capítulo 11
MAYA ACORDOU APÓS UM sonho esquisitíssimo com a leitura do testamento de Joe.
Não lembrava exatamente o que fora dito, nem onde estava, mas disto ela se lembrava: Joe estava lá, sentado numa enorme poltrona de couro vinho, vestindo o mesmo smoking da noite em que eles haviam se conhecido. Mais lindo do que nunca, olhava fixamente para o vulto indistinto que lia um documento em voz alta. Ela não ouvia nada do que dizia essa pessoa (exatamente como Charlie Brown nunca ouvia sua professora na sala de aula), mas de algum modo sabia que ela estava lendo o testamento. O que não fazia a menor diferença. Maya só queria saber de Joe. Chamava o nome dele, acenava para ele, mas Joe nem sequer virava a cabeça.
Assim que despertou, Maya foi acometida mais uma vez pelos ruídos que a assombravam: os gritos, os rotores, os tiros. Pegou o travesseiro e com ele tapou os ouvidos na esperança de silenciar a algazarra. Sabia, claro, que aquilo não adiantaria de nada, que os ruídos vinham de dentro da cabeça e que o travesseiro, quando muito, os prenderia ali. Mesmo assim ela cobriu os ouvidos. Geralmente a tortura não ia longe. Bastava fechar os olhos para afugentá-la, por mais ilógico que fosse.
Passada a crise, ela levantou da cama e foi para o banheiro. Não gostou nem um pouco do que viu diante do espelho, então abriu o armário de remédios que havia por trás e correu os olhos pelos frascos de medicação controlada, pensando se era o caso de fazer uso deles. Não. Melhor estar completamente lúcida ao encarar toda a família Burkett na leitura do testamento logo mais.
Tomou seu banho, depois buscou no closet o terninho preto que Joe havia escolhido para ela numa loja Chanel. Joe gostava de acompanhá-la nas compras. Naquele dia ela havia desfilado diante dele com o tal terninho, apaixonada pelo caimento perfeito e pela qualidade do tecido, mas horrorizada com o preço absurdo da coisa. Então mentira para o marido, dizendo que não tinha gostado. Mas Joe não se deixara enganar. Voltara à loja no dia seguinte para comprar o mesmo terninho e presenteá-la em casa. Maya encontrara a roupa estendida sobre a cama, exatamente como ela estava agora.
Ela se vestiu e acordou Lily. Meia hora depois já estava com ela na creche.
Miss Kitty vestia a fantasia de uma princesa da Disney que ela, Maya, nunca tinha visto antes. Baixando-se para Lily, disse:
– Quer se vestir de princesa também, quer?
Lily escancarou um sorriso e foi saindo com a professora sem ao menos se despedir da mãe.
Assim que entrou no carro, Maya pegou seu telefone e abriu o aplicativo da creche para espiar a filha, que já vestia sua roupinha de princesa. Essa ela conhecia: era Elsa, de Frozen. Não se contendo, cantarolou:
– Livre estou, livre estou...
Dali a pouco, para tirar a música da cabeça e colocar no lugar dela as bobagens do dia, ligou o rádio. A maioria dos âncoras daqueles programas matinais das FMs nem sequer fazia ideia de como eram engraçados. Então ela sintonizou no noticiário de uma estação AM, perguntando-se quem além dela ainda ouvia rádio AM. Gostava da disciplina quase militar daqueles noticiários, da previsibilidade: quinze minutos de esporte, dez minutos de meteorologia etc... Ouvia apenas vagamente quando uma notícia chamou sua atenção: “O famoso hacker Corey Rudzinski, proprietário do site Boca no Trombone, promete ainda para esta semana mais uma leva de vazamentos que, segundo ele mesmo afirma, vão abalar os alicerces do alto escalão do governo, resultando não só na renúncia, mas também no indiciamento judicial de um nome importante da...”
Por mais que se acreditasse livre das garras medonhas do hacker, Maya sentiu um frio na espinha ao ouvir o nome dele no rádio. Shane estranhava que o homem não tivesse divulgado a história completa, supunha que ele estivesse apenas esperando o momento certo para detonar uma bomba maior, uma analogia que batia mal nos ouvidos de Maya. Ela própria receava a mesma coisa. Maya Stern era notícia velha, mas o potencial continuava lá. Segredos cabeludos nunca tinham vida longa. Cedo ou tarde acabavam atacando pelas costas, insidiosos, explosivos, indiferentes aos danos colaterais (mais analogias militares).
Farnwood era uma propriedade típica de quatrocentões miliardários. Antes de se casar, Maya achava que propriedades assim existissem apenas nos livros de história e nos romances de época. Que nada. Ela parou diante do portão pilotado por Morris, que trabalhava ali desde o início dos anos 1980. Habitava o mesmo complexo de casinhas da família de Isabella.
– Bom dia, Morris.
O homem a cumprimentou com a mesma careta azeda de sempre, deixando claro que ela não era exatamente da família mas apenas uma agregada. Naquela manhã talvez houvesse mais que isso por trás do azedume habitual do porteiro: algo a ver com a morte recente de Joe ou, mais provavelmente, com o que havia acontecido com Isabella na véspera. Sem nenhuma pressa, ele apertou o botão e o portão foi deslizando com o mesmo vagar, quase imperceptivelmente.
Maya seguiu colina acima rumo à mansão principal, passando por uma quadra de tênis e um campo de futebol (até ser corrigida por Joe ela dizia “quadra de futebol”, tamanha a sua ignorância a respeito do esporte) que ninguém nunca usava. A mansão em si, de arquitetura Tudor, lembrava a de Bruce Wayne nos seriados antigos de Batman. Sempre que chegava ali, ela esperava deparar com um grupo de lordes saindo para caçar raposas no bosque, mas invariavelmente era recebida apenas pela sogra. Hoje não seria diferente.
Judith era uma mulher bonita. Porte miúdo, olhos grandes e redondos, traços delicados de uma boneca. Aparentava ser mais jovem do que era, não apenas por causa dos retoques (um Botox de vez em quando, talvez uma puxadinha nos olhos), mas sobretudo por causa da boa genética e da prática regular de ioga. Bonita, inteligente e rica, ainda fazia enorme sucesso com os homens, mas, se tinha algum namoradinho por aí, Maya não saberia dizer. “Acho que ela tem amantes secretos”, dissera Joe certa vez. “Secretos por quê?”, ela perguntara, mas não recebera nenhuma resposta. Dizia-se que na juventude ela havia sido uma hippie da Costa Oeste, o que para Maya era bem provável. Bastava observar com atenção para ver algo de indomável no semblante dela, tanto no sorriso quanto no olhar.
Judith veio descendo ao encontro de Maya, mas parou um degrau acima dela para igualá-la no tamanho ao recebê-la com os dois beijinhos de praxe. Judith correu os olhos à sua volta, depois perguntou:
– E a Lily, onde está?
– Na creche – disse Maya, e ficou esperando pelo espanto da sogra, que não veio.
– Você precisa acertar os ponteiros com a Isabella – foi só o que ela disse.
– Ela te contou?
Judith não se deu ao trabalho de responder.
– Então você precisa me ajudar a falar com a garota – disse Maya. – Onde ela está?
– Pelo que sei, viajou.
– Volta quando?
– Não sei. Nesse meio-tempo, sugiro que você use a Rosa.
– Acho que não.
– Você sabe que ela foi a babá do Joe, não sabe?
– Sei.
– E?
– Continuo achando que não.
– Quer dizer então que você pretende manter a Lily na creche? – Judith balançou a cabeça num gesto de censura. – Anos atrás conheci de perto essas creches. Profissionalmente falando. – Psiquiatra formada e registrada no Conselho de Medicina, ela ainda atendia pacientes duas vezes por semana num consultório no Upper East Side de Manhattan. – Lembra daqueles casos todos de abuso infantil nos anos 80 e 90?
– Lembro, claro. Mas e aí? Convocaram você como especialista?
– Mais ou menos isso.
– Pelo que sei, acabaram descobrindo que as acusações não tinham nenhum fundamento. Histeria infantil, alguma coisa assim.
– Sim – disse Judith. – Os professores foram absolvidos.
– Sim, e daí?
– Os professores foram absolvidos – repetiu ela –, mas talvez o sistema não.
– Não entendi.
– Era muito fácil manipular aquelas crianças. Sabe por quê?
Maya deu de ombros.
– Pense bem. Elas contavam aquelas histórias cabeludas e eu ficava me perguntando: por quê? Por que elas se dispunham a dizer exatamente o que os pais queriam ouvir? De repente, se viessem recebendo mais atenção por parte desses mesmos pais... É só uma hipótese.
Uma hipótese pouco provável, pensou Maya.
– Mas o que estou querendo dizer é o seguinte: conheço a Isabella desde menina. Confio nela. Mas não conheço ninguém em creche nenhuma. Não posso confiar em quem não conheço, assim, às cegas. Você também não.
– Posso fazer muito melhor do que confiar às cegas – disse Maya.
– Como assim?
– Posso vigiá-los.
– Agora fui eu que não entendi.
– A segurança está nos números. São muitas testemunhas, inclusive eu. – Maya abriu o aplicativo e mostrou à sogra. Lá estava Lily, vestida de Elsa.
Judith tomou o telefone e sorriu ao ver a neta.
– O que ela está fazendo?
– Rodopiando assim – disse Maya –, imagino que esteja dançando alguma coisa do Frozen.
– Hoje em dia é assim... – disse Judith, balançando a cabeça. – Câmeras por todo lado. Um novo mundo. – Ela devolveu o telefone de Maya, depois perguntou: – Mas então, o que foi que aconteceu com a Isabella?
Não seria uma boa ideia falar daquilo naquele momento, a poucos minutos da leitura do testamento de Joe.
– Não se preocupe. Não foi nada importante.
– Posso ser sincera?
– Desde quando você não é sincera?
Judith riu e disse:
– Nesse aspecto somos muito parecidas, eu e você. Bem... em muitos aspectos. Nós duas entramos nesta família pelo casamento. Nós duas ficamos viúvas. E nós duas gostamos de franqueza.
– Vai, pode falar.
– Você continua na terapia?
Maya não disse nada.
– Suas circunstâncias mudaram, Maya. Seu marido foi assassinado. Você estava lá, poderia ter sido assassinada também. Agora está criando uma filha sozinha. Quando você soma tudo isso ao seu diagnóstico, todas essas fontes de estresse...
– Que foi que a Isabella te contou?
– Nada – disse Judith, e pousou a mão sobre o ombro de Maya. – Eu mesma poderia tratar de você, mas...
– Não creio que seja uma boa ideia.
– Exatamente. Não seria correto. Melhor eu me ater aos papéis de vovó adorável e sogra querida. Mas tenho uma colega. Na realidade, uma amiga. Estudou comigo em Stanford. Tenho certeza de que os psiquiatras da Costa Leste são muito competentes, mas esta mulher é a melhor no ramo.
– Judith...
– Fala.
– Estou bem.
Alguém chamou por Judith no alto da escada.
– Mãe?
Era Caroline, a irmã de Joe. Ela e a mãe eram fisicamente muito parecidas. No entanto, enquanto Judith se apresentava como uma mulher forte e decidida, Caroline dava a impressão de que andava sempre assustada, prestes a se esquivar de alguma coisa. Ela desceu ao encontro de Maya, cumprimentou-a com dois beijinhos e disse:
– A Heather já está esperando na biblioteca. O Neil também.
– Então vamos – disse Judith, séria, e deixou que as outras duas a levassem pelos braços.
Foi assim que elas entraram no casarão, mudas e abraçadas. Atravessaram o foyer, depois o salão de baile. Havia um retrato de Joseph T. Burkett Sr. acima da lareira. Judith parou um instante para admirá-lo.
– Joe era tão parecido com o pai... – comentou ela.
– Era mesmo – disse Maya.
– Mais uma coisa que temos em comum – observou Judith, esboçando um sorriso. – O mesmo gosto para os homens.
– Pois é. Gostamos de homens bonitos. Nós e boa parte da população feminina no planeta.
– É verdade – disse Judith, agora rindo.
Caroline abriu as portas duplas da biblioteca e elas entraram. Talvez porque tivesse visto A Bela e a Fera com Lily dias antes, Maya constatou que a biblioteca dos Burketts não era lá muito diferente da biblioteca da Fera. Eram dois pavimentos com estantes de carvalho que iam do chão ao teto. Tapetes persas se espalhavam por toda parte. Um lustre de cristal pendia do alto. Duas escadas de ferro rolavam ao longo das estantes para dar acesso às prateleiras mais altas. Um globo antigo se abria pela metade com um decantador de conhaque no centro. Neil, o irmão de Joe, já se servia dele.
– Oi, Maya.
Mais beijinhos no rosto, porém desajeitados. Com Neil era tudo assim, meio desajeitado. Era um daqueles caras piriformes (isso mesmo, em forma de pera) em que os ternos sempre caíam mal, por mais bem cortados que fossem.
– Quer? – ofereceu ele, apontando para o conhaque.
– Não, obrigada – disse Maya.
– Tem certeza?
Judith franziu o cenho, dizendo:
– São nove da manhã, Neil.
– Mas cinco da tarde em algum lugar do mundo, não é isso que dizem? – riu. Sozinho. – Além disso, não é todo dia que a gente tem a oportunidade de ouvir o testamento do próprio irmão.
Judith virou o rosto. Neil era o caçula dos quatro irmãos. Joe era o primogênito, seguido de Andrew (um ano mais novo, o que havia “morrido no mar”, como diziam todos da família), Caroline e Neil. Por mais estranho que fosse, era ele, Neil, quem pilotava o império dos Burketts. Joseph Sr., sempre imune aos sentimentalismos quando o assunto era dinheiro, havia preterido os três filhos mais velhos em favor do caçula, colocando-o à frente dos negócios. Joe não se importara nem um pouco. Certa vez dissera a Maya: “Neil é um cara truculento, e o papai sempre gostou dos truculentos.”
– Então, vamos sentar? – disse Caroline.
Maya correu os olhos pelas poltronas de couro vinho e se lembrou imediatamente do sonho que havia tido. Por um segundo chegou a ver Joe numa delas, sentado de pernas cruzadas com seu smoking impecável, olhando ao longe, inacessível.
– Onde está a Heather? – perguntou Judith.
– Estou aqui.
Todos se viraram na direção da porta. Fazia dez anos que Heather Howell era a advogada da família Burkett. Antes dela era seu pai, Charles Howell III, quem ocupava o posto, e antes dele, Charles Howell II, seu avô. Nada se sabia a respeito do primeiro Charles Howell.
– Ótimo – disse Judith. – Podemos começar.
Chegava a ser fascinante aquela versatilidade de Judith, a facilidade com que a mulher pulava de um papel a outro: num piscar de olhos ela passava de mãe zelosa a psiquiatra profissional a matriarca quatrocentona. Esse último era o papel de agora: a matriarca dos Burketts, solene e formal, com uma pontinha de sotaque britânico.
Todos se acomodaram nas poltronas, mas Heather permaneceu de pé.
Judith olhou para ela e perguntou:
– Algum problema?
– Receio que sim.
Heather era uma daquelas profissionais que exalavam segurança e competência. Quem a visse queria tê-la no seu time. Maya a conhecera logo depois de ser pedida em casamento por Joe. Heather a convocara para uma conversa naquela mesma biblioteca e plantara à sua frente o calhamaço de um acordo pré-nupcial. Num tom de voz direto, mas não belicoso, fora logo dizendo que a assinatura daquele documento não era “negociável”.
Mas agora, pela primeira vez na vida, a advogada parecia meio perdida, ligeiramente fora da sua zona de conforto.
– Heather? – disse Judith. – O que está acontecendo?
– Infelizmente vamos ter de adiar novamente a leitura deste testamento...
Judith olhou para Caroline. Nada. Olhou para Maya. Nada também. Então se voltou para Heather.
– Pode nos dizer por quê?
– Há certos protocolos que precisamos obedecer.
– Que tipo de protocolos?
– Nada que mereça a sua preocupação, Judith.
– Você me conhece, Heather. Sabe que não gosto de condescendência.
– Pois é, eu sei.
– Então responda: por que não podemos ler o testamento agora?
– Não é que não podemos – disse Heather, medindo as palavras.
– Então é o quê? – insistiu Judith.
– É apenas um probleminha... burocrático.
– Como assim?
– É que... bem, ainda não temos o atestado de óbito.
Silêncio.
– Faz quase duas semanas que meu filho morreu! – protestou Judith. – E foi enterrado!
Mas o velório havia sido com o caixão fechado, lembrou Maya. Não por decisão sua. Ela havia deixado aquela batata quente para a família de Joe. Eles que optassem pelo ritual que mais os consolasse. De qualquer modo, o mais sensato era mesmo o caixão fechado. Joe fora atingido na cabeça. Por mais competentes que fossem os agentes funerários, não havia muito o que fazer com uma cabeça desfigurada.
– Heather?
Judith de novo, espetando a advogada.
– Claro, claro, eu sei – disse Heather. – Fui ao enterro. Mas para um testamento ser validado é necessário o atestado de óbito. Ou outra prova qualquer. Este é um caso incomum. Pedi ao meu pessoal pra estudar melhor a legislação. Como Joe foi... assassinado, precisamos de algum tipo de atestado por parte da polícia. Acabei de ser informada de que eles ainda precisam de um pouco mais de tempo para emitir esse atestado.
– Quanto tempo? – perguntou Judith.
– Não sei. Um ou dois dias, imagino. Vamos ficar em cima deles.
Neil interveio pela primeira vez:
– Mas... qual seria exatamente o teor desse atestado? Você falou em provas. A polícia precisa provar que o Joe morreu, é isso?
Heather Howell começou a remexer na sua aliança de casamento.
– Pra falar a verdade, ainda não temos todos os fatos, mas antes que possamos validar este... Bem, digamos que tivemos um pequeno contratempo. Mas fiquem tranquilos. Meu pessoal já está em cima, vamos resolver isso rapidinho. Dou notícias muito em breve.
O silêncio foi geral. Heather rapidamente deu as costas para todos e foi embora sem mais dizer.