capítulo 26

MAYA SE ACOMODOU AO volante do carro e fixou os olhos no nada à sua frente. Sua vontade era deixar a cabeça cair e chorar. Mas não tinha tempo nem para isso. Ela conferiu o celular: mais duas chamadas perdidas da Leather and Lace. Decerto eles estavam aflitos com alguma coisa. Maya decidiu quebrar o protocolo. Ligou de volta para o mesmo número e pediu para falar com Lulu.

– Pois não? – disse a outra.

– Chega desse exagero ridículo – ela foi logo dizendo. – Estou na ­Filadélfia.

– Uma das nossas melhores dançarinas ficou doente, então temos uma vaga pra hoje à noite. Se você quer mesmo este emprego, é melhor que venha já.

Maya revirou os olhos e disse:

– Tudo bem. Estou indo.

No navegador do telefone ela pesquisou o nome de Christopher Swain, o segundo capitão da equipe de futebol da Franklin Biddle, que estava no iate naquela noite fatídica. Ele trabalhava em Manhattan numa empresa chamada Swain Empreendimentos Imobiliários. Uma empresa familiar, claro, com vários projetos nos cinco distritos da cidade de Nova York. Ótimo, mais um ricaço pela frente. Na página de veteranos do site da escola havia um endereço de e-mail sob o nome dele. Maya enviou uma curta mensagem: “Meu nome é Maya Burkett. Sou a viúva de Joe Burkett. Preciso falar com você com urgência. Por favor, entre em contato comigo assim que puder.” Também incluiu todos os seus dados de contato.

Dali a duas horas ela chegou à boate e estacionou na área dos funcionários. Já ia descendo do carro quando a porta do passageiro se abriu e Corey entrou às pressas, abaixando a cabeça logo em seguida.

– Me tira daqui – sussurrou ele.

Maya não titubeou. Deu ré e numa questão de segundos já estava de volta na rua.

– Precisamos dar um passeio – disse Corey.

– Onde?

Ele passou um endereço em Livingston, nas imediações da Rota 10.

– Livingston? – perguntou Maya. – Imagino que seja alguma coisa relacionada com o Tom Douglass. – Vendo que Corey ainda se encolhia no banco, disse: – Não estamos sendo seguidos.

– Tem certeza?

– Tenho.

– Eu precisava sair de lá. Não quero que eles saibam.

Maya não perguntou por quê. Isso não era problema seu.

– Então? Aonde exatamente estamos indo?

– Dei uma rastreada nos e-mails do Tom Douglass.

– Você pessoalmente?

– Você deve achar que eu tenho uma equipe enorme, não é?

– Sei que tem um monte de... “seguidores” não é bem a palavra. Um monte de fiéis, eu diria. Esse pessoal idolatra você.

– Até o dia em que param de idolatrar. Não posso confiar neles. Sou apenas a mais nova cause célèbre. As pessoas mudam de assunto rapidamente. Lembra do Kony 2012, aquele documentário do YouTube? Pois é. Procuro fazer tudo por minha conta mesmo.

Maya achou por bem trazê-lo de volta ao assunto que lhe interessava.

– Você disse que rastreou os e-mails do Tom Douglass...

– Certo. O cara ainda usa o AOL, acredita? “Neandertal” é pouco pra ele. Mas não faz muita coisa por e-mail. Não leu nenhuma das mensagens recebidas nem enviou nenhuma mensagem em quase um mês.

Maya virou para a direita, tomou a rampa de acesso à autoestrada e disse:

– Ele sumiu mais ou menos nessa altura, segundo contou a mulher dele.

– Exato. Mas hoje cedo recebeu uma mensagem de um cara chamado Julian Rubinstein, a cobrança de uma conta não paga. Pelo que depreendi, esse Rubinstein aluga pro nosso amigo o espaço de um pequeno depósito que ele tem nos fundos do terreno de uma oficina mecânica em Livingston.

– Uma oficina mecânica?

– Sim, eu acho.

– Lugar estranho pra um depósito – observou Maya.

– Não encontrei nenhum pagamento por cartão de crédito, nenhum documento, nada. Douglass paga o cara em dinheiro vivo. Pra não deixar rastros, só pode ser. Provavelmente não fez o último pagamento, daí o e-mail de Julian Rubinstein. Que era num tom bem informal, do tipo “Ei, Tom, e aí? Você está atrasado, cara”.

Maya apertou os dedos contra o volante, apreensiva. Tudo isso lhe cheirava muito mal.

– Você tem algum plano em mente?

Corey ergueu a mochila que trazia consigo, depois disse:

– Gorros, duas lanternas, alicate.

– Basta pedir à mulher dele pra abrir o tal depósito.

– Vai que ela também não tenha acesso? Vai que diga “não”?

– Tem razão.

– Não é só isso, Maya.

Ela não gostou nem um pouco do tom dele.

– Que foi?

– Não menti pra você, não é isso. Mas você tem de entender. Eu precisava testar sua fidelidade.

– Oh-oh.

Eles pararam num sinal vermelho. Maya virou-se para ele e ficou esperando.

– Não contei toda a verdade – confessou Corey.

– Então conte agora.

– Sua irmã.

– O que tem ela?

– Entregou mais coisas sobre a EAC Pharmaceuticals do que eu te disse naquele dia.

Maya assentiu e disse:

– É, eu já imaginava.

– Como?

Também não havia motivo para abrir o jogo completamente com ele.

– Você sabia que os Burketts andavam metidos em alguma falcatrua, mas não tinha nenhuma prova concreta. Foi isso que você disse logo no início. Depois falou da EAC Pharmaceuticals. Então deduzi que a Claire tinha entregado alguma coisa.

– Pois é. Acontece que o que ela entregou era pouco. A gente até poderia divulgar esse primeiro material, mas eles teriam tempo hábil pra varrer a merda toda pra debaixo do tapete. Nossa investigação ainda estava muito no início. Precisávamos de mais.

– Então a Claire continuou cavando.

– Sim.

– E acabou trombando com o Tom Douglass.

– Isso mesmo. Só que ela disse que o Tom Douglass não tinha nada a ver com a EAC, que era outra coisa. Outra coisa muito maior.

O sinal abriu. Maya arrancou calmamente.

– Mas, depois que a Claire morreu, por que você não divulgou o que tinha nas mãos, por mais insuficiente que fosse?

– Porque eu queria descobrir o que era essa história com o Tom Douglass. Claire parecia mais preocupada com ela do que com os medicamentos fajutos. Então, se divulgássemos alguma coisa, talvez eles se armassem até os dentes, e eu queria ir mais fundo na minha investigação.

– Então... com a morte da Claire você resolveu me colocar no lugar dela, é isso?

Corey não disse nem que sim, nem que não.

– Você é uma figura...

– Sou meio manipulador, sim, eu admito.

– Manipulador é pouco.

– Foi por uma boa causa.

– Certo. Mas por que resolveu se abrir comigo agora?

– Porque uma pessoa morreu com os medicamentos fajutos da EAC. Um menino de 3 anos na Índia. Teve uma infecção gravíssima, com muita febre. Começaram a tratar ele com uma versão da EAC pra amoxicilina. Não adiantou de nada. Quando os médicos finalmente resolveram trocar o antibiótico... aí já era tarde demais. O menino acabou entrando em coma e morrendo.

– Que horror – disse Maya. – Como foi que você descobriu tudo isso?

– Um cara do hospital. Um médico anônimo que resolveu botar a boca no trombone. Fez gravações de vídeo e áudio, guardou todos os prontuários, guardou até algumas coletas de material. Isso, junto com o que a Claire já tinha informado... Mas ainda é pouco, Maya. Os Burketts vão culpar os indianos que comandam os laboratórios de lá. Vão se esconder debaixo das asas de um monte de advogados, esses que cobram os olhos da cara e sabem dar nó em pingo d’água. Talvez saiam um pouco queimados. Talvez tenham de desembolsar alguns milhões de dólares, mas...

– Você acha que o Tom Douglass é a criptonita deles?

– Acho. – Meio sorrindo, ele emendou: – A Claire também achava.

– Você está se divertindo com tudo isso, não está?

– Às vezes você também não se divertia na guerra?

Maya não respondeu.

– Não vou negar: chego a ficar empolgado. Mas isso não significa que eu não leve a coisa a sério.

Maya deu seta e mudou para a faixa à sua direita.

– Foi assim que você ficou se sentindo também quando recebeu a gravação do meu helicóptero? Empolgado?

– Quer mesmo saber? Foi.

Maya não disse nada, seguiu dirigindo enquanto Corey ia procurando alguma coisa no rádio do carro. Dali a meia hora eles deixaram a autoestrada. O GPS informava que eles estavam a menos de dois quilômetros do seu destino final.

– Maya...

– Sim.

– Você ainda é amiga de muita gente no Exército, não é? Shane Tessier, por exemplo.

– Você anda me vigiando também?

– Mais ou menos.

– Aonde exatamente você quer chegar com isso, Corey?

– Por acaso eles conhecem o teor do áudio daquela gravação no helicóptero? Quer dizer...

– Sei muito bem o que você quer dizer – Maya cuspiu de volta. E depois: – Não.

Corey já ia abrindo a boca para outra pergunta, mas ela o interrompeu, dizendo:

– Chegamos.

Eles dobraram à esquerda e seguiram por um caminho de terra. Maya esquadrinhou a área à procura de câmeras de segurança e não encontrou nenhuma. Parou a uma quadra de distância da oficina mecânica, que se chamava JR’s Body Shop. Corey ofereceu a ela um dos gorros.

– Não precisa. Vamos chamar menos atenção sem eles. Está escuro. Podemos passar por um casal com problemas no carro, procurando um mecânico etc.

– Não posso dar mole – disse Corey, nervoso.

– Eu sei.

– Não posso ser reconhecido de jeito nenhum.

– Essa barba por fazer, o boné enterrado na cabeça... Fique tranquilo, ninguém vai te reconhecer. Pegue o alicate e mantenha a cabeça sempre baixa.

Corey não parecia lá muito convencido.

– Então fique aqui, esperando no carro. Eu me viro sozinha – disse Maya, já descendo.

Muito a contragosto, Corey pegou o alicate e desceu também. Eles seguiram caminhando em silêncio. Embora estivesse escuro, Maya não acendeu sua lanterna, mas continuou procurando por câmeras de segurança. Nenhuma câmera, nenhuma casa por perto, nada.

– Interessante... – disse ela.

– O quê?

– Que o Tom Douglass tenha escolhido justamente este buraco como depósito.

– Como assim?

– Tem um galpão da CubeSmart na rua lá de trás. E outro da Public Storage. Os dois de fácil acesso, câmeras de segurança e tudo mais. Mas nosso detetive preferiu isto aqui.

– Porque é um Neandertal.

– Pode ser – disse Maya. – Ou de repente não queria que ninguém soubesse deste lugar. Pensa bem. Você bisbilhotou os cartões de crédito do cara. Se ele estivesse pagando um depósito normal com cartão ou cheque, muito provavelmente você encontraria algum registro. Pra mim está mais do que claro: ele queria ficar na moita.

A oficina era um bloco de cimento pintado em amarelo e com duas entradas para os carros, ambas fechadas com cadeado. Em volta crescia um mato desde muito por capinar. Pedaços de carro enferrujados espalhavam-se a esmo pelo terreno. Maya e Corey foram seguindo na direção de uma possível entrada traseira, mas logo viram que o caminho estava obstruí­do por um cemitério de carros. Maya localizou entre eles um Oldsmobile Cutlass Ciera que um dia havia sido branco, o mesmo que seu pai dirigia no passado. De repente, lhe veio à cabeça a lembrança daquele dia glorioso em que ele chegara em casa com o carro novinho em folha, ela, a mãe e a irmã já esperando por ele na rua, entrando no carro para um passeio de estreia, todos sorrindo de orelha a orelha, orgulhosos da nova aquisição. Não era exatamente um carro de luxo, mas o velho tinha verdadeira adoração por ele. Agora, vendo aquele Oldsmobile na montanha de sucata, mesmo sabendo que se tratava de um pensamento idiota, Maya ficou se perguntando se ali não estaria o mesmo carro que um dia tanta felicidade dera a seu pai e à sua família, se todos os carros naquele cemitério também não haviam tido um passado igualmente glorioso para depois terminar seus dias naquele monte de ferrugem nas imediações de uma autoestrada.

– Maya, tudo bem com você? – perguntou Corey.

Ela seguiu adiante sem responder e ligou a lanterna. O terreno era grande, devia ter uns oito ou dez mil metros quadrados. Nos fundos, mais para a direita e quase inteiramente escondidos pela carcaça de uma van, havia dois galpões, desses em que as pessoas geralmente guardavam sua tralha pessoal ou ferramentas de jardinagem. Maya apontou para eles com a lanterna. Corey estreitou os olhos para enxergar melhor, assentiu com a cabeça e seguiu adiante com Maya a seu lado, ambos mudos, desviando das calotas e portas soltas que iam encontrando pela frente.

Os galpões eram pequenos, com mais ou menos um metro e meio de altura e largura. Maya constatou que eles não eram de madeira como havia imaginado, mas de resina ou de qualquer outro tipo de plástico mais duro e resistente a chuva, uma estrutura pré-fabricada, dessas que se montavam em menos de meia hora. Ambas estavam trancadas com cadeado.

Maya e Corey se encontravam a apenas uns dez metros de distância quando pararam juntos, ambos assustados com o cheiro forte que sentiram no ar. Com uma expressão de horror estampada no rosto, Corey virou-se para Maya, que respondeu com um simples meneio da cabeça.

– Essa não... – disse ele.

Corey deu meia-volta e foi detido por Maya antes de começar a correr, como já ia fazendo.

– Vai ser pior se a gente correr – disse ela.

– Nem sabemos direito o que é esse cheiro. Pode ser um bicho.

– Pode ser.

– Então vamos embora. Agora.

– Vai você, Corey.

– Hein?

– Vou ficar e vou abrir esses depósitos. Posso lidar com as consequências. Você não. Eu entendo. Você já é um homem procurado. Então vai embora. Não vou contar pra ninguém que esteve aqui.

– Vai contar o que então?

– Não se preocupe. Vai.

– Mas quero saber o que tem dentro dos galpões.

Faltava pouco para que Maya perdesse a paciência.

– Então fica, caramba – ela disparou de volta.

O alicate cortou o aro do cadeado com a facilidade de uma faca quente sobre um torrão de manteiga. Uma fresta se abriu na porta, e um braço humano escapou através dela.

– Meu Deus... – sussurrou Corey.

O cheiro forte o fez recuar e ter ânsia de vômito.

Maya ficou onde estava, vendo o restante do corpo que escorregava porta afora. O rosto já estava com uma péssima aparência, começando a apodrecer. No entanto, lembrando-se das fotos que tinha visto, e diante dos cabelos compridos e grisalhos, Maya podia jurar que era Tom Douglass quem estava ali. Ela deu um passo na direção do corpo.

– O que você está fazendo?

Ela não se deu ao trabalho de responder. Não que já fosse calejada o bastante para não se emocionar diante de um cadáver, tendo visto tantos deles na guerra. Não se deixava paralisar, só isso. Ela espiou o interior do galpão. Estava vazio.

Corey começou a ter ânsia de vômito novamente.

– Vai embora – disse Maya.

– Por quê?

– Porque se você vomitar aqui, a polícia vai ver. Anda, vai. Volta pra estrada, entra numa lanchonete qualquer e liga pra Lulu, pede pra ela vir te buscar.

– Não me sinto à vontade pra deixar você sozinha aqui.

– Não estou correndo nenhum perigo. Você está.

Ele olhou para a direita, olhou para a esquerda, depois disse:

– Tem certeza?

– Vai, vai, vai.

Maya cortou o cadeado do segundo galpão e espiou. Vazio também. Quando olhou para trás, viu Corey já bem longe, atropelando calotas e portas rumo à saída da oficina. Esperou até que ele sumisse de vista e conferiu as horas no relógio. Limpou as impressões digitais deixadas no alicate, depois o escondeu no Oldsmobile. Mesmo que fosse encontrado, não provaria nada. Apenas por garantia ela esperou mais uns vinte minutos.

Só então ligou para o serviço de emergências.