capítulo 31

AS PALAVRAS DE CHRISTOPHER Swain ecoavam na cabeça de Maya enquanto ela caminhava de volta para o estacionamento.

“Porque o Joe morreu.”

No fim das contas tudo girava em torno da maldita câmera escondida, certo?

Mais do que nunca ela precisava ser racional. Havia três explicações possíveis para aquilo que tinha visto na gravação.

A primeira delas, e a mais provável de todas, era que alguém tivesse adulterado aquelas imagens com algum programa do tipo Photoshop. Ela não havia tido a oportunidade de examiná-las melhor, mas sabia que a tecnologia existia. Não devia ser tão difícil assim.

A segunda, quase tão provável quanto a primeira, era que ela própria tivesse sido vítima de uma alucinação, que tivesse imaginado coisas. Algo parecido com os vídeos de ilusão de ótica que Eileen Finn gostava de lhe mandar, desses em que você acha que está vendo uma coisa, depois a câmera se desloca um pouquinho e você se dá conta de que havia preconcebido a imagem anterior. Somando-se a isso o TEPT, os remédios que ela vinha tomando, o assassinato de Claire, os acontecimentos no Central Park... Como descartar a possibilidade de uma alucinação?

A terceira, e menos provável, era a de que Joe de algum modo ainda estivesse vivo.

Se a resposta estivesse na segunda, a de que tudo havia acontecido na sua cabeça, não havia muito o que fazer. Ela ainda precisaria levar sua investigação até o fim. “A verdade liberta”, era o que dizia a sabedoria popular. Se não libertava, pelo menos contribuía para um mínimo de justiça no mundo. Mas se a resposta estivesse na primeira (Photoshop) ou na terceira (Joe vivo), uma coisa era certa: alguém estava aprontando algo para cima dela. E feio. Além disso, não haveria dúvida de que Isabella tinha mentido. A babá realmente teria visto Joe na gravação e só poderia ter tido um motivo para dizer o contrário, para usar o spray de pimenta, roubar o cartão de memória, depois sumir do mapa: ela estava a par de toda a jogada.

Maya entrou no carro, girou a chave e atacou sua playlist de novo, os rapazes da banda Imagine Dragons dizendo a ela que não se aproximasse muito, que do outro lado era escuro, que era ali que os demônios se escondiam. Eles não sabiam da missa a metade.

Em seguida, ela abriu o aplicativo para o GPS que havia colado ao carro do jardineiro Hector. Em primeiro lugar, se Isabella realmente estivesse por dentro das coisas, não estaria agindo sozinha. Não fazia o tipo. Rosa, a mãe, que estava no iate naquela noite, também estaria por dentro de tudo. Em segundo lugar (caramba, aparentemente aquele era o dia das listas), era pouco provável que a babá tivesse ido longe. Com certeza estava por perto em algum lugar. Era uma questão de encontrá-la.

Maya tirou a arma do porta-luvas e, conferindo a localização do GPS, viu que o carro de Hector estava estacionado em Farnwood, a propriedade dos Burketts.

Em seguida, abrindo o histórico do aplicativo, examinou todos os lugares por onde o garoto havia passado nos últimos dias. O único local que não se encaixava no itinerário cotidiano de um jardineiro era um endereço que ele havia visitado diversas vezes, um conjunto habitacional em Paterson, Nova Jersey. Talvez ele tivesse amigos por lá, ou uma namorada. Mas algo ali parecia não bater.

E agora, fazer o quê?

Mesmo que Isabella estivesse escondida em Paterson, não era o caso de simplesmente ir até lá e bater na porta. Ela precisava ser mais proativa. Não tinha mais tempo a perder. Já possuía quase todas as respostas. Precisava descobrir o resto e acabar com aquilo de uma vez por todas.

Seu celular tocou. Era Shane.

– Oi.

– Que foi que você fez?

O tom de voz do amigo provocou nela um frio na barriga.

– Do que você está falando?

– Do detetive Kierce.

– O que tem ele?

– Ele sabe, Maya.

Maya não disse nada. Sabia que as paredes estavam fechando à sua volta.

– Ele sabe que mandei testar aquela bala pra você.

– Shane...

– Claire e Joe foram mortos com a mesma arma, Maya. Como é possível uma coisa dessas?

– Shane, escuta. Você vai ter de confiar em mim, ok?

– Você está sempre repetindo isso: “Confia em mim.” Como se fosse um mantra.

– Eu nem devia precisar pedir, você não acha? – devolveu ela. Mas não havia tempo para explicações naquele momento. – Preciso ir – foi só o que ela disse antes de desligar.

Fechando os olhos, disse a si mesma: “Calma...” Em seguida, voltou à rua quase deserta que levava à clinica, distraída com o que tinha ouvido de Shane e Christopher, com todas as emoções que dançavam desenfreadas na sua cabeça.

Talvez isso explicasse o que aconteceu depois.

Uma van aproximava-se pela mão contrária. A rua margeada de árvores era estreita, então ela se afastou um pouquinho para dar passagem ao veí­culo maior. Mas não entendeu nada quando viu a tal van dar uma súbita guinada no mesmo sentido e se posicionar diretamente na sua frente. Então, para evitar uma colisão, plantou o pé no freio e deixou o cinto de segurança fazer o resto. Com os instintos afiados de um lagarto, rapidamente se deu conta de que aquilo não era um acidente.

Ela estava sendo atacada.

A van agora estava parada, bloqueando o caminho, e ela já ia dando ré para fugir quando alguém bateu à janela à sua esquerda com o cano de uma arma. Com a visão periférica, ela notou o contorno de outra pessoa no lado direito.

– Fique tranquila – disse o homem a seu lado, quase inaudível em razão da janela fechada. – Não vamos machucá-la.

Como era possível que ele tivesse aparecido ali tão rápido? Não poderia ter descido da van. Não tivera tempo para isso. Aquilo só podia ser uma coisa: uma operação previamente orquestrada. Alguém descobrira que ela tinha ido até o Centro Solemani, que ficava numa rua de pouquíssimo trânsito, praticamente deserta. Aqueles dois já deviam estar à espreita no meio das árvores, esperando apenas que a van bloqueasse o caminho para sair ao asfalto e fazer o que tinham de fazer.

Maya permaneceu imóvel, avaliando as opções.

– Por favor, desça do carro e venha conosco.

Opção 1: engatar a ré e tentar fugir.

Opção 2: sacar a arma escondida na cintura da calça.

O problema com essas duas opções era bastante simples. Havia uma arma apontada para sua cabeça. Talvez duas. Ela não era Wyatt Earp, e aquilo não era o O.K. Corral. Se os dois homens resolvessem atirar, ela não teria tempo para sacar arma nenhuma, muito menos para dar ré e fugir.

Restava, portanto, a Opção 3, que era descer do carro.

Foi aí que ela ouviu o homem à sua esquerda dizer:

– Venha. O Joe está esperando.

A porta da van começou a deslizar. Sentada em seu carro com as duas mãos plantadas no volante, Maya sentiu o coração retumbar dentro do peito. A porta da van achava-se aberta pela metade, mas não era possível ver o que havia do outro lado dela.

– Você disse... Joe? – perguntou ela.

– Sim – respondeu o homem com uma súbita doçura na voz. – Você quer vê-lo, não quer? Então venha conosco.

Pela primeira vez, ela virou o rosto para encará-lo. Depois olhou para o segundo homem e viu que ele não estava armado.

Sem saber o que pensar ou fazer, Maya começou a chorar.

– Sra. Burkett?

Soluçando, ela balbuciou:

– O Joe está...

– Sim – interrompeu o homem, agora mais incisivo. – Destranque a sua porta, Sra. Burkett.

Ainda aos prantos, Maya destravou a porta e esperou o homem recuar para poder abri-la. Viu que ele ainda apontava sua arma, e foi saindo de maneira desajeitada do carro, quase caindo. O homem se adiantou para ajudá-la, mas ela balançou a cabeça, dizendo:

– Não precisa...

Depois se endireitou, saiu caminhando na direção da van e respirou um pouco mais aliviada quando viu o homem baixar a arma.

A porta da van se abriu mais um pouquinho.

Eram quatro homens, calculou Maya. O motorista, o que estava abrindo a porta e os dois que haviam saído do mato.

Aproximando-se do veículo, ela sentiu vir à tona todos aqueles reflexos adquiridos durante muitos anos de treinamento militar, com muitas horas de simuladores e linhas de tiro. Entregou-se então a uma inusitada calma, àquela paz súbita de quem se vê no olho do furacão, um momento quase zen. Tudo estava prestes a acontecer, para o bem ou para o mal. De um jeito ou de outro, ela estava sendo proativa. Não estava tentando controlar o próprio destino, não via nenhum sentido nesse tipo de lógica, mas sentia aquela confiança e tranquilidade que acometiam apenas quem havia passado por algum tipo de treinamento, quem se sabia preparado para o que desse ou viesse.

Ainda meio trôpega, ela muito discretamente virou o rosto para trás. Tudo dependeria do que visse. O sujeito armado não a tinha agarrado pelo braço quando ela desceu do carro. Por isso ela havia feito todo aquele teatro de viúva abalada e histérica: para ver como ele reagiria. E ele havia caído direitinho, a ponto de baixar a guarda.

Além disso, não a tinha revistado.

O homem continuava com a arma apontada para o asfalto, tranquilão, certo de que não estava correndo nenhum perigo.

Isso sugeria três coisas.

Primeiro: ninguém havia alertado o sujeito para a possibilidade de que ela estivesse armada.

Ela vinha arquitetando sua reação desde que começara com as lágrimas de crocodilo dentro do carro, lágrimas destinadas a tranquilizar os inimigos e fazer com que eles a subestimassem, lágrimas para ganhar tempo e pensar no que fazer.

Segundo: Joe saberia que ela estaria armada.

Ela já estava com a mão junto da cintura quando começou a correr. Poucas pessoas sabiam disto, mas acertar um alvo com uma arma de fogo não era lá muito fácil. Acertar um alvo em movimento era ainda mais difícil. Em 76 por cento dos casos, policiais treinados erravam seu alvo a uma distância entre um e três metros. Para os civis essa estatística ficava acima dos noventa por cento.

Portanto, correr era sempre o melhor remédio.

Maya voltou os olhos para a van. Em seguida, sem qualquer aviso ou hesitação, jogou-se no chão, rolou no asfalto, sacou a pistola Glock do coldre e a apontou diretamente contra o homem armado, que chegara a esboçar uma reação durante a queda dela, mas não a tempo de se defender.

Ela mirou no centro do peito. Ninguém atirava apenas para ferir. O correto era mirar no maior alvo de todos, isto é, o centro do peito, depois rezar para acertar no que quer que fosse, peito ou não, e continuar atirando.

Foi exatamente o que ela fez.

E o homem foi ao chão.

Terceiro, a conclusão: não era Joe quem havia despachado aquela gente.

Diversas coisas aconteceram ao mesmo tempo.

Maya continuou rolando, deslocando-se, fazendo o que podia para não se tornar um alvo estático. Voltou-se para onde estava o segundo homem, o que surgira à janela do passageiro, e apontou sua arma, pronta para atirar. Mas o homem se escondeu atrás do carro dela.

Não pare, Maya, não pare!

A porta da van se fechou com estrépito. O motorista deu partida no motor. Maya agora estava atrás do veículo, usando-o como escudo para o caso de o segundo homem começar a atirar. Ela não podia continuar ali. A van estava prestes a arrancar, provavelmente de ré, provavelmente tentando atropelá-la.

Maya tomou a decisão sugerida pelos instintos: fugir.

O segundo homem continuava escondido atrás do carro dela; e o armado, inerte no chão. Os dois da van pareciam apavorados.

Quando estiver em dúvida, faça o que for mais simples.

Usando a van como escudo, Maya irrompeu na direção do bosque que margeava a rua e por muito pouco não foi atropelada quando a van arremeteu para trás. Procurando manter-se sempre ao lado do veículo, a salvo do segundo homem, ela correu os últimos metros e se embrenhou no mato.

Não pare...

O bosque era denso demais para que ela olhasse para trás enquanto corria, mas lá pelas tantas ela se escondeu atrás de uma árvore e arriscou uma rápida espiadela. O segundo homem não a tinha seguido: correra até alcançar a van e, com a agilidade de um atleta, pulara para dentro com o veículo ainda em movimento. A van manobrou nas duas pistas e disparou rua afora, deixando para trás o sujeito armado que ela havia derrubado.

O episódio inteiro, desde o momento em que ela se jogara no chão, provavelmente não havia durado mais que uns dez segundos.

E agora?

Sua decisão foi quase imediata. Na realidade ela não tinha muitas opções. Se chamasse a polícia, certamente seria presa. Eram muitos os agravantes: a presença dela no parque na noite do assassinato de Joe, todo o episódio com Tom Douglass, os testes de balística... e agora isto, um homem caído no asfalto, derrubado por ela. Não seria lá muito fácil de explicar.

Ela correu de volta para a rua. O sujeito se espichava de costas no chão com as pernas em desalinho. Poderia estar se fingindo de morto. Por mais improvável que isso fosse, Maya apontou sua arma e se aproximou do corpo. Ele estava mesmo morto.

Ela havia matado o homem.

Mas não havia tempo para ruminações. Alguém poderia aparecer por ali a qualquer momento. Rapidamente ela vasculhou os bolsos do morto e pegou a carteira dele. Não era a hora de verificar documentos. Ela cogitou pegar o telefone também (não poderia usar o seu dali em diante), mas, por motivos óbvios, achou arriscado. Em seguida, cogitou levar a arma, mas pensou: se o caldo entornasse, aquela arma seria a única prova de que ela havia agido em legítima defesa. Além disso, ela ainda tinha a sua Glock.

Ela já fizera todos os cálculos na cabeça. O corpo não estava muito longe do acostamento. Não seria difícil arrastá-lo por dois ou três metros para depois deixá-lo rolar barranco abaixo. E foi exatamente o que ela fez, sempre olhando para os lados para ver se nenhum carro se aproximava.

Talvez a adrenalina a tivesse deixado mais forte, mas o corpo rolou bem mais facilmente do que ela havia previsto, escorregando até bater contra o tronco de uma árvore. Cedo ou tarde seria encontrado, claro, mas isso daria a ela tempo suficiente para pensar e agir.

Ela correu de volta para o carro e se acomodou ao volante. O celular não parava de tocar. Era Shane, chamando de volta. Provavelmente Kierce também começara a se perguntar que diabo estava acontecendo. Um carro despontou ao longe na rua. Fazendo o possível para manter a calma, Maya ligou o carro e arrancou sem nenhuma pressa. Era apenas mais uma visitante recém-saída do Centro Solemani. Se houvesse câmeras de segurança por perto, mostrariam apenas uma van disparando rua afora e, minutos depois, uma BMW transitando normalmente e com um bom motivo para estar ali.

Maya respirou fundo e seguiu adiante. Em cinco minutos já estava de volta à autoestrada.

Àquela altura, o corpo já estava bem longe. Ela desligou o telefone e, sem saber ao certo se ainda assim ele poderia ser rastreado, bateu-o contra o volante até inutilizá-lo. Uns cinquenta quilômetros mais adiante, parou no estacionamento de uma farmácia e examinou a carteira do morto. Não encontrou nenhum documento, mas quatrocentos dólares em espécie. Perfeito, porque ela estava desprevenida e não queria usar nenhum caixa ­automático.

Com o dinheiro, ela comprou alguns celulares descartáveis e um boné de beisebol. Em seguida foi para o banheiro e se olhou no espelho. Um desastre. Limpou-se tanto quanto possível, prendeu os cabelos num rabo e vestiu o boné. Bem melhor agora.

Para onde teriam ido os seus sequestradores?

Provavelmente já não representavam nenhuma ameaça. Havia a hipótese remota de que tivessem seguido para a casa dela para esperá-la por lá, mas isso seria muito arriscado. Se tivessem roubado aquela van, ou alugado, ou trocado as placas, o que era muito provável, poderiam simplesmente dar o dia por encerrado.

Mesmo assim, ela não tinha a menor intenção de voltar para casa.

Ligou para Eddie, respirou aliviada quando ele atendeu, depois pediu que ele fosse a seu encontro na creche de Lily. Eddie topou na mesma hora, felizmente sem fazer perguntas. Também havia nisso certo risco, mas um risco pequeno. Mesmo assim, quando se aproximou da creche, ela deu uma boa esquadrinhada na área. O interessante era que a Crescendo havia sido construída mais ou menos como uma base militar. Ninguém chegava ali sem ser visto. Eram muitas as camadas de segurança. Claro, sempre havia a possibilidade de que alguém invadisse o local com uma arma em punho, mas com a quantidade de portas travadas no interior, alguém poderia rapidamente chamar a polícia; havia uma delegacia logo ali, no quarteirão vizinho.

Maya contornou a creche mais uma vez. Não viu nada de suspeito.

Assim que avistou o carro de Eddie, seguiu-o e parou ao lado dele no estacionamento da creche. Ainda com a Glock no coldre, desceu da BMW e entrou no carro do cunhado.

– O que é que está acontecendo, Maya?

– Preciso que você se registre na creche. Pra poder buscar a Lily quando necessário.

– E esse número desconhecido do qual você ligou?

– Vamos lá resolver isso logo de uma vez, ok?

Eddie cravou os olhos sobre ela e disparou:

– Você já sabe quem matou a Claire e o Joe?

– Já.

Ele ficou esperando, depois disse:

– Mas não vai me contar.

– Por enquanto não.

– Porque...

– Porque estou com pressa. Porque a Claire queria proteger você.

– Talvez eu não queira ser protegido.

– Não é assim que as coisas funcionam, Eddie.

– Não interessa! – ele cuspiu. – Quero ajudar, e já não é de hoje, caramba.

– Se você quer mesmo ajudar, então vamos lá fazer esse registro o mais depressa possível – disse Maya, já abrindo a porta do carro.

Eddie bufou e fez o mesmo.

Maya deixou que o cunhado descesse primeiro, discretamente colocou um envelope dentro da capa do laptop dele e só então desceu também.

Miss Kitty recebeu-os à porta e os ajudou a preencher a papelada. Enquanto Eddie era fotografado, Maya abriu uma fresta na porta da sala amarela e localizou a filha. Imediatamente sentiu o coração mais leve. No lugar de um guarda-pó, a menina vestia uma camisa da mãe, uma camisa velha e agora imunda de tinta. Um sorriso largo iluminava o rosto dela. Por alguns minutos, Maya ficou ali, contemplando a filha de longe, a garganta apertada como se ali houvesse um nó.

Miss Kitty surgiu às suas costas e disse:

– Quer entrar e dar um alô pra ela?

– Não... obrigada – disse Maya. – Já estamos liberados?

– Sim. Seu cunhado agora pode vir buscá-la quando quiser.

– Não preciso nem telefonar pra avisar?

– Foi assim que você mesma pediu, não foi?

– É, foi.

– Então assim será.

Maya deu uma última espiada na filha, depois se voltou para Miss Kitty.

– Obrigada – disse.

– Você está bem? – perguntou a outra, preocupada.

– Estou, estou – respondeu ela, e para Eddie: – Vamos?

Uma vez no estacionamento, pediu emprestado o celular do cunhado e abriu o aplicativo de rastreamento por GPS. Viu que o carro de Hector encontrava-se novamente no tal endereço de Paterson. Ótimo. Hora de ser proativa de novo, ela pensou. Em seguida, aventou a possibilidade de pedir a Eddie para ficar com o telefone dele, mas achou que cedo ou tarde seria descoberta e rastreada do mesmo jeito. Então devolveu o aparelho e agradeceu.

– Não vai mesmo me contar o que está acontecendo? – insistiu Eddie.

Ela não respondeu. Antes que ambos entrassem em seus respectivos carros, disse:

– Espera aí só um pouquinho.

Abriu o bagageiro da BMW e de lá tirou uma caixa de ferramentas.

– O que você está fazendo? – perguntou Eddie.

– Vou trocar nossas placas.

Em sua opinião, Kierce dificilmente emitira um alerta rodoviário com os dados dela, mas não custava nada prevenir. Maya começou pela placa da frente. Eddie foi para a placa traseira e usou uma moeda como chave de fenda. Dali a pouco as placas já estavam devidamente trocadas.

Maya já ia entrando na BMW, mas, sob o olhar inconformado do cunhado, parou de repente. Tinha um milhão de coisas para contar a ele: sobre Claire, sobre Joe, sobre tudo. No entanto, mais do que ninguém ela sabia que nenhum bem poderia advir disso. Paciência. O confessionário teria de ficar para outro dia, outra hora.

– Eddie... obrigada por tudo – foi só o que ela encontrou para dizer. – Gosto muito de você, sabia?

– Também gosto de você, Maya – devolveu ele, sombreando os olhos com a mão.

Maya enfim entrou no carro e se mandou para Paterson.