capítulo 13

ESTÁ ENGANADO QUEM PENSA que uma boate de striptease só abre à noite. Eram onze da manhã, e a Leather and Lace já anunciava seu “farto bufê de almoço”. Ficava à sombra do MetLife Stadium, residência dos New York Giants e dos New York Jets. Não era a primeira vez que Maya pisava num lugar assim. Era nas boates que os seus companheiros de armas costumavam relaxar nos dias de folga, e ela os havia acompanhado uma ou duas vezes. Naturalmente essas casas tinham os homens como público-alvo, mas nem por isso as mulheres eram maltratadas como clientes. Pelo contrário. Recebiam um tratamento todo especial. As dançarinas ficavam alvoroçadas, só faltavam pular em cima. Maya tinha lá a sua tese particular: não achava que as garotas fossem lésbicas, mas, muito provavelmente, andrófobas.

A boate tinha como leão de chácara o armário de sempre: quase dois metros de altura, nenhum pescoço, cabelos raspados na máquina dois, camisa preta tão apertada que as mangas pareciam torniquetes na altura dos bíceps.

– Opa, bom dia – disse ele como se alguém tivesse lhe oferecido um drinque de cortesia. – Em que posso ajudar a madame?

Paciência, Maya.

– Eu gostaria de falar com o gerente.

Estreitando os olhos, ele a examinou de cima a baixo como se tivesse à sua frente um pedaço de carne.

– Tem referências? – perguntou.

– Eu gostaria de falar com o gerente – repetiu Maya.

O armário aquilatou-a mais duas ou três vezes, depois abriu seu melhor sorriso e disse:

– Você já está meio velha pra esse tipo de trabalho, mas... ainda dá um caldo.

– Puxa, obrigada. Isso é muito importante pra mim.

– Sério. Você é uma gata. Está com tudo em cima.

– Que bom. O gerente?

Entrando na boate, Maya surpreendeu-se ao constatar que o tal bufê de almoço era realmente farto. O lugar ainda estava relativamente vazio. Meia dúzia de clientes refestelavam-se na cadeira com a cabeça baixa. Duas mulheres dançavam no palco com o entusiasmo de pré-adolescentes em dia de prova de matemática; não pareceriam mais sonolentas nem se tivessem sido sedadas. Para Maya esse era o real problema com essas boates. Nada a ver com a moral, mas com a total ausência de erotismo. Uma amostra de fezes seria mais sexy.

O gerente foi logo pedindo para ser chamado de Billy. Estava usando uma malha de ioga com uma camiseta regata. Baixinho, rato de academia, dedos finos. As paredes do escritório haviam sido pintadas de verde-abacate. Monitores exibiam imagens dos camarins e dos palcos. Os ângulos das câmeras eram parecidos com os da creche, pensou Maya.

– Antes de mais nada – disse Billy –, devo dizer que você é uma gostosa. Muito gostosa.

– É o que tenho ouvido por aí – retrucou ela.

– Tem esse ar saudável, essa pegada mais musculosa que o pessoal gosta hoje em dia. Feito aquela lourinha do Jogos Vorazes. Como é mesmo o nome dela?

– Jennifer Lawrence.

– Não, não. Não estou falando da atriz, mas da personagem. É que aqui rola essa parada da fantasia, sacou? Você bem que poderia interpretar a... – ele estalou os dedos finos – Katniss! É esse o nome dela, não é? A gostosinha com roupa de couro, arco, flecha e o escambau? Katniss Ever-alguma-coisa. – Uma luz se acendeu de repente nos olhos dele. – Caralho, isso é muito bom. Escuta só. Em vez de Kat-niss, podemos chamar você de Gata-niss. Sacou?

Atrás deles uma mulher disse:

– Ela não veio aqui procurar trabalho, Billy.

Virando-se, Maya deparou com uma mulher que aparentava uns trinta e poucos anos, de óculos. Ela vestia um terninho classudo, muito bem-cortado, que destoava da boate tanto quanto um cigarro destoaria do consultório de um cardiologista.

– Como assim? – perguntou Billy.

– Não faz o tipo.

– Porra, Lulu. Isso não é justo. Você está sendo preconceituosa.

Dando uma espécie de sorriso para Maya, a mulher disse:

– Os tolerantes estão onde a gente menos espera. – E para Billy: – Deixa que eu cuido disso.

Billy saiu da sala, e Lulu se aproximou para examinar os monitores, clicando o mouse e circulando entre as diversas câmeras.

– Então, em que posso ajudá-la? – perguntou.

Não havia motivo para rodeios.

– Minha irmã costumava ligar pra cá. Estou tentando descobrir por quê.

– Aceitamos reservas. Talvez seja isso.

– Hmm, acho que não.

– Então não sei – disse Lulu, encolhendo os ombros. – Muita gente liga pra cá.

– O nome dela era Claire Walker. Isso te diz alguma coisa?

– Tanto faz. Mesmo que soubesse quem era, eu não diria. Você sabe o tipo de negócio que temos aqui. Temos orgulho da nossa discrição.

– Ter orgulho de alguma coisa é sempre muito bom.

– Dispenso ironias. Seu nome é...?

– Maya. Maya Stern. E minha irmã foi assassinada.

Silêncio.

– Ela tinha um telefone secreto – prosseguiu Maya, já sacando o aparelho e abrindo o histórico de chamadas. – Só ligava pra este número. Ou ligavam pra ela.

Lulu nem sequer baixou os olhos.

– Eu sinto muito – disse.

– Obrigada.

– Mas não posso te ajudar.

– De repente a polícia pode. Uma mulher tinha um telefone secreto. Só ligava pra cá. Depois foi assassinada. Eles vão virar esta boate pelo avesso, você não acha?

– Não, não acho. De qualquer modo, não temos nada pra esconder. E como você sabe que esse telefone era mesmo da sua irmã?

– Hein?

– Onde foi que você o encontrou? Na casa dela? Ela morava com alguém? Talvez esse telefone seja de outra pessoa, não dela. Ela era casada? Tinha um namorado? O telefone podia ser dele, não podia?

– Não é.

– Tem certeza? Absoluta? Afinal de contas... não seria a primeira vez que um homem frequenta uma boate de strip sem a mulher saber. Mesmo que você possa provar que este celular pertencia à sua irmã, muita gente usa o nosso telefone aqui: dançarinas, bartenders, garçons, funcionários da cozinha, faxineiros... Quando foi que sua irmã morreu?

– Quatro meses atrás.

– Apagamos as gravações das câmeras a cada duas semanas. Também por uma questão de discrição. Não queremos correr o risco de que alguém apareça com uma ordem judicial pra ver se o marido estava aqui. Portanto, mesmo que você quisesse ver as nossas gravações...

– Entendo.

Com um sorrisinho de condescendência, Lulu disse:

– Pena que não podemos te ajudar.

– Pois é. Estou vendo que você está arrasada.

– Agora, se você me der licença...

Maya deu um passo na direção dela.

– Por favor... Esqueça essa história de discrição, nem que seja por um segundo. Você sabe que não é pra isso que vim aqui. Minha irmã foi assassinada. A polícia está a um passo de desistir do caso dela. A única pista nova é este telefone. Então... vou apelar pra sua humanidade. Estou pedindo a você... implorando mesmo... por favor, me ajude.

– Sinto muito pela sua perda – disse Lulu, já saindo para a porta. – Mas não posso fazer nada.

Houve uma explosão de claridade quando Maya saiu para o estacionamento. Nas boates era sempre noite, mas no mundo real faltava pouco para o meio-dia. Ela protegeu os olhos como se o sol pudesse atacá-los a qualquer momento com um soco. Feito um Drácula arrastado para a luz do dia, já ia caminhando para o carro quando o armário de camisa preta perguntou às suas costas:

– E aí, conseguiu o trampo?

– Infelizmente não.

– Pena.

– Pois é, pena.

E agora, fazer o quê?

Bem, agora ela poderia levar o telefone para a polícia tal como ameaçara fazer. Mas, claro, teria de entregá-lo a Kierce. Poderia confiar no detetive? Boa pergunta. Das duas uma: ou ele vinha sendo subornado pelos Burketts, ou Caroline estava mentindo. Ou estava enganada. Tanto fazia. Ela não confiava em nenhum dos dois. Nem em Caroline, nem em Kierce.

Confiava em quem afinal?

Naquele momento seria arriscado confiar em quem quer que fosse, mas se havia alguém que ela acreditava estar falando a verdade, esse alguém era Shane. O que significava, claro, que ela teria de ser cautelosa. Shane era seu amigo, mas também era o sujeito mais correto do planeta, não gostava nem um pouco de sair dos trilhos, e ela já o havia obrigado a fazer um favor a contragosto. Naquela noite eles se encontrariam na linha de tiro. Talvez fosse o caso de falar com ele por lá. Pensando bem, não. Shane já vinha fazendo perguntas demais.

Opa, espera aí.

Maya ainda se debatia com o sol forte quando pensou ter visto algo no estacionamento. De início não deu muita bola. Estava longe, talvez estivesse enganada. Além disso, havia muitos iguais por aí.

Muitos Buicks vermelhos.

Este se achava na outra ponta do estacionamento, espremido entre uma cerca e um SUV enorme, um Cadillac Escalade. Maya olhou de volta para a boate e, mais ou menos como era de se esperar, surpreendeu o armário com os dois olhos plantados na sua bunda. Acenou para ele e seguiu caminhando na direção do Buick. Precisava ver se a placa era a mesma que Shane havia pesquisado.

Acima da tal cerca havia uma câmera de segurança. Paciência. Dificilmente haveria alguém do outro lado dela àquela hora. E, mesmo que houvesse, qual o problema? Ela dispunha de algo parecido com um plano. Num daqueles seus arroubos mais recentes de esperteza, comprara diversos rastreadores no shopping, decidida a não dar mole para o destino como tragicamente fizera outras vezes. Um deles, claro, estava na caminhonete de Hector.

Outro estava na sua bolsa, pronto para ser usado.

O plano era simples e óbvio. Primeiro ela precisava verificar a placa para ter certeza de que o Buick era o carro certo. Depois bastaria passar discretamente por perto e colar o rastreador sob o para-choque.

Essa segunda parte talvez fosse mais difícil do que parecia. O Buick estava parado num canto, paralelamente à cerca, e qualquer tentativa de passar por ele, caso alguém a visse, seria no mínimo estranha. Por sorte o movimento era pequeno no estacionamento. Os poucos carros que vinham chegando estavam parando do outro lado, e por mais natural que fosse frequentar uma boate de strip, a maioria das pessoas preferia entrar o mais rápido possível, evitando a curiosidade alheia.

Pois bem. A placa realmente era a mesma. WTC Limited. Uma empresa holding. Talvez a real proprietária da boate?

– Por aí não, meu amor.

Era o armário às costas dela. Maya virou-se para ele e fabricou um ­sorriso.

– Hein?

– Esta parte do estacionamento é exclusiva dos funcionários.

– Ah, é? – disse Maya. – Desculpa. É que às vezes fico confusa nos estacionamentos, sabe? – Aqui ela arriscou um risinho sonso, do tipo: “Sou mesmo uma cabeça de vento!” – Parei no lugar errado. Ou de repente queria tanto esse emprego que...

– Não, não parou.

– Hein?

– Você parou do lado de lá – disse o armário, apontando com o polegar grandalhão.

Maya o encarou. Ele a encarou de volta.

– Não deixamos ninguém entrar na área dos funcionários. Regras da casa. Sempre tem aquele sem-noção mais abusado que vem pra cá e fica esperando por uma das nossas dançarinas. Sabe como é... Outros querem anotar a placa do carro delas pra depois tentar entrar em contato. Tem vezes que a gente precisa escoltar as meninas até o carro, sacou?

– Saquei. Mas não sou nenhuma “sem-noção abusada”, sou?

– Não, não é.

Ela o encarou. Ele a encarou de volta.

– Vem comigo. Te acompanho até o carro.

Do outro lado da rua, a uns oitenta metros de distância, havia uma daquelas megalojas de material de construção. Maya entrou no amplo estacionamento e procurou a melhor vaga de onde pudesse ficar espiando a boate de longe. Sua esperança era que cedo ou tarde alguém saísse com o Buick e ela pudesse segui-lo.

Depois o quê?

Uma coisa de cada vez.

Mas... e a tal história de pensar longe na hora de arquitetar um plano?

Ela não sabia. Antevisão e prudência eram coisas ótimas, mas também havia aquela outra que se chamava “improvisação”. Seu próximo passo dependeria do que fizesse o Buick. Se, por exemplo, ele fosse para determinado endereço e de lá não saísse mais, o próximo passo talvez fosse tentar descobrir quem morava no tal endereço.

A clientela de uma boate de strip era composta quase inteiramente de homens, porém muito variada em termos de vestuário e tribos. Havia os operários de botinas e jeans, os executivos de terno, os largadões de bermuda e camiseta. Naquele dia em particular havia até um grupo de marmanjos em roupas de golfe, aparentemente recém-chegados do campo. De repente a comida no Leather and Lace era ótima, vai saber.

Passou uma hora. Quatro carros saíram da área de funcionários do estacionamento da boate, outros três entraram. O Buick Verano continuava firme no lugar.

Maya estava com tempo de sobra para ruminar os acontecimentos recentes, mas não era de tempo que ela precisava. Era de informações.

O Buick vermelho era arrendado em nome de uma empresa holding chamada WTC Limited. Seria essa tal WTC uma da muitas empresas da família Burkett? Caroline havia falado de pagamentos clandestinos, de contas e empresas anônimas. Seria a WTC alguma coisa assim? Claire ou Joe, eles conheciam o motorista do Buick?

Maya possuía diversas contas conjuntas com Joe. Abriu uma delas no aplicativo do telefone e consultou o extrato do cartão de crédito, cogitando se Joe teria visitado a Leather and Lace. Se tivesse, o pagamento não constava do extrato. Mas Joe, claro, não seria burro de pagar sua conta numa boate de strip justamente com aquele cartão. Além disso, as boates sempre usavam nomes diferentes nas suas operações de crédito, carecas de saber da curiosidade das esposas dos seus clientes.

Talvez houvesse algum pagamento em nome da WTC Limited. Talvez fosse esse o nome fantasma da boate. Num arroubo de esperança ela examinou novamente o extrato do cartão. Mas não encontrou nada.

A boate ficava em Carlstadt, Nova Jersey. Nenhum pagamento feito a estabelecimentos da cidade. De novo, nada.

Alguém estacionou nas imediações do Buick. Uma dançarina desceu do carro. Sim, Maya sabia que a moça era uma dançarina. Cabelos muito louros e compridos, shortinho entalado na bunda, peitos tão siliconados e altos que podiam fazer as vezes de um par de brincos. Ninguém precisaria de um radar especial, algo equivalente a um gaydar, para saber que ali estava uma stripper ou, quando nada, a mulher dos sonhos de qualquer adolescente de 16 anos.

A sinuosa dançarina entrou na boate pela porta dos fundos ao mesmo tempo que um homem saiu para o estacionamento, um barbudo de óculos escuros com um boné dos Yankees enterrado na cabeça. A barba era um tanto desgrenhada, não muito diferente daquelas que os jogadores de futebol deixavam crescer quando se viam numa maré de sorte nas fases finais do campeonato. Ele caminhava com a cabeça baixa e os ombros derreados como se quisesse passar despercebido. Maya redobrou a atenção. Não via quase nada do rosto do sujeito, mesmo assim tinha a leve impressão de que o reconhecia.

Ela deu partida no carro. Ainda com a cabeça baixa, o homem apertou o passo e entrou no Buick.

Então era ele.

Segui-lo seria arriscado. Ele poderia perceber que estava sendo observado, e ela poderia perdê-lo de vista. Talvez fosse melhor deixar as sutilezas de lado e cercá-lo ali mesmo no estacionamento da boate. Acuá-lo e exigir respostas. Mas esse caminho também tinha lá os seus problemas. A casa certamente contava com um forte esquema de segurança. O armário não demoraria a intervir. Ele e os outros. Boates estavam acostumadas a lidar com incidentes assim. Shane, que era da Polícia Militar, costumava dizer a mesma coisa que o armário. Sempre havia aquele cliente que ficava aguardando uma dançarina do lado de fora, na esperança de que ela estivesse interessada em outra coisa que não fosse a carteira dele. O que nunca era o caso. Por vezes a autoestima desses homens era tão baixa que resvalava para o delírio, fazendo com que eles se achassem irresistíveis com a mulherada.

Em suma: haveria segurança na boate. Melhor cercar o homem fora dela, certo?

O Buick vermelho saiu da vaga e seguiu na direção da rua. Atenta a tudo e a todos, Maya arrancou também e se misturou ao trânsito da Paterson Plank Road. Imediatamente ficou desconcertada. Por um instante achou que o barbudo tivesse hesitado como se já houvesse percebido sua presença. Estaria imaginando coisas? Difícil dizer. Estava uns três carros atrás do Buick.

Não demorou a perceber que havia embarcado numa canoa furada. Agora que tinha colocado seu plano em ação, enxergou outros tantos problemas que não tinha enxergado antes. Primeiro: o barbudo conhecia seu carro, já o havia seguido mais de uma vez, bastaria dar uma rápida olhada pelo espelho retrovisor para identificá-la. Segundo: era possível que ele já tivesse sido alertado (ou por Billy, ou por Lulu, ou pelo armário) sobre a visita dela à boate. Neste caso, estaria com as antenas ligadas e muito provavelmente já a teria visto. Terceiro: nada impedia que ele tivesse sido avisado da presença dela desde o início. Portanto, nada impedia que tivesse feito com ela o mesmo que ela havia feito com o jardineiro Hector, isto é, que tivesse colocado um rastreador GPS no seu carro.

Aquilo podia muito bem ser uma armadilha.

Ela poderia recuar, pensar melhor e voltar à Leather and Lace com um plano mais sólido. Mas... não. Bastava de passividade. Ela precisava de respostas. E se para obtê-las tivesse de jogar a prudência às favas, paciência.

Eles ainda estavam numa zona industrial. Maya sabia que perderia o Buick de vista caso ele entrasse na via expressa mais próxima, alguns quilômetros mais adiante. Sua arma estava logo ali, na bolsa. O sinal fechou, e ela viu o Buick parar na faixa da direita, o primeiro da fila. Sem pensar duas vezes, passou para a faixa da esquerda, pisou fundo no acelerador, ultrapassou os carros à sua frente, ultrapassou o Buick e, num golpe de direção, rodopiou na pista para bloqueá-lo.

Em seguida pegou a arma e desceu do carro com ela, procurando escondê-la. Tinha plena consciência de que estava correndo um risco enorme, mas tinha feito seus cálculos. Se o barbudo desse ré no Buick e tentasse fugir, ela atiraria nos pneus. Alguém chamaria a polícia? Provavelmente. Mas ela estava disposta a correr o risco. Na pior das hipóteses seria presa. Então contaria sobre o assassinato do marido, falaria que estava sendo seguida. Teria de fazer a viúva histérica, mas dificilmente seria detida ou algo assim.

Numa questão de segundos ela alcançou o Buick. Não conseguia ver o rosto do motorista em razão dos reflexos no vidro. Cogitou abordá-lo pela janela do motorista e ameaçá-lo com a arma, mas acabou optando pela porta do passageiro. Se a encontrasse aberta, poderia entrar. Caso contrário, mostraria a arma do outro lado da janela fechada.

Ela levou a mão à maçaneta. Porta aberta. Ela entrou e no mesmo embalo espetou a arma no boné do barbudo.

Sorrindo, ele se virou para ela e disse:

– Olá, Maya.

Ela arregalou os olhos, estupefata. O homem tirou o boné.

– Finalmente nos encontramos cara a cara – disse ele.

Maya precisou se conter para não atirar. Isso era o que mandava o instinto militar: matar o inimigo. Além do mais, quantas vezes ela já não havia sonhado com aquilo, com a oportunidade de pulverizar a cabeça daquele filho da puta?

Mas se fizesse isso, deixando de lado as questões morais e legais da coisa, ficaria sem as respostas de que tanto precisava. Agora, mais do que nunca, precisava saber a verdade. Porque o homem que a vinha seguindo no Buick vermelho, o homem que vinha secretamente falando com Claire nas semanas anteriores ao assassinato dela, era ninguém menos do que Corey Rudzinski, também conhecido como Corey, Boca no Trombone.