capítulo 29
ELES TINHAM O TIPO sanguíneo, mas o resultado ainda não havia saído para o teste de DNA capaz de confirmar se o tal sangue realmente pertencia a Tom Douglass. Portanto, eles ainda não tinham provas suficientes para prendê-la.
Mas estavam muito próximos disso. O tempo era curto.
Kierce ofereceu-se para levá-la em casa, e dessa vez ela aceitou. Durante os primeiros dez minutos da viagem, ambos permaneceram calados. Foi ele quem quebrou o silêncio.
– Maya...
Ela vinha olhando pela janela, pensando em Corey Rudzinski, o homem que de certa maneira começara tudo aquilo. Era ele quem havia divulgado as imagens do helicóptero, o ponto inicial da sua triste espiral descendente. De novo, ela poderia retroceder ainda mais no tempo, até suas ações naquela missão, até a decisão de entrar para as Forças Armadas, ou mesmo até algum ponto anterior. Mas o que realmente havia deflagrado aquela sucessão de tragédias, entre elas a morte de Claire e Joe, era a divulgação da maldita gravação.
Seria possível que Corey a tivesse manipulado?
Ela quisera tanto conquistar a confiança do homem que não parara para pensar que talvez não fosse uma boa ideia confiar em alguém que tanto mal já lhe havia feito. Ela tentou relembrar exatamente o que tinha ouvido. Segundo ele, Claire o havia procurado por meio do site. Na hora ela havia acreditado, mas, pensando melhor, seria mesmo verdade? Até certo ponto fazia sentido que Claire realmente o tivesse procurado para tentar convencê-lo a não publicar o áudio. Mas também fazia sentido, tanto quanto, senão mais, que ele tivesse usado o áudio para manipulá-la (ou chantageá-la, por que não?) para que ela lhe passasse informações sobre a família Burkett e a EAC Pharmaceuticals.
Seria isso? Corey teria manipulado Claire e agora estaria fazendo o mesmo com ela? Teria chegado ao ponto de tentar incriminá-la com a morte de Tom Douglass?
– Maya... – repetiu Kierce.
– Que foi?
– Você vem mentindo pra mim desde o primeiro dia.
Basta, ela pensou. Hora de virar a mesa.
– Caroline Burkett disse que você recebe propinas da família dela.
Teria Kierce dado um pequeno sorriso?
– Mentira.
– Será?
– Sim – disse ele. Olhou rapidamente para Maya, depois voltou a atenção para o trânsito e acrescentou: – Só não sei se foi a Caroline que mentiu pra você ou se é você que está mentindo pra mim agora. Dizem que o ataque é sempre a melhor defesa, não dizem?
– Muita desconfiança pra um carro só, não acha?
– Pois é – disse Kierce. – Mas é você que está com a corda no pescoço, Maya. Cuidado. As mentiras não morrem nunca. Você até pode tentar sufocá-las, mas elas sempre encontram um jeito de voltar à vida.
– Puxa, que profundo...
Kierce riu e disse:
– É. Acho que exagerei.
Eles chegaram. Maya tentou abrir a porta do carro, mas, constatando que estava trancada, olhou para Kierce, que disse:
– Cedo ou tarde vou descobrir a verdade, Maya. Só espero que ela não respingue em você. Mas se respingar...
Após alguns segundos de silêncio, ele enfim destrancou a porta.
Maya desceu sem ao menos se despedir ou agradecer a carona. Entrando em casa, certificou-se de que todas as portas e janelas estavam trancadas, depois desceu ao porão. O cômodo começara a vida como um refúgio para Joe e seus amigos (mesa de sinuca, duas máquinas de fliperama, bar de carvalho, adega climatizada, televisão gigante), mas aos poucos, por iniciativa do próprio Joe, fora se transformando numa sala de brinquedos para Lily. Os lambris escuros haviam sido arrancados, e as paredes, pintadas inteiramente de branco para depois serem decoradas com os decalques que ele encontrara para comprar: decalques de tamanho natural de diversos personagens, desde o Ursinho Pooh até Madeline. O balcão de carvalho continuava lá, mas Joe havia prometido tirá-lo também. Por Maya, tanto fazia. Num canto, ele havia colocado a casinha de plástico que comprara na Toys“R”Us da Rota 17, grande o bastante para acomodar mais de uma criança. A fachada era a de um forte (“coisa de menino”, ele havia observado na época), mas dentro havia uma pequena cozinha (“coisa de menina”, ele teria dito se não tivesse sabiamente obedecido ao instinto de sobrevivência). A porta tinha uma campainha real e as janelas se abriam em duas folhas.
Maya foi até o cofre onde guardava suas armas, ajoelhou-se diante dele e, mesmo sabendo que estava sozinha, olhou para a escada do porão. Só então colocou o dedo indicador no leitor de impressões digitais. O cofre permitia até 32 usuários diferentes, mas apenas ela e Joe tinham permissão de acesso. A certa altura, ela havia cogitado incluir as impressões digitais de Shane também (para o caso de ele precisar de uma das armas, ou se por algum motivo ela precisasse que ele retirasse algo por ela), mas ainda não tinha tido a oportunidade de fazê-lo.
Dois cliques indicavam que a impressão digital de Maya havia sido reconhecida e que o cofre estava aberto. Ela retirou a Glock 26, depois, apenas por desencargo de consciência, conferiu se todas as outras ainda estavam no mesmo lugar, se ninguém havia entrado ali e de alguma forma conseguido abrir o cofre.
Não, ela não acreditava que Joe estivesse vivo, mas àquela altura seria uma petulância imperdoável descartar por completo essa possibilidade.
Ela retirou as armas uma a uma. Não fazia muito que as tinha limpado, mesmo assim limpou-as de novo com todo o cuidado. Um hábito seu: toda vez que tocava numa arma, reexaminava o mecanismo e fazia uma boa limpeza. Era bem possível que essa meticulosidade quase obsessiva com as armas tivesse salvado sua vida.
Ou arruinado.
Ela fechou os olhos por um segundo. Eram tantas possibilidades malucas, tantos campos minados naquela história toda... Onde estaria o início dela? Na Franklin Biddle Academy ou no iate dos Burketts? Poderia ter ficado para sempre lá mesmo, no passado, ou teria sido ressuscitada por aquela sua missão de combate nos céus de Al Qa’im? Quem seria o responsável por ter despertado esses fantasmas? Corey ou Claire? Onde estaria o epicentro do terremoto? Na divulgação da gravação ou no envolvimento com Tom Douglass?
Ou, quem sabe, na abertura daquele maldito cofre?
Ela não sabia mais dizer. Nem mesmo se ainda atribuía a isso alguma importância.
As armas que ficavam à vista, as que ela havia mostrado a Roger Kierce, eram as armas legalmente registradas em Nova Jersey, todas facilmente rastreáveis no estado, todas ali presentes. Esticando o braço, ela pressionou um ponto específico no fundo do cofre.
Um compartimento secreto.
Maya não pôde deixar de pensar no baú da sua avó, aquele mesmo que ela havia vasculhado na casa de Claire: a ideia de um compartimento secreto tinha começado muitas gerações antes, em Kiev, e agora lá estava ela, levando adiante a tradição familiar.
Escondidas no tal compartimento, havia mais duas armas, ambas compradas fora do estado e, portanto, não rastreáveis. Não existia nada de ilegal nisso. Ambas estavam ali. Mas... o que ela havia imaginado? Que o fantasma de Joe tivesse aparecido para roubar uma delas? Fantasmas não tinham impressões digitais, tinham? Mesmo se quisesse, o fantasma de Joe não teria conseguido abrir aquele cofre.
Caramba, ela já estava ficando tonta.
De repente se assustou com uma ligação. Não reconheceu o número, mas mesmo assim atendeu.
– Alô?
– Maya Burkett?
– Sim, quem fala?
– Meu nome é Christopher Swain. Você me mandou um e-mail.
O segundo capitão da equipe de futebol de Joe.
– Claro, claro. Obrigada por ter ligado.
Silêncio. Por um instante ela receou que o cara tivesse desligado.
– Eu gostaria de lhe fazer umas perguntas, se você não se importar.
– Sobre?
– Meu marido. E o irmão dele, Andrew.
Silêncio.
– Sr. Swain?
– Joe está morto, não está?
– Está.
– Quem mais sabe que você me procurou?
– Ninguém.
– Está falando a verdade?
– Estou, claro – disse Maya, já ficando tensa.
– Posso responder suas perguntas. Mas não por telefone.
– Marque onde quiser.
Ele passou um endereço em Connecticut.
– Posso chegar em duas horas – disse Maya.
– Não diga a ninguém que está vindo. Se vier acompanhada, eles não vão deixar você entrar – disse Swain, e desligou.
Eles?
Maya certificou-se de que a Glock estava carregada e fechou o cofre. Em seguida, atou à cintura da calça um coldre interno que manteria a arma escondida, sobretudo se ela usasse um blazer por cima. Ela gostava da sensação de estar armada. Noutro planeta isso seria uma coisa bizarra, uma falha moral, um sintoma de violência, mas havia algo ao mesmo tempo primitivo e reconfortante no peso de uma arma de fogo. Isso também podia ser um perigo, porque o portador acabava se sentindo mais confiante do que devia, envolvendo-se em situações que de outra forma não se envolveria, achando que bastava dar uns tiros para o alto para se safar de qualquer roubada. Este era o risco: tornar-se arrogante demais, corajoso demais, “macho” demais. Sentir-se indestrutível.
Portar uma arma dava opções ao portador. Mas nem sempre isso era uma coisa boa.
Maya colocou a câmera em forma de porta-retratos na traseira do carro. Ela não a queria mais na casa.
Digitando o endereço de Christopher Swain no aplicativo de mapas, Maya foi informada de que, sob as condições de trânsito atuais, a viagem levaria uma hora e 36 minutos. Em seguida, ela colocou para tocar bem alto a playlist de Joe. Como antes, não saberia explicar por quê. A primeira música foi “Open”, da dupla californiana Rhye, que começava pegando fogo (“Me amarro neste tremor das suas coxas”), mas que alguns versos depois, passado o furor inicial, dava a entender que nem tudo eram rosas na relação (“Sei que você está sumindo aos poucos, mas fique, não feche os olhos”).
Na canção seguinte, a inglesa Låpsley cantava lindamente sua advertência: “Faz tempo que venho esperando por isso, não estou aguentando mais.” Mais apropriado, impossível.
Maya deixou-se perder na música, cantando a plenos pulmões, batucando no volante do carro. Na vida real, no seu helicóptero, no Oriente Médio, em casa, em tudo quanto era lugar, ela não fazia nada disso, comportava-se direitinho. Mas não ali. Não quando estava sozinha num carro. Sozinha num carro, ela colocava a música no volume máximo e cantava como se não houvesse amanhã.
Isso mesmo.
A última canção, quando ela já atravessava o perímetro urbano de Darien, Connecticut, era uma linda balada dos franceses da banda Cocoon, estranhamente intitulada “Sushi”. De novo, os versos iniciais a atropelaram com a força de uma paulada: “De manhã vou ao cemitério, pra ter certeza de que você se foi pra sempre...”
Foi o que bastou para cortar a onda.
Havia dias em que as músicas pareciam estar falando diretamente para ela. Seria assim com todo mundo?
E havia músicas que às vezes espetavam o dedo diretamente nas suas feridas.
De repente ela se viu numa ruazinha estreita e praticamente deserta, ladeada por um bosque. O mapa do celular indicava que o endereço ficava na extremidade de uma rua sem saída. Ao que tudo indicava, tratava-se de uma casa isolada do resto do mundo. À entrada havia uma guarita e um portão fechado. Maya parou diante dele e um vigia saiu para falar com ela.
– Pois não? – disse ele.
– Christopher Swain está me esperando – informou ela.
O vigia retornou à sua toca, falou com alguém pelo interfone, depois voltou para junto do carro.
– Pode deixar o carro no estacionamento de visitantes, logo à sua direita. Uma pessoa vai recebê-la ali mesmo.
Estacionamento de visitantes?
Assim que entrou na propriedade, Maya constatou que não se tratava de uma residência. Então, o que poderia ser? Câmeras de segurança empoleiravam-se nas árvores. Prédios baixos de fachada cinzenta pontilhavam o espaço. A arquitetura e a atmosfera geral do lugar eram bastante parecidas com as da Franklin Biddle Academy.
No estacionamento havia mais ou menos uns dez carros. Maya parou numa das vagas e segundos depois um funcionário veio ao seu encontro num carrinho de golfe. Rapidamente ela tirou a arma do coldre e guardou no porta-luvas: decerto teria de passar por algum esquema de segurança ou detector de metais antes de entrar num daqueles prédios.
O funcionário correu os olhos vagamente pelo carro dela, depois a convidou para sentar a seu lado no carrinho de golfe. Esperou que ela se acomodasse e disse:
– Documento de identidade, por favor?
Maya entregou sua carteira de motorista. Ele a fotografou com a câmera do celular, devolveu-a e disse:
– O Sr. Swain está no Brocklehurst Hall. Vou levá-la até lá.
Ao longo do caminho, Maya avistou diversas pessoas espalhadas em grupinhos ou caminhando aos pares, homens e mulheres com seus vinte e tantos anos, todos brancos. Muitos (talvez até demais) estavam fumando. A maioria vestia jeans e tênis com moletons ou suéteres pesados. No centro do terreno havia um amplo gramado não muito diferente daqueles que se viam nos campi universitários, e no centro dele, uma fonte com o que parecia ser uma estátua da Virgem Maria.
Maya enfim perguntou ao motorista do carrinho o que vinha perguntando a si mesma já fazia um bom tempo:
– O que é este lugar?
Apontando para a estátua da Virgem, o homem disse:
– Até o fim da década de 1970, um convento, por incrível que pareça. Um convento cheio de freiras.
– Jura? – disse Maya, tentando disfarçar o sarcasmo. Que mais poderia haver num convento? – Mas agora é o quê?
Ele franziu o cenho, dizendo:
– A senhora não sabe?
– Não.
– Mas não cabe a mim dizer nada.
– Por favor – disse Maya, num tom de voz sedutor o bastante para fazer o homem contrair a barriga. – Preciso saber onde estou, só isso.
Ele exalou um suspiro, apenas para dar a impressão de que havia remoído a questão, depois disse:
– A senhora está no Centro de Recuperação Solemani.
Centro de Recuperação, pensou Maya com seus botões. Um eufemismo para uma clínica de desintoxicação. Agora, sim, tudo se explicava. Não deixava de ser uma ironia que os ricos tivessem confiscado e ocupado aquele lugar tão lindo, antes povoado por freiras que decerto haviam feito um voto de pobreza. Por outro lado, que voto de pobreza seria esse que permitia instalações tão luxuosas? Talvez não houvesse ironia nenhuma, mas outra coisa que ela não sabia dizer o que era.
O carrinho parou diante do que parecia ser um dormitório.
– Chegamos – disse o motorista, e apontou. – A entrada é ali.
Maya tocou a campainha e foi recebida por um segurança que, como previsto, obrigou-a a passar por um detector de metais. Uma mulher sorridente esperava por ela do outro lado.
– Olá – disse ela, oferecendo a mão para Maya. – Meu nome é Melissa Lee. Sou uma das facilitadoras aqui do Centro.
Facilitadora. Mais um eufemismo. Maya apertou a mão dela e se apresentou também.
– Christopher pediu que eu a levasse pro solário – disse a moça. – Por favor, venha comigo.
Os saltos dela agora ecoavam pelo corredor vazio. Não fosse por eles, o silêncio seria mesmo o de um convento. Que diabo levaria alguém a perturbar a paz de um convento, ou de uma clínica, com a percussão irritante de um par de saltos? Por que não usar tênis? Saltos fariam parte do uniforme? Ou será que a moça fazia isso de propósito, vítima de um prazer mórbido em perturbar a paz alheia?
E por que raios ela, Maya, estava pensando em algo assim, tão banal?
Christopher Swain ficou de pé para cumprimentá-la, nervoso como se num primeiro encontro com uma possível namorada. Vestia um terno escuro muito bem cortado, camisa branca e uma gravatinha preta. À guisa de barba, ele exibia no rosto uma penugem cuidadosamente podada para dar o aspecto de displicência, de informalidade. Os cabelos não eram exatamente longos, mas lembrariam os de um skatista se não tivessem passado por uma visível balayage. Swain era um homem bonito apesar dos exageros. Maya não sabia o motivo da sua internação, mas fosse lá o que fosse, a experiência havia deixado em seu rosto algumas rugas das quais ele certamente não gostava e que tentava apagar com aplicações periódicas de Botox ou sessões de preenchimento. Maya, por sua vez, gostava delas, achava que davam mais personalidade àquela estampa de riqueza e privilégios.
– Aceita uma água, um café? – ofereceu Melissa.
– Não, obrigada – disse Maya.
Melissa abriu um semissorriso, depois olhou para Swain e, num tom de genuína preocupação, perguntou:
– Quer mesmo que eu vá, Christopher?
– Por favor – respondeu ele, não sem alguma hesitação. – Acho que é um passo importante pra mim.
– Acho também – disse a moça.
– Então vamos precisar de um pouquinho de privacidade.
– Claro. De qualquer modo, estou por perto. Se precisar de mim é só chamar.
Melissa despediu-se de Maya com mais um semissorriso, depois saiu e fechou a porta às suas costas. Swain foi logo dizendo:
– Uau. Você é muito bonita.
Maya não soube o que dizer.
Sorrindo, Swain aquilatou-a de cima a baixo.
– Muito linda mesmo – disse. – E ainda passa esse ar de inacessível, como se estivesse acima de tudo e de todos. Aposto que o Joe ficou de quatro assim que te conheceu, ficou ou não ficou?
Não era o momento de ficar ofendida e apelar para os brios feministas, pensou Maya. O importante era fazer o homem falar.
– Mais ou menos – disse ela.
– Deixa eu adivinhar. Joe chegou junto com uma boa cantada, alguma coisa engraçada e ao mesmo tempo autodepreciativa, pagando de vulnerável. Estou certo?
– Está.
– Você também ficou encantada, não ficou?
– Fiquei.
Swain sorriu e disse:
– Esse era o Joe que eu conheci. O sujeito mais carismático do mundo quando queria ser. – Depois, balançando a cabeça, emendou: – É verdade mesmo? Que ele... morreu?
– Sim.
– Eu não sabia. Aqui a gente não tem acesso a jornais, a internet, a redes sociais... nada que nos coloque em contato com o mundo exterior. Uma vez por dia temos permissão pra conferir os e-mails. Foi assim que recebi sua mensagem. Depois disso... bem, os médicos disseram que eu poderia ler o clipping de notícias. Fiquei chocado quando soube do Joe. De verdade. Então, vamos sentar?
Via-se claramente que o tal solário era um acréscimo mais ou menos recente à arquitetura original e que tentava, sem grande sucesso, misturar-se a ela. Dava a impressão de que havia sido colado ao corpo mais antigo do prédio. O telhado era uma ampla cúpula de falsos vitrais. Havia plantas, claro, porém bem menos do que seria esperado num solário. Duas cadeiras de braço defrontavam-se no centro do espaço. Maya sentou-se numa delas, e Swain, na outra.
– Mal posso acreditar que ele tenha morrido...
– Pois é – disse Maya. Àquela altura já tinha ouvido a mesma coisa um milhão de vezes.
– Você estava lá, não estava? Quando atiraram nele?
– Estava.
– Pelo que li, você saiu incólume da coisa toda.
– Sim.
– Como?
– Fugi correndo.
Swain encarou-a como se não tivesse acreditado plenamente.
– Deve ter sido um horror – comentou ele.
Maya não disse nada.
– Falaram que foi um assalto que desandou.
– Sim.
– Mas nós dois sabemos que isso não é verdade, certo? – disse Swain, correndo a mão pelos cabelos. – Você não estaria aqui se realmente tivesse sido um assalto.
Maya começava a se irritar com o jeito dele.
– Por enquanto, ainda estou tentando entender o que aconteceu – foi só o que ela disse.
– Caramba... Até agora não consigo acreditar.
Percebendo um sorriso estranho no rosto dele, Maya perguntou:
– Acreditar no quê?
– Que o Joe morreu. Desculpa ficar repetindo isso, mas é que... O Joe era um cara... Não sei se seria correto dizer que ele era um cara “cheio de vida”. É meio clichê, não é? Então digamos que era uma força da natureza. Um cara forte, poderoso, um incêndio que se alastrava e ninguém conseguia apagar. Havia algo de... sei que é bobagem, mas... havia algo de imortal no Joe... – Aqui ele se calou e voltou os olhos para a janela mais próxima.
Maya se reacomodou na cadeira, esperou um pouco, depois disse:
– Christopher... Você estava naquele iate quando o irmão dele caiu no mar, não estava?
Swain permaneceu como estava.
– O que foi que realmente aconteceu com o Andrew? – insistiu Maya.
Ele engoliu em seco. Uma lágrima escapou dos olhos e escorregou rosto abaixo.
– Christopher?
– Eu não vi nada, Maya. Estava no deque inferior – respondeu ele, enfim.
– Mas você sabe de alguma coisa, não sabe?
Outra lágrima.
– Por favor – insistiu Maya –, eu preciso saber. O Andrew realmente caiu daquele barco?
– Não sei – disse Swain, incisivo feito uma pedra jogada no poço. – Mas acho que não.
– O que você acha que aconteceu?
– Acho que... Acho que... – Christopher Swain encheu os pulmões e precisou raspar o tacho da coragem para dizer: – Acho que o Joe empurrou o irmão no mar.