capítulo 24
MAIS UMA NOITE HORRÍVEL de flashbacks.
Mesmo no meio da coisa, mesmo enquanto os ruídos ricocheteavam na sua cabeça feito metralhas incandescentes, Maya tentou avaliar o que realmente estava acontecendo, se estava relembrando o passado, tal como suspeitava Wu, ou se estava ouvindo coisas que nunca tinha ouvido antes, isto é, se estava alucinando. Mas todas as vezes que beirava um estado de mínima consciência, a resposta virava fumaça à sua frente, como sempre acontecia com os sonhos, pesadelos e demais viagens noturnas. Os ruídos infernais não davam sinal de trégua, portanto só havia uma coisa a fazer: esperar que amanhecesse.
Ela acordou exausta e logo se deu conta de que era domingo. Não haveria ninguém na Franklin Biddle Academy para responder às suas perguntas. A creche de Lily estaria fechada. Talvez fosse melhor assim. Todo soldado sabia tirar proveito dos momentos de inação. Todo soldado procurava descansar sempre que a oportunidade se apresentava: deixava o corpo curar, a cabeça esfriar.
Todo aquele horror poderia ficar para depois, certo? Ela aproveitaria para brincar com a filha e passar com ela um dia absolutamente normal. Um dia de paz e felicidade.
Paz e felicidade?
Ainda não eram oito horas quando Shane chegou com mais dois homens para fazer a varredura que ela mesma havia solicitado, para procurar câmeras e escutas secretas. Os dois foram para o andar de cima, e Shane foi com ela até a sala de televisão para examinar o porta-retratos.
– O Wi-Fi está desligado – disse ele.
– E daí?
– E daí que com o Wi-Fi desligado ninguém pode espionar você, mesmo que exista uma tecnologia pra isso.
– Ok.
– A menos, claro, que exista algum tipo de porta dos fundos, o que acho difícil. Ou então alguém entrou aqui e desligou o Wi-Fi porque sabia que você ia olhar.
– Acho pouco provável.
Shane deu de ombros, dizendo:
– Foi você que pediu pra varrer sua casa. Então não vamos dar mole, ok?
– Ok.
– Primeira pergunta: além de você, quem mais tem a chave da casa?
– Você.
– Certo. Mas já me interroguei e sou inocente.
– Engraçadinho.
– Obrigado. Quem mais?
– Ninguém – disse Maya, mas depois lembrou. – Merda...
– Que foi?
Ela ergueu os olhos para ele.
– Isabella também tem uma chave.
– E nós não confiamos mais nela, certo?
– Nem um pouco.
– Você acha mesmo que ela voltaria aqui pra mexer nesse porta-retratos? – perguntou Shane.
– Acho difícil.
– De repente você devia instalar umas câmeras de segurança casa afora – sugeriu ele. – Um alarme, sei lá. No mínimo trocar as fechaduras.
– Tem razão.
– Então você tem uma chave, eu tenho uma chave, a Isabella tem uma chave. – Shane plantou as mãos na cintura e deixou escapar um longo suspiro. – Não fique brava comigo, mas...
– O quê?
– Que fim levou a do Joe?
– A chave dele?
– Sim.
– Sei lá.
– Por acaso ele estava com essa chave quando...
– Quando foi morto? – completou Maya. – Imagino que sim. Ele costumava andar com a chave de casa no bolso. Como qualquer outro mortal.
– A polícia já devolveu os pertences dele?
– Ainda não.
– Ok.
– Ok o quê?
– Ok... sei lá. Não sei o que mais dizer, Maya. Tudo isso é muito estranho. Não faço a menor ideia do que possa estar acontecendo, então vou continuar fazendo perguntas até que uma luz desça sobre a minha cabeça. Você confia em mim, não confia?
– De olhos fechados.
– Mas não a ponto de se abrir comigo e contar o que está rolando.
– Mas eu estou contando!
Shane virou-se para trás, olhou-se no espelho e apertou as pálpebras.
– O que você está fazendo? – perguntou Maya.
– Vendo se tenho cara de idiota. – Shane virou-se novamente para ela. – Por que você pediu que eu investigasse aquele cara da Guarda Costeira? Que diabo o Andrew Burkett, que ainda era um colegial quando morreu, tem a ver com essa história toda?
Maya permaneceu muda, sem saber ao certo o que responder.
– Maya? – insistiu Shane.
– Eu ainda não sei – disse ela afinal. – Mas acho que pode haver um vínculo.
– Entre o quê? Você está dizendo que a morte do Andrew naquele barco tem alguma coisa a ver com o assassinato do Joe no Central Park?
– Estou dizendo que ainda não sei.
– Então... qual será o seu próximo passo?
– Hoje?
– Sim.
Maya precisou fazer um esforço para conter as lágrimas.
– Passo nenhum, Shane. Ok? Hoje é domingo e minha ideia é não fazer absolutamente nada. Fico agradecida que vocês tenham vindo, mas vou ficar ainda mais agradecida se vocês terminarem logo essa varredura. Porque depois quero levar minha filha pra passear e... sei lá, fazer com ela as mesmíssimas coisas que toda mãe faz com seus filhos num dia como este, um belo domingo de outono.
– Jura?
– Juro, Shane.
Ele sorriu e disse:
– Legal.
– Pois é.
– Pra onde vocês vão?
– Aquele parque-fazenda em Chester.
– Pra colher maçãs?
Maya fez que sim com a cabeça.
– Meus pais costumavam me levar lá – disse Shane com um brilho na voz.
– Quer vir com a gente?
– Não – disse ele, mas com uma doçura que até então ela nunca tinha visto. – E você tem razão. Hoje é domingo. Vamos agilizar isso aqui e dar o fora. Pode ir arrumando a Lily.
Eles terminaram o serviço sem encontrar nenhuma escuta ou câmera escondida. Shane despediu-se com um beijinho no rosto de Maya e foi embora. Maya acomodou Lily na cadeirinha do carro e deu início aos trabalhos. Em Chester, mãe e filha fizeram tudo o que tinham direito: andaram de trator numa carreta repleta de feno, visitaram o minizoológico, deram comida para as cabras, colheram maçãs, comeram sorvete. Um palhaço deixou Lily maravilhada com os bichos que construía com seus balões. Por toda parte, gente trabalhadora consumia seu valioso dia de descanso rindo, gargalhando, reclamando, brigando, admirando e tocando. Maya os observava de longe. Fazia o possível para refrear os pensamentos e apenas se deixar levar pela felicidade daquele dia de outono na companhia da filha, mas, como era de se esperar, não conseguia afastar a sensação de que tudo aquilo não passava de uma miragem distante, uma ilusão, como se ela estivesse do lado de fora da experiência, apenas vendo-a do alto, excluída dela. Esta era a sua zona de conforto: proteger momentos assim, mas sem participar deles. As horas foram passando, o dia chegou ao fim, e ela ainda não sabia direito o que pensar a respeito.
A noite desse mesmo domingo não foi lá muito melhor do que as outras. Ela experimentou os comprimidos novos de Wu, mas eles nada fizeram para afugentar seus fantasmas. Pelo contrário, os ruídos lhe pareceram ainda mais violentos, como se tirassem força da medicação que ela tomava, fosse qual fosse.
Ela acordou assustada. Imediatamente pegou o telefone para chamar Wu, mas parou no meio do caminho. Por um instante cogitou ligar para Mary McLeod, a colega de Judith, mas concluiu que seria uma bobagem ainda maior.
“Segura a onda, mulher”, ela pensou. “Agora falta pouco.”
Ela se vestiu, deixou Lily na creche e ligou para o trabalho para avisar que iria faltar.
– Dessa vez não vai dar, Maya – disse Karena Simpson, sua chefe, e, como ela, ex-piloto do Exército americano. – Isto aqui é o meu negócio. Você não pode simplesmente cancelar uma aula assim, de última hora.
– Desculpa.
– Olha, sei que você está passando por um período difícil e...
– Estou sim, Karena – interrompeu Maya. – Muito difícil. Acho que me precipitei ao voltar pro trabalho. Sinto muito por deixar você na mão, mas... acho que preciso de mais um tempinho.
Tratava-se de uma meia-verdade, ou de uma meia-mentira. Ela detestava revelar suas fragilidades, mas dessa vez não havia outro jeito. Sabia que tinha acabado de perder o emprego.
Duas horas depois ela chegou a Bryn Mawr, na Pensilvânia, e atravessou a cerca viva que confinava o campus da Franklin Biddle Academy. Uma placa de pedra informava o nome da escola, elegantemente discreta e pequena o bastante para passar despercebida contra o sol forte do outono. Discrição, essa era a ideia. Maya contornou o amplo gramado central e deixou o carro no estacionamento de visitantes. Tudo à sua volta cheirava a privilégio, poder, patrimônio. Todos os Ps da riqueza. Até o perfume das folhas secas lembrava o das cédulas de dólar recém-emitidas.
Dinheiro comprava privacidade. Dinheiro comprava cercas. Dinheiro comprava diversos níveis de isolamento. Dinheiro comprava os confortos do mundo urbano, junto com a segurança dos condomínios fechados dos subúrbios. Dinheiro (muito dinheiro) comprava escolas como aquela. Quanto mais dinheiro, mais as pessoas procuravam se proteger nos intestinos de um casulo.
A diretoria ficava num casarão de pedra chamado Windsor House. Maya achara melhor não marcar um horário. Pesquisara o nome do diretor na internet e decidira surpreendê-lo com sua visita. Se ele não estivesse presente, paciência, ela tentaria falar com outra pessoa. Se estivesse, certamente a receberia. O homem era um diretor de escola, não um chefe de Estado. Além disso, ainda havia no campus um dormitório batizado com o nome dos Burketts. Maya podia jurar que o sobrenome ainda abria muitas portas por ali.
– Pois não? – disse a recepcionista, quase sussurrando.
– Meu nome é Maya Burkett. Gostaria de falar com o diretor, mas infelizmente não marquei uma hora.
– Por favor, sente-se.
O homem não demorou a aparecer. Da pesquisa que tinha feito, Maya sabia de antemão que Neville Lockwood IV, ex-aluno e ex-professor da escola, ocupava o posto de diretor fazia mais de vinte anos. Diante de um nome e pedigree semelhantes, ela já esperava um determinado tipo físico: rosto avermelhado, traços patrícios, entradas salientes nos cabelos muito claros. E foi exatamente o que encontrou, embrulhado em mais uns tantos clichês da tradição: paletó de tweed, gravata de xadrez argyle, óculos de aros finos enroscados nas orelhas. Ele tomou as mãos dela entre as suas e disse:
– Ah, Sra. Burkett, todos nós aqui da Franklin Biddle sentimos muito pelo que aconteceu. – O sotaque era daqueles que indicavam classe social muito mais do que origem geográfica.
– Obrigada.
Ele a conduziu para sua sala, dizendo:
– Seu marido era um dos nossos alunos mais queridos.
– Obrigada.
A sala contava com uma lareira já com seu estoque de lenha. Ao lado ficava um relógio de pêndulo. Lockwood sentou-se do outro lado da sua mesa de cerejeira e sinalizou para que ela se acomodasse numa das duas cadeiras à sua frente, ambas mais baixas que a dele. Deliberadamente mais baixas, pensou Maya.
– Metade daqueles troféus no nosso Windsor Sports Hall se deve ao Joe. O recorde de gols no futebol ainda pertence a ele. Estamos pensando... Bem, estamos pensando em fazer uma pequena homenagem ao Joe lá no campo. Ele adorava aquele lugar – disse o diretor, e abriu para Maya um sorriso um tanto condescendente.
Maya sorriu de volta. Achou que aquelas reminiscências de Neville Lockwood talvez fossem apenas um gancho para solicitar novas doações por parte da família Burkett (ela não era lá muito boa para interpretar esse tipo de sinal), mas não se deixou intimidar. Precisava levar adiante seu plano de ação.
– Por acaso o senhor conhece minha irmã?
A pergunta o pegou de surpresa.
– Sua irmã?
– Sim. Claire Walker.
Ele refletiu um instante, depois disse:
– O nome realmente não me parece estranho...
Maya pretendia dizer que quatro ou cinco meses antes Claire havia estado ali, na escola, e pouco tempo depois fora assassinada, mas algo assim tão sério talvez assustasse o homem a ponto de fazê-lo travar a língua.
– Deixa pra lá, não é importante – disse ela. – Eu gostaria de fazer algumas perguntas sobre o tempo do meu marido aqui na escola.
Lockwood cruzou os braços e ficou esperando. Maya sabia que estava pisando em ovos.
– Sr. Lockwood... – começou ela.
– Pode me chamar de Neville.
– Neville – repetiu ela sorrindo. – Como você sabe, esta escola é fonte de lembranças muito felizes para a família Burkett, mas também de lembranças tristes...
– Imagino que você esteja falando do irmão do seu marido – disse o diretor, solene.
– Exatamente.
Neville balançou a cabeça, dizendo:
– Uma tragédia. Sei que o pai dele também morreu alguns anos atrás. Pobre Judith... E agora isto. Mais um filho...
– Pois é – disse Maya sem nenhuma pressa. – Não sei bem como tocar no assunto, mas... com a morte do Joe... bem, agora são três membros do mesmo time de futebol.
O diretor perdeu um pouco do rubor das faces.
– Estou falando do Theo Mora – explicou Maya. – Você se lembra daquele incidente?
Neville Lockwood enfim reencontrou a própria voz.
– Sua irmã.
– O que tem ela?
– Ela também esteve aqui, perguntando sobre o Theo. Por isso o nome dela não me pareceu estranho. Eu estava fora na época, mas depois fiquei sabendo.
Uma confirmação. Maya estava no caminho certo.
– Como foi que o Theo morreu? – perguntou ela.
Neville Lockwood desviou o olhar e disse:
– Eu poderia dar esta conversa por encerrada agora mesmo, Sra. Burkett. Poderia dizer que temos normas de privacidade bastante rígidas e que seria terminantemente contra essas normas revelar qualquer detalhe sobre os nossos alunos.
– Acho que não seria uma boa ideia – arriscou Maya, balançando a cabeça.
– Posso saber por quê?
– Porque se você não responder minhas perguntas, talvez eu seja obrigada a envolver autoridades, digamos, menos discretas.
– É mesmo? – Um sorrisinho brotou nos lábios do diretor. – E por acaso devo me sentir intimidado? Me diz: esta é a parte em que o diretor malvado mente pra proteger a reputação da sua instituição de elite?
Maya não precisou responder.
– Bem, este não sou eu, capitã Stern. Sim, eu sei o seu nome. Sei tudo a seu respeito. À maneira do Exército que você conhece tão bem, esta academia possui um código de honra, que é sagrado. Fico surpreso que o Joe não tenha falado dele com você. Nossas raízes Quaker exigem consenso, franqueza. Não temos o hábito de esconder coisas. Quanto mais uma pessoa conhece a verdade, mais protegida ela estará. É nisso que acreditamos.
– Ótimo – disse Maya. – Então como foi que o Theo morreu?
– Vou responder, mas antes vou pedir uma coisa: que você respeite a privacidade da família.
– Claro.
Neville suspirou e disse:
– Theo Mora morreu de uma intoxicação alcoólica.
– Bebeu até morrer, é isso?
– Acontece, infelizmente. Não é muito comum. Na realidade, este é o único caso na história desta escola. Mas uma bela noite o Theo resolveu beber. Não era do tipo que gostava de festas, de farras, essas coisas. Mas, ironicamente, essas costumam ser as pessoas mais vulneráveis. Não sabem o que estão fazendo, então acabam passando dos limites. Theo teria sido encontrado e socorrido a tempo se não tivesse tropeçado e rolado escada abaixo num porão. Foi um faxineiro que o encontrou na manhã seguinte. Já estava morto.
Maya ficou sem saber como interpretar a história toda.
Neville espalmou as duas mãos sobre a mesa, inclinou-se para a frente e disse:
– Agora posso saber qual é o interesse que você e sua irmã têm nesse garoto?
Maya ignorou a pergunta.
– Você nunca achou estranho que dois garotos da mesma escola e do mesmo time de futebol morressem num intervalo tão curto?
– Sim – disse o diretor. – Isso me deixou intrigado por um bom tempo.
– Nunca lhe passou pela cabeça que poderia haver algum vínculo entre a morte do Theo e a do Andrew?
Neville recostou-se na cadeira e juntou as mãos contra o queixo.
– Pelo contrário. Nunca me passou pela cabeça que não pudesse haver um vínculo entre uma coisa e outra.
Essa não era a resposta que Maya esperava.
– Pode elaborar um pouco mais? – disse ela.
– Eu era professor de matemática. Dava muitos cursos de estatística também. Dados bivariados, regressão linear, desvio padrão, essas coisas. Portanto, tenho o hábito de enxergar as coisas como equações e fórmulas. É assim que minha cabeça funciona. A probabilidade de que dois alunos de uma mesma escola pequena e elitista morram num prazo de alguns meses é muito remota. Mais remota ainda se levarmos em consideração que esses dois garotos têm a mesma idade e são do mesmo ano. Mais remota ainda se lembrarmos que jogavam no mesmo time de futebol. A essa altura já podemos começar a desconsiderar a possibilidade de um mero acaso. – Aqui ele quase sorriu. Erguendo o indicador como se estivesse de novo numa sala de aula, disse: – E a possibilidade de um mero acaso é praticamente zero se acrescentarmos um último fator.
– Que fator? – perguntou Maya.
– Theo e Andrew dividiam o mesmo quarto no dormitório. – Silêncio. E depois: – A probabilidade de que dois garotos de 17 anos, colegas de quarto e de equipe numa escola pequena, venham morrer ainda jovens de mortes não relacionadas... Bem, confesso que não acredito muito em probabilidades infinitesimais.
Sinos começaram a repicar ao longe. Mesmo da sala do diretor, Maya pôde ouvir as portas que iam se abrindo nos corredores do prédio, a algazarra dos alunos que iam saindo por elas.
– Quando o Andrew Burkett morreu – prosseguiu Neville –, um investigador apareceu por aqui. Alguém da Guarda Costeira que lidava com mortes no mar.
– Tom Douglass? Era esse o nome dele?
– Pode ser, não lembro direito. Mas ele esteve comigo, aqui nesta mesma sala. Sentou nessa mesma cadeira em que você está sentada. E também perguntou sobre a possibilidade de um vínculo entre as duas mortes.
Maya engoliu em seco.
– E você disse a mesma coisa que acabou de me dizer? – perguntou ela.
– Sim.
– E você faz alguma ideia do que pode ser esse vínculo?
– Bem, a morte do Theo foi um grande choque pra todos nós. Os jornais nunca ficaram sabendo da causa mortis. A família quis assim. No entanto... por mais consternados que tenhamos ficado, com certeza ninguém sofreu mais que o Andrew. Ele era o melhor amigo do Theo. Ficou arrasado. Imagino que você tenha conhecido o Joe bem depois da morte do Andrew e que, portanto, não tenha chegado a conhecê-lo.
– Não, não conheci o Andrew.
– Eles eram muito diferentes um do outro, os dois irmãos. Andrew era um menino doce, muito mais sensível que o Joe. O técnico deles costumava dizer que era isso que atrapalhava o Andrew em campo. Ele não tinha aquela garra, aquela necessidade de vencer que o Joe tinha. Não era uma pessoa competitiva. Não tinha aquela agressividade, aquele instinto matador que você precisa ter quando está nas trincheiras.
Maya, por dentro, torceu o nariz para a analogia bélica. Não gostava delas.
– Talvez também houvesse outras questões com o Andrew – acrescentou Neville. – Não sei direito, nem diria se soubesse, mas o que interessa aqui é que o Andrew passou maus bocados com a morte do amigo. Fechamos o campus por uma semana depois da morte do Theo. Tínhamos psicólogos de plantão pra quem quisesse fazer uso deles, mas a grande maioria dos alunos preferiu passar essa semana em casa pra... sei lá, se recuperar.
– O Andrew e o Joe também? – perguntou Maya.
– Eles também. Lembro que a Judith, sua sogra, veio correndo buscar os dois filhos, ela e a babá da família. De qualquer modo, dali a uma semana todos voltaram pro campus. Todos, menos um.
– Andrew.
– Exatamente.
– Quando foi que ele voltou?
– Não voltou – disse o diretor, balançando a cabeça. – Andrew Burkett não chegou a voltar pra cá. A mãe achou melhor que ele passasse o resto do semestre em casa. Mas pouco a pouco as coisas foram voltando ao normal na escola, assim é a vida. Joe, na qualidade de capitão, liderou a equipe numa temporada brilhante. Eles foram campeões do estado e da liga. Pra comemorar, o Joe convidou os amigos pra um passeio no iate da família.
– Você sabe que amigos eram esses?
– Não exatamente. Christopher Swain decerto era um. Também era capitão da equipe, junto com o Joe. Não lembro dos outros. Mas você queria saber que vínculo eu vejo entre as mortes de Andrew e Theo. Bem, a essa altura você já deve saber qual é. Em todo caso, a minha hipótese é a seguinte: temos um garoto muito sensível que perde seu melhor amigo de uma forma trágica. Esse garoto é obrigado a deixar a escola e, muito provavelmente, a lidar com uma crise de depressão. Talvez... de novo, isso é apenas uma hipótese... talvez o tenham medicado com antidepressivos ou qualquer outro tipo de estimulante. Depois o menino se vê num iate em alto-mar, cercado de pessoas para lembrá-lo tanto da morte do amigo quanto daquelas outras coisas todas que ele havia perdido ao se ausentar da escola. Eles fazem uma festinha, ele bebe demais, e a bebida não bate muito bem com os remédios que ele vem tomando. Lá pelas tantas ele se vê sozinho no deque do iate. Está sofrendo muito. Vê o mar na sua frente e...
Neville Lockwood se calou de repente.
– Você acha que o Andrew cometeu suicídio? – disse Maya.
– Talvez. É uma possibilidade. Ou talvez a mistura de álcool com antidepressivos tenha provocado uma tonteira forte o bastante pra que ele se desequilibrasse e caísse no mar. Seja como for, na minha opinião, a morte do Theo levou diretamente à morte do Andrew. Esse é o vínculo mais provável entre as duas coisas.
Maya permaneceu calada, refletindo sobre o que acabara de ouvir.
– Muito bem – disse Neville. – Agora que contei a você minha teoria, que tal você contar exatamente o que veio fazer aqui?
– Só mais uma pergunta, se você não se importar.
– Tudo bem.
– Se, de acordo com as leis da estatística, a morte de dois companheiros de equipe é tão improvável assim, como explicar a morte de três?
– Três? Não entendi.
– Estou falando do Joe.
– Mas o Joe morreu... o quê? Uns 17 anos depois.
– Mesmo assim. Você é que entende de probabilidades. Qual é a probabilidade de que a morte dele também esteja relacionada?
– Você acha que o assassinato do seu marido pode, de alguma maneira, estar relacionada com as mortes do Theo e do Andrew?
– Acho – respondeu Maya. – Com ou sem estatística.