capítulo 22

LILY E EDDIE BRINCAVAM de pique-pega no jardim dianteiro da casa quando Maya dobrou a esquina, reduziu a velocidade e estacionou. Por alguns minutos ela permaneceu no carro, observando de longe. Viu Alexa sair para o jardim e se juntar à farra, tanto ela quanto o pai fingindo ser impossível pegar Lily, dramaticamente caindo no chão pouco antes de tocá-la, e mesmo de dentro do carro, com as janelas fechadas, Maya podia ouvir as gargalhadas e os gritinhos estridentes da filha. Sentimentalismos à parte, haveria no mundo algo mais exultante do que as risadas desabridas de uma criança? Era difícil. E nada mais longe delas do que a maldita cacofonia que frequentemente vinha de muito longe para lhe roubar a paz e o sono da noite. Mas não era o caso de pensar nisso agora.

Plantando um sorriso no rosto, ela conduziu o carro até a casa da irmã, deu uma pancadinha na buzina e acenou com a mão. Eddie, vermelho de tanto correr, virou-se para trás e acenou de volta. Alexa também parou onde estava, interrompendo a brincadeira. Lily não gostou nem um pouco: começou a bater na perna da prima, desafiando-a para uma nova perseguição.

Maya desceu do carro. Eddie e Alexa se adiantaram para recebê-la. Lily cruzou os braços, armou um beiço gordo e foi logo dizendo:

– Não vou!

– A gente continua brincando quando chegar em casa – disse Maya, já imaginando que isso de nada adiantaria para apaziguar a filha.

Eddie pousou a mão no braço dela e disse:

– Você tem um minuto? Quero te mostrar uma coisa. – Ele se virou para a filha. – Alexa, você se importa de ficar com a Lily só mais um pouquinho?

– Claro que não.

Foi o que bastou para que um sorriso despontasse nos lábios da menina. E as gargalhadas já haviam recomeçado quando Maya entrou em casa com o cunhado.

– Dei uma olhada nos extratos do cartão de pedágio da Claire – disse Eddie. – Pelo que vi, ela visitou o tal Douglass duas vezes na mesma ­semana.

– Isso não chega a me surpreender – disse Maya.

– Imagino que não. Mas talvez se surpreenda quando souber aonde ela foi depois da segunda visita. – Ele havia imprimido um dos extratos. Entregou-o a Maya e apontou para alguns itens realçados em amarelo. – Uma semana antes do assassinato – disse –, Claire vai até Livingston. Está vendo o horário?

Maya fez que sim com a cabeça: 8h46.

– Mas depois ela não voltou pela Via Expressa – prosseguiu Eddie, apontando para o item seguinte. – Está vendo aqui? Às 9h33 ela foi pra Parkway. Não voltou pra casa. Seguiu na direção sul, tomou a saída 129, foi pra New Jersey Turnpike e tomou a saída 6.

Maya sabia que a saída 6 dava acesso à Pennsylvania Turnpike.

– E depois? – perguntou.

– Olha aqui. Depois ela entrou na Interstate 476 e continuou descendo.

– Na direção da Filadélfia.

– Ou da grande Filadélfia.

Maya devolveu o extrato, depois disse:

– Que motivo ela poderia ter tido pra fazer isso?

– Que eu saiba, nenhum.

Maya nem se deu ao trabalho de perguntar se havia alguma amiga de Claire na região, ou algum shopping que ela pudesse ter visitado, ou algum estranho motivo para que de repente ela resolvesse visitar o Independence Hall. Sabia que a irmã não tinha se despencado até a Filadélfia para nada disso. Claire havia conversado com Tom Douglass. Decerto descobrira algo com ele, e era nesse algo que estava a chave do mistério.

Maya fechou os olhos.

– Que foi? – perguntou Eddie. – Lembrou de alguma coisa?

– Não, não – disse ela. – Continuo no escuro.

Não lhe restava outra opção senão mentir novamente para o cunhado.

Porque uma centelha, ainda que muito distante, havia espocado em sua cabeça.

Tal como Caroline comentara dias antes, na época em que Andrew morreu, tanto ele quanto Joe ainda estavam no colégio, mais exatamente na Franklin Biddle Academy, um internato de elite frequentado apenas por quatrocentões.

Localizado nas imediações da Filadélfia.

Voltando para casa, ela recebeu uma chamada de Eileen.

– Lembra quando a gente costumava pedir comida chinesa toda quarta-feira?

– Claro que lembro.

– Estou pensando em retomar a tradição. Está em casa?

– Chegando.

– Ótimo – disse Eileen, um tanto empolgada demais. – Vou levar os seus pratos prediletos.

– Eileen... algum problema?

– Chego em vinte minutos.

Eram muitas as possibilidades rodopiando na cabeça de Maya. Pela primeira vez ela tentou não pensar em nenhuma delas. Apenas por alguns minutos. Voltar para os fatos concretos e reavaliá-los melhor. Muita gente deturpava a teoria da navalha de Ockham, achando que a explicação mais simples era sempre a explicação correta. Mas o que o frade franciscano Guilherme de Ockham realmente queria dizer era apenas isto: não devemos complicar demais, acumulando premissas muito além daquelas mais imediatas. Eliminar os excessos, evitar as redundâncias.

Andrew estava morto. Claire estava morta. Joe estava morto.

Mas ao mesmo tempo ela não poderia desconsiderar tudo aquilo que já havia descoberto, poderia? O que fazer? Desconsiderar o que tinha visto com os próprios olhos ou, de novo, aceitar a reposta mais simples? E qual seria a resposta mais simples?

Bem, de simples não havia nada.

No entanto, a título de exercício, o que ela precisava fazer era manter a objetividade tanto quanto possível e perguntar a si mesma: teria ela realmente visto Joe naquela gravação, ou, vítima do estresse e dos traumas, teria imaginado coisas?

Objetividade, Maya. Objetividade.

Era muito fácil confiar nos próprios olhos, certo? Era o que todo mundo fazia. Ninguém se achava doido. Doido era sempre o outro. Assim é a natureza humana: nossa perspectiva é a perspectiva que entendemos e que damos por correta.

Portanto, que tal olhar para fora dela?

A guerra. Ninguém compreendia a guerra. Ninguém conseguia enxergar as verdades que só ela, Maya, enxergava. Todos achavam que ela se martirizava, que se remoía de culpa por conta da morte daqueles civis. Isso fazia todo o sentido aos olhos dos outros. Esta era a perspectiva deles: a pessoa se sentia culpada e essa culpa acabava se manifestando em flashbacks cruéis. Então, segundo eles, o que essa pessoa poderia ou deveria fazer? Terapia. Entupir-se de remédios. Eddie chegara a dizer que a morte a cercava. Pior, que a morte a perseguia.

Seria possível confiar no juízo de uma pessoa assim? Uma pessoa perseguida pela morte, uma pessoa que conseguira enganar até os seus entes mais próximos, fazendo-os acreditar que sua condição tinha origem, pelo menos parcialmente, na culpa?

De maneira objetiva, não.

Mas, por outro lado... que se dane a objetividade, certo?

Conclusão: alguém estava tentando manipulá-la, mexer com a cabeça dela.

Judith havia sido terrivelmente evasiva quanto ao paradeiro de Caroline. Maya sacou seu celular e ligou para a cunhada. Caiu na secretária eletrônica, o que não chegava a ser uma surpresa. Então Maya deixou recado:

– Caroline, liguei só pra saber se você está bem. Ligue de volta assim que puder.

O carro de Eileen já estava na rua quando Maya chegou em casa e estacionou diante da garagem. Lily dormia no banco de trás. Maya já ia abrindo a porta para carregá-la, quando Eileen se aproximou e disse:

– Deixa ela aí um pouquinho. Precisamos conversar.

– Que foi?

– Acho que fiz uma grande bobagem. Com aquela câmera oculta.

Maya notou que a amiga estava um pouco trêmula.

– Tudo bem – disse Maya. – Vou levar a Lily pro quarto, depois a gente...

– Não. Precisamos conversar aqui fora.

– Como assim? Por quê?

– Talvez não seja seguro falarmos lá dentro – disse Eileen, baixando a voz. – Alguém pode estar escutando.

Maya olhou para a filha através da janela do carro. Viu com alívio que ela ainda estava apagada.

– Que foi que aconteceu? – perguntou.

– Robby. – O possessivo e violento ex-marido de Eileen.

– O que tem o Robby?

– Você não queria me contar o que tinha acontecido com a câmera escondida, lembra?

– Lembro, mas e daí?

– Depois passou lá em casa, aborrecida comigo. Chegou até a desconfiar de mim, exigindo provas de que eu realmente tinha comprado a câmera.

– Pois é, eu lembro, mas o que isso tem a ver com o Robby?

– Ele voltou – disse Eileen, as lágrimas já transbordando dos olhos. – Tem me vigiado.

– Opa. Vai devagar, mulher.

– Recebi isto aqui por e-mail. – Eileen tirou da bolsa um maço de fotografias e entregou a Maya. – Vieram de um endereço anônimo, claro. Impossível de rastrear. Mas eu sei que é o Robby.

Maya examinou as fotos. Elas haviam sido tiradas no interior da casa de Eileen. As três primeiras mostravam a família na sala de televisão. Duas mostravam Kyle e Missy brincando no sofá. A última mostrava apenas Eileen, suando com um copo d’água na mão, vestindo um sutiã esportivo.

– Eu tinha acabado de chegar da academia – explicou ela. – Não tinha ninguém em casa, então tirei a blusa e joguei no cesto da lavanderia.

Vendo o pânico da amiga, Maya procurou falar da maneira mais calma ­possível.

– Pelo ângulo dessas fotos... Elas foram tiradas com as suas câmeras ­escondidas?

– Foram.

Maya sentiu um frio na barriga.

– Tem mais essa aqui – disse Eileen, tirando uma última foto da bolsa. Uma foto em que ela beijava um homem no sofá. – O nome dele é Benjamin Barouche. A gente se conheceu pela internet. Num site chamado ­Match.com. Esse foi nosso terceiro encontro. Os meninos já tinham subido pra dormir. Achei que não estava fazendo nada de mais. Daí, hoje de tarde dei de cara com essas fotos na caixa de entrada do meu e-mail.

Maya ficou se perguntando por que não tinha pensado nisso antes.

– Quer dizer então que alguém hackeou as suas...

– Alguém, não. O Robby. Só pode ter sido ele.

– Tudo bem. Mas ele fez o quê? Hackeou as suas câmeras escondidas?

– Pensei que elas não tivessem nada a ver com a internet... – disse Eileen, chorando. – Afinal, se elas têm um cartão de memória... Nem me passou pela cabeça que... Parece que nem é tão raro assim, hackear câmeras. No FaceTime, no Skype... Eu devia ter instalado algum mecanismo de segurança, mas eu não sabia... – Ela se calou um instante, usou o dorso da mão para enxugar as lágrimas do rosto. – Desculpa, Maya.

– Está tudo bem, fique tranquila.

– Não sei o que aconteceu com a sua câmera escondida. E tudo bem se você não quiser me contar. Mas pensei que essa história do Robby pudesse esclarecer alguma coisa. Sei lá, de repente alguém hackeou sua câmera também, pra espiar você e a Lily...

Maya procurou digerir a nova informação. Por enquanto não sabia direito o que fazer dela, ou que relação aquilo poderia ter com seu próprio caso. Alguém teria feito um vídeo de Joe em outro lugar e inserido na memória da câmera? Se fosse esse o caso, e daí? Ainda assim, a gravação havia sido feita naquela sala, naquele sofá.

Mas alguém a andava espiando?

– Maya?

– Não recebi nenhum e-mail – disse ela. – Ninguém mandou foto ­nenhuma.

Eileen olhou diretamente nos olhos dela.

– Que foi então? – perguntou. – Que foi que aconteceu com sua câmera escondida?

– Vi o Joe – disse ela.