capítulo 7

ERA A MESMA PROFESSORINHA sorridente que naquela manhã estava de plantão na creche Crescendo.

– Ah, sim, lembro de você – disse ela. E se inclinou para Lily. – Lembro de você também, Lily. E aí, tudo bem?

Lily não respondeu nada. A professorinha deixou a menina brincando com um conjunto de bloquinhos de construção e acompanhou Maya até sua sala.

– Estou pronta pra fazer a matrícula dela – Maya foi logo dizendo.

– Ótimo! Quando pretende começar?

– Agora.

– Hmm... Isso não é muito comum. Normalmente precisamos de duas semanas pra processar uma nova matrícula.

– Minha babá pediu as contas de uma hora pra outra.

– Entendo, mas...

– Desculpa, como é mesmo seu nome?

– Kitty Shum.

– Claro, claro. Então, Kitty, está vendo aquele carro verde ali?

Kitty olhou através da janela, apertou as pálpebras contra a claridade, depois disse:

– Estão seguindo você? Quer que eu chame a polícia?

– Não, não. Não é isso. Aquele carro ali é a polícia. À paisana. Meu marido foi assassinado recentemente.

– Li a respeito – disse a moça. – Meus sentimentos.

– Obrigada. O problema é o seguinte: esse investigador que está ali, ele quer que eu vá com ele até a delegacia. Não sei direito por quê. Ele apareceu de repente lá em casa, não deu muita explicação. Então só tenho duas opções: ou levo a Lily comigo e fico com ela no colo enquanto me cobrem de perguntas sobre o assassinato do pai dela ou...

– Sra. Burkett?

– Maya.

– Maya – repetiu Kitty, e olhou novamente para o carro de Kierce. – Será que você sabe como fazer o download do nosso aplicativo no seu telefone?

– Sei.

– Ótimo. É melhor pra menina se você não fizer uma despedida muito dramática.

– Muito obrigada.

Assim que chegou com o detetive à delegacia do Central Park, Maya perguntou:

– Pode me dizer agora por que me trouxe aqui?

Kierce mal havia aberto a boca durante todo o trajeto, o que para Maya tinha sido bom. Ela ainda precisava de um tempo para ruminar os últimos acontecimentos: a câmera escondida, a gravação, Isabella, a camisa verde-floresta.

– Preciso de você pra fazer dois confrontos de identificação.

– Identificação? De quem?

– Não quero condicionar as suas respostas.

– Dos atiradores não pode ser. Eu já disse, eles estavam de gorro.

– Sim, gorros de esqui, pretos, com abertura apenas para os olhos e a boca, certo?

– Certo.

– Ok, ótimo. Venha comigo.

– Não estou entendendo.

– Vai entender.

Na recepção da delegacia, enquanto esperava para ser convocada, Maya abriu o aplicativo da creche, um instrumento bastante completo mediante o qual era possível pagar mensalidades, marcar horários, examinar o “currículo de atividades” e ler a biografia de todas as professoras. Mas o melhor de tudo, o que realmente tinha chamado sua atenção para a Crescendo, era a possibilidade de monitorar em tempo real as salas da creche, que eram três: vermelha, verde ou amarela, dependendo da faixa etária das crianças. Maya clicou sobre o ícone amarelo.

Foi então que Kierce voltou para chamá-la.

– Maya?

– Só um segundo – disse ela, e virou o telefone de lado para aumentar a imagem.

Era de se esperar que àquela altura já estivesse farta daquela história de câmeras de vigilância. Mas não. Lá estava Lily na sua salinha amarela. Segura. A professora (cuja biografia ela leria mais tarde) brincava com ela e outro menino da mesma idade, ajudando-os a empilhar os bloquinhos.

Aliviada, Maya quase abriu um sorriso. Deveria ter insistido e colocado Lily numa escolinha daquelas meses antes. Com a opção babá ela ficava nas mãos de uma única pessoa sobre a qual tinha pouco ou nenhum controle. Na creche, não. Na creche havia sempre testemunhas para todas as even­tualidades, câmeras por toda parte e, principalmente, socialização com outras crianças. Nada mais seguro que isso, certo?

– Maya? – Era Kierce novamente.

Maya fechou o aplicativo, guardou o telefone no bolso e seguiu com o detetive para uma sala no interior da delegacia, onde já esperavam duas pessoas: a promotora pública designada para o caso de Joe e um defensor. Procurou se concentrar, pois ainda estava meio zonza com aquela história da gravação. Além disso, continuava a sentir nos pulmões e nas membranas nasais os efeitos cruéis do spray de pimenta. Vinha fungando como uma ­cocainômana.

– Antes de mais nada, quero deixar registrado o meu protesto – disse o defensor, um cabeludo com um rabo de cavalo que descia até o centro das costas. – A testemunha já afirmou que em nenhum momento chegou a ver o rosto dos agressores.

– Protesto registrado – disse Kierce. – E estamos de pleno acordo.

O cabeludo espalmou as mãos, dizendo:

– Então... o que estamos fazendo aqui?

Esta era a pergunta que Maya se fazia também.

Indiferente a ambos, Kierce apertou um interruptor e a luz se acendeu no compartimento onde se perfilariam os homens, não muito diferente de um aquário. Inclinando-se para um microfone, ele disse:

– Podem mandar entrar o primeiro grupo.

Seis homens entraram no aquário, todos com gorros de esqui na cabeça.

– Isso é ridículo – disse o defensor cabeludo.

Maya não havia se antecipado àquilo.

– Sra. Burkett, a senhora reconhece alguma dessas pessoas? – perguntou Kierce, falando um pouco mais alto que o normal, como se estivesse sendo gravado.

O que talvez realmente estivesse acontecendo, pensou Maya.

– O número quatro – disse ela depois de um tempo.

– Isso é um absurdo! – protestou o defensor.

– E por que a senhora reconhece o número quatro?

– “Reconhecer” talvez seja uma palavra forte demais – disse Maya. – Mas ele tem o mesmo tipo físico e a mesma altura que o homem que atirou em meu marido. Também está usando as mesmas roupas.

– Todos estão usando roupas iguais – interveio o defensor. – Como é que a senhora pode ter certeza?

– Como eu disse, o número quatro tem o mesmo porte e a mesma altura. Os outros não.

– Tem certeza?

– O número dois também é muito parecido, mas está usando tênis azuis. O atirador estava usando tênis vermelhos.

– Só para deixar claro – disse o defensor. – A senhora não pode afirmar com absoluta certeza que o número quatro é o homem que atirou no seu marido. Afirma apenas que ele tem mais ou menos o mesmo corpo e a mesma altura, e que está usando roupas parecidas...

– Parecidas não – interrompeu Maya. – Idênticas.

O defensor cabeludo inclinou a cabeça, dizendo:

– É mesmo?

– É.

– Não tem como a senhora saber de uma coisa dessas – insistiu o homem. – Imagino que exista mais de um par de All Star vermelho na face da Terra, certo? Quer dizer, se colocarmos quatro pares de All Stars vermelhos na sua frente, a senhora acha que seria capaz de identificar o par exato que o atirador estava usando naquela noite?

– Não.

– Obrigado.

– Mas as roupas não são apenas “parecidas”. Não é como se ele estivesse apenas usando tênis brancos em vez de vermelhos. O número quatro está usando roupas idênticas às do atirador.

– O que nos traz ao ponto seguinte – emendou o cabeludo. – A senhora não pode ter certeza de que foi aquele homem ali, o número quatro, que atirou no seu marido, certo? Afinal ele está de gorro. Poderia ser outro homem com roupas idênticas às do atirador e com o mesmo tipo de corpo. Poderia ou não poderia?

– Poderia, sim – disse Maya.

– Obrigado.

O defensor se deu momentaneamente por satisfeito. Baixando mais uma vez na direção do microfone, Kierce disse:

– Vocês podem sair. Que entre o segundo grupo.

Outros seis homens entraram, todos de gorro. Maya os observou com calma, depois disse:

– Provavelmente é o número cinco.

– Provavelmente?

– O número dois está usando as mesmas roupas e tem mais ou menos o mesmo físico. O número cinco é o que mais se aproxima daquilo que lembro. Mas não posso jurar. Todos são muito parecidos.

– Obrigado – disse Kierce. E para o microfone: – Podem sair, obrigado.

O policial também saiu da sala, e Maya foi atrás dele.

– O que está acontecendo?

– Encontramos dois suspeitos.

– Encontraram como?

– Seguindo a sua descrição.

– Posso vê-los? – perguntou Maya.

Kierce ficou na dúvida, mas não por muito tempo.

– Ok, vem comigo – disse, e a conduziu até a tela de um computador, uma tela enorme, de 30 ou mais polegadas. Sentou-se diante do teclado, sinalizou para que Maya sentasse a seu lado e começou a digitar. – Na noite do assassinato, examinamos todas as câmeras de segurança da região, procurando por dois homens que se encaixassem na descrição que você nos deu. Como você pode imaginar, não foi fácil. Mas tem este prédio que fica na esquina da rua 74 com a Quinta Avenida. Dá uma olhada. – As imagens mostravam dois homens do alto. – São eles?

– São – disse Maya. – Ou você prefere o “legalês”: dois homens com o mesmo tipo físico, as mesmas roupas etc. etc.?

– Não. Nossa conversa aqui é extraoficial. Como você pode ver, eles não estão de gorro. O que já era esperado. Não andariam de gorro por aí nas ruas. Chamariam muita atenção.

– Mesmo assim não dá pra ver o rosto deles por este ângulo.

– Pois é. A câmera estava alta demais. É muito irritante. Você nem imagina quantas vezes isso acontece por aqui. As câmeras ficam nessa altura ridícula, então basta que os bandidos baixem a cabeça ou usem um boné pra que a gente não veja nada do rosto deles. Mas pelo menos deu pra saber que os caras ainda estavam na área. Então continuamos procurando.

– E voltaram a vê-los?

– Sim. Meia hora depois, numa farmácia Duane Reade. – Kierce digitou mais alguma coisa e abriu o vídeo.

Ao contrário do primeiro, este era em cores, filmado por uma câmera instalada na altura de uma das caixas registradoras da farmácia. Agora se via claramente o rosto de ambos. Um deles era negro. O outro tinha a pele mais clara, talvez um latino. Pagaram suas compras com dinheiro.

– É muita frieza – disse Kierce.

– O quê?

– Olha só para o relógio. Isso foi gravado quinze minutos depois do assassinato do seu marido. E lá estão eles, a uns quinhentos metros de distância, comprando Red Bull e Doritos. Como eu disse, é muita frieza.

– Ou então não são eles – disse Maya, sem despregar os olhos do computador.

– Acho difícil. – Kierce deu uma pausa no vídeo, congelando o rosto dos dois homens. Na realidade eram dois garotos, nem tão mais velhos assim do que muitos dos companheiros de Maya no Exército. – Dê uma olhada nisto – disse o detetive, ampliando a imagem do latino com um zoom. – Este era o outro cara, não era? O que não atirou?

– Era.

– Notou alguma coisa?

– Não, nada.

Kierce ampliou a imagem mais um pouco, centralizando-a na cintura do rapaz.

– Olha de novo – disse.

– Agora, sim. Ele está armado.

– Exatamente. Dá pra ver a coronha saindo da cintura da calça.

– Não é muito discreto.

– Não, não é. Fico aqui imaginando... o que diriam os seus amigos patriotas, esses que defendem o porte ostensivo de armas, se vissem um garoto perambulando pelas ruas de Nova York com uma arma espetada assim na calça.

– Duvido muito que seja uma arma comprada legalmente – disse Maya.

– Realmente não é.

– Vocês encontraram a arma?

– Você já deve saber que sim. – Kierce deu um suspiro, bufando, depois ficou de pé e disse: – Este aí é Emilio Rodrigo. Tem uma folha corrida bastante longa pra um pivete dessa idade. Aliás, os dois têm. O Sr. Rodrigo estava com uma Beretta M9 quando foi detido. Comprada ilegalmente. Vai cumprir pena por causa disso...

– Estou sentindo que vem um “mas” por aí.

– Conseguimos um mandado, vasculhamos a casa de ambos. Foi aí que encontramos as roupas que você descreveu antes e identificou hoje.

– Acha que isso basta como prova material?

– Duvido muito. Como disse o nosso amigo cabeludo agora há pouco, muita gente tem um All Star vermelho. Mas não encontramos os gorros. O que é estranho. Se guardaram as roupas, por que não guardaram os gorros também?

– Sei lá.

– Provavelmente jogaram num lixo qualquer. Tipo... logo depois. Atiraram, fugiram, tiraram os gorros e jogaram no primeiro lixo que viram.

– Faz sentido.

– Só que reviramos tudo quanto é cesto de lixo na região, e nada. De repente jogaram num bueiro, sei lá.

Kierce se calou um instante.

– Que foi?

– O problema é que... localizamos a Beretta, como eu disse, mas não localizamos a arma do crime. O revólver calibre 38.

Maya se recostou na cadeira e disse:

– Eu ficaria surpresa se eles tivessem guardado esse revólver, você não?

– Acho que sim, mas...

– Mas o quê?

– Nem sempre esses pivetes se desfazem das armas. Deviam, mas não se desfazem. Pagam muito dinheiro por elas, então reutilizam. Ou revendem pra algum amigo. Alguma coisa assim.

– Mas não num caso como esse, de tanta repercussão, de tanto barulho na imprensa.

– É verdade.

Maya o estudou por alguns segundos, depois disse:

– Você não me parece muito convicto. Aposto que tem outra tese.

– Tenho – disse Kierce, virando o rosto. – Uma tese meio sem pé nem cabeça.

– Hmm. Por quê?

O detetive começou a coçar o braço, decerto um tique nervoso.

– As balas calibre 38 que retiramos do corpo do seu marido... Realizamos um teste balístico com elas. Sei lá, pra saber se batiam com a munição usada em outros casos da nossa base de dados.

Maya o encarou, e ele parou de se coçar.

– Estou vendo pela sua cara que vocês encontraram uma correspondência – disse ela.

– Pois é. Encontramos.

– Quer dizer então que esses garotos... eles já mataram outras vezes.

– Não creio.

– Mas você não acabou de dizer que...

– Mesma arma. Mas não necessariamente as mesmas pessoas. Na realidade, Fred Katen, esse que você identificou agora há pouco como o atirador, tem um álibi indestrutível para esse primeiro assassinato, o da correspondência que encontramos. Estava preso.

– Quando foi isso?

– Isso o quê?

– O primeiro assassinato.

– Quatro meses atrás.

Um silêncio frio se interpôs entre os dois. Kierce nem sequer precisava dizê-lo. Sabia que Maya já havia concatenado os fatos. Sem coragem para fitá-la diretamente, virou o rosto e disse:

– A arma que matou seu marido foi a mesma que matou sua irmã.