capítulo 12

– NÃO DEVE SER NADA – disse Judith, acompanhando Maya de volta ao foyer.

Maya permaneceu calada.

– Os advogados são assim mesmo. Fazem questão de que toda a papelada esteja na mais perfeita ordem. Não só pra proteger os clientes, mas sobretudo pra aumentar os honorários com o número de horas trabalhadas. – Judith tentou rir de si mesma, mas não foi muito longe. – Tenho certeza de que tudo não passa de uma bobagem. Um probleminha burocrático em razão das circunstâncias... – Dando-se conta de que estava falando de Joe, não apenas de um simples entrave jurídico, calou-se um instante, depois balbuciou: – Dois filhos...

– Eu sinto muito.

– Nenhuma mãe deveria passar por isso. Enterrar dois filhos.

Maya tomou a mão dela, dizendo:

– Não deveria mesmo.

– Do mesmo modo que uma mulher da sua idade não deveria enterrar uma irmã e um marido.

“O fantasma da morte persegue você, Maya.”

Talvez perseguisse Judith também.

Judith acarinhou a mão da nora uma última vez, depois disse:

– Vê se não some.

– Claro que não vou sumir.

Elas saíram para o sol. A limusine preta de Judith já esperava ao pé da escada. O motorista desceu e abriu a porta para a patroa.

– Traga a Lily qualquer dia desses.

– Trago sim, fique tranquila.

– E por favor... Procure se acertar com a Isabella.

– Assim que eu estiver com ela. Quanto antes, melhor.

– Vou ver o que posso fazer.

Judith se acomodou no banco traseiro do carro, e o motorista fechou a porta. Maya esperou que eles saíssem, depois foi para o próprio carro. Caroline esperava por ela.

– Você tem um minutinho? – perguntou.

“Na verdade, não”, pensou Maya. Estava ansiosa para sair dali e fazer o que tinha de fazer. Eram duas coisas: primeiro ela passaria novamente pela área dos criados na esperança de surpreender Rosa e conversar com ela; depois iria pessoalmente à Leather and Lace, a boate de striptease, na esperança de descobrir que interesse Claire poderia ter no lugar.

Percebendo a resistência da cunhada, Caroline disse:

– Por favor...

– Ok, tudo bem.

– Mas não aqui. – Caroline correu os olhos a seu redor. – Vamos dar uma volta por aí.

Maya engoliu um suspiro de desânimo e seguiu com ela pelo caminho de cascalho. Laszlo, o bichon havanês de Caroline, seguiu atrás. Não estava de coleira, mas isso não chegava a constituir um problema: afinal, para onde poderia fugir um cachorro na imensidão daquela propriedade? Maya por vezes se perguntava como teria sido crescer num lugar de tanta beleza e tranquilidade, em que tudo era seu para onde quer que você olhasse: gramados, jardins, árvores, casas...

Caroline dobrou para a direita com Laszlo a seus pés.

– Papai mandou construir este campo de futebol pro Joe e pro Andrew – disse ela sorrindo. – A quadra de tênis era pra mim. Eu gostava do esporte. Vivia treinando. Papai se deu ao trabalho de contratar o melhor professor de Port Washington pra me dar aulas particulares. Mas a verdade era que eu não amava a coisa, entende? Aí não tem jeito. Você pode treinar o quanto quiser. E olha que eu tinha talento, hein? Cheguei a vencer o campeonato do colégio. Mas, pra seguir na carreira, você precisa ter uma espécie de obsessão. Não dá pra inventar uma coisa dessas.

Maya assentiu com a cabeça, mas só porque não sabia o que mais fazer. Percebia que a cunhada estava preparando o terreno para dizer algo importante, mas não tinha como apressá-la. Teria de ser paciente. Laszlo trotava ao lado delas com a língua de fora.

– Mas o Joe e o Andrew... eles amavam futebol. De verdade. Os dois eram muito bons. Joe no ataque, como você deve saber, e o Andrew no gol. Você nem calcula quantas horas eles passavam neste campo, praticando pênaltis, o Joe chutando e o Andrew defendendo. Aquele gol fica a que distância da casa? Uns quatrocentos metros?

– Por aí.

– Mas eles riam tão alto que a gente escutava lá de dentro. Mamãe ia pra janela e ria também... – Lembrando-se dos irmãos, Caroline abriu o mesmo sorriso de Judith, ou um arremedo dele, por algum motivo menos magnético e sedutor que o original. Depois perguntou: – Você não sabe muita coisa a respeito do Andrew, sabe?

– Não, não sei – disse Maya.

– Joe não falava nele?

Falava, claro. Mais que isso, revelara um segredo enorme sobre a morte do irmão, um segredo que Maya não tinha a menor intenção de dividir nem com Caroline nem com qualquer outra pessoa.

“Todo mundo pensa que meu irmão caiu daquele barco...” Ela e Joe estavam num resort no Caribe, nus na cama, olhando para o teto do quarto. A janela estava aberta, deixando entrar a brisa que vinha do mar. Os olhos de Joe reluziam com o luar. Ela tomara a mão dele entre as suas. “A verdade é que... ele pulou.”

– Não, o Joe não falava muito do Andrew – disse Maya.

– Devia ser difícil, imagino. Os dois eram muito próximos. – Caroline parou de repente. – Por favor, não me entenda mal. Joe e Andrew me adoravam. Quanto ao Neil... bem, Neil era o irmãozinho caçula que eles toleravam. Mas eles não largavam um do outro. Estudavam na mesma escola quando o Andrew morreu, você sabia disso?

– Sabia.

– Na Franklin Biddle Academy, perto da Filadélfia. Moravam no mesmo dormitório, jogavam no mesmo time de futebol. A gente vivia aqui, nesse casarão enorme, mas eles faziam questão de dividir o mesmo quarto.

“Andrew se matou, Maya. Estava sofrendo a esse ponto, e eu nem percebi...”

– Maya... O que você achou dessa reunião de hoje? Desse... adiamento.

– Sei lá.

– Não tem nenhuma tese?

– A advogada disse que era apenas um entrave burocrático.

– Você acreditou?

Maya encolheu os ombros, dizendo:

– Bem, no Exército os entraves burocráticos eram praticamente a norma, então...

Caroline baixou os olhos para o chão.

– Que foi? – perguntou Maya.

– Você chegou a vê-lo?

– Quem?

– O Joe – disse Caroline.

Maya sentiu o corpo retesar da cabeça aos pés.

– Do que você está falando?

– Do corpo dele – Caroline respondeu baixinho. – Antes do enterro. Você chegou a ver o corpo do Joe?

Maya balançou a cabeça negativamente.

– Não, não vi.

– Você não acha estranho?

– Foi um velório de caixão fechado.

– Foi você que quis assim?

– Não.

– Então quem foi?

– Imagino que tenha sido sua mãe.

Caroline assentiu, achando que isso fazia sentido. Em seguida disse:

– Eu pedi pra vê-lo.

De um segundo a outro o silêncio que as cercava, antes tão acolhedor, tornou-se sufocante, opressivo. Maya precisou respirar fundo para encher os pulmões. Tinha uma relação ambivalente com o silêncio. Com todos os silêncios. Gostava deles ao mesmo tempo que os temia.

– Suponho que você já tenha visto muita gente morta na sua vida de capitã, não é?

– Aonde você quer chegar com isso, Caroline?

– Quando os soldados morrem... Por que é tão importante assim que os corpos sejam trazidos de volta pra casa?

Maya começava a impacientar-se.

– Não deixamos ninguém pra trás. Nunca.

– Eu sei, mas por quê? Sei que você vai dizer que é uma questão de respeito aos mortos, essa coisa toda, mas acho que não é só isso. O soldado está lá, morto. Não há mais nada a ser feito por ele. Mas aí vocês trazem o corpo de volta. Não por causa do morto em si, mas por causa da família dele, não é? Os familiares, os amigos... eles precisam ver esse corpo. Pra acreditar na morte dessa pessoa. Pra colocar um ponto final na história dela.

Maya não estava com cabeça para esticar o assunto.

– Aonde você está querendo chegar com essa história, Caroline?

– Eu não queria ver o Joe. Eu precisava vê-lo. Precisava concretizar a morte dele. Se a gente não vê o corpo, é como se...

– Como o quê?

– Como se a coisa não tivesse acontecido. Como se a pessoa ainda estivesse viva. A gente ainda sonha com ela.

– Também sonhamos com os mortos – argumentou Maya.

– Eu sei, eu sei. Mas é diferente se não fechamos a ferida. Quando perdemos o Andrew no mar...

De novo aquela escolha absurda de palavras, pensou Maya.

– ... também não vi o corpo dele.

– Espera aí – disse Maya, surpresa. – Por que não? O corpo foi recuperado, não foi?

– Pelo menos foi o que me disseram.

– Mas você não acredita?

– Eu era muito novinha – disse Caroline. – Não me levaram pra ver corpo nenhum. O velório também foi de caixão fechado. Sabe... às vezes tenho umas visões com ele. Uns sonhos. Até hoje. Sonho que o Andrew não morreu, daí acordo e vejo ele bem ali naquele campo de futebol, rindo e defendendo os seus pênaltis. Sei que ele não está lá. Sei que ele morreu num acidente. Mas ao mesmo tempo não sei, entende? Nunca consegui aceitar essa morte do Andrew. Às vezes fico achando que ele sobreviveu à queda, que nadou até uma ilha qualquer, que um dia vai voltar pra gente e tudo vai ficar bem outra vez. Mas se eu tivesse visto o corpo dele...

Maya nem sequer piscava.

– Então... eu sabia que dessa vez eu não poderia cometer o mesmo erro. Por isso pedi pra ver o corpo do Joe. Na verdade, implorei. Mesmo sabendo que ele estava desfigurado. Talvez até fosse melhor assim. Talvez isso tivesse me ajudado. Eu precisava ver o corpo pra ter certeza de que meu irmão realmente tinha morrido, entende?

– Mas não viu.

– Não deixaram.

– Quem não deixou?

Caroline escorregou os olhos para o gol no campo de futebol.

– Dois dos meus irmãos... Tão jovens ainda... Podia ser apenas uma questão de azar. Essas coisas acontecem, certo? Mas não vi o corpo de nenhum dos dois. Você ouviu o que a Heather disse? Ninguém quer declarar oficialmente que o Joe está morto. Meus dois irmãos... É como se... – Ela se virou de novo para Maya, fitou-a diretamente nos olhos. – É como se os dois ainda pudessem estar vivos.

Ainda imóvel, Maya disse:

– Mas não estão.

– Sei que parece maluquice, mas...

– É maluquice.

– Você teve uma briga com a Isabella, não teve? Ela nos contou. Falou que você estava descontrolada, dizendo que tinha visto o Joe. O que foi que aconteceu exatamente?

– Caroline, presta atenção. O Joe está morto.

– Como você pode ter certeza?

– Eu estava lá.

– Mas não viu ele morrer. Estava escuro. Você estava correndo quando o terceiro tiro foi disparado.

– Caroline, escuta. A polícia foi até o parque. Estão investigando o caso. Joe não se levantou e foi embora depois dos dois primeiros tiros que eu vi. Inclusive dois suspeitos já foram presos. Como você explica tudo isso?

Caroline balançou a cabeça.

– Que foi?

– Você não vai acreditar.

– Pague pra ver.

– O detetive que está encabeçando a investigação... – disse Caroline. – O nome dele é Roger Kierce, não é?

– Isso.

Silêncio.

– Caroline, fala!

– Você vai achar que enlouqueci de vez...

Maya estava a um passo de sacudi-la.

– Temos uma conta bancária. Não vou dar muitos detalhes, até porque não são importantes. Mas é uma conta praticamente anônima, impossível de identificar os titulares. Sabe do que estou falando?

– Sei. Mas... espera aí. Por acaso essa conta está no nome de uma empresa chamada WTC Limited?

– Não.

– Não é uma conta de Houston?

– Não. É de fora do país. Mas por que você perguntou de Houston?

– Deixa pra lá. Continua. Vocês têm essa conta no exterior.

Caroline encarou-a talvez um segundo a mais do que seria normal.

– Então. Outro dia fui examinar pela internet a movimentação dessa conta – disse ela. – A maioria das transferências era para outras contas numeradas ou holdings fora do país, essas operações que vão pingando por diversos lugares diferentes pra que ninguém consiga rastreá-las. De novo, os detalhes não são importantes. Mas também havia transferências nominais: diversos pagamentos feitos para um certo Roger Kierce.

– Tem certeza? – disparou Maya.

– Foi o que eu vi.

– Me mostra.

– O quê?

– Você tem acesso online a essa conta, não tem? – disse Maya. – Então me mostra.

No computador da biblioteca, Caroline digitou a senha pela terceira vez. E pela terceira vez recebeu a mensagem: senha inválida.

– Não estou entendendo... – resmungou ela.

Maya estava atrás da cunhada, observando o trabalho dela. Percebeu imediatamente que não podia se precipitar. Precisava refletir. Mas quanto à tal conta, não havia muito o que pensar. As possibilidades eram apenas duas: ou Caroline estava aprontando alguma, ou alguém havia trocado a senha para que ela não tivesse mais acesso às informações.

– O que foi exatamente que você viu? – perguntou ela.

– Aquilo que eu disse. Transferências bancárias em nome de Roger Kierce.

– Quantas?

– Não sei. Umas três, eu acho.

– De que valor?

– Nove mil dólares cada uma.

Nove mil. Claro. Transferências abaixo de dez mil não precisavam ser declaradas.

– O que mais? – perguntou Maya.

– Como assim?

– Quando foi feito o primeiro pagamento?

– Não sei.

– Antes ou depois da morte do Joe?

Caroline botou a cabeça para funcionar.

– Não posso jurar, mas... tenho quase certeza que o primeiro deles foi feito antes.

Havia dois caminhos a seguir.

O primeiro era o mais óbvio. Interpelar Judith. Interpelar Neil. Encostá-los contra a parede e exigir respostas. Mas essa abordagem mais direta tinha lá os seus problemas. Para início de conversa, nenhum dos dois estava em casa naquele momento: Judith saíra com o motorista, e Neil decerto já tinha ido trabalhar. E, mesmo que eles ainda estivessem por perto, o que ela poderia tirar deles? Se estivessem escondendo algo, dariam a mão à palmatória? Já não teriam apagado seus rastros muito tempo antes?

Rastros do quê?

O que poderia estar acontecendo ali? Que motivos teria a família Burkett para subornar o detetive responsável pela investigação do assassinato de Joe? Que sentido haveria nisso? Supondo que Caroline estivesse falando a verdade... Se os pagamentos tivessem começado antes do assassinato, bem... de novo, como eles poderiam saber que Kierce seria colocado na chefia da investigação? Não, aquilo não tinha pé nem cabeça. Além disso, Caroline nem tinha tanta certeza assim quanto às datas das transferências. Faria mais sentido (e nesse caso “mais sentido” ficava apenas um fiapo acima de “sentido nenhum”) se os pagamentos tivessem começado após o crime.

Mas com que finalidade?

O mais importante naquele momento era pensar longe. E quando procurou antever o que ganharia ao confrontar Judith e Neil, partindo do pressuposto de que eram eles que estavam por trás daquelas transferências, Maya concluiu que não valeria a pena. Abriria os próprios flancos e não receberia em troca nenhuma informação de grande valor. Teria de ser paciente. Preparar o terreno, descobrir mais coisas e, se necessário, atacar. Dizia-se que um bom advogado jamais fazia perguntas cujas respostas já não soubesse de antemão. Do mesmo modo, um bom soldado jamais partia para o ataque sem estar preparado para todas as reações possíveis.

Antes de tudo aquilo, ela já havia traçado um curso de ação: confrontar Isabella, depois descobrir por que Claire vinha ligando para a tal boate. Melhor ater-se ao plano original.

Ela foi para a casa da babá e bateu à porta. Foi Hector quem atendeu.

– Isabella não está – ele foi logo dizendo.

– A Sra. Burkett acha que devemos conversar, eu e a sua irmã.

– Ela saiu do país.

Mentira, pensou Maya.

– E quando é que ela volta?

– Não posso dizer. Por favor, não venha mais aqui – disse Hector, e fechou a porta sem nenhuma cerimônia.

Maya já esperava por isso. Voltando para o carro, contornou a caminhonete do jardineiro e, sem interromper a caminhada, plantou um rastreador GPS sob o para-choque. Tratava-se de um aparelho bastante simples e fácil de encontrar, vendido até em lojas de shopping. Bastava afixá-lo com os ímãs, depois baixar o aplicativo, abrir o mapa e ver exatamente por onde andava o veículo rastreado.

Maya não acreditava nem um pouco em Hector. Podia apostar que mais cedo ou mais tarde ele a levaria até a irmã. “Saiu do país porra nenhuma”, pensou.