.
Maya já tinha passado por ali inúmeras vezes, os túmulos à esquerda, o pátio escolar à direita, mas nunca havia atentado para a bizarrice, ou obscenidade, daquela proximidade. Agora se perguntava: quem teria chegado primeiro, a escola ou o cemitério? Quem teria tido a brilhante ideia de construir uma escola primária, ponto de partida de tantas vidas inocentes, em frente a um cemitério, ponto de chegada de outras tantas não tão inocentes assim? Ou teria sido o contrário? Teria mesmo alguma importância a justaposição daqueles dois universos antagônicos? Talvez houvesse alguma sabedoria nisso. A morte andava sempre tão perto, a um suspiro de distância, que talvez fosse mesmo uma boa ideia apresentar o conceito desde cedo aos pequenos.
Era em bobagens assim que Maya pensava enquanto o caixão de Joe descia para a cova. Distrair a cabeça. Esse era o único remédio para atravessar tamanho suplício.
O vestido preto pinicava. Ao longo dos últimos dez anos ela havia comparecido a mais de cem enterros, mas essa era a primeira vez que se vestia inteiramente de preto. Não estava gostando nem um pouco da experiência.
À sua direita estava a família de Joe: a mãe, Judith, o irmão Neil, a irmã Caroline, todos exaustos de calor e tristeza. À esquerda, já começando a ficar inquieta, pendurando-se em seu braço como se este fosse um balanço, estava Lily, sua filhinha de 2 anos, agora órfã de pai. Filhos não vinham com manual de instruções, era o que diziam todos os blogs para pais de primeira viagem. Nada mais verdadeiro naquelas circunstâncias. O que mandava a etiqueta numa situação dessas? Deixar sua filha de 2 anos em casa ou levá-la para o enterro do próprio pai? Não havia uma linha sequer sobre isso em nenhum dos tais blogs que se anunciavam como poços de sabedoria, sempre com uma resposta para tudo. Maya ficara muito tentada a postar sua pergunta online: “Oi, pessoal! Meu marido foi assassinado recentemente. E aí, o que eu faço? Levo minha filhinha de 2 anos pro cemitério ou a deixo em casa? E que roupa ela deve usar? Alguma dica? Valeu!”
Havia centenas de pessoas no enterro, e, num canto mais obscuro de seu cérebro, Maya constatou que isso teria agradado a seu falecido marido. Joe gostava de gente. Mas, claro, nem todos os que estavam ali eram parentes ou amigos. Muitos eram daqueles que não deixavam passar a oportunidade de ver uma tragédia de perto, o enterro de um homem ainda jovem executado à queima-roupa, sobretudo quando esse homem era um dos herdeiros da poderosa família Burkett, casado com uma mulher envolvida num escândalo de repercussão internacional.
Lily agora se enroscava nas pernas da mãe.
– Daqui a pouco a gente vai pra casa, ok? – disse Maya, curvando-se para sussurrar no ouvido dela.
Lily assentiu, mas continuou onde estava, fazendo o mesmo de antes. Maya voltou à postura ereta de ex-militar e ajeitou o vestido emprestado por Eileen. Joe não teria gostado de vê-la em trajes de viúva. Tinha uma predileção toda especial pelos uniformes de gala que ela costumava usar quando era Maya Stern, capitã do Exército americano. Eles haviam se conhecido num evento filantrópico organizado pela família Burkett, ele de smoking e ela de farda, e na festa ele a havia abordado com seu sorriso de playboy, dizendo: “Pensei que o fetiche fosse apenas com homens de uniforme.” Uma cantada barata o bastante para fazê-la rir e baixar a guarda.
Puxa, como Joe estava bonito naquele dia. Mesmo ali, com o cadáver dele a poucos metros de distância, com a umidade que não dava trégua, ela não pôde deixar de abrir um sorriso ao relembrar aquele primeiro encontro. Em um ano eles já estavam casados. Lily viria pouco depois. E agora, como se alguém tivesse adiantado o filme de sua vida conjugal, lá estava ela, enterrando o marido, pai de sua única filha.
Anos antes seu próprio pai dissera: “Todas as histórias de amor terminam em tragédia.” Na época ela não havia concordado, achando aquilo um pessimismo exacerbado, mas ele havia insistido: “Pense bem. Ou o amor acaba ou, no caso dos que têm mais sorte, um dos dois vive o bastante pra ver o outro morrer.”
Maya ainda podia vê-lo sentado à mesa de fórmica encardida no sobrado em que eles moravam no Brooklyn, vestindo seu cardigã de professor universitário (todas as profissões têm um traje característico), corrigindo trabalhos dos seus muitos alunos. Ele e a mãe já tinham morrido fazia tempo, num intervalo de apenas alguns meses entre um e outro, mas Maya ainda não sabia ao certo em que categoria de tragédia arquivar a história de amor dos dois.
Enquanto o pastor prosseguia com a cerimônia, Judith Burkett, mãe de Joe, aproximou-se de Maya e tomou a mão da nora num gesto pesaroso.
– Isto é muito pior – foi só o que disse.
Maya não precisou perguntar nada. Sabia do que a sogra estava falando. Aquele era o segundo dos seus três filhos homens que a mulher enterrava: o primeiro, vítima de um acidente trágico; o outro, agora, assassinado. Baixando os olhos para Lily, ainda agarrada à sua perna, Maya ficou se perguntando como era possível para uma mãe conviver com tamanha dor.
Como se pudesse ler pensamentos, Judith balbuciou:
– A ferida não cicatriza nunca. Nunca.
As palavras tiveram sobre Maya o efeito cortante de uma foice.
– A culpa foi minha – disse ela. – Se eu tivesse...
– Não havia nada que você pudesse fazer – interrompeu Judith.
No entanto, pelo tom de voz Maya percebeu que a sogra ainda não se conformava, o que não deixava de ser compreensível. Provavelmente todos estavam pensando a mesma coisa: se a capitã Maya Stern tinha salvado a vida de tanta gente, podia ter salvado a do próprio marido também.
– Pois tu és pó, e ao pó voltarás... – dizia o pastor.
Uau. Quanta imaginação. Maya chegou a pensar que estivesse ouvindo coisas, embora não viesse prestando muita atenção. Nunca atentava ao que era dito em enterros. Já tinha visto a morte suficientemente de perto para saber como se comportar na proximidade dela. Anestesiar-se. Esvaziar a cabeça. Deixar que todos os sons se misturassem numa massa indistinta.
O caixão bateu no fundo com um estrépito que reverberou mais do que devia no ar parado da tarde. Judith apoiou-se em Maya e gemeu baixinho. Maya, por sua vez, manteve-se firme na postura militar: cabeça erguida, coluna ereta, ombros empertigados. Recentemente havia lido um daqueles artigos que circulavam mundo afora por e-mail, algo sobre “postura e poder”, a importância da postura física no desempenho profissional. Ora, fazia muito que os militares conheciam essa pérola da psicologia popular. Soldados não empertigavam o tronco porque achavam bonito, mas porque, de algum modo, isso lhes dava um ar de força e poder, não só diante dos próprios companheiros, mas sobretudo diante do inimigo.
De repente, os acontecimentos no parque voltaram à lembrança de Maya: o brilho metálico da arma, os disparos, a queda de Joe, o sangue na blusa dela, os passos trôpegos na escuridão, o halo distante das luzes urbanas. “Socorro... por favor... alguém me ajuda... meu marido foi...” Ela fechou os olhos e procurou pensar em outra coisa.
“Seja forte”, foi o que lhe ocorreu. “Segure firme e vá em frente.”
E foi isso que ela fez.
Depois veio a fila de cumprimentos.
Só existiam duas ocasiões em que esse tipo de fila se formava: casamentos e enterros. Sem dúvida havia algo de significativo nisso, mas Maya não imaginava o que podia ser. Também não saberia dizer quantas mãos já havia apertado, mas fazia horas que estava ali, as pessoas se sucedendo como num filme de terror em que o herói mata um zumbi apenas para ver outro surgir imediatamente no seu lugar.
Quanto antes aquilo acabasse, melhor.
Muitos se limitavam ao protocolar “Meus sentimentos”, o que era ótimo, mas outros paravam para fazer um longo discurso sobre o caráter trágico da situação, sobre o absurdo de uma morte tão prematura, sobre a violência que vinha transformando a cidade num verdadeiro inferno, sobre a vez que haviam sido assaltados em plena luz do dia (regra número um: jamais fazer comparações na fila de cumprimentos de um enterro), sobre sua esperança de que a polícia pegasse logo os monstros responsáveis por tamanha maldade, sobre como Deus havia sido generoso ao deixá-la sair viva daquele parque (ao que parecia, Joe andava sem muito prestígio com o Todo-Poderoso), sobre o fato de Ele escrever certo por linhas tortas, sobre como sempre existia um motivo para tudo (às vezes ela precisava contar até dez para não agredir esses).
A certa altura os parentes de Joe se cansaram e foram se sentar um pouco. Maya, não. Maya seguiu com estoicismo no seu martírio, olhando as pessoas diretamente nos olhos, apertando a mão delas com firmeza. Vez ou outra, com maior ou menor sutileza, recorria à linguagem corporal para apressar as que estendiam demais o abraço de pêsames. Por mais vazias que fossem as palavras de algumas pessoas, ela ouvia com atenção, agradecia sua presença com o mesmo tom fingido de sinceridade, depois cumprimentava o próximo da fila.
Outra regrinha básica da etiqueta fúnebre: não falar muito. Clichês são bons porque são curtos. Antes uma banalidade rápida do que um falatório sem noção, por vezes até ofensivo. Os que se sentem obrigados a se estender um pouco mais podem, por exemplo, relembrar algo simpático a respeito do morto. Mas nunca, em hipótese alguma, devem fazer o que fez Edith, uma tia de Joe: chorar histericamente como se dissesse “Olhem para mim, vejam como estou sofrendo!”. Não satisfeita, a mulher ainda teve a capacidade de dizer: “Coitadinha. Primeiro a irmã, depois o marido...”
Embora isso fosse o que todos ali pensassem, mas não dissessem por bom senso, o mundo parou por causa de tia Edith, sobretudo porque Daniel e Alexa, filhos de Claire, irmã de Maya, estavam próximos o bastante para ouvi-la. O sangue ferveu nas veias de Maya, e novamente ela precisou se conter para não estrangular a mulher. Em vez disso, com a mesma sinceridade estudada que vinha dispensando a todos os demais, ela disse apenas:
– Obrigada por ter vindo.
Seis dos seus ex-colegas de destacamento, inclusive Shane, observavam-na de longe, como se fosse preciso protegê-la de alguma coisa. Era isso que sempre faziam quando estavam no mesmo ambiente que ela, não importavam as circunstâncias: montavam guarda. Nenhum deles havia entrado na fila. Eram as eternas e silenciosas sentinelas de sua capitã, cientes de que sua presença era o que bastava para consolá-la naquele dia terrível.
De vez em quando, Maya tinha a impressão de que podia ouvir Lily gargalhando do outro lado da rua. Eileen Finn, sua amiga de longa data, levara a menina para brincar no pátio da escola vizinha. Mas era possível que ela estivesse imaginando coisas. Naquele lugar, gargalhadas infantis eram ao mesmo tempo bem-vindas e repugnantes: um sopro de vida na casa da morte.
Daniel e Alexa, os filhos de Claire, foram os últimos da fila. Maya deu um longo abraço nos sobrinhos, querendo, como sempre, protegê-los de mais algum golpe da vida. Eddie, seu cunhado... (Era isso mesmo? Como chamar o marido da sua irmã assassinada? “Ex-cunhado” parecia mais adequado para os casos de divórcio. Talvez “meu antigo cunhado”? De repente o melhor mesmo era ficar com o “cunhado” original. Enfim. Mais bobagens para distrair a cabeça.) Com alguma timidez, Eddie também se aproximou para cumprimentá-la, a barba visivelmente malfeita, um hálito forte de hortelã mascarando as bebidas alcoólicas ou os cigarros consumidos.
– Vou sentir tanta saudade dele... – balbuciou.
– Eu sei. Joe também gostava muito de você, Eddie.
– Se tiver alguma coisa que eu possa...
“Você pode cuidar melhor dos seus filhos”, foi o que Maya pensou, mas sem a revolta de antes, que parecia ter se esvaziado feito um bote de lona.
– Fique tranquilo, estamos bem – disse ela.
Eddie permaneceu calado como se tivesse lido os pensamentos dela. Era bem possível que realmente tivesse.
Maya se dirigiu a Alexa:
– Desculpe por não ter ido ao seu último jogo. Mas amanhã estarei lá, prometo.
Eddie e os dois filhos ficaram subitamente desconcertados.
– Não precisa... – disse ele.
– Vou adorar – insistiu ela. – Pra me distrair um pouco.
Eddie assentiu, depois passou os braços pelos ombros dos filhos e foi saindo com eles para o estacionamento. A certa altura, Alexa virou-se para trás e Maya sorriu como se quisesse reconfortá-la. “Nada mudou, meu amor. Estarei sempre ao seu lado. Exatamente como prometi à sua mãe”, era o que o sorriso dela parecia dizer. Viu quando eles entraram no carro, Daniel sentando-se no banco da frente, orgulhoso dos seus 14 anos, e Alexa no de trás, resignada com seus 12. Desde a morte da mãe, a garota parecia ter entrado num estado constante de aflição, preparando-se para mais uma pancada a qualquer momento. Eddie despediu-se com um aceno da mão e um sorriso cansado, depois se acomodou ao volante.
Maya esperou o carro sair e só então avistou, recostado a uma árvore mais adiante, o detetive Roger Kierce, da Polícia de Nova York. Quanta cara de pau, pensou. Ficou tentada a se aproximar para confrontá-lo, exigir respostas, mas Judith novamente a tomou pela mão.
– Eu gostaria muito que você e a Lily voltassem com a gente para Farnwood.
Os Burketts sempre se referiam à própria casa pelo nome com que a haviam batizado, à maneira da aristocracia inglesa. Essa deveria ter sido a primeira pista para Maya de onde exatamente ela estava se metendo ao se casar com Joe.
– Obrigada – disse ela –, mas acho que a Lily precisa voltar pro cantinho dela.
– Precisa estar com a família, isso sim. Aliás, vocês duas.
– Obrigada, Judith.
– Estou falando sério. Lily sempre será nossa neta. E você, nossa filha.
Judith apertou de leve a mão da nora para enfatizar o que acabara de dizer. Era uma delicadeza da parte dela proferir aquelas palavras, como se estivesse lendo o texto de um teleprompter num dos bailes beneficentes que organizava, mas infelizmente elas não condiziam com a verdade. Pelo menos no que se referia a Maya. Aqueles que se casavam com um Burkett eram, quando muito, tolerados na família como forasteiros.
– Fica pra outro dia – disse Maya. – Você entende, não é?
Judith assentiu e se despediu com um abraço superficial. O irmão e a irmã de Joe fizeram o mesmo. Em seguida, voltaram pesarosos para a limusine que os levaria de volta para sua mansão.
Maya viu que os ex-companheiros de destacamento ainda não tinham ido embora. Olhou diretamente para Shane e o cumprimentou com um gesto rápido da cabeça. Todos ali compreendiam. Eles não haviam cortado laços uns com os outros, não era isso. Apenas tinham se afastado aos poucos, tomando cuidado para não quebrar nada no caminho. Alguns ainda estavam na ativa. Depois do que havia acontecido próximo à fronteira do Iraque com a Síria, Maya fora “encorajada” a pedir baixa. Sem muitas alternativas, acabara cedendo. Agora, portanto, em vez de comandar ou pelo menos formar novos recrutas, a capitã reformada Maya Stern, que por um breve período havia sido o rosto exemplar do novo Exército americano, dava aulas de aviação no aeroporto de Teterboro, em Nova Jersey. Havia dias em que gostava do que fazia, mas na maioria das vezes sentia uma saudade incontrolável da sua época de militar.
Dali a pouco ela finalmente se viu sozinha junto do monte de terra que cobriria seu marido.
– Ah, Joe... – murmurou.
Procurou sentir algum tipo de “presença”. Já havia tentado isso antes, nos inúmeros enterros a que tinha comparecido. Mas, de novo, não sentiu nada. Muitos acreditavam numa espécie de energia vital que não sumia nunca, algo parecido com a eternidade da alma, uma vez que não era possível destruir a matéria por completo. Talvez isso acontecesse mesmo. No entanto, quanto maior sua experiência com os mortos, mais ela se convencia de que eles não deixavam nada para trás. Absolutamente nada.
Maya permaneceu junto da cova até que Eileen voltou com Lily do pátio da escola.
– Podemos ir? – disse a amiga.
Maya olhou uma última vez para o buraco à sua frente. Cogitou dizer algo profundo para Joe, algo que os ajudasse a virar de vez aquela página, mas nada lhe ocorreu.
Eileen levou-as de volta em seu carro. Lily logo adormeceu na cadeirinha anexada ao banco de trás, uma engenhoca que parecia projetada pela Nasa. Maya permaneceu em silêncio durante todo o trajeto, olhando vagamente pela janela, e respirou aliviada quando enfim chegou em casa. (Joe pensara em dar um nome ao imóvel também, mas ela havia negado terminantemente.) Surpreendendo-se ao conseguir desatar todos os cintos da cadeirinha, ela pegou a filha no colo e fez o possível para não a acordar.
– Obrigada pela carona – falou para Eileen.
– Posso entrar um pouquinho? – perguntou a outra.
– Não precisa, estou bem.
– Eu sei. – Eileen desligou o carro, tirou o cinto de segurança. – Mas eu queria te dar uma coisa. É rápido.
Maya desembrulhou seu presente.
– Um porta-retratos digital?
Eileen era uma linda ruiva com o rosto cheio de sardas. Tinha um sorriso largo que iluminava o ambiente à sua volta, uma máscara excelente para esconder todo o seu tormento interior.
– Não. É uma câmera de segurança disfarçada de porta-retratos digital.
– Como assim?
– Você precisa ter um controle melhor das coisas, agora que está trabalhando em tempo integral. Não acha?
– É... acho que sim.
– Em que parte da casa a Isabella passa a maior parte do tempo com a Lily?
– Ali, na sala de televisão – disse Maya, apontando para sua direita.
– Vem, vou te mostrar como funciona.
– Eileen...
Eileen tomou o porta-retratos das mãos da amiga e disse:
– Anda, vem.
A sala ficava logo ao lado da cozinha. Tinha um teto abobadado, como o de uma catedral, e muitos itens de madeira de cor clara. A televisão era enorme. Dois cestos transbordavam com os brinquedos educativos de Lily. Diante do sofá, um cercadinho ocupava o lugar onde antes ficava uma bela mesa de centro em mogno, eliminada por causa das quinas perigosas.
Eileen se aproximou da estante de livros, encontrou um lugar para o porta-retratos e o ligou na tomada mais próxima.
– Já coloquei algumas fotos da sua família, que vão se alternar na tela. Imagino que a Isabella e a Lily brinquem mais por ali, perto do sofá, certo?
– Certo.
– Ótimo. – Eileen virou o porta-retratos na direção do sofá. – A câmera embutida tem uma lente grande angular, então dá pra ver a sala inteira.
– Eileen...
– Ela estava lá no enterro. Eu vi.
– Ela quem?
– Sua babá.
– A família do Joe conhece a Isabella há muito tempo. A mãe dela foi babá do próprio Joe. O irmão é o jardineiro da família.
– Sério?
– Coisa de rico, sabe como é.
– Essa gente é mesmo muito diferente.
– Pois é.
– Mas e aí? Você confia nela?
– Na Isabella?
– É.
Maya encolheu os ombros, dizendo:
– Bem, você me conhece.
– Conheço. – Eileen era, originariamente, amiga de Claire, a irmã de Maya, com quem dividira um quarto no alojamento da Universidade Vassar. Mas logo ficara amiga de Maya também. – Você não confia em ninguém.
– Não é bem assim.
– Em quem você confia quando se trata da sua filha?
– É, tem razão. Quando se trata da Lily, eu não confio mesmo em ninguém.
Eileen sorriu e disse:
– Então, por isso comprei este porta-retratos para você. Mas tenho certeza que você não vai descobrir nada de errado. A Isabella me parece ótima.
– Mas você acha que é melhor prevenir do que remediar, certo?
– Exatamente. Olha, você nem imagina como esse troço me tranquilizava quando eu precisava deixar o Kyle e a Missy sozinhos com a babá.
Maya ficou pensando sobre isso – se a amiga havia usado a câmera secreta apenas para vigiar a babá ou também para fundamentar seu processo judicial contra certa pessoa –, mas preferiu ficar calada.
– Seu computador tem entrada pra cartão de memória?
– Não tenho certeza.
– Não importa. Vou te dar um adaptador que você pode plugar em qualquer dispositivo que tenha uma entrada USB. Mais fácil, impossível. No fim do dia, é só você retirar o cartão de memória que fica aqui atrás, olha. Está vendo aqui?
– Estou.
– Depois você insere no adaptador e pronto, o vídeo aparece na sua tela. O cartão tem 32 gigas de memória, cabe muita coisa dentro dele. Além disso, a câmera tem um detector de movimento: não grava quando não há ninguém por perto.
Maya não pôde deixar de rir.
– Quem te viu, quem te vê... – disse.
– O que foi? Está incomodada com a inversão de papéis?
– Só um pouquinho. Eu devia ter pensado nessas coisas todas por conta própria.
– Pois é. Fico surpresa que não tenha pensado.
Maya baixou os olhos para fitar a amiga, que não devia ter mais que 1,60 de altura. Ela, por sua vez, tinha 1,82 e parecia ainda mais alta em razão da postura militar.
– Você chegou a ver algo com a sua câmera escondida? – perguntou.
– Algo que não deveria estar acontecendo, você diz?
– Isso.
– Não – respondeu Eileen. – E sei muito bem o que você está pensando. Ele nunca mais deu as caras.
– Não estou julgando ninguém.
– Nem um pouquinho?
– Bem, que tipo de amiga eu seria se não te julgasse nem um pouquinho?
Eileen se aproximou e abraçou a amiga. Maya retribuiu de bom grado, ciente de que não se tratava de um simples abraço de pêsames oferecido por obrigação. Maya entrara na Vassar um ano depois de Claire, e dali em diante as três não haviam se desgrudado mais, até Maya ir fazer o curso de aviação militar no Fort Rucker do estado do Alabama. Mas Eileen ainda era sua melhor amiga, e Shane, o melhor amigo.
– Eu adoro você – disse Eileen. – Sabe disso, não sabe?
– Sei, sim.
– Tem certeza que não quer que eu fique?
– Você tem sua própria família pra cuidar.
– Não tem problema. – Eileen apontou para o porta-retratos na estante. – Ainda tenho o meu também.
– Engraçadinha.
– É sério! Mas eu entendo. Você precisa ficar um pouco sozinha. Ligue pra mim se precisar de alguma coisa. Ah, e não se preocupe em fazer comida para o jantar. Pedi comida chinesa pra você. Do Look See, que você gosta tanto. Deve chegar em uns vinte minutos.
– Puxa... Você sabe que eu também te adoro, né?
– Sei – disse Eileen, e foi saindo na direção da porta. Mas parou quando viu algo pela janela. – Opa.
– Que foi?
– Você tem visita.