capítulo 17
COLOCAR LILY PARA DORMIR geralmente era uma tarefa simples. Maya conhecia todas as histórias de horror sobre criancinhas que torturavam os pais na hora de ir para a cama, mas com sua Lily era diferente. Era jogo rápido. Era como se ela já tivesse dado o dia por encerrado e estivesse pronta para virar a página. Bastava deitar a cabeça no travesseirinho para que a menina, puf, apagasse. Naquela noite em particular, no entanto, ela pediu uma historinha. Maya estava exausta, mas não a ponto de se furtar daquele que, pelo menos em tese, era um dos grandes prazeres da maternidade.
– Claro, meu amor, o que você quer que eu leia?
Lily apontou para um livro de Debi Gliori, e Maya começou a ler, rezando para que aquilo tivesse sobre a filha o efeito rápido de uma hipnose. Mas, ao que tudo indicava, era ela própria quem estava se deixando hipnotizar: volta e meia ela cedia ao peso das pálpebras e só retomava a leitura quando Lily a cutucava. Por sorte conseguiu chegar ao fim da história. Fechou o livro e já ia se levantando quando Lily disse:
– Mais, mais!
– Acho que já é hora de dormir, meu anjo.
Lily começou a chorar.
– Medo...
Maya sabia perfeitamente que em situações assim não era recomendável ceder ao impulso de deixar os filhos dormirem na cama dos pais, mas o que os manuais pedagógicos se esqueciam de levar em consideração era que todos os seres humanos, pais ou não, sempre escolhiam o caminho mais fácil quando estavam exaustos. Além disso, a menina acabara de perder o pai. Era novinha demais para entender o que estava acontecendo, claro, mas decerto havia alguma coisa ali, algum desconforto subconsciente, uma noção primitiva de que algo estava errado.
– Vem. Você hoje vai dormir com a mamãe – disse Maya, já tomando a filha no colo. Carregou-a para o próprio quarto, cuidadosamente acomodou-a no lado da cama que era de Joe, depois enfileirou travesseiros tanto na borda quanto no chão, por medo de que a pobrezinha rolasse no meio da noite. Ao cobri-la com os lençóis, teve um daqueles momentos de lucidez e desespero que cedo ou tarde acometem todos os pais, uma repentina consciência do amor que ela sentia por aquela criaturinha tão frágil e indefesa, seguida do medo incontrolável de que algo de mal pudesse acontecer a ela, um medo que chegava a paralisá-la de tão assustador. Como era possível ter filhos e relaxar num mundo tão cruel e perigoso?
Lily enfim adormeceu, e Maya permaneceu imóvel onde estava, apenas admirando o rostinho da filha, velando o sono dela, observando a respiração profunda e regular.
Assim ficou até que o encanto se desfez com o toque do celular. Com sorte seria Shane com uma resposta sobre Tom Douglass, embora ele tivesse dito que só poderia investigar o histórico militar do homem na manhã seguinte.
Pegando o aparelho, e vendo o nome da sobrinha no identificador de chamadas, Maya sentiu o coração bater mais forte dentro do peito: o medo de perder Alexa, ou de que algo ruim lhe acontecesse, era o mesmo que ela sentia em relação à própria filha. Atendeu rapidamente e foi logo dizendo:
– Está tudo bem com você?
– Hmm, sim – disse Alexa. – Por que não estaria?
– Por nada – respondeu ela, dando-se conta de que precisava se acalmar. – Então, minha linda, em que posso ajudar? Algum problema com os deveres da escola?
– Se fosse isso, você seria a última pessoa pra quem eu ligaria, né?
– Tem razão – riu Maya.
– Amanhã é dia de jogo.
– Jogo? De futebol?
– Isso. É uma parada chata pra caramba que a gente faz lá na escola, um campeonato entre os alunos de todos os anos. Uma festa com banda de música, barraquinhas, cama elástica, essas coisas. As crianças adoram.
– Ok.
– Você falou que anda ocupada, mas ia ser ótimo se você e a Lily pudessem ir.
– Ah.
– O papai e o Daniel também vão. O jogo do Daniel é às dez, e o meu, às onze. Acho que a Lily vai ficar amarradona com os brinquedos, com os balões... Todo ano o nosso professor de inglês faz uns bichos com aquelas salsichas de balão, sabe? A criançada adora. Além disso, a gente está morrendo de saudade da Lily.
Maya olhou para a filha, que dormia a seu lado, e novamente ficou com o coração apertado. Sabia que Lily adorava os primos Alexa e Daniel, queria muito que ambos sempre ocupassem um lugar importante na vida da menina. Não só queria, mas precisava.
– Tia Maya?
– Oi, estou aqui. Olha, que bom que a Lily já apagou, viu?
– Por quê?
– Porque se soubesse que vai ver os primos amanhã... ia ficar tão agitada que provavelmente passaria a noite em claro!
Alexa riu e disse:
– Ótimo, então até amanhã.
– Até amanhã.
– Ah, antes que eu me esqueça: o imbecil do meu técnico vai estar lá.
– Não se preocupe. Acho que a gente já se acertou um com o outro.
– Tudo bem. Então... boa noite, tia Maya.
– Boa noite, meu amor.
A noite foi difícil.
Os ruídos começaram justamente quando Maya estava naquela fronteira tênue entre a consciência e o sono. Não davam sinais de trégua. Pelo contrário, iam ficando cada vez mais altos, cada vez mais agressivos. Os berros, os rotores, os tiros. Maya não estava em casa, mas tampouco estava na guerra: estava suspensa naquele mundo intermediário, perdida e atordoada. Tudo era escuridão e barulho, uma algazarra incessante, interminável, como se alguma criatura pequenina tivesse invadido sua cabeça para um panelaço individual.
Não havia como escapar daquilo. Nenhuma possibilidade de pensamento racional. Nenhum aqui e agora, nenhum ontem ou amanhã. Tudo isso viria mais tarde. Por enquanto havia apenas a agonia daqueles ruídos que mutilavam seu cérebro como a foice de um ceifador. Maya apertava o crânio com ambas as mãos como se quisesse pulverizá-lo.
Sim, a situação havia chegado àquele ponto em que ela se dispunha a fazer qualquer coisa, qualquer coisa, para se ver livre do seu tormento. Se tivesse uma arma para dar fim àqueles ruídos, se soubesse onde estava e que bastava esticar o braço para abrir o cofre que tinha dentro da mesinha lateral...
Maya não saberia dizer quanto tempo já durava aquilo, minutos ou horas. A tortura lhe parecia interminável. O tempo perdia todo o seu significado diante dos ruídos. Não havia nada a fazer senão esperar e, com sorte, sair viva do outro lado.
Lá pelas tantas, porém, um novo ruído mais “normal” penetrou seu inferno auditivo. Parecia vir de muito longe. Demorava a alcançá-la e a se fazer notar. Precisava abrir caminho através dos demais ruídos, que eram ensurdecedores e incluíam, tal como ela podia perceber no limiar da consciência, os seus próprios gritos.
Uma campainha. E depois:
– Maya? Maya?
Shane. Ele começou a esmurrar a porta.
– Maya?
Ela abriu os olhos. Os ruídos não cessaram de imediato, mas foram calando-se aos poucos, atrevidamente, deixando claro que poderiam voltar a qualquer momento. Mais uma vez ela se lembrou da teoria segundo a qual os sons não morriam nunca: os ecos de um berro na floresta iam ficando cada vez mais fracos e distantes, mas não sumiam jamais. Assim eram os seus ruídos internos: jamais a abandonavam.
Maya olhou para sua direita, onde deixara Lily dormindo.
– Lily? – ela chamou com o coração na garganta. Rapidamente tentou se levantar, mas uma tonteira jogou-a de volta na cama. – Lily? – chamou novamente, desesperada.
A essa altura Shane já havia entrado com a chave que ela própria lhe dera para a eventualidade de uma emergência.
– Maya?
– Estou aqui! – gritou ela, e enfim conseguiu ficar de pé. – Lily? Cadê você? Lily, Lily!
A casa estremeceu quando Shane subiu a escada saltando os degraus de dois em dois.
– Ela está aqui! – gritou ele de volta. – Comigo!
Dali a pouco ele entrou no quarto com a menina no colo, e Maya por pouco não desmaiou de alívio.
– Ela estava no alto da escada – disse Shane.
Maya correu para junto da filha. Vendo que ela estava com o rostinho molhado de lágrimas, assustada com a mãe, concluiu imediatamente que a havia despertado com os próprios gritos. Para acalmá-la, plantou um sorriso entre os lábios e disse:
– Está tudo bem agora, meu anjo.
Lily enterrou o rosto no ombro de Shane.
– Desculpa, meu amor. Mamãe teve um pesadelo...
Ainda desconfiada, Lily fechou os braços em volta do pescoço de Shane, que olhava para Maya sem ao menos tentar disfarçar a pena que estava sentindo da amiga, a preocupação que o consumia. O coração de Maya se desmanchou em mil pedaços.
– Tentei ligar, mas você não atendia, então... – explicou ele. Em seguida, fabricando uma empolgação que não era do seu feitio, sugeriu: – Bem, que tal a gente descer pra cozinha e preparar um café delicioso, hein?
Lily ainda estava meio ressabiada, mas já começava a se recuperar do susto. Assim eram as crianças: absurdamente resilientes. Maya via nelas uma capacidade de reação que costumava testemunhar apenas nos melhores soldados.
– Ah, sabe aonde a gente vai hoje? – disse Maya, e viu a filha escorregar os olhos para seu lado. – Numa festa, lá na escola da Alexa e do Daniel! Vai ter balões, vai ter brinquedos...
Foi o que bastou para que a menina arregalasse os olhos. Maya continuou enumerando as maravilhas que estavam por vir, e numa questão de minutos a tempestade da noite se dissipou nas promessas de bonança do novo dia. Pelo menos para Lily. Para Maya o gostinho do medo continuaria amargando na boca por um bom tempo, sobretudo porque ela agora tinha visto esse mesmo medo estampado nos olhos da filha.
O que ela havia feito?
Shane nem sequer perguntou se ela estava bem. Ele sabia. Depois de instalarem Lily na cadeirinha com um prato de cereal à sua frente, eles se sentaram num canto mais afastado da mesa para conversar melhor.
– E aí, o bicho pegou essa noite? – perguntou Shane.
– Já passou.
Shane virou o rosto, contrariado.
– Que foi? – perguntou Maya.
– Ultimamente você nem pensa duas vezes antes de mentir pra mim.
Touché.
– Pois é, o bicho pegou – admitiu ela. – Satisfeito agora?
Shane virou-se novamente para ela. Queria abraçá-la, ela podia ver, mas abraços não faziam parte do repertório deles. Pena. Era exatamente disso que ela estava precisando naquele momento.
– Você precisa conversar sobre isso com alguém – disse Shane. – Que tal o Wu? – Wu era um dos psiquiatras do Departamento de Assistência aos Veteranos de Guerra.
– É. Vou ligar pra ele.
– Quando?
– Quando tudo isso acabar.
– Tudo isso o quê?
Maya não respondeu.
– Não é só em si mesma que você precisa pensar agora – arriscou Shane.
– O que você quer dizer com isso?
Ele apontou o queixo na direção de Lily.
– Golpe baixo, Shane.
– Paciência. Mas você agora tem uma filha pra criar sozinha.
– Eu me viro – disse Maya, e conferiu as horas no relógio. Nove e quinze. Ela procurou lembrar a última vez que isso tinha acontecido, a última vez que não havia acordado pontualmente às 4h58, mas não conseguiu. Depois ficou se perguntando sobre Lily. O que havia acontecido afinal? Ela teria acordado a filha com seus gritos? Lily teria tentado despertá-la do pesadelo? Ou apenas ficara ali, morrendo de medo da própria mãe?
Que espécie de mãe era ela?
“O fantasma da morte persegue você, Maya...”
– Eu me viro – repetiu ela. – Só preciso de um tempo pra resolver este assunto.
– “Resolver este assunto” significa descobrir quem matou o Joe, certo?
Ela não respondeu.
– Aliás, você estava certa – disse Shane.
– Sobre o quê?
– O motivo da minha visita. Você pediu que eu pesquisasse a ficha de Tom Douglass na Guarda Costeira.
– E...?
– Ele serviu por quatorze anos. Até virar detetive. E sim, era ele o responsável pela investigação da morte de Andrew Burkett.
Bum. Isso fazia sentido. Não, isso não fazia sentido nenhum.
– E qual foi o laudo dele, você sabe?
– Morte acidental. Segundo ele, Andrew Burkett caiu no mar durante a noite e se afogou. Provavelmente estava alcoolizado.
Ambos se calaram por alguns minutos, digerindo as informações.
– Que diabo está acontecendo, Maya?
– Não sei. Mas vou descobrir.
– Como?
Num gesto repentino, Maya sacou seu celular e ligou para a casa dos Douglass. Ninguém atendeu, então ela deixou um recado:
– Já sei por que os Burketts estão pagando vocês. Me liguem. – Em seguida deixou o número do seu celular e desligou.
– Como foi que você ficou sabendo da existência de Tom Douglass? – perguntou Shane.
– Não é importante.
– Acha mesmo? – devolveu ele. Depois levantou e começou a andar de um lado a outro na cozinha. Ninguém precisava conhecê-lo tão bem quanto Maya para saber que isso era mau sinal.
– Que foi? – perguntou ela.
– Liguei pro detetive Kierce hoje cedo.
Maya fechou os olhos e disse:
– Ligou pro Kierce? Por quê, Shane?
– Por quê? Talvez por causa daquela acusaçãozinha sem nenhuma importância que você fez contra ele ontem à noite.
– Quem acusou não fui eu. Foi a Caroline.
– Tanto faz. Eu só queria dar uma sondada no cara, ver qual é a dele.
– E aí?
– Gostei do que ouvi. Kierce me pareceu um cara direto, franco. Na minha opinião é a Caroline que está mentindo.
– Shane, por favor, deixa isso pra lá.
– Péééééém! – ele crocitou, imitando tanto quanto possível a campainha estridente de um game show da TV.
– Que foi? Ficou doido?
– Sinto muito, mas a resposta está... errada!
– Do que você está falando?
– Kierce se recusou a dar informações sobre o caso do Joe – disse Shane. – Exatamente como faria um bom policial, um policial que obedece às regras do jogo e não trabalha com propinas.
Maya não estava gostando nem um pouco do rumo que a conversa começava a tomar.
– Mas... – prosseguiu Shane com o indicador em riste – ele achou prudente me contar sobre um pequeno episódio que aconteceu outro dia bem aqui nesta casa.
Maya olhou de relance para Lily.
– Sobre a câmera escondida – disse ela.
– Exatamente – confirmou Shane, e ficou esperando uma explicação por parte da amiga, olhando fixamente nos olhos dela, mudo. Vendo que daquele mato não sairia coelho, perguntou: – Por que você não me contou nada?
– Eu ia contar, mas...
– Mas?
– Você já acha que estou desequilibrada.
Shane repetiu sua campainha irritante, depois disse:
– Errado. Tudo bem, acho que você precisa de ajuda...
– Pois é. Volta e meia você vem com essa história, botando pilha pra que eu procure o Wu... Ia pensar o que, se eu contasse que tinha visto meu marido morto na gravação de uma câmera oculta?
– Não ia pensar nada. Ia ouvir. Depois tentaria te ajudar a sair desse buraco.
Maya sabia que ele estava sendo sincero. Shane puxou sua cadeira, sentou novamente ao lado dela e disse:
– Vai. Desembucha. Quero saber exatamente o que aconteceu.
Não era mais o caso de continuar segurando informações. Maya enfim contou sobre a câmera escondida, sobre Isabella e o spray de pimenta, sobre as roupas que faltavam no closet de Joe, sobre a visita que ela havia feito à casa da babá na propriedade dos Burketts. Ao fim do relato, Shane disse:
– Essa camisa do Joe, eu me lembro dela. Se você realmente estiver imaginando tudo isso... por que ela não estaria no closet?
– Não faço a menor ideia.
Shane se levantou e foi saindo na direção da escada.
– Aonde você vai?
– Vou dar uma olhada nesse closet, ver se a camisa está lá.
Maya nem se deu ao trabalho de protestar. Shane era assim mesmo: ia fundo nas coisas. Dali a cinco minutos ele reapareceu na cozinha.
– Nada de camisa...
– O que não quer dizer nada – observou Maya. – Essa camisa pode ter sumido por um milhão de motivos.
Shane voltou a sentar, cruzou as mãos com os cotovelos plantados na mesa e assim ficou por cinco segundos... dez segundos... e depois:
– Vamos pensar alto.
Maya ficou esperando.
– Lembra daquilo que o general Dempsey disse quando visitou a gente no acampamento? – perguntou ele. – Sobre a imprevisibilidade da guerra?
Maya fez que sim com a cabeça. O general Martin Dempsey, presidente do Conselho Consultivo do Departamento de Defesa americano, costumava dizer que, de todos os empreendimentos humanos, o mais imprevisível era a guerra. No campo de batalha, a única certeza era a de que ninguém sabia o que estava para acontecer. Portanto era preciso estar preparado para tudo, inclusive para o impossível.
– Então vamos lá – prosseguiu Shane. – Digamos que você realmente tenha visto o Joe na tal gravação.
– Joe está morto, Shane.
– Eu sei, mas... só a título de exercício. Vamos começar do início, ok?
Maya revirou os olhos, impaciente.
– Onde foi que você viu essas imagens? Na televisão?
– No laptop. Basta plugar um cartão de memória.
– Ah, ok. Desculpa. O cartão de memória que a Isabella levou depois de usar o spray de pimenta, certo?
– Certo.
– Então. Você pluga o cartão no computador. Vê o Joe brincando com a Lily no sofá. Vamos eliminar o óbvio. Não existe a possibilidade de que seja uma gravação antiga, existe?
– Não, não existe.
– Tem certeza? Você falou que a Eileen te deu essa câmera oculta logo depois do enterro. Nada impede que alguém tenha colocado uma gravação antiga no cartão de memória. Uma gravação que alguém fez antes de o Joe morrer...
– Não, porque a Lily estava usando exatamente as mesmas roupas daquele dia. Além disso, a gravação foi feita exatamente do mesmo ângulo: do alto da prateleira. Pode até ser que haja algum truque. Sei lá, de repente alguém inseriu o Joe com um programa qualquer, tipo um Photoshop. Mas não era uma gravação antiga, disso eu tenho certeza.
– Tudo bem. Então podemos eliminar essa possibilidade – disse Shane, e novamente botou a cabeça para funcionar. – Digamos, apenas como conjetura, que era mesmo o Joe naquela gravação. Digamos que ele ainda esteja vivo. – Antes que Maya dissesse o que quer que fosse, ele ergueu a mão para silenciá-la. – Eu sei, eu sei. Tenha um pouquinho de paciência, ok?
Maya apenas encolheu os ombros como se dissesse: “E eu tenho outra escolha?”
– Como você faria? – disse ele. – Como você faria se fosse o Joe e quisesse forjar a própria morte?
– Forjar minha própria morte, depois o quê? Invadir minha própria casa pra brincar com minha filha? Sei lá, Shane. Por que você não diz logo? Aposto que tem uma tese.
– Não exatamente uma tese, mas...
– Espero que não envolva zumbis.
– Maya...
– Hmm.
– Você sempre recorre ao sarcasmo quando está na defensiva, sabia?
– Uau. Você e os seus cursinhos de psicologia.
– Você tem medo do que, Maya?
– De perder meu tempo. Mas tudo bem, Shane. Esquece os zumbis. Qual é a sua tese? Como você forjaria sua própria morte se fosse o Joe?
Shane agora mordia o lábio inferior com tamanha força que estava a um passo de tirar sangue dele.
– Talvez eu fizesse o seguinte – disse ele. – Talvez contratasse dois delinquentes de rua. Talvez desse uma arma com balas de festim pra cada um.
– Puxa...
– Deixa eu terminar. Mas vou pular os “talvez”, se você não se importar. Eu, Joe, armaria a coisa toda. Usaria cápsulas de sangue ou qualquer coisa parecida. Pra que tudo parecesse real. Era o Joe que gostava daquele canto do parque, não era? Ele conhecia as condições de iluminação. Sabia que estaria escuro o bastante pra que você não visse muito bem o que estava acontecendo. Pensa bem. Você acredita mesmo que aqueles dois pivetes estavam lá de bobeira? Não acha estranho?
– Espera aí. É isso que você acha estranho?
– Essa história toda de assalto. Nunca engoli direito.
Maya refletiu um instante. Kierce já havia descartado a hipótese de assalto após descobrir que Joe e Claire haviam sido mortos com a mesma arma. Mas Shane não sabia disso.
– Suponhamos que tenha sido mesmo uma encenação – prosseguiu Shane, preparando o terreno para outras especulações talvez mais ousadas. – Suponhamos que aqueles dois pivetes tenham sido contratados pra disparar festins e simular a morte do Joe.
– Shane...
– Fala.
– Você sabe que tudo isso é um grande absurdo, não sabe? Os policiais também estavam lá, esqueceu? Outras pessoas viram o corpo.
Shane novamente cravou os dentes no lábio. Refletiu um instante, depois disse:
– Muito bem. Uma coisa de cada vez. Em primeiro lugar, estas outras pessoas que viram o corpo. Claro, se você fosse a única testemunha, a coisa mudaria totalmente de figura. Então o Joe está lá no parque, caído no chão, coberto de sangue falso ou seja lá o que for. No escuro. Algumas pessoas o veem. Não que elas tenham se aproximado pra tomar o pulso dele ou coisa parecida...
Maya balançou a cabeça, dizendo:
– Você só pode estar brincando.
– Algum problema com a minha tese?
– Nem sei por onde começar! – devolveu ela. – E os policiais?
Shane estendeu os braços e disse:
– Não foi você mesma que falou das propinas?
– Para o Kierce. Seu novo amiguinho que obedece às regras e não trabalha com propinas.
– Posso estar enganado. Não seria a primeira vez. Talvez ele tenha armado a coisa toda de modo que fosse ele o plantonista na hora do assassinato. E o Joe, se realmente estivesse no comando da encenação, saberia exatamente pra onde ir e a que horas. Ou o Kierce deu um jeito de estar no plantão certo, ou então os Burketts pagaram os superiores dele pra colocá-lo nesse plantão.
– Você devia colocar isso tudo no YouTube, Shane. Feito aqueles malucos que acham que o 11 de Setembro foi uma armação do próprio governo americano.
– Só estou levantando hipóteses, Maya.
– Então deixa eu ver se entendi direito: você acha que todos ali estavam mancomunados. Os pivetes que o Kierce prendeu... Os policiais que apareceram por lá... O médico-legista... Afinal, pra que o Joe fosse dado por morto, alguém deve ter assinado a autópsia dele.
– Opa. Espera aí.
– Que foi?
– Você não disse que houve um problema com o atestado de óbito?
– Um problema burocrático, só isso. Agora para de morder esse lábio, por favor!
Shane quase sorriu.
– Minha tese tem buracos, eu sei. Mas posso pedir ao Kierce pra ver as fotos da autópsia.
– Claro que ele não vai deixar.
– Posso ser bastante convincente, sabia?
– Não se dê ao trabalho. Afinal de contas, se eles fizeram esse teatro todo, não teriam a menor dificuldade pra falsificar umas fotos de autópsia também, certo?
– Tem razão.
– Eu estava sendo sarcástica – riu Maya, depois balançou a cabeça, dizendo: – Ele está morto, Shane. O Joe está morto.
– Ou então está aprontando alguma com você.
Maya permaneceu muda por alguns segundos. Depois disse:
– Ou ele, ou alguém.