capítulo 28
MISS KITTY CONSEGUIU MANTER um sorriso amplo e duro, muito embora tivesse reconhecido o carro de Kierce, o mesmo em que vira Maya chegar naquele primeiro dia. Erguendo a mão antes que ela dissesse qualquer coisa, adiantou-se:
– Não precisa explicar.
– Obrigada.
Como já havia se tornado costumeiro, Lily se deixou levar pela professorinha sem protestar e entrou na sala amarela sem ao menos olhar para trás, engolida pelas gargalhadas das outras crianças.
– É uma menina adorável – disse Miss Kitty, voltando para o lado de Maya.
– Obrigada.
Maya deixou seu carro no estacionamento da creche e seguiu com Kierce. Não deu nenhuma trela quando ele tentou puxar conversa: fechou-se totalmente e assim permaneceu até a delegacia de Newark, onde foi conduzida para uma clássica saleta de interrogatório, igual a tantas outras nas delegacias de todo o país. Sobre a mesa havia uma câmera de vídeo instalada em cima de um pequeno tripé. O cabeludo apontou-a diretamente contra a camêra antes de ligá-la e perguntar se Maya estava disposta a responder a algumas perguntas. Maya disse que sim e assinou um formulário, comprovando o que acabara de dizer.
Kierce tinha mãos grandes e peludas. Cruzou-as sobre a mesa e procurou acalmar sua interrogada com um sorriso que ela não devolveu.
– Você se importa de começarmos do início? – disse ele.
– Me importo.
– Perdão?
– Você disse que tinha uma informação nova – disse Maya.
– Correto.
– Então por que não começamos por ela?
– Vou pedir um pouquinho da sua paciência, pode ser?
Maya não respondeu.
– Quando seu marido foi morto, você falou de dois homens que supostamente tentaram assaltar vocês dois, você e seu marido.
– Supostamente?
– Apenas uma formalidade, Sra. Burkett. Se incomoda se eu voltar a chamá-la de Sra. Burkett?
– Não. Qual é a sua pergunta?
– Localizamos dois homens que se encaixavam na sua descrição. Emilio Rodrigo e Fred Katen. Pedimos que você os identificasse, o que você fez prontamente, mas segundo o seu depoimento, eles estavam usando gorros. Como você sabe, não tínhamos provas para detê-los, mas Rodrigo foi indiciado por porte ilegal de arma.
– Ok.
– Antes do assassinato do seu marido, você conhecia algum desses dois rapazes, Emilio Rodrigo ou Fred Katen?
Opa. Para onde estaria indo aquela conversa?
– Não.
– Nem sequer havia falado com eles?
Maya olhou para o cabeludo, que estava imóvel feito uma rocha. Depois se virou para Kierce e respondeu:
– Não, nunca.
– Tem certeza?
– Tenho.
– Porque uma tese possível é a de que não se tratava de um assalto, Sra. Burkett. Uma tese possível é a de que você tenha contratado esses dois rapazes pra matar seu marido.
Maya novamente olhou para o cabeludo antes de dizer ao detetive:
– Você sabe que isso não é verdade.
– Sei? Por quê?
– Por dois motivos. Primeiro, se tivesse contratado Emilio Rodrigo e Fred Katen, eu não teria identificado os dois para a polícia, teria?
– Talvez quisesse dar uma rasteira neles.
– O que seria meio arriscado, não acha? Pelo que sei, o único subsídio que vocês tinham pra pegá-los era o meu depoimento. Se eu não tivesse dito nada, vocês nunca os teriam encontrado. Então... que motivo eu poderia ter tido pra identificá-los? Não seria do meu próprio interesse ficar de bico calado?
Kierce não encontrou o que dizer.
– E se por algum estranho motivo você acha mesmo que contratei essa dupla pra depois passar uma rasteira neles, então me diga: que motivo eu teria pra dizer que eles estavam de gorro? Eu poderia muito bem tê-los identificado com absoluta certeza pra que depois vocês pudessem prendê-los, não poderia?
Kierce já ia abrindo a boca para dizer algo, mas Maya o interrompeu para responder a uma mensagem da creche. Em seguida disse:
– E antes que você me venha com mais alguma tese absurda, me diga uma coisa. Nós dois sabemos que não é por isso que estou aqui. E antes que você pergunte como é que eu sei, estamos em Newark, não na cidade de Nova York. Estamos na jurisdição do nosso amigo cabeludo aqui. Desculpa, como é mesmo o seu nome?
– Demetrius Mavrogenous, investigador do condado de Essex.
– Ótimo. Se importa se eu continuar com “cabeludo”? Mas não vamos desperdiçar nosso precioso tempo, ok? Se isto tivesse alguma coisa a ver com o assassinato do Joe, estaríamos lá na sua delegacia do Central Park, detetive Kierce. Mas não. Estamos em Newark, que fica no condado de Essex, que é a jurisdição de Livingston, Nova Jersey, distrito onde foi localizado o corpo do Tom Douglass ontem à noite.
– Localizado, não – corrigiu Kierce, tentando recuperar o embalo de antes. – Encontrado. Por você.
– Sim, mas isso não é novidade nenhuma, é?
Após um breve silêncio, Kierce disse:
– Não, não é.
– Ótimo. E não estou sob ordem de prisão, estou?
– Não, não está.
– Então chega de rodeios, detetive. Diz logo o que encontrou pra justificar minha presença aqui.
Kierce olhou para o cabeludo; o cabeludo assentiu com a cabeça.
– Por favor, olhe para aquele monitor ali.
Na parede havia uma televisão de tela plana. O cabeludo ligou-a com um controle remoto, e um vídeo surgiu à tela, a gravação de uma câmera de segurança localizada no que parecia ser um posto de gasolina. Viam-se as bombas e, atrás delas, as luzes e semáforos de uma avenida. Maya não reconheceu o posto imediatamente, mas logo se deu conta do que poderia estar acontecendo. Olhando de relance para Kierce, viu que ele analisava a reação dela.
– Pronto, é aqui – disse o cabeludo, pausando o vídeo e dando um zoom na imagem congelada. Maya não demorou a localizar seu próprio carro diante do semáforo à direita. Pelo ângulo da gravação, via-se apenas a parte traseira dele. – Somente as duas primeiras letras da placa estão legíveis, mas são as mesmas da placa do seu carro, Sra. Burkett. Este é o seu carro, Sra. Burkett?
Maya poderia argumentar dizendo que provavelmente existiam outras BMWs com placas que começavam com as mesmas letras, mas do que isso adiantaria?
– Parece que sim – disse ela.
Kierce sinalizou, e o cabeludo deslocou o zoom para a janela do lado do passageiro. Ambos se viraram para encarar Maya.
– Quem é esse homem? – perguntou Kierce.
Maya não respondeu.
– Sra. Burkett.
Ela permaneceu calada.
– Ontem à noite você nos disse que estava sozinha quando encontrou o corpo do Sr. Douglass, correto?
Olhando para a televisão, Maya disse:
– Não vejo nada ali que contradiga isso.
– Você não está sozinha no seu carro.
– Também não estou na oficina mecânica onde o corpo foi encontrado.
– Está dizendo que esse homem...
– Tem certeza que é um homem?
– Perdão?
– Estou vendo apenas um borrão e um boné de beisebol. Mulheres também usam bonés de beisebol.
– Quem é essa pessoa, Sra. Burkett?
Ela não iria contar a eles sobre Corey Rudzinski. Cedera à convocação de Kierce porque queria saber o que ele havia descoberto. Agora sabia. Então perguntou outra vez:
– Estou presa?
– Não.
– Então creio que não tenho mais nada pra fazer aqui.
Kierce abriu aquele seu sorriso irônico do qual ela não gostava nem um pouco.
– Maya? – disse ele. – Não foi por isso que trouxemos você aqui.
Ela parou onde estava, surpresa. O que teria acontecido ao “Sra. Burkett”?
– Conversamos com a viúva, a Sra. Douglass. Ela nos contou sobre a sua visita.
– A mesma sobre a qual falei ontem.
– Sim, falou. Segundo nos disse a Sra. Douglass, você a procurou porque acreditava que sua irmã Claire havia interrogado o marido dela. É isso mesmo?
Maya não via motivos para não confirmar a informação.
– Como eu já lhe disse, detetive.
Kierce inclinou a cabeça e perguntou:
– Como você sabe que sua irmã procurou o Tom Douglass?
Isso ela não queria responder. Kierce aparentemente já esperava por isso.
– Mais uma denúncia anônima por parte do seu amigo misterioso? – ironizou ele.
Maya não respondeu.
– Então, se não estou enganado, você recebeu uma denúncia desse seu amigo, dizendo que a Claire havia procurado o Tom Douglass. Depois recebeu uma segunda denúncia dizendo que o corpo do Tom Douglass estava escondido numa oficina mecânica. Me diz uma coisa, Maya. Você se deu ao trabalho de averiguar essas duas informações antes de agir?
– Como assim?
– Você tinha alguma prova de que seu informante anônimo estava dizendo a verdade?
Ela fez uma careta e disse:
– Bem, eu sei que minha irmã realmente procurou o Tom Douglass.
– Sabe?
Maya sentiu um arrepio na nuca. Kierce prosseguiu:
– De fato seu informante estava certo quanto ao Tom Douglass, não estava blefando. Mas ele meio que deixou você com a batata quente na mão, você não acha? – Ele se levantou, foi para junto da televisão e, apontando para o vulto de boné, disse: – Imagino que essa pessoa seja o seu amigo misterioso. É ou não é?
Maya não disse nada.
– Digamos que seja um homem. Aliás, tenho a impressão de que isto aqui seja uma barba. Então. Foi ele que levou você até aquela oficina mecânica?
Maya cruzou as mãos, depois as espalmou na mesa.
– E se foi?
– Afinal, ele estava no seu carro, não estava?
– E daí?
Kierce se aproximou da mesa, plantou sobre ela os dois punhos e, inclinando-se na direção de Maya, cuspiu:
– E daí que encontramos sangue no bagageiro do seu carro, Sra. Burkett.
Maya gelou feito uma estátua.
– Tipo AB positivo. O mesmo tipo sanguíneo do Tom Douglass. Pode nos dizer como foi que esse sangue foi parar no bagageiro do seu carro?