capítulo 15

AO CONTRÁRIO DO QUE sempre vemos no cinema, a sala do detetive Tom Douglass não tinha uma daquelas portas de vidro esmerilado com o nome dele em estêncil. Ficava na Northfield Avenue, num prediozinho de tijolos aparentes iguais a tantos outros em Livingston, Nova Jersey. O corredor cheirava a consultórios de dentista, o que não chegava a espantar, dado o número de odontologistas listados no quadro da portaria. Maya bateu na porta de madeira. Ninguém atendeu. Ela tentou a maçaneta. Sala trancada.

Na recepção da sala oposta, um homem de jaleco branco a observava do outro lado do balcão, sorrindo e manjando sua bunda com a sutileza de um martelo de forja. Ela devolveu o sorriso, apontou para a porta trancada e encolheu os ombros. O homem veio ao encontro dela e disse:

– Belos dentes.

– Puxa, obrigada – disse Maya, “encantadíssima” com o elogio, fazendo questão de manter o sorriso aberto. – Sabe dizer a que horas o Sr. Douglass volta?

– A boneca está precisando de uma investigaçãozinha?

A boneca mordeu o lábio inferior para indicar que se tratava de algo muito sério. E para se fazer de indefesa também.

– Ele já esteve aqui hoje? – perguntou.

– Faz semanas que não aparece. Deve ser ótimo. Sumir assim de vez em quando.

Maya agradeceu ao sujeito e foi saindo para o elevador. Ela o ouviu dizer um último gracejo às suas costas, ignorou-o solenemente e apertou o passo. Corey lhe havia passado o endereço residencial de Douglass, que ficava a uns cinco minutos dali. Com alguma sorte o encontraria por lá.

A casa do detetive particular era uma simpaticíssima Cape Cod pintada de azul com acabamentos em violeta. As janelas talvez fossem um tanto rebuscadas, mas sem grande prejuízo para a harmonia geral. Um barco de pesca esperava sobre um reboque ao lado da garagem. Maya deixou o carro na rua e desceu. Batendo à porta, foi atendida por uma mulher de uns cinquenta e poucos anos, vestindo um moletom preto.

– Pois não? – disse ela meio assustada.

– Bom dia – disse Maya, da maneira mais afável possível. – Eu gostaria de falar com Tom Douglass, ele está?

A mulher, que Maya supunha ser a Sra. Douglass, ainda a encarou por alguns segundos antes de responder:

– Não, não está.

– Sabe a que horas ele volta?

– Deve demorar.

– Meu nome é Maya Stern.

– Eu sei. Reconheci dos jornais. O que você quer com o meu marido?

Ótima pergunta.

– Posso entrar?

A mulher recuou para que ela passasse. Maya não tinha pensado em entrar. Estava apenas ganhando tempo, buscando a melhor maneira de lidar com a situação.

A Sra. Douglass conduziu-a através da sala até o escritório do marido. A decoração da casa tinha um tema acintosamente náutico. Peixes empalhados pendiam do teto por meio de arames. Nas paredes se viam redes e varas de pesca, salva-vidas antigos, um timão de escuna. Inúmeras fotos mostravam a família pescando em alto-mar. Nelas, Maya identificou dois filhos que já deviam ser adultos. Aquela gente realmente gostava de pescar. Maya não tinha lá muita afinidade com a coisa, mas ao longo dos anos notara que, em fotos, poucos sorrisos eram mais autênticos e luminosos que o dos pescadores posando ao lado dos seus pescados.

A Sra. Douglass cruzou os braços e ficou esperando.

Maya rapidamente percebeu que o melhor caminho seria a abordagem direta.

– Seu marido trabalha há muitos anos para a família Burkett – disse.

A mulher permaneceu muda.

– Gostaria de conversar com ele sobre isso.

– Hmm.

– Você sabe alguma coisa a esse respeito? Sobre o trabalho dele com os Burketts?

– Você é uma Burkett, não é?

A pergunta tomou Maya de surpresa.

– Por tabela, vamos dizer – respondeu ela. – Me casei com um deles.

– Foi o que pensei. Pelo que li, seu marido foi assassinado.

– Foi.

– Sinto muito – disse a mulher. Depois: – Você acha que meu marido pode saber alguma coisa sobre o assassinato?

Maya novamente foi surpreendida pelo modo direto da outra.

– Não sei.

– Mas foi por isso que você veio, não foi?

– Em parte.

– Infelizmente não sei de nada – disse a Sra. Douglass, balançando a ­cabeça.

– Pois é. Eu gostaria de falar com o Tom.

– Ele não está.

– Está onde?

– Saiu – disse a mulher, e deu um passo na direção da porta.

– Minha irmã também foi assassinada – disse Maya para detê-la. – Chamava-se Claire Walker. Esse nome lhe diz alguma coisa?

– Não. Por quê? Deveria?

– Pouco antes de ser morta, ela descobriu que os Burketts vinham fazendo pagamentos secretos pro seu marido.

– Pagamentos secretos? Não sei o que você está sugerindo com isso, mas acho melhor que vá embora.

– O que exatamente o Tom faz pra eles?

– Não faço a menor ideia.

– Tenho as declarações dele de imposto de renda dos últimos cinco anos.

Agora foi a vez de a Sra. Douglass se surpreender.

– Você... tem o quê?

– Mais da metade da renda do seu marido vem desses pagamentos. É muito dinheiro.

– E daí? Tom trabalha muito.

– Fazendo o quê?

– Como é que eu vou saber? E, mesmo que soubesse, não diria.

– Minha irmã achou alguma coisa estranha nesses pagamentos, Sra. Douglass. Alguns dias depois de descobrir sobre eles, foi torturada e morta com um tiro na cabeça.

A mulher do detetive abriu a boca num perfeito “O”.

– E você acha o quê? Que meu marido tem alguma coisa a ver com isso?

– Não foi isso que eu disse.

– Meu marido é um homem bom. Como você, era militar. – Com o queixo ela apontou para uma placa pendurada na parede do escritório na qual se via a insígnia dos contramestres da Marinha de Guerra americana, as duas âncoras cruzadas sobre o lema “Semper Paratus”, ou “Sempre a postos”. Maya tivera a oportunidade de conhecer alguns desses contramestres nos seus dias de capitã, sabia que se tratava de um posto honrado. – Depois de deixar a Marinha, ele trabalhou durante vinte anos na Polícia Militar. Aposentou-se mais cedo por causa de uma lesão no trabalho, depois abriu seu escritório particular. Tom é muito trabalhador.

– Mas o que ele faz para os Burketts afinal?

– Já disse. Não sei.

– Não sabe nem diria se soubesse...

– Exatamente.

– Mas seja lá o que for, esse trabalho dele tem rendido nove ou dez mil dólares mensais desde... Desde quando mesmo?

– Também não sei.

– Não sabe nem quando ele começou a trabalhar para os Burketts?

– O trabalho dele é confidencial.

– Seu marido nunca falou dos Burketts com você?

Pela primeira vez, Maya pensou ter visto uma pequena rachadura no escudo da mulher.

– Nunca.

– Onde ele está? O Sr. Douglass?

– Saiu e não sei quando volta. Aliás, não sei de nada – disparou a Sra. Douglass, já escancarando a porta para que Maya saísse. – Digo a ele que você esteve aqui.