capítulo 19

A SRA. DOUGLASS JÁ HAVIA informado a polícia sobre o desaparecimento do marido, mas a verdade era esta: quando um homem de 57 anos sumia sem nenhuma suspeita de crime, havia pouco que a polícia podia fazer.

– Tom adora pescar – disse ela. – Às vezes fica semanas pescando. A polícia alegou que podia ser isso, mas falei que ele jamais ficaria tanto tempo longe sem me avisar. Então... – balbuciou ela, encolhendo os ombros num gesto de resignação. – Falaram que iam colocar o nome dele no sistema, seja lá o que isso signifique. Um dos detetives falou que eles poderiam abrir uma investigação formal, mas que precisariam de uma ordem judicial pra vasculhar os papéis dele.

Maya foi embora pouco depois. Estava farta de esperar. Ligou para Judith, que não demorou a atender.

– Estou com uma paciente – disse ela baixinho. – Algum problema?

– Precisamos conversar.

Seguiu-se uma pausa estranha, e Maya imaginou que a sogra psiquiatra estivesse se desculpando com sua paciente e saindo da sala para conversar melhor.

– Te espero aqui no consultório às cinco, pode ser?

– Fechado.

Maya desligou e em seguida ligou para Eddie; precisava buscar Lily.

– Deixa ela ficar – disse ele. – Está se divertindo à beça com a Alexa.

– Tem certeza?

– Ou você deixa a Lily com a gente mais vezes ou vamos ter de alugar uma criancinha de 2 anos, tão adorável quanto ela, pra vir aqui de vez em quando.

Maya riu e disse:

– Obrigada, Eddie.

– Tudo bem com você?

– Tudo, obrigada.

– Não faça o que ela fez, Maya.

– O quê?

– Mentir pra me proteger.

Ele tinha razão, mas, por outro lado, o que teria acontecido exatamente se Claire não o tivesse poupado?

Um carro se achava parado diante da casa dela. Entrando com o seu na garagem, ela deparou com um vulto familiar sentado no banco junto à porta dos fundos, fazendo anotações num bloco amarelo. Ficou se perguntando por quanto tempo ele estaria ali e, sobretudo, que diabo estaria fazendo ali.

Seria obra de Shane? Ou apenas uma coincidência?

Ela desligou o motor, e Ricky Wu ergueu a cabeça somente quando ela desceu do carro. Guardou sua caneta e abriu um sorriso que Maya não devolveu.

– Olá, Maya.

– Olá, Dr. Wu.

Ele não gostava de ser chamado de “doutor”, era um daqueles psiquiatras modernos que preferiam uma relação mais informal com as pessoas. O pai de Maya costumava ouvir uma canção dos Steely Dan chamada “Doctor Wu”. Talvez fosse por causa dela que o homem preferisse ser chamado de Ricky.

– Liguei e deixei vários recados – disse ele.

– Sim, eu sei.

– Pensei que fosse melhor vir pessoalmente.

– Pensou, é? – Maya sacou seu chaveiro, destrancou a porta e entrou em casa com Wu na sua esteira.

– Quis fazer uma visita de condolências – disse ele.

– Estou surpresa – retrucou Maya num tom de censura.

– Surpresa com o quê?

– Nunca pensei que você fosse capaz de recorrer a uma mentira pra ressuscitar nossa relação médico-paciente.

Se Wu ficou ofendido, seu sorriso não dava nenhum sinal disso.

– Podemos sentar um minutinho?

– Melhor não.

– Como você está, Maya?

– Estou bem.

Ele meneou a cabeça, depois arriscou:

– Nenhum... episódio recente?

Shane, só podia ser.

Wu não acreditaria se ela dissesse que os episódios haviam sumido por completo de uma hora para outra.

– Alguns – admitiu ela.

– Não quer falar um pouquinho sobre eles?

– Está tudo sob controle, não se preocupe.

Wu arqueou as sobrancelhas e disse:

– Agora sou eu que estou surpreso.

– Hmm.

– Surpreso que você seja capaz de ressuscitar nossa relação médico-paciente com uma mentira.

Ponto para o médico.

Wu tentou mais um dos seus sorrisos gentis. Maya estava prestes a mandá-lo embora quando, sem nenhum aviso, lembrou-se do rostinho assustado de Lily naquela manhã. As lágrimas brotaram imediatamente, queimando seus olhos, e ela procurou afugentá-las, dando as costas para o psiquiatra.

– Maya...

Engolindo o choro, ela disse:

– Isso não pode acontecer outra vez.

– Isso o quê? – perguntou Wu, aproximando-se.

– Assustei minha filha.

Maya contou sobre a noite anterior. Wu ouviu sem interrompê-la, depois disse:

– Talvez seja o caso de mudar sua medicação. Tenho usado o Serzone com muito sucesso em alguns pacientes com sintomas parecidos.

Maya simplesmente meneou a cabeça, emudecida pela emoção.

– Tenho umas cartelas no carro, se você quiser.

– Obrigada.

– Não precisa agradecer. – Ele deu mais um passo adiante. – Posso fazer uma observação?

Maya franziu o cenho, dizendo:

– Entregar o remédio e me deixar em paz... isso não vai rolar, vai?

– Nessa altura você já devia saber que tudo na vida tem um preço, certo?

– Tudo bem. Faz aí a sua observação.

– Você nunca tinha admitido que precisava de ajuda antes.

– Boa observação.

– Essa não é a minha observação.

– Ah.

– Você finalmente admitiu – disse Wu –, mas apenas porque precisa proteger sua filha. Não por você mesma, mas pela Lily.

– Outra boa observação – disse Maya.

– Você não está tentando se curar. Está tentando proteger sua filha. – Ele inclinou a cabeça daquele seu jeito de psiquiatra. – Quando vai parar de pensar assim?

– Quando é que um pai pode parar de pensar na proteção dos filhos? – replicou ela.

Touché – disse Wu, plantando ambas as mãos no balcão da cozinha. – Uma resposta pronta, mas pertinente. De qualquer modo, Maya, você precisa me ouvir. O primeiro T em TEPT significa “transtorno”. Você não pode simplesmente achar que basta falar duro pra sair dessa. Quer mesmo proteger sua filha? Então vai ter de se tratar.

– Tem razão – disse Maya.

– Viu? Não foi tão difícil assim.

– Vou marcar uma consulta.

– Por que não começamos agora mesmo?

– Não vai dar. Estou sem tempo.

– Mas essa primeira sessão vai ser rapidinha.

Maya refletiu um instante e pensou: por que não?

– Foi mais ou menos como nas outras vezes – disse ela.

– Mais intenso?

– Sim.

– Com que frequência você tem tido os episódios?

– Você fica falando em “episódios”, mas é só um eufemismo. A palavra correta é “alucinação”, não é?

– Não gosto dela. Não gosto das conotações que ela...

– Posso perguntar uma coisa? – interrompeu Maya.

– Claro.

Uma ideia súbita que ela decidiu levar adiante: já que o psiquiatra estava ali... por que não tirar proveito dele?

– Outra coisa aconteceu também, uma coisa relacionada com tudo isso.

Wu plantou os olhos nos dela e disse:

– Vai, fala.

– Uma amiga me deu de presente uma câmera oculta – começou ela.

Novamente Wu ouviu calado enquanto Maya contava sobre o que tinha visto na gravação. Nada se lia no rosto dele.

– Interessante... Isso aconteceu durante o dia, certo?

– Certo.

– Não de noite... – disse ele para si mesmo, e repetiu: – Interessante...

– Minha pergunta é a seguinte – adiantou-se Maya, impaciente. – Você acha que pode ser mais uma alucinação da minha parte, ou será mesmo uma armação por parte de outra pessoa, alguma coisa nesse sentido?

– Boa pergunta. – Wu sentou-se num dos bancos do balcão, cruzou as pernas, coçou o queixo. Maya sentou-se ao lado dele. – O cérebro humano tem lá os seus mistérios, claro. E na sua situação... Estresse Pós-traumático, uma irmã assassinada, um marido assassinado na sua frente, a pressão de cuidar sozinha de uma filha, a resistência à terapia... A conclusão mais lógica é que... Bem, como eu disse antes, não gosto das conotações, mas imagino que a maioria dos especialistas concordaria que você tenha tido mesmo uma alucinação. E as explicações simples geralmente são as melhores: você tanto queria ver seu marido outra vez que acabou vendo ele na tal gravação.

– A maioria dos especialistas... – disse Maya.

– Hein?

– Você disse: “a maioria dos especialistas concordaria...”. Não estou interessada na maioria dos especialistas. Quero saber o que você pensa.

Wu riu e disse:

– Fico quase lisonjeado.

Maya não disse nada.

– Você decerto acha que concordo com esse diagnóstico. Tem me evitado. Abandonou o tratamento antes da hora. Tem enfrentado um monte de pressões. Sente falta do seu marido. Não só perdeu a carreira que te definia, mas agora tem de criar uma filha sozinha.

– Ricky.

– Hmm.

– Sei que vem um “mas” por aí. Será que a gente pode pular direto pra ele?

– Acontece que você não sofre de alucinações. Tem flashbacks muito vívidos, o que é muito comum no TEPT. Alguns acreditam que esses flashbacks são semelhantes, senão idênticos, a alucinações. O perigo é que as alucinações podem levar a uma psicose. Mas esses episódios que você tem, sejam flashbacks ou alucinações, sempre foram apenas auditivos. Quando eles acontecem à noite, você não vê os mortos, vê?

– Não.

– Não é assombrada pelo rosto daquelas pessoas. Os três homens. A mãe. – Ele engoliu em seco. – A criança.

Maya não disse nada.

– Você ouve os gritos, mas não vê os rostos, certo?

– Sim, mas e daí?

– E daí que isso não é nada incomum. Trinta a quarenta por cento dos veteranos de guerra com TEPT sofrem de alucinações auditivas. No seu caso elas são exclusivamente auditivas. Não estou dizendo que você não “viu” o Joe – disse ele, abrindo e fechando as aspas com os dedos. – Provavelmente viu, sim. O que estou dizendo é que isso não é consistente com seu diagnóstico ou sua condição. Não tenho como validar a hipótese de que, por causa do TEPT, você imaginou ter visto seu marido num vídeo sem áudio.

– Trocando em miúdos: você acha que não imaginei aquilo.

– Isso que você chama de alucinações, Maya, são flashbacks. São recordações de coisas que realmente aconteceram. Você não vê nem ouve coisas que nunca aconteceram. – Silêncio. – Como você está se sentindo agora?

Maya refletiu um instante.

– Aliviada, eu acho.

– Não posso afirmar nada com certeza, claro. À noite... você ainda está naquele helicóptero?

– Sim.

– Do que você lembra exatamente? Vai, conta.

– O mesmo de sempre, Ricky.

– Você recebe o chamado de emergência. Os soldados estão acuados.

– Eu sobrevoo o local, abro fogo. – Ela queria acabar logo com aquilo. – Já te disse tudo isso.

– Eu sei. E depois, o que acontece?

– O que você quer que eu diga?

– Você sempre empaca aqui. Cinco pessoas foram mortas. Civis. Uma delas era a mãe de...

– Odeio isso.

– O quê?

– Todo mundo sempre diz: “Uma era mulher. Mãe de não sei quem.” Um jeito machista e idiota de ver as coisas, eu acho. Civil é civil. Aqueles homens também eram pais, mas ninguém nunca diz. “Mulher e mãe”, é sempre assim. Como se por algum motivo isso fosse pior do que “homem e pai”.

– Uma evasiva.

– O quê?

– Você se irrita com um detalhe semântico apenas para não ter de encarar a verdade.

– Puxa, detesto quando você fala assim. Que verdade é essa que eu não quero encarar?

Ele plantou sobre Maya aquele seu olhar de empatia. Maya detestava o olhar de empatia.

– Foi um erro, só isso. Você precisa se perdoar. É essa culpa que te assombra, Maya. É ela que às vezes se manifesta como flashbacks auditivos.

Maya cruzou os braços e disse:

– Que decepção, Dr. Wu.

– Por quê?

– Porque é muito raso. Eu me sinto culpada porque acidentalmente matei civis, e quando parar de me culpar, pronto, meus problemas acabaram.

– Não é bem assim – disse ele. – Não se trata de uma cura. Mas talvez você passe a dormir melhor.

Wu não compreendia. Mas também não tinha ouvido a gravação daquele dia. Se tivesse ouvido, isso mudaria algo no seu jeito de ver as coisas? Talvez sim, talvez não.

O celular de Maya tocou. Ela conferiu o identificador de chamadas.

– Ricky... desculpa, mas preciso buscar minha filha – mentiu. – Você pode me dar aqueles comprimidos de que falou?