capítulo 32
O CARRO DE HECTOR, UMA caminhonete Dodge Ram, achava-se no estacionamento de um espigão na Fulton Street de Paterson.
Maya estacionou na rua, atravessou o portão do prédio e examinou as portas da caminhonete na esperança de que uma delas estivesse aberta. Não, todas trancadas. O que fazer em seguida? Não havia como descobrir onde exatamente estava Hector naquele prédio tão grande. Também não tinha como saber se ele estava com Isabella ou não. Tarde demais para se preocupar com isso. Seu objetivo agora era bastante simples: obrigar o jardineiro a contar onde estava a irmã.
Ela voltou para a BMW e ficou esperando, vigiando a portaria do prédio, volta e meia espiando o carro de Hector na eventualidade de que ele surgisse de outro lugar. Passou-se meia hora. Seria ótimo se naquele momento ela tivesse algum tipo de acesso à internet para ver se Corey Rudzinski, tal como ela imaginava, havia postado alguma coisa sobre a EAC Pharmaceuticals, o laboratório dos Burketts. Mas seu celular estava destruído na lixeira do carro, e os descartáveis comprados na farmácia ofereciam apenas serviços de telefone e mensagens de texto. De qualquer modo, ela podia jurar que estava certa: Corey havia postado algum podre sobre o laboratório, e alguém, provavelmente a mando dos Burketts, havia despachado aquela turma para sequestrá-la e estancar a hemorragia.
Hector enfim surgiu na portaria do prédio.
Maya, na mesma hora, tirou a Glock do coldre e ficou observando. Andando rumo à caminhonete, o jardineiro tirou a chave do bolso e destravou as portas com o controle remoto. Parecia preocupado, mas, pensando bem, era do tipo que por algum motivo nunca parecia relaxado ou feliz.
O plano de Maya era bastante simples: esperar que Hector alcançasse o carro, surpreendê-lo com a arma e obrigar o garoto a levá-la até Isabella. Não era bem um plano sutil, mas não havia tempo para sutilezas.
Ela desceu da BMW e entrou em ação. No entanto, já estava quase alcançando a traseira da caminhonete quando viu a sorte soprar a seu favor: Isabella também havia surgido na portaria do prédio.
Bingo.
Maya se escondeu atrás de um dos carros estacionados e pensou no que fazer em seguida. O que seria melhor? Esperar que Hector fosse embora para depois interpelar Isabella? Claro que sim. Se o jardineiro a visse fincando uma arma na cabeça da irmã, certamente não deixaria barato: telefonaria para a polícia, gritaria por ajuda... enfim, atrapalharia os planos dela.
Ele entrou na caminhonete.
Baixando o tronco e procurando esconder a arma que levava na mão, Maya correu para o carro seguinte. Rezou para que não a tivessem visto. Mas, se tivessem, isso não confirmaria nada, apenas levantaria uma suspeita. Dificilmente chamariam a polícia, mas, de qualquer modo, esse era um risco que ela precisava correr.
Isabella dobrou para a esquerda.
Opa!
Maya havia imaginado que a garota tivesse saído para se despedir do irmão ou trocar uma última palavra com ele pela janela do carro. Mas não era o caso. Ela agora estava entrando na caminhonete também.
Maya tinha duas opções ali. Primeiro, voltar para a BMW e segui-los de carro. Talvez fosse isso o melhor a fazer, ir atrás dos dois irmãos, mas era grande o risco de perdê-los de vista no meio do caminho. Sem o GPS do celular, não haveria como rastreá-los.
Segundo...
Basta.
Num arroubo de iniciativa, Maya correu até a caminhonete, entrou pela porta traseira e espetou o cano da Glock na nuca de Hector.
– Mãos no volante – disse, e para Isabella: – Você também. Mãos no console.
Por um instante eles não fizeram mais do que encará-la, ambos perplexos.
– Já! – berrou Maya.
Por fim eles obedeceram.
Lembrando-se de como havia subestimado Isabella no último encontro entre elas, Maya espichou a mão livre, pegou a bolsa da babá e examinou o conteúdo. Sim, lá estava o spray de pimenta, junto com o celular.
O celular de Hector estava no porta-copos do banco. Maya pegou-o também e jogou o aparelho dentro da bolsa de Isabella. Nada impedia que o jardineiro também estivesse armado; então, sem baixar a Glock, ela o apalpou nos lugares mais óbvios. Não encontrou nada. Em seguida tirou a chave da ignição, jogou-a dentro da bolsa também e deixou a bolsa a seus pés, no chão do carro.
Foi aí que algo chamou sua atenção. Um fiapo de cor.
– O que você quer com a gente? – perguntou Isabella. – Você não pode invadir...
– Calada – interrompeu Maya. – Mais uma palavra e eu estouro os miolos do seu irmão.
Atrás do banco do motorista havia uma pilha de roupas com um moletom cinza por cima. Com o pé ela empurrou o moletom e, confirmando suas suspeitas, precisou se conter para não puxar o gatilho ali mesmo, tamanha foi a sua raiva. Porque sob o moletom estava uma camisa que ela conhecia muito bem. Uma camisa social verde-floresta.
– Fala – ordenou Maya.
Isabella continuou a encará-la sem nada dizer.
– Última chance.
– Não tenho nada pra falar.
Então Maya falou no lugar dela:
– Hector tem mais ou menos a mesma altura do Joe, o mesmo tipo físico. Foi ele quem se fez passar por Joe naquela gravação, não foi? Você abriu a porta, e ele fez o que tinha de fazer. Lily conhece o Hector, não se recusaria a brincar com ele. Depois vocês conseguiram algum vídeo do rosto do Joe nos meus... – De repente ela se deu conta. Aquele sorriso era inconfundível. Como ela não havia percebido antes? – Meu Deus, aquela imagem era do meu vídeo de casamento, não era?
– Não temos nada a dizer – repetiu Isabella. – Você não vai matar a gente.
Aquilo já era demais. Segurando a pistola pelo cano, Maya desferiu uma coronhada certeira contra o nariz de Hector, forte o bastante para quebrá-lo. Hector agora uivava de dor, o sangue escorrendo entre os dedos das mãos.
– Talvez eu não vá mesmo matar o seu irmão – disse Maya. – Mas o primeiro tiro será no ombro dele. Depois no cotovelo. Depois no joelho. Então acho melhor você ir abrindo o jogo logo de uma vez.
Isabella hesitou.
A título de incentivo, Maya desferiu uma segunda coronhada, dessa vez na orelha do jardineiro. Ele grunhiu e caiu para o lado. Instintivamente, Isabella tirou as mãos do console para socorrer o irmão. Maya socou o rosto dela com a Glock, mais para assustá-la do que para machucar. Mesmo assim, a babá agora estava sangrando também.
Em seguida, Maya espetou o cano da arma no ombro de Hector e lentamente foi armando o gatilho.
– Espera! – berrou Isabella.
Maya permaneceu imóvel.
– Fizemos tudo isso porque você matou o Joe!
Sem afastar a arma, Maya disse:
– Quem foi que disse isso pra você?
– Que diferença faz?
– Se você acha que matei meu marido – disse Maya, e apontou o queixo para a Glock –, então por que não acha que posso matar seu irmão também?
– Foi a nossa mãe.
Hector interveio e disse:
– Ela falou que você matou o Joe e que a gente precisava ajudar a provar.
– Ajudar como?
Hector se reergueu, dizendo:
– Você não matou ele?
– Ajudar como, Hector?
– Como você mesma disse. Vesti as roupas do Joe e deixei a sua câmera filmar. Depois levei o cartão de memória pra Farnwood. Os Burketts tinham contratado um especialista em computação gráfica. Uma hora depois, voltei pra sua casa com o cartão e a Isabella colocou ele de volta no porta-retratos.
– Espera aí – disse Maya. – Como vocês sabiam desse porta-retratos?
Com um risinho irônico, Isabella respondeu:
– Você acha o quê? No dia do enterro você coloca na estante um porta-retratos digital já carregado com um monte de fotos da família. Você é a única mãe que eu conheço que não tem nenhuma foto da filha em casa, que nunca emoldurou um desenho dela. Daí de uma hora pra outra aparece com aquele porta-retratos... Eu não sou boba.
Maya lembrou-se do comportamento exemplar da babá nas gravações que tinha visto, sempre sorrindo, sempre muito carinhosa com Lily.
– Depois você fez o quê? Contou à sua mãe sobre ele?
Isabella não se deu ao trabalho de responder.
– Suponho que tenha sido ideia dela, você me atacar com o spray de pimenta.
– Eu não sabia como você ia reagir depois de ver a gravação. Era apenas pra eu levar o cartão de memória. Pra você não mostrar pra outras pessoas.
Eles queriam isolá-la, pensou Maya.
– Se você mostrasse pra mim – prosseguiu Isabella –, era pra eu fingir que não tinha visto nada.
– Por quê?
– O que você acha?
A resposta era mais do que óbvia.
– Vocês queriam que eu perdesse a cabeça, que começasse a duvidar da minha própria sanidade mental.
Maya se calou de repente e olhou ao longe através do para-brisa do carro. Isabella e Hector olharam para ela, depois se viraram para ver o que tinha chamado sua atenção.
Parado ali, bem à frente da caminhonete de Hector, estava Shane.
– Qualquer movimento em falso e eu atiro nos dois – disse Maya para os irmãos.
Em seguida abriu a porta a seu lado e desceu com a bolsa de Isabella. Shane esperava por ela com olhos vermelhos.
– O que você está fazendo? – ele foi logo perguntando.
– Eles armaram uma arapuca pra mim – disse Maya.
– Como?
– Hector vestiu umas roupas do Joe. Depois alguém adulterou a gravação pra incluir o rosto dele.
– Então o Joe está...
– Sim, o Joe está morto. Mas como foi que você me achou?
– GPS.
– Não estou com meu telefone.
– Coloquei rastreadores nos seus dois carros – confessou Shane.
– Por quê, posso saber?
– Porque você não vinha agindo racionalmente – disse ele. – Mesmo antes da tal gravação. Você não vai negar, vai?
Maya não disse nada.
– Aliás, também fui eu quem chamou o Dr. Wu. Achei que seria bom você voltar pra terapia. Coloquei os rastreadores para o caso de você precisar de ajuda. Depois o Kierce me contou sobre o teste de balística, você parou de atender minhas ligações...
Maya olhou de volta para a caminhonete de Hector, viu que os dois continuavam imóveis. Em seguida respirou fundo e disse:
– Tem uma coisa que eu preciso te contar, Shane.
– Sobre o teste de balística?
Ela fez que não com a cabeça e procurou relaxar.
– Sobre aquele dia em Al Qa’im.
– O que tem aquele dia? – perguntou ele, surpreso.
Maya fez menção de dizer algo, mas não conseguiu.
– Maya...
– Já tínhamos perdido gente de mais. Muita gente boa. Eu não podia deixar que perdêssemos mais, de jeito nenhum – disse ela afinal, os olhos se enchendo d’água.
– Eu sei – retrucou Shane. – Essa era a nossa missão.
– Então, quando localizamos aquele SUV... Os nossos homens lá, pedindo ajuda, o SUV partindo pra cima deles... Ajustei a mira, chamei a base pelo rádio... Mas eles não autorizaram o ataque.
– Certo – disse Shane. – Queriam ter certeza de que não havia civis.
Maya fez que sim com a cabeça.
– Então ficamos esperando – disse Shane.
– E os rapazes lá, apavorados, suplicando nossa ajuda...
– Foi difícil, não foi? Eu sei. Mas a gente fez a coisa certa. Que era esperar. Esse era o protocolo. Não foi culpa nossa que aqueles civis morreram. Quando recebemos a autorização...
Maya balançou a cabeça, dizendo:
– Nunca recebemos essa autorização.
Shane arregalou os olhos para ela.
– Desliguei o seu sinal de rádio.
– Você... você o quê?
– O JOC chamou de volta, mandando a gente esperar.
– De que diabo você está falando, Maya?
– Não autorizaram o ataque. Achavam que pelo menos uma pessoa no SUV era um civil, provavelmente menor de idade, e que as chances de que aquelas pessoas fossem inimigas eram apenas de cinquenta por cento.
Shane agora ofegava, completamente desconcertado.
– Mas eu ouvi o...
– Você não ouviu nada, Shane. Ouviu apenas o que eu mesma relatei, lembra?
Ele não disse nada.
– Você acha que o conteúdo daquela gravação seria vexaminoso só porque festejamos depois de destruir o alvo. Mas não é só isso que o Corey tem nas mãos. Tem a gravação da mensagem de rádio dizendo que podia haver civis naquele SUV.
– E você abriu fogo mesmo assim...
– Abri.
– Por quê?
– Porque eu não estava nem aí pra civis – disse Maya. – Queria salvar os nossos rapazes e só.
– Caramba, Maya.
– Fiz uma escolha ali na hora. Não ia perder mais nenhum dos nossos. Não sob a minha guarda. Não se eu pudesse fazer alguma coisa a respeito. E se civis tivessem de morrer, paciência. Danos colaterais. Naquela altura eu nem me importava mais, essa é a verdade. Você acha que tenho esses flashbacks horríveis porque me sinto culpada pela morte daqueles civis. Pois é justamente o contrário, Shane. Eu não me sinto culpada. Não são aquelas mortes que me assombram. O que me assombra é essa certeza que permanece dentro de mim: a certeza de que, se fosse possível voltar no tempo, eu faria tudo exatamente igual.
Agora era Shane quem estava com lágrimas nos olhos.
– Então não preciso de psiquiatra nenhum pra entender o que está acontecendo comigo. Toda noite sou obrigada a reviver Al Qa’im, mas nunca posso alterar o resultado. Por isso esses flashbacks nunca vão me abandonar, Shane. Toda noite eu estou de volta lá naquele helicóptero. Toda noite fico tentando encontrar uma maneira de salvar aqueles soldados.
– E toda noite você mata os civis outra vez – acrescentou Shane. – Meu Deus...
Ele se adiantou para abraçá-la, mas Maya não permitiu, não sabia lidar com esse tipo de coisa. Rapidamente ela correu os olhos à sua volta, depois olhou para trás. Isabella e Hector continuavam esperando na caminhonete.
– Que foi que o Kierce te contou, Shane? – perguntou Maya, retomando o fio da sua meada.
– Contou que o Joe e a Claire foram mortos pela mesma arma – respondeu ele. – Mas você já sabia disso, não sabia? Kierce contou pra você também, não contou?
Maya fez que sim com a cabeça.
– Mas você não me disse nada, Maya.
Ela não soube o que argumentar.
– Você me contou tudo, menos o resultado do teste de balística.
– Shane...
– Eu já imaginava que você, não confiando na eficiência da polícia, vinha fazendo uma investigação por conta própria pra descobrir quem matou sua irmã. Também já imaginava que tinha encontrado algo.
Maya virou-se como se quisesse vigiar melhor a caminhonete às suas costas. Mas não era isso. Era difícil olhar diretamente para Shane naquele momento.
– Você me deu aquela bala antes de matarem o Joe – disse Shane. – Pediu que eu verificasse a possibilidade de que ela tivesse saído da arma que matou a Claire. E tinha. Mas você se recusou a me dizer como tinha conseguido essa bala. E agora descubro que foi a mesma arma que matou o Joe. Como você explica isso?
– Só tem uma explicação possível – disse Maya.
Shane balançou a cabeça, mas àquela altura já havia concatenado os fatos.
Sustentando o olhar dele, Maya disse:
– Fui eu que matei o Joe, Shane.