capítulo 16
A MAIORIA DAS PESSOAS FAZ uma ideia já um tanto obsoleta do que é uma linha de tiro ou uma loja de armas. Imaginam peles de urso ou cabeças empalhadas penduradas nas paredes, rifles empoeirados expostos sem nenhum critério e um proprietário rabugento do outro lado do balcão, um ogro com um gancho no lugar da mão, vestido mais ou menos como o Hortelino dos desenhos animados ou como o mais casca-grossa dos metaleiros, desses que batem em mulher.
Hoje não é bem assim.
Maya, Shane e seus companheiros de caserna frequentavam um moderníssimo clube de tiro chamado RTSP, que significava Right to Self-Protect, ou Direito à Autoproteção (ou como brincavam alguns, Right to Shoot People, isto é, Direito de Atirar em Pessoas). Rifles empoeirados? Nem pensar. Por ali tudo brilhava como se recém-chegado da fábrica. Todos os funcionários vestiam uma camisa polo preta enfiada numa calça de sarja, todos sempre muito solícitos e prestativos. As armas ficavam expostas em vitrines não muito diferentes das de uma joalheria. Ao todo eram vinte linhas de tiro, dez de 25 jardas e outras dez de cinquenta. Um simulador digital funcionava mais ou menos como um videogame de dimensões naturais: algo parecido com uma tela de cinema exibia imagens de situações hostis (ataques de gangue, resgate de reféns, cenas do Velho Oeste, até mesmo uma invasão de zumbis) com alvos tridimensionais que vinham na direção do atirador, o qual se defendia com o “laser” de uma pistola com as mesmas dimensões e o peso de uma arma real.
Geralmente Maya ia ali para atirar com armas reais contra alvos de papelão ou apenas para encontrar os amigos, quase todos ex-militares como ela. O clube (não muito diferente de um clube de tênis, golfe ou bridge) oferecia exatamente o que anunciava: “conforto e estilo”. Possuía uma ala VIP apelidada de “Guntry Club” – uma brincadeira com a palavra “gun”, “arma”, e a expressão “country club” – da qual Maya fazia parte com direito a um desconto de quinze por cento por ser ex-militar.
Localizado na Route 10, o Guntry Club tinha lambris escuros em todas as paredes, e carpetes em todos os pisos; parecia um arremedo da biblioteca dos Burketts ou de uma steak house metida a besta. Uma mesa de bilhar ficava no centro da sala. Eram muitos os móveis de couro. Três das quatro paredes possuíam uma TV de tela grande; na outra eles haviam pintado em letra cursiva todo o texto da Segunda Emenda da Constituição americana. Havia ainda uma sala para os charutos, outra para o carteado, e o Wi-Fi era gratuito.
Rick, o proprietário, também sempre andava de polo preta e calças de sarja, mas com uma arma pendurada ao cinto. Assim que viu Maya, cumprimentou-a com um sorriso triste, depois disse:
– Que bom vê-la por aqui outra vez... Eu e o pessoal, quando soubemos da notícia...
– Obrigada pelas flores.
– Só um pequeno sinal do nosso carinho.
– Obrigada.
Meio sem jeito, Rick pigarreou e disse:
– Não sei se é o momento certo de falar nisso, mas... se agora você estiver precisando de um emprego com horários mais flexíveis...
Volta e meia ele lhe oferecia uma posição como instrutora na casa. O número de mulheres que compravam armas e frequentavam linhas de tiro vinha crescendo significativamente. Além disso, elas preferiam outras mulheres como instrutoras, das quais ainda não havia muitas.
– Vou pensar no assunto – disse Maya.
– Ótimo. Os rapazes estão lá em cima.
Além de Shane, havia mais três da gangue naquela noite. Estes foram para o simulador, e Maya desceu com Shane para a linha de 25 jardas. Ela tinha uma experiência zen quando atirava, encontrava uma espécie de descanso existencial naquele silêncio antes do disparo, no controle da respiração, no coice da coronha.
Terminada a sessão, ela subiu novamente com Shane para a sala VIP, onde era a única mulher. Era de se esperar que o preconceito contra as mulheres reinasse vergonhosamente num clube de tiro, mas não. Ali, só o que importava era se você atirava bem ou não. Além disso, o passado militar de Maya, senão o heroísmo, fazia dela uma celebridade local. Os homens se aproximavam com admiração. Alguns arrastavam certa asa, mas nunca a incomodavam, preferindo canalizar seus desejos secretos para uma relação absolutamente fraterna e casta. Ao contrário do que muitos acreditavam, os militares tinham um respeito enorme pelas mulheres.
Maya correu os olhos pelo texto pintado na parede:
Uma milícia bem-controlada, sendo necessária à segurança de um Estado livre, o direito do povo de manter e portar armas não deverá ser infringido.
Uma sintaxe no mínimo estranha para um texto constitucional. Maya era experiente o bastante para saber que não devia discutir com nenhum dos dois lados daquela polêmica quanto ao direito de portar armas. Seu pai, que era radicalmente contra, costumava dizer: “Você quer andar por aí com um fuzil de assalto? A que ‘milícia bem-controlada’ você pertence exatamente?” Seus amigos, que eram a favor, rebatiam com um “Que parte de ‘não deverá ser infringido’ você não está entendendo?”. Tratava-se, claro, de um texto passível de múltiplas interpretações que servia apenas para provar que as pessoas viam somente aquilo que lhes interessava ver: as que gostavam de armas liam nele uma coisa; as que não gostavam liam outra.
Shane buscou uma Coca-Cola para Maya. Bebidas alcoólicas não eram permitidas no local porque até mesmo os membros mais empedernidos concordavam que armas e álcool não faziam uma boa mistura. Os cinco companheiros sentaram-se juntos e começaram a jogar conversa fora. De modo geral, começavam com as notícias do esporte, mas não demoravam a buscar terrenos mais profundos. Para Maya, essa era a melhor parte. Ela era tida como “um dos rapazes”, mas só até certo ponto. Era mulher, e os amigos sempre pediam sua perspectiva feminina quando o assunto resvalava para os relacionamentos. A guerra sempre dificultava namoros e casamentos, o que não chegava a ser uma novidade. Por vezes dava margem a pretextos e desculpas esfarrapadas, sobretudo quando os soldados diziam que não eram compreendidos, que ninguém em casa fazia ideia do horror que eles passavam na linha de frente, mas de modo geral era um agravante concreto. Quem conhece de perto o inferno de uma guerra acaba vendo as coisas de outro jeito. Nem sempre de uma maneira mais óbvia, mas de outra mais sutil, uma questão de nuances e matizes. Coisas que antes tinham uma importância enorme deixam de ter, e vice-versa. Ninguém vê as coisas como você, somente os seus companheiros de tropa e infortúnio. É como naqueles filmes em que apenas o herói enxerga os fantasmas e todos os outros pensam que o sujeito ficou doido.
Mas entre aqueles cinco, todos enxergavam os mesmos fantasmas.
Sendo solteiro, e meio travado emocionalmente, Shane não se sentia muito à vontade nas conversas de natureza mais confessional. Então foi sentar-se num canto mais afastado e abriu seu livro para ler, o último de Anna Quindlen. A televisão mais próxima exibia o terceiro tempo do jogo entre os New York Knicks e os Brooklyn Nets. Leitor voraz (embora não tivesse a menor paciência com os livrinhos infantis, tal como já dera inúmeras provas na casa de Maya), era capaz de ler em qualquer lugar, até mesmo a bordo de um helicóptero onde o barulho dos rotores era tão alto que parecia vir de dentro da cabeça dos tripulantes.
Lá pelas tantas, Maya abandonou os outros e migrou para o lado dele. Shane baixou seu livro ao vê-la se aproximar, espichou as pernas compridas na banqueta de couro à sua frente e disse:
– Ótimo.
– Ótimo o quê?
– Você finalmente resolveu se abrir, imagino.
Não era bem o caso. Maya preferia deixá-lo de fora dos seus problemas pessoais. Para protegê-lo, como sempre fazia. Mas sabia que o amigo não deixaria barato. Além disso, deixá-lo totalmente no escuro talvez não fosse justo, nem prático. Ela cogitou contar que havia estado pessoalmente com Corey Rudzinski, mas não tinha a menor ideia de qual seria a reação dele. Provavelmente ficaria puto.
Além disso, Corey havia sido bastante direto com ela ao final do encontro: “Nada de telefones clandestinos. Se precisar falar comigo, ligue pra boate e peça pra falar com a Lulu. Se eu precisar falar com você, alguém liga da boate e desliga imediatamente. Esse será o sinal pra que você venha até aqui. Mas preste atenção: se eu achar que alguma coisa está pegando, vazo imediatamente. Talvez pra sempre. Portanto, bico calado.”
Bico calado. Num primeiro momento, esse parecia ser o caminho mais prudente a seguir. Ela não podia correr o risco de azedar sua relação com Corey e fazê-lo sumir do mapa, como ele havia prometido.
Mas havia outro caminho.
Shane plantou os olhos sobre ela e ficou esperando. Esperaria a noite inteira se preciso fosse.
– O que você sabe sobre o Kierce? – disse Maya afinal.
– O detetive que está investigando o caso do Joe?
– Isso.
– Não muito. Sei que ele tem uma reputação sólida, mas não é como se a gente, da Polícia Militar, convivesse diariamente com a Polícia Civil de Nova York. Por quê?
– Você lembra da Caroline, irmã do Joe?
– Lembro.
– Ela me disse que os Burketts vêm dando dinheiro pro Kierce.
Shane franziu o cenho.
– Como assim, dando dinheiro?
– Fizeram três pagamentos de nove mil dólares.
– Pra quê?
Maya encolheu os ombros.
– Caroline não sabe – disse ela, depois relatou tudo que a cunhada havia dito. Contou sobre a senha trocada, sobre sua decisão de esperar um pouco antes de interpelar Neil e Judith.
– Isso não faz nenhum sentido – disse Shane. – Que motivos a família Burkett teria pra subornar o Kierce?
– É isso que eu gostaria que você me dissesse – devolveu ela.
Shane refletiu um instante, depois disse:
– Os ricos são meio estranhos mesmo, a gente sabe disso.
– Pois é.
– Será que estão molhando a mão do homem pra que ele acelere as coisas na investigação? Pra que dê prioridade ao caso do Joe? Então estariam jogando dinheiro fora, pois o caso do Joe seria prioritário de qualquer forma. Será que são desses que acham que nada se resolve na polícia sem uma gorjetinha por fora?
– Sei lá. Mas tem mais.
– O quê?
– Caroline disse que os pagamentos começaram antes do assassinato.
– Caramba.
– Ou pelo menos ela acha.
– Só pode estar enganada. Isso não faz nenhum sentido. Por que diabo eles dariam dinheiro ao Kierce antes do assassinato?
– Sei lá – repetiu Maya.
– Eles não poderiam prever que o Joe seria morto e que o Kierce seria escalado pra investigar o caso. – Shane balançou a cabeça, dizendo: – Não. Isso só pode ter uma explicação e você sabe qual é.
– Não, não sei. Qual?
– Caroline está manipulando você.
Maya já havia levantado essa hipótese.
– Poxa – prosseguiu Shane –, aquela história de acessar a conta na sua frente e de uma hora pra outra, puf, a senha parou de funcionar? É muito conveniente, você não acha?
– Acho – disse Maya.
– Então ela está mentindo. Opa... espera aí.
– Que foi?
Shane virou-se para ela.
– Essa Caroline é meio lelé da cabeça, não é?
– Lelé é pouco.
– Então talvez não esteja mentindo – aventou Shane. – De repente imaginou a coisa toda. Pensa bem. A mulher já não regula direito. Daí o irmão é assassinado. Dias depois vocês se reúnem pra ler o testamento dele, mas a leitura é cancelada por causa de uma merda qualquer na papelada...
– Alguma coisa errada com o atestado de óbito.
– Então. É muito estresse pra uma pessoa assim... mais frágil.
– Você acha mesmo possível que ela tenha imaginado pagamentos pra um investigador da polícia?
– Por enquanto é uma hipótese como outra qualquer – disse Shane, recostando-se no sofá. – Maya... vou te pedir um favor: para com isso.
– Isso o quê? – disse ela, mesmo sabendo a resposta.
– Fico de estômago embrulhado quando você mente pra mim.
– Não estou mentindo pra você.
– Pode até ser. Mas também não está dizendo toda a verdade. O que é que você está segurando?
Talvez mais do que devia. De novo ela cogitou entregar todo o ouro, mas, como antes, preferiu obedecer à intuição e proteger o amigo. Se contasse sobre o telefone secreto de Claire, acabaria falando de Corey, o que ela ainda não queria fazer. Também não havia contado sobre o que vira na gravação da câmera escondida, mas isso também podia esperar. As coisas podiam ser ditas mais tarde, mas, uma vez ditas, não havia caminho de volta.
Shane se aproximou, olhou para os lados para ver se ninguém os espiava de longe, depois cochichou:
– Onde foi que você conseguiu aquela bala?
– Shane, esquece esse assunto.
– Fiz um grande favor pra você, não fiz?
– E agora está apresentando a conta?
A ferroada serviu para emudecê-lo, tal como Maya havia previsto. Ela reconduziu a conversa de volta para Caroline:
– É interessante, essa sua observação de que a Caroline está estressada. Porque ela não falou apenas sobre o Joe. Falou do outro irmão também.
– Do Neil?
– Não. Do Andrew.
– O que caiu do barco? – disse Shane, surpreso.
– Ele não caiu.
– Como assim?
Finalmente um assunto sobre o qual ela poderia falar sem reservas.
– Joe estava lá. No mesmo barco.
– Sim, mas e daí?
– E daí que ele me contou a verdade. Andrew se jogou no mar. Suicídio.
Shane desabou contra o sofá.
– Caralho.
– Pois é.
– A família sabe?
– Acho que não – disse Maya. – Sempre falam que foi um acidente.
– E a Caroline tocou no assunto ontem?
– Sim.
– Por quê? – perguntou Shane. – Andrew Burkett morreu faz o quê? Uns vinte anos?
– Por um lado acho natural.
– Por quê?
– Dois irmãos. Supostamente muito próximos. Os dois morreram muito novos e de forma trágica.
Shane assentiu, concordando com ela.
– Mais um motivo pra que ela se deixasse levar pela imaginação – disse ele.
– E ela nunca chegou a ver o corpo do Joe.
– Como é que é?
– A Caroline. Ela não chegou a ver o corpo do Joe. Nem o do Andrew. Disse que precisava disso pra cicatrizar a ferida. Primeiro um morre no mar, depois o outro é assassinado... e ela não viu o corpo de nenhum dos dois.
– Não estou entendendo – disse Shane. – Por que ela não viu o corpo do Joe?
– A família não deixou ou algo assim, sei lá. Mas se a gente procurar ver as coisas pelo lado dela... Dois irmãos mortos e nenhum cadáver. Caroline não viu nenhum deles no caixão.
Eles se calaram por um instante. Shane compreendia muito bem. Tanto ele quanto Maya já tinham visto a mesma coisa inúmeras vezes durante a guerra. Quando um combatente morria em ação, o mais comum era que os parentes não aceitassem o fato até que vissem uma prova concreta.
O corpo morto.
Talvez Caroline tivesse razão. Talvez isso explicasse por que os militares faziam questão de trazer todos de volta para casa, inclusive os mortos.
Foi Shane quem quebrou o silêncio:
– Quer dizer então que a Caroline está tendo dificuldade pra aceitar a morte do Joe...
– A morte dos dois – disse Maya.
– E ela acha que o homem que está investigando o assassinato do Joe está sendo subornado pela família dela.
Foi então que a ficha caiu para Maya, tão fortemente que por muito pouco ela não se desequilibrou.
– Meu Deus...
– Que foi?
Maya engoliu em seco. Tentou organizar as ideias, ligar os pontinhos. O barco. O timão na parede. Os troféus de pescaria...
– Semper paratus – disse ela.
– Hein?
Encarando-o, Maya repetiu:
– Semper paratus.
– É latim – disse Shane. – Significa “Sempre a postos”.
– Você sabe do que se trata?
O barco. Os troféus de pescaria. O timão e os salva-vidas. Mas sobretudo as âncoras cruzadas. Maya havia imaginado que as âncoras cruzadas fossem um emblema da Marinha, como geralmente eram. Mas não era apenas a Marinha de Guerra que distribuía comendas para os seus contramestres. A Guarda Costeira também.
– Sei. É o lema da Guarda Costeira.
A Guarda Costeira.
O braço das Forças Armadas com jurisdição tanto em águas domésticas quanto em águas internacionais, com jurisdição para investigar qualquer morte em alto-mar...
– Maya?
Ela se virou para o amigo, dizendo:
– Shane, vou precisar de mais um favor.
Shane não disse nada.
– Preciso que você descubra quem era o responsável pela investigação da morte do Andrew Burkett. Veja se não era um oficial da Guarda Costeira chamado Tom Douglass.