capítulo 30
SWAIN APERTAVA OS BRAÇOS da cadeira.
– Tudo começou quando o Theo Mora apareceu na Franklin Biddle Academy – disse ele, e puxou sua cadeira para a frente até quase roçar os joelhos de Maya. Era como se precisasse estar fisicamente próximo de alguém naquele solário cada vez mais frio. – Ou de repente foi aí que comecei a perceber. Você provavelmente acha que se tratava do velho clichê, aquela história de que ricos não gostam de ver pobres estudando nas suas escolas de elite. Quase pode imaginar a cena, não é? Nós, os riquinhos, espezinhando o Theo Mora, o pobretão. Mas não era bem isso que rolava.
– Era o quê, então? – perguntou Maya.
– Theo era um cara despachado, divertido. Não cometeu a mancada de baixar a crista pra gente. Logo, logo já fazia parte da turma. Todo mundo gostava dele. Em muitos aspectos éramos todos iguais. Sei que as pessoas gostam de pintar os ricos de um jeito e os pobres de outro, mas quando você é apenas um garoto... e era isso que a gente era, ou pensava ser... você só quer se enturmar com os outros e se divertir com eles.
Ele secou os olhos e respirou um pouco.
– Além disso, o Theo era um excelente jogador. Não apenas bom, mas excelente. O que pra mim, como capitão do time, era ótimo. A gente tinha tudo pra vencer todos os campeonatos daquele ano. Não só o intercolegial, que a gente realmente venceu, mas também o estadual, que incluía todo tipo de time. Theo marcava gols de qualquer lugar do campo. Era desse naipe. E talvez fosse esse o problema.
– Como assim?
– Pra mim ele não representava nenhuma ameaça. Eu jogava no meio de campo. Também não representava nenhuma ameaça pro Andrew, que era goleiro, além de melhor amigo dele.
Swain calou-se e ficou olhando para Maya, que completou por ele:
– Mas o Joe também era atacante.
– Era – disse Swain. – Não estou dizendo que o Joe hostilizava o garoto acintosamente por causa disso, mas... Eu conhecia o Joe desde o primeiro ano. Praticamente crescemos juntos. Éramos os capitães do time. Quando a gente passa tanto tempo assim do lado de outra pessoa, cedo ou tarde acaba vendo o que existe por trás da máscara. No caso do Joe, o que existia era uma raiva latente. Volta e meia ele tinha um acesso de fúria. No nosso oitavo ano, teve um dia em que ele mandou um cara pro hospital com um taco de beisebol. Nem lembro mais por quê. Só lembro que tivemos de intervir, eu e mais dois colegas, pra apartar a briga antes que fosse tarde demais. Joe fraturou o crânio do sujeito. Um ano depois, na festa de fim de ano, ele ficou sabendo que a menina que ele paquerava, Marian Barford, iria acompanhada de outro cara, Tom Mendiburu. Dois dias antes da festa houve um incêndio no laboratório de química da escola, do qual esse Tom quase não saiu vivo.
Maya sentiu um frio na espinha.
– Ninguém denunciou nada disso à polícia?
– Você não chegou a conhecer o pai do Joe, chegou?
– Não.
– Era um homem intimidante. Corriam boatos de que ele andava com um pessoal aí, meio barra-pesada. De qualquer modo, sei que ele molhou a mão de muita gente. Vinham uns caras pra falar com a gente, “amigos” da família, pra pedir o nosso silêncio. Além disso, o Joe fazia a coisa direito, nunca deixava rastros. Era muito carismático, como eu disse antes. Sabia jogar charme pra cima das pessoas. Sabia fingir que estava muito arrependido. Pedia desculpas. Acabava enganando as pessoas. Era de uma família muito rica e poderosa, e sempre que necessário, sobretudo nesses momentos de aperto, sabia esconder esse lado mais sombrio da personalidade dele. Eu conhecia o cara a vida inteira. Mesmo assim, só via esse outro lado de vez em quando. Mas quando via... – As lágrimas brotaram novamente. – Você deve estar se perguntando como vim parar aqui.
Não exatamente. Maya já havia imaginado que ele tinha algum tipo de vício e estava ali para se tratar. Que mais poderia ser? Ela preferia que ele continuasse se abrindo, mas se ele realmente achava necessário fazer aquela digressão, talvez fosse um erro tentar demovê-lo.
– Vim parar aqui por causa do Joe – ele mesmo respondeu.
Maya achou por bem não contestar.
– Eu sei, eu sei. O correto é a gente assumir a responsabilidade pelos próprios atos. É isso que eles vivem dizendo por aqui. E eu vivo trocando de vícios: uma hora é a bebida, outra hora é a cocaína, depois são os comprimidos... Mas nem sempre foi assim. Na escola eles sempre zoavam comigo porque eu não bebia mais que uma cerveja. Detestava o gosto. Experimentei maconha uma vez, no último ano, mas aquilo só me deixou enjoado.
– Christopher?
– Sim.
– Que foi que aconteceu com o Theo?
– Era pra ser apenas uma brincadeira. Foi isso que o Joe falou pra gente. Nem sei se acreditei ou não, mas... eu era um fraco. Quer dizer, ainda sou um fraco. Joe era o líder, e eu, um seguidor. Andrew também era um seguidor do irmão. Afinal de contas, que mal poderia haver numa simples brincadeira, um simples trote? Acontece toda hora em escolas como a Franklin Biddle. Então... naquela noite a gente resolveu pegar o Theo. Eu e o Joe invadimos o quarto dele... o Andrew já estava lá. Daí imobilizamos o cara e descemos com ele. – Swain se calou e ficou olhando ao longe, dando asas à memória. Um sorriso estranho brotou de repente nos lábios dele.
– Que foi?
– Theo não se opôs à coisa. Sabia que era uma brincadeira, então foi brincando junto. Mais uma prova do garoto bacana que era. Lembro que ele ria muito, como se tudo estivesse bem. Depois jogamos o cara numa cadeira e o Joe começou a amarrá-lo. Eu e o Andrew ajudamos, todo mundo rindo, o Theo fingindo que estava gritando por ajuda, esse tipo de coisa. Lembro que deixei um nó frouxo, daí o Joe foi lá e apertou. Depois, quando o Theo já estava totalmente imobilizado, o Joe pegou um funil, desses de cozinha, e espetou na boca do garoto. Lembro que nesse instante a expressão no olhar do Theo mudou. Tipo, sei lá... como se de repente ele tivesse sacado o que realmente estava acontecendo. Tinha mais dois caras com a gente: Larry Raia e Neil Kornfeld. O Andrew foi despejando a cerveja pelo funil, e a gente em volta deles, rindo, botando pilha, gritando “bebe, bebe!”. Depois disso foi como num sonho. Ou num pesadelo. Até hoje tenho dificuldade pra acreditar que tudo aquilo aconteceu. Só sei que lá pelas tantas o Joe resolveu trocar a cerveja por uma garrafa de álcool purificado. Lembro do Andrew dizendo pra ele parar...
Swain se calou de repente.
– Que foi que aconteceu depois? – perguntou Maya, embora já pudesse imaginar.
– De uma hora pra outra as pernas do garoto começaram a tremer, como se ele estivesse sofrendo um ataque epiléptico ou algo assim.
Não se contendo, Swain irrompeu numa crise de choro. Maya cogitou pousar a mão no ombro dele num gesto de consolo, mas ao mesmo tempo sua vontade era esmurrar o sujeito na cara. Não fez nem uma coisa nem outra, apenas ficou esperando que ele se acalmasse por conta própria.
– Até ontem eu não tinha contado essa história pra ninguém. Absolutamente ninguém. Mas depois do seu e-mail... Minha médica, ela agora sabe de alguma coisa. Por isso achou que podia ser uma boa ideia conversar com você. Pois bem. Foi naquela noite que eu realmente pirei. Fiquei apavorado. Sabia que o Joe me mataria se eu desse com a língua nos dentes. Não só naquela época, mas... Ainda hoje eu tenho a impressão de que...
Antes que ele começasse a divagar, Maya disse:
– Depois vocês fizeram o quê? Levaram o corpo do garoto pro tal porão?
– O Joe levou.
– Mas você estava lá também, não estava?
– Estava.
– Imagino que o Joe não ia conseguir carregar o corpo sozinho. Então, quem foi que o ajudou?
– O Andrew. – Swain ergueu a cabeça para encará-la. – O Joe obrigou o Andrew a ajudá-lo.
– Foi isso que fez o Andrew pirar?
– Não sei. Acho que ele ia pirar de qualquer jeito. O Andrew, eu... Nunca mais fomos as mesmas pessoas depois disso.
– E depois, que foi que aconteceu?
– O que é que eu podia fazer?
Muitas coisas, pensou Maya. Mas ela não estava ali para condenar o cara, tampouco para absolvê-lo. Estava ali apenas para tirar dele as informações de que precisava.
– Eu tinha que manter tudo aquilo em segredo, certo? Então fiz o que pude pra não pensar mais na história e tocar o barco pra frente. Mas tudo mudou depois disso. Eu não conseguia mais prestar atenção nas aulas, minhas notas começaram a despencar. Um belo dia, comecei a beber. Sei que parece uma desculpa esfarrapada, mas...
– Christopher...
– Sim.
– Seis semanas depois vocês estavam a bordo de um iate.
Swain fechou os olhos.
– Que foi que aconteceu?
– O que você acha que aconteceu, Maya? Vamos lá. A essa altura você já deve ter ligado os pontinhos. Então é você que vai me dizer o que aconteceu.
Inclinando-se para a frente, Maya disse:
– Imagino que vocês estavam lá naquele barco, descendo pro Caribe. Então começaram a beber. Você mais que os outros, provavelmente. Era a primeira vez que vocês ficavam sozinhos depois da morte do Theo. O Andrew estava lá. Estava fazendo terapia, mas sem grandes resultados. Estava desmoronando por dentro, de tanta culpa. Não estava aguentando mais, então... Não sei bem o que aconteceu, Christopher. É você que vai ter de dizer. O Andrew fez o quê? Ameaçou vocês?
– Não exatamente. Não ameaçou, mas teve uma crise, dizendo que não conseguia mais dormir, que não conseguia mais comer. Estava com um aspecto realmente horrível. Meu Deus... Depois começou a suplicar pra gente, dizendo que precisava se abrir com alguém porque já não aguentava mais manter aquele segredo trancafiado no peito. Eu estava tão chapado que mal entendia o que ele estava dizendo...
– E depois?
– Depois o Andrew subiu pro convés. Pra ficar longe da gente. Minutos depois o Joe foi atrás. – Swain encolheu os ombros e disse: – The end.
– Você nunca se abriu com ninguém?
– Nunca.
– Os outros dois, Larry Raia e Neil Kornfeld...
– Neil ia pra Yale. Acabou mudando de ideia e indo pra Stanford. Larry foi estudar fora, eu acho. Paris, se não me engano. Terminamos o ano feito um bando de zumbis, depois nunca mais nos vimos.
– E você manteve esse segredo durante todos esses anos...
Swain fez que sim com a cabeça.
– Por que resolveu contar a verdade agora?
– Você sabe por quê.
– Não, não sei.
– Porque o Joe está morto – disse ele. – Porque finalmente me sinto seguro.