capítulo 27

MAYA JÁ TINHA SUA história na ponta da língua.

– Recebi uma denúncia anônima, dizendo que eu viesse aqui. Quando cheguei, encontrei os cadeados já arrombados. Vi um braço escapulindo da porta. Abri mais um pouco e foi aí que liguei pro 911.

Os policiais quiseram saber qual era o interesse dela na história. Aqui ela optou pela verdade, pois sabia que a mulher de Tom Douglass seria interrogada mais tarde. Contou que a irmã tinha sido assassinada pouco depois de ter conversado com o detetive e que ela, Maya, precisava descobrir por quê.

As perguntas não pararam por aí, e ela precisou pedir um tempo para providenciar que alguém fosse buscar sua filha na creche. Com a devida permissão, ligou para Eddie e rapidamente explicou a situação.

– Você está bem? – perguntou ele.

– Estou, estou.

– Isso com certeza tem alguma coisa a ver com a morte da Claire, não tem?

– Com certeza.

– Vou buscar a Lily, fique tranquila.

Cercada de policiais, Maya ligou para a creche via Skype e avisou que era o tio de Lily quem a buscaria hoje. Miss Kitty, a professorinha, de início não aceitou. Jogou duro, depois insistiu que Maya ligasse de volta para garantir que tudo estava nos conformes. Maya gostou do rigor da creche, mais um sinal de segurança.

Horas mais tarde, já nos limites da paciência, ela disse aos policiais:

– E aí, vocês vão me prender?

O chefe deles, um investigador do condado de Essex com uma gloriosa cabeleira encaracolada e um par de sobrancelhas grossas, refletiu um instante, depois disse:

– Podemos prendê-la por invasão de uma propriedade particular.

– Então anda logo com isso – rosnou Maya, já oferecendo os dois pulsos para ser algemada. – Preciso buscar minha filha.

– A senhora é uma suspeita neste caso.

– Suspeita de que exatamente?

– De homicídio, claro. De que mais poderia ser?

– Com base em quê?

– Como foi que chegou aqui hoje?

– Já expliquei.

– A esposa da vítima já tinha dito à senhora que o marido dela havia sumido de casa, certo?

– Certo.

– Depois a senhora recebeu uma denúncia anônima, dizendo que viesse até esta oficina mecânica e conferisse estes depósitos.

– Certo.

– Quem poderia ter feito essa denúncia anônima?

– Não faço a menor ideia.

– Foi por telefone? – perguntou o cabeludo.

– Foi.

– Fixo ou celular?

– Fixo. Meu telefone de casa.

– Vamos averiguar todos os seus registros telefônicos.

– Façam isso. Mas agora... já está ficando tarde – disse ela, levantando-se. – Se não tiverem mais nenhuma...

– Espere aí – disse ao longe um terceiro.

Maya reconheceu a voz imediatamente e praguejou entre dentes.

Roger Kierce, o detetive da Polícia de Nova York, veio caminhando ao encontro deles com seu jeitão caipira, os braços projetando-se para os lados como se espetados no tronco atarracado.

– Quem é você? – perguntou o cabeludo.

Kierce informou seu nome, mostrou as credenciais, depois apontou para Maya e disse:

– Estou investigando o assassinato de Joe Burkett, marido dela. E aqui? Já determinaram a causa da morte?

O cabeludo olhou com desconfiança para Maya, depois se virou novamente para Kierce.

– Talvez seja melhor conversarmos em particular – disse ele.

– Parece que foi um talho na garganta – adiantou-se Maya. Os dois homens olharam para ela. – Só estou tentando adiantar o expediente. Realmente preciso ir.

Kierce fez uma careta e voltou sua atenção para o cabeludo, que disse:

– De fato há na garganta algo que parece ser um talho de faca, mas ainda não sabemos nada além disso. Nosso legista vai divulgar o laudo amanhã de manhã.

Kierce puxou a cadeira vizinha à de Maya, virou-a para sentar ao contrário, depois se escanchou nela de modo teatral. Maya ficou observando, lembrando-se do que Caroline dissera sobre os pagamentos da família ao detetive. Seria verdade? Ela achava que não, mas, em todo caso, tocar no assunto naquele momento não seria lá uma boa ideia.

– Eu poderia chamar meu advogado agora mesmo – foi o que ela disse. – Você sabe muito bem que não existe motivo pra uma detenção.

– Apreciamos sua colaboração neste caso – retrucou Kierce sem um pingo de sinceridade –, mas antes que vá embora... Bem, acho que nós estamos olhando a coisa pelo ângulo errado.

Ele ficou esperando para ver se a isca seria mordida. Maya disse:

Nós estamos olhando exatamente para o que, posso saber?

Plantando as mãos sobre o encosto da cadeira virada, Kierce disse:

– Volta e meia você tropeça num cadáver, não é?

As palavras de Eddie: “O fantasma da morte persegue você, Maya...”

– Primeiro o seu marido – prosseguiu Kierce, um sorrisinho de ironia escapando dos lábios. – Agora esse investigador particular.

– Aonde você está querendo chegar, detetive?

– Só estou dizendo. Primeiro você vai encontrar seu marido no parque e ele acaba morto. Depois se despenca pra cá, procurando só Deus sabe o quê... e Tom Douglass acaba morto também. Qual será o denominador comum de tudo isso?

– Deixa eu ver se adivinho... – disse Maya. – Eu?

Kierce encolheu os ombros, dizendo:

– Não dá pra ignorar.

– Não, não dá. Mas qual é exatamente sua tese, detetive? Acha que matei essas duas pessoas?

Ele encolheu os ombros mais uma vez.

– É você que vai me dizer.

Maya ergueu os braços num gesto de rendição.

– Ok, ok, você me pegou. Matei o Tom Douglass... o quê? Semanas atrás? A julgar pelo estado do corpo? Depois escondi o cadáver neste fim de mundo, fui embora sem ser descoberta, e aí, por algum estranho motivo, procurei a mulher do homem pra saber onde ele estava. Depois disso... me ajuda aqui, detetive... depois disso voltei a esta oficina pra chamar a polícia e praticamente me entregar, certo?

Kierce não disse nada.

– E, claro, como não enxergar a conexão disso tudo com a morte do meu marido? Quanta esperteza a minha, ficar dando sopa na cena dos meus crimes, achando que essa é a melhor maneira de me safar! Ah, e no caso do Joe... puxa, realmente mando muito bem... por obra de algum milagre consegui encontrar a arma que alguém usou pra matar minha irmã, mesmo estando fora do país quando ela foi morta, e com ela matei meu próprio marido. Foi isso que aconteceu, não foi, detetive? Ou será que esqueci algum detalhe?

Kierce permaneceu mudo.

– E já que você está tentando provar que cometi esses dois... Espera aí, será que não matei minha irmã também? Não, você mesmo já disse que eu não poderia ter feito isso porque estava servindo o país no Oriente Médio. Mas já que você está provando tudo isso, quem sabe não seria o caso de investigarmos também a sua relação com a família Burkett?

Isso bastou para chamar atenção do detetive.

– Do que você está falando?

– Deixa pra lá. – Maya se levantou e disse: – Vocês que fiquem aí, perdendo o tempo que quiserem. Tenho uma filha pra criar.

Já rebocavam o carro dela.

– E a ordem judicial, onde está? – perguntou ela.

O cabeludo mostrou o documento.

– Rápidos no gatilho, não?

O homem simplesmente deu de ombros.

– Posso lhe dar uma carona – ofereceu Kierce.

– Não, obrigada.

Maya chamou um táxi pelo telefone, e o carro chegou em dez minutos. Assim que foi deixada em casa, ela pegou o outro carro, o de Joe, e correu para a casa de Claire e Eddie.

Eddie já esperava por ela à porta.

– E aí? – ele foi logo perguntando.

Sem entrar, Maya relatou rapidamente os acontecimentos da noite. De onde estava, ela podia ver Lily brincando com Alexa no interior da casa. Alexa e Daniel, ela pensou. Como eram bacanas aqueles dois. De modo geral ela julgava por resultados: se os filhos eram bacanas, então os pais deviam ser também. No caso dos sobrinhos, de quem seria o crédito? Apenas de Claire? No fim das contas, em qual dos dois ela confiaria mais para criar sua filha se preciso fosse?

– Eddie...

– Que foi?

– Omiti uma informação de você.

Ele olhou diretamente nos olhos dela.

– Não fui até a Filadélfia à toa. Lá fica a escola onde o Andrew Burkett estudou.

Ela contou toda a história, depois cogitou ir além e contar que tinha visto Joe na gravação da câmera escondida. Acabou concluindo que, pelo menos naquele momento, isso não acrescentaria nada.

– Então... são três mortes ao todo – disse Eddie em seguida, referindo-se a Claire, Joe e agora ao tal detetive particular. – E até onde consigo enxergar, a única conexão entre eles é o Andrew.

– Isso mesmo.

– Está mais do que claro, você não acha? Alguma coisa aconteceu naquele iate. Alguma coisa grave o bastante pra que continuem matando gente tanto tempo depois.

Maya assentiu com a cabeça.

– Quem mais estava a bordo naquela noite? – perguntou Eddie.

Maya lembrou-se do e-mail que tinha mandado para Christopher Swain. Até então não havia recebido nenhuma resposta.

– Só parentes e amigos – disse ela.

– Quem da família exatamente?

– Andrew, Joe e Caroline.

Eddie coçou o queixo, dizendo:

– E dois deles estão mortos.

– Pois é.

– Então sobra apenas...

– Caroline era uma criança. O que poderia ter feito? – Maya espiou a filha às costas do cunhado. Achou que ela parecia sonolenta. – Já está ficando tarde, Eddie.

– Ok, tudo bem.

– Ah, antes que eu me esqueça: precisamos colocar seu nome na lista de pessoas autorizadas a pegar a Lily na creche, o que tem de ser feito pessoalmente. Caso contrário não vão deixar que você a busque outra vez.

– Eu sei, a tal Miss Kitty me disse. Precisamos ir juntos, tirar uma foto etc.

– De repente podemos fazer isso amanhã se você tiver um tempinho.

Eddie virou-se e olhou para a sobrinha, que, com olhinhos pesados, batia mãos com a prima numa espécie de uni-duni-tê.

– Tudo bem, vamos lá.

– Obrigada, Eddie.

Eddie, Alexa e agora Daniel acompanharam Maya e Lily até o carro. Lily ameaçou uma birra, mas estava cansada demais para levá-la adiante. Já havia fechado os olhinhos quando Maya sentou ao volante e afivelou o cinto de segurança.

Maya procurou não pensar nos mortos enquanto dirigia, mas não conseguiu. Eddie estava certo. O que estava acontecendo no presente, fosse lá o que fosse, certamente tinha algo a ver com o que havia acontecido naquele iate dezessete anos antes. Difícil entender por que, mas isso era o que tudo indicava. Novamente ela almejou a simplicidade de Ockham, talvez, porém, a filosofia mais apropriada para as circunstâncias fosse a de Arthur Conan Doyle via Sherlock Holmes: “Quando eliminamos o impossível, o que sobra, por mais improvável que seja, deve ser a verdade.”

Dizem que não é possível enterrar o passado. Talvez seja verdade, mas o que isso significa de verdade é o seguinte: os traumas do passado reverberam e ecoam até o presente e assim permanecem vivos, o que não era lá muito diferente do que Maya estava passando. O trauma daquele ataque de helicóptero ainda ecoava e permanecia vivo, mesmo que apenas na sua cabeça.

Então o melhor a fazer talvez fosse vasculhar o passado. Que trauma poderia ter desencadeado tantos acontecimentos macabros?

Alguns apontariam para aquela noite no iate, mas não era lá que tudo havia começado.

Onde então?

Ela precisava recuar ainda mais no tempo, o mais longe possível. Era lá que geralmente ficavam as respostas. No caso em questão, o mais longe possível remontava à Franklin Biddle Academy e à morte de Theo Mora.

Maya sentiu uma inusitada solidão assim que pisou em casa. De modo geral, gostava da solidão, ansiava pelo descanso que ela trazia consigo. Mas não naquela noite. Deu banho na filha, trocou a roupa dela, e durante todo esse tempo a menina permaneceu meio grogue, mais dormindo do que acordada. Sua vontade secreta era que depois do banho ela despertasse um pouco, de modo que mãe e filha pudessem ficar um tempinho juntas, mas isso parecia pouco provável. Desconsolada, viu a menina fechar os olhos assim que foi acomodada na cama.

– Que tal uma historinha antes de dormir? – ela ainda arriscou, ciente de que estava forçando uma barra. Mas Lily não se mexeu.

Maya se levantou e ficou olhando para a filha do alto. Por um instante sentiu-se maravilhosamente normal. Queria ficar ali, naquele quarto, ao lado da sua Lily. Por que queria protegê-la? Por que não queria ficar sozinha? Naquele momento ela não saberia dizer. Mas tanto fazia. Ela puxou uma cadeira e sentou-se junto da cômoda que ficava ao lado da porta. Por um bom tempo não fez mais do que contemplar a filha. Diferentes emoções iam inflando e quebrando feito as ondas de uma praia, e ela não fazia nada para interrompê-las, tampouco as analisava, apenas deixava que elas fluíssem no seu próprio ritmo, interferindo o mínimo possível.

De repente ela se viu tomada de uma estranha paz.

Não havia motivo para ir dormir. Os ruídos não tardariam a aparecer se ela fosse para a cama, e isso era a última coisa que ela queria então, aquele inferno noturno que não dava trégua nunca. Descansaria muito mais se ficasse ali onde estava, admirando a filha.

Ela não saberia dizer quantas horas já haviam passado. Uma, talvez duas. Não queria sair daquele quarto nem por um segundo que fosse, mas precisava buscar seu bloco de anotações e uma caneta. Fez isso o mais rápido que pôde, receando abandonar a filha ainda que por alguns minutos. Quando voltou para o quarto, sentou-se na mesma cadeira e começou a escrever as cartas. Achou estranho ter uma caneta entre os dedos. Raramente escrevia alguma coisa à mão. Como todo mundo. Tudo agora se resolvia pelo computador ou pelo telefone.

Mas não naquela noite. Não para o que tinha em mente.

Já estava terminando quando o celular vibrou. Vendo que a chamada era de Caroline, a irmã de Joe, ela atendeu imediatamente.

– Caroline?

– Eu o vi, Maya – disse a outra, sussurrando. – Ele voltou. Não sei como, mas voltou. Falou que vai te procurar em breve.

Maya sentiu o sangue gelar nas veias.

– Caroline, onde você está?

– Não posso dizer. Não conta pra ninguém que eu liguei. Por favor.

– Caroline...

Caroline desligou. Maya ligou de volta para o número dela, mas caiu no correio de voz. Não encontrou um recado para deixar.

“Respire fundo, Maya. Inspire... Expire... Não deixe o pânico chegar.”

Porque não era a hora de entrar em pânico. Ela se recostou na cadeira e procurou refletir sobre o telefonema da cunhada da maneira mais racional possível. E, pela primeira vez em muito tempo, o horizonte começou a ­clarear.

Não por muito tempo.

Ela ouviu um carro estacionar na rua. Acabara de ouvir de Caroline: “Ele falou que vai te procurar em breve.”

Ela correu para a janela, esperando ver...

Exatamente o quê?

Na realidade dois carros haviam estacionado diante da sua casa. Do primeiro, um carro comum, desceu Roger Kierce. Do outro, um carro da polícia de Essex, desceu o investigador cabeludo.

Maya se afastou da janela e deu uma última espiada na filha antes de sair do quarto. O cansaço quis mostrar suas garras, mas ela não se deixou intimidar. Finalmente havia uma luz no fim daquele túnel de mistérios. Muito ao longe, mas uma luz.

Por medo de que eles tocassem a campainha e acordassem Lily, ela saiu à rua e foi ao encontro dos dois policiais.

– O que vocês querem? – perguntou, mais impaciente do que havia pretendido.

– Encontramos uma coisa – disse Kierce.

– O quê?

– Você vai ter de vir com a gente.