capítulo 20
O IDENTIFICADOR DE CHAMADAS HAVIA informado: Leather and Lace. O próprio Corey havia instruído: se ligasse e desligasse imediatamente, isso era sinal de que eles precisavam se encontrar.
Assim que ela parou no estacionamento da boate, o leão de chácara se debruçou na janela do carro e disse:
– Que bom que você conseguiu o trampo.
Ouvindo isso, Maya rezou para que o sujeito estivesse por dentro das coisas e não achasse realmente que um disfarce de stripper era realista para ela.
– Pode estacionar na área dos funcionários e usar a entrada dos fundos.
Maya obedeceu. Quando desceu do carro, foi cumprimentada por duas sorridentes “colegas” e, fiel a seu personagem, sorriu e acenou de volta. Deparando com uma porta trancada, olhou para a câmera de segurança e ficou esperando. Segundos depois ouviu o clique característico das portas automatizadas. Do outro lado havia um segundo homem, que a encarou com frieza.
– Está armada?
– Estou.
– Então deixa comigo.
– Não – disse Maya.
O homem não gostou da resposta, mas alguém disse às costas dele:
– Pode deixar. – Era Lulu. – Mesma sala de antes. Ele já está esperando.
– Então... ao trabalho – brincou Maya.
Lulu riu e se afastou. Ainda no corredor, Maya pôde sentir a maré de maconha. Corey aparentemente acabara de acender seu beque quando ela entrou na sala.
– Um tapinha? – ofereceu ele.
– Não, obrigada – disse Maya. – Você chamou?
Corey prendeu a fumaça na boca e fez que sim com a cabeça. Soprou-a, depois disse:
– Sente-se.
Assim como da outra vez, Maya fez uma careta de nojo para o estofamento do sofá.
– Ninguém usa esta sala além de mim – disse Corey.
– Isso muda alguma coisa? – devolveu ela.
Ficou esperando um sorriso que não veio, porque Corey se levantou e começou a andar de um lado para outro, visivelmente preocupado. Maya sentou-se, esperando que isso o acalmasse pelo menos um pouco.
– Você esteve com Tom Douglass? – perguntou ele.
– Mais ou menos.
– Como assim?
– Estive com a mulher dele. Faz três semanas que Tom Douglass está desaparecido.
Corey parou onde estava.
– Onde ele se meteu?
– Que parte de “desaparecido” você não entendeu, Corey?
– Caramba. – Ele deu mais um tapa no baseado. – E aí, você descobriu por que os Burketts estavam pagando ele?
– Em parte – disse ela. Ainda não sabia se podia confiar no homem, mas, pensando bem, que mais ela poderia fazer naquele momento? – Tom Douglass servia na Guarda Costeira.
– E daí?
– Foi ele quem investigou a morte de Andrew Burkett.
– De que diabo você está falando?
Maya dividiu com ele tanto o que havia descoberto por conta própria quanto o que Joe havia contado sobre o suicídio do irmão. Corey ouviu tudo com atenção, sempre balançando a cabeça, um tanto agitado demais. Aparentemente a onda do cigarro ainda não havia batido.
– Então... recapitulando – disse ele, e voltou a perambular. – Sua irmã começa a investigar e tropeça nos pagamentos que os Burketts vinham fazendo pra Tom Douglass. Bum! Dali a pouco ela é torturada e assassinada. Bum! Tom Douglass some do mapa. É isso?
A cronologia dos fatos não estava lá muito correta. Não era Claire, Joe e Tom. Era Claire, Tom e Joe. Maya não se deu ao trabalho de corrigi-lo. Em vez disso, falou:
– Tem mais uma coisa que precisamos levar em consideração.
– O quê?
– Ninguém mata outra pessoa só pra esconder o suicídio do filho. Pode até subornar, mas matar... não.
– Tem razão, tem razão – disse Corey, tão agitado quanto antes. – Muito menos em se tratando dos Burketts. Eles não matariam um dos seus.
Maya notou que os olhos do homem estavam vermelhos, mas não sabia dizer se era porque ele vinha fumando ou chorando.
– Corey...
– Sim?
– Você e sua equipe têm as suas fontes. Fontes confiáveis. Preciso que vocês investiguem a vida de Tom Douglass.
– Já investigamos.
– Investigaram semanas antes, procurando por pistas quanto ao trabalho dele. Agora precisamos de mais: extratos de cartões de crédito, movimentação da conta corrente, hábitos comportamentais, lugares que ele costumava frequentar... Precisamos encontrar esse homem. Você acha que pode ajudar?
– Claro, claro, posso sim – disse Corey, ainda andando em círculos.
– O que mais está te preocupando? – perguntou Maya.
– Acho que vou ter de sumir outra vez.
– Por quê?
Quase num sussurro, Corey respondeu:
– Algo que você disse da última vez que esteve aqui.
– O que exatamente?
Ele olhou para a direita, depois para a esquerda.
– Posso evaporar a qualquer momento – disse. – Tenho até saídas secretas.
Maya ficou sem saber o que dizer.
– Ok... – foi só o que lhe ocorreu.
– Ali naquela parede, por exemplo, tem uma porta secreta. Posso ficar escondido, ou então seguir por um túnel até o rio. Se a polícia cercar este lugar, mesmo que na encolha, posso fugir. Você ficaria de queixo caído se soubesse tudo que implantei aqui pra proteger meu pescoço.
– Imagino. Mas ainda não sei por que você precisa sumir.
– Um vazamento! – exclamou Corey, cuspindo a palavra como se tivesse nojo dela. Talvez tivesse mesmo, pensou Maya. – Você foi a primeira pessoa a levantar essa hipótese, certo? Falou que alguém da minha própria organização poderia ter vazado o nome da Claire. Fiquei pensando nisso. Muito. Digamos que esta minha organização não seja tão... hermética quanto eu imagino que seja. Já pensou quantas pessoas poderiam ser expostas nesse caso? Já pensou nos riscos que essas pessoas correriam no caso de um vazamento? Risco de morte, até.
Uau. Maya precisava acalmar a fera.
– Não creio que tenha sido um vazamento, Corey.
– Por que não?
– Por causa do Joe.
– Não entendi.
– A Claire foi morta. O Joe foi morto. Você mesmo disse: era bem possível que o Joe estivesse ajudando minha irmã. Esse é o vazamento que você está procurando. Claire contou pro Joe. Com certeza contou pra outra pessoa também. Ou o Joe contou. Ou de repente os dois fizeram alguma bobagem enquanto estavam investigando.
Se isso era verdade ou não, tanto fazia para Maya. O que ela queria naquele momento era evitar de qualquer jeito que o homem evaporasse outra vez.
– Sei não... – disse Corey. – Não me sinto seguro.
Maya ficou de pé e pousou as mãos nos ombros dele, dizendo:
– Preciso da sua ajuda.
Sem fitá-la diretamente nos olhos, Corey disse:
– Talvez você tenha razão. Talvez seja melhor envolver a polícia. Como você mesma sugeriu. Passo pra eles todas as minhas informações. Anonimamente. Depois a bola vai estar com eles.
– Não – disse Maya.
– Achei que era isso que você queria.
– Não mais.
– Por quê?
– Não há como fazer isso sem que você exponha a si mesmo e à sua organização.
Corey franziu o cenho e só então a encarou.
– Você se preocupa com a minha organização?
– Nem um pouco – disse Maya. – Mas você vai me deixar na mão se fizer isso. Vai sumir. Preciso de você, Corey. Juntos nós podemos ir muito mais longe que a polícia.
Ela se calou de repente, e ele perguntou:
– Que foi? Tem mais alguma coisa, não tem?
– Não confio neles.
– Na polícia?
Ela fez que sim com a cabeça.
– Mas confia em mim?
– Minha irmã confiou.
– E acabou assassinada por causa disso – afirmou Corey.
– Eu sei. Mas não adianta andar pra trás. Sim, se você não tivesse convencido a Claire a botar a boca no trombone, é bem provável que ela ainda estivesse viva. Se eu não tivesse matado civis naquele helicóptero, você nunca teria publicado aquela gravação e a Claire nunca teria procurado você. Ou então... Se eu tivesse escolhido outra carreira, a Claire provavelmente não estaria apodrecendo debaixo da terra a essa hora, mas brincando com os filhos em casa. O que passou, passou, Corey. Não adianta conjeturar sobre o passado. É perda de tempo.
Corey recuou um passo e deu mais um trago profundo na maconha. Assim que pôde falar outra vez, disse:
– Não sei o que fazer.
– Não suma de novo. Investigue o Tom Douglass. Me ajude a solucionar esse mistério.
– E você acha que devo simplesmente confiar em você.
– Você não precisa simplesmente confiar em mim, esqueceu?
– Claro – disse ele. – Porque você ainda tem o rabo preso comigo.
Maya não disse nada. Corey voltou a encará-la. Certamente queria perguntar algo sobre o áudio da gravação que tinha em seu poder. Mas ela foi mais rápida. Também tinha uma pergunta a fazer.
– Por que você não publicou o áudio?
– Já expliquei.
– Falou que minha irmã te persuadiu.
– Isso mesmo.
– Mas não sei se acredito. Claire demorou a te encontrar pessoalmente. A história tinha feito um barulho grande, mas àquela altura já começava a perder destaque. O áudio teria colocado você de volta nas manchetes dos jornais.
– Você acha que é só esse o meu interesse? Estar nas manchetes dos jornais?
De novo Maya não se deu ao trabalho de responder.
– Sem as manchetes, a verdade nunca vem à tona. Sem as manchetes, não conseguimos conquistar novos colaboradores.
– Mais um motivo pra que você publicasse o áudio, Corey. Por que não publicou?
Ele foi para o sofá, sentou e disse:
– Porque também sou um ser humano. – Em seguida deixou a cabeça cair entre as mãos e assim ficou por alguns segundos. De repente respirou fundo, reergueu-se e, já mais calmo, com os olhos menos vermelhos, disse: – Achei que você seria obrigada a conviver diariamente com a lembrança do que fez, Maya. Há casos em que isso basta como punição.
Maya sentou ao lado dele, mas não disse nada.
– E aí? – perguntou ele. – Como você faz pra viver com seu passado?
Se Corey queria uma resposta realmente sincera, teria de pegar sua senha e entrar naquela fila que já ia longe de tão comprida. Por um bom tempo eles permaneceram calados, a música da boate aparentemente a quilômetros de distância. Nada mais a descobrir ali, pensou Maya. De qualquer modo, já estava quase na hora do seu encontro com Judith. Ela se levantou do sofá e, à porta da sala, disse:
– Veja o que consegue descobrir sobre o Tom Douglass, ok?