capítulo 33

PILOTANDO O CARRO DE Hector com seu boné na cabeça, Maya entrou em Farnwood pelo portão dos fundos e seguiu para a casa principal. Havia anoitecido. Os seguranças ainda estavam por lá, mas não criaram problemas, conheciam aquela caminhonete havia muito tempo. Shane imobilizava Hector e Isabella para que eles não tentassem alertá-los.

Antes de alcançar a mansão, Maya pegou um dos celulares descartáveis, ligou para a boate e pediu para falar com Lulu, a assistente de Corey.

– Não tenho mais como te ajudar – disse a moça.

– Tem, sim. Escuta.

Terminada a ligação, Maya estacionou ao lado da casa. No escuro, desceu do carro, foi para a porta da cozinha e por sorte a encontrou aberta. A casa estava vazia e silenciosa. Nenhuma luz acesa. Ninguém junto da lareira. Ela foi para a sala principal, sentou-se ali e ficou esperando, os olhos gradualmente se ajustando à escuridão do cômodo.

Flashes do passado foram se apresentando desordenadamente na sua cabeça. Mas o primeiro deles talvez fosse o mais importante: a abertura do cofre de armas. Tudo havia mudado a partir dali. Ela havia chegado do Oriente Médio e estava pisando em casa pela primeira vez após a morte de Claire. Fora até o cemitério, levada por Joe. Achara-o meio estranho na ocasião. Não dera a isso muita importância, mas começara a avaliar a relação deles, dando-se conta do pouco tempo que realmente tinham passado juntos: o namoro relâmpago, a missão dela fora do país, o trabalho dele. Será que estava achando que não conhecia o marido direito? Na época, não. Mas agora, analisando as coisas em retrospecto, sim.

Tudo havia mudado com a abertura do cofre.

Ela sempre tinha sido muito meticulosa com suas armas. Mantinha-as sempre limpas, e bastara olhar para os revólveres Smith & Wesson 686 para saber que havia algo de errado: um deles, o que ela mantinha no compartimento secreto, tinha sido usado.

Após sua volta do Oriente Médio, ouvira o marido dizer um milhão de vezes que detestava armas, que não gostava de acompanhá-la na linha de tiro, que ficaria muito mais aliviado se não tivesse armas em casa.

Parafraseando a rainha de Hamlet, Joe andava fazendo “juras demais”.

Pensando em retrospecto, era estranho que alguém com tanta aversão a armas ainda quisesse manter sua impressão digital na memória do cofre. “Apenas por precaução”, ele explicava. “A gente nunca sabe.”

Há momentos na vida em que tudo muda. De novo era como uma daquelas ilusões de ótica em que você pensa que está vendo uma coisa, depois muda o ângulo só um pouquinho e acaba vendo outra totalmente diferente. Foi assim que ela se sentiu ao abrir aquele cofre e constatar que alguém havia tentado limpar uma das suas armas, alguém que claramente não sabia o que estava fazendo.

Um soco no estômago. Uma traição da pior espécie. Ela estava dormindo com o inimigo e agora se sentia uma idiota. Mas, de um modo pernicioso e horrível, tudo aquilo parecia fazer sentido.

Ela sabia.

Por mais que tentasse negar, sabia que aquela arma, que era sua, havia matado Claire. Sabia disso mesmo antes de dispará-la na linha de tiro e trazer o cartucho de volta para entregar a Shane. Mesmo antes de conseguir convencê-lo a testar esse cartucho secretamente e compará-lo com o da bala calibre 38 encontrada no crânio de Claire.

Joe havia matado Claire.

Mas ainda assim havia a possibilidade de que ela estivesse enganada. Havia a possibilidade de que algum assassino profissional e muito competente tivesse conseguido abrir aquele cofre, usado a arma e colocado de volta depois. Havia a possibilidade de que Joe realmente fosse inocente. Por isso ela trocara os dois revólveres Smith & Wesson, deixando à mostra o que Joe havia retirado do compartimento reservado às armas compradas fora do estado e guardando no compartimento o que havia sido comprado em Nova Jersey e ficava à mostra no cofre. Em seguida, conferira se nenhuma das outras armas estava carregada.

Não. Apenas o Smith & Wesson do compartimento secreto.

A partir de então ela começara a revirar as coisas de Joe, deliberadamente deixando pistas para que ele descobrisse. Queria que ele soubesse que ela estava farejando alguma coisa. Queria ver a reação dele, colher informações suficientes para fazê-lo confessar que havia matado Claire e explicar por quê.

Sim, Kierce estava certo. Ela havia ligado para Joe naquela noite, não o contrário.

– Sei o que você fez – dissera ela.

– Do que você está falando?

– Tenho provas.

Ela pedira a Joe que fosse ao encontro dela naquele canto do Central Park. Chegara cedo, palmilhara o lugar. Localizara dois moleques de rua (mais tarde descobriria que se chamavam Emilio Rodrigo e Fred Katen) zanzando nas imediações da fonte Bethesda. Pelo jeito como Emilio Rodrigo caminhava, ela podia ver que o garoto estava armado.

Perfeito. Os bodes expiatórios de que ela precisava. Jamais seriam condenados.

Durante o encontro ela tinha dado a Joe todas as oportunidades de se abrir.

– Por que você matou a Claire?

– Pensei ter ouvido você dizer que tinha provas, Maya. Pelo visto não tem prova nenhuma.

– Vou encontrar essas provas. Não vou descansar enquanto não encontrá-las. Vou transformar sua vida num inferno.

Foi então que Joe sacou o revólver Smith & Wesson carregado que havia encontrado no compartimento secreto do cofre. Ele sorria para ela. Ou pelo menos dava a impressão de estar sorrindo. Estava escuro demais para distinguir uma coisa de outra, e além disso ela voltava sua atenção quase inteiramente para a arma que tinha na mão. No entanto, relembrando os fatos agora, ela podia jurar que ele estava mesmo sorrindo.

Joe apontou a arma contra o centro do peito dela.

A despeito do que ela tivesse pensado antes (das certezas que pensava ter), tudo isso desceu pelo ralo assim que ela viu o homem que escolhera para amar apontando contra ela um revólver carregado. Ela sabia, mas não conseguia acreditar, não conseguia aceitar, preferia dizer a si mesma que tudo não passava de um grande equívoco. De algum modo, fora um alívio ouvi-lo negar toda a história, pois isto era o que ela mais queria: estar enganada. Joe, o pai da sua filha, não podia ser um assassino. Ela não havia dividido a cama e o coração com o monstro que tinha torturado e matado sua irmã. Ainda havia a chance de que ele tivesse uma boa explicação para dar.

Até que ele puxou o gatilho.

Agora, sentada no breu daquela sala, Maya fechou os olhos.

Ela ainda se lembrava da expressão no rosto de Joe quando a arma não disparou. Ele puxou o gatilho mais duas ou três vezes.

– Retirei o percussor.

– Você o quê?

– Retirei a ponta do cão pra impedir o disparo.

– Tanto faz, Maya. Você nunca vai conseguir provar nada.

– Tem razão.

Foi então que Maya sacou o outro Smith & Wesson, o mesmo que Joe usara para matar Claire, e atirou três vezes. Nas duas primeiras ela deliberadamente evitou atirar para matar. Era exímia atiradora. Pivetes de rua, não. Portanto, um tiro certeiro seria óbvio demais.

Kierce: “A primeira bala atingiu seu marido no ombro esquerdo. A segunda se alojou na clavícula direita.”

Ela havia vestido o trench coat e as luvas que comprara com dinheiro vivo numa loja do Exército da Salvação. Era neles que ficariam depositados os resíduos de pólvora. Depois ela havia jogado o casaco e as luvas numa das latas de lixo da Quinta Avenida. Dificilmente seriam encontrados. Mas se fossem, paciência. Ninguém conseguiria associá-los a ela. Para sujar a própria camisa com o sangue de Joe, ela havia se ajoelhado para abraçá-lo enquanto ele morria. Guardara as duas armas na bolsa, depois correra tropegamente na direção da fonte, gritando por ajuda.

Ninguém a revistara. Que motivo teriam para isso? Afinal, ela era uma das vítimas. A preocupação inicial de todos era saber se ela estava bem e correr atrás dos assassinos. E no fim das contas a confusão geral viera para o bem. Ela já estava preparada para desovar a bolsa em algum lugar (não levava nada dentro dela além das armas), mas nem precisara. Mantivera-a consigo e fora embora com ela. Chegando em casa, recolocara o percussor no cão do Smith & Wesson registrado, voltara com o revólver para o cofre e, assim que possível, jogara o outro no rio, o revólver que ela mesma havia disparado. O primeiro deles, claro, tinha sido o que Kierce levara para examinar.

Maya sabia que o teste de balística confirmaria sua “inocência” e confundiria a polícia. Joe e Claire haviam sido mortos com a mesma arma. Seu álibi era irrefutável: ela estava em missão fora do país, portanto não poderia ter matado nenhum dos dois. Não gostava nem um pouco de ter enredado dois inocentes (Emilio Rodrigo e Fred Katen) numa investigação policial, mas um deles realmente estava armado. Além disso, ela sabia que seu depoimento, dizendo que os garotos estavam de gorro, bastaria para livrar a cara de ambos. Comparando com o que ela já havia feito no passado, os danos colaterais para eles eram irrisórios.

O caso em si era um grande labirinto sem saída, exatamente o que ela queria. Claire havia sido assassinada, e o assassino havia sido punido. Fim de papo. Uma questão de justiça. Ela não sabia de tudo, mas sabia o suficiente. Ela e a filha agora estariam seguras.

Mas tudo mudou outra vez após a gravação da câmera escondida.

De onde estava na sala, Maya ouviu um carro estacionar do lado de fora da mansão. Mas ela não se levantou. Dali a pouco ouviu a porta da frente se abrir e Judith entrar, reclamando da chatice do evento do qual acabava de chegar. Estava com Neil. E com Caroline. Os três entraram juntos. Judith acendeu as luzes e abafou um grito de susto.

Maya continuou onde estava.

– Santo Deus! – exclamou Judith. – Você quase me fez infartar, mulher! O que está fazendo aqui?

– A navalha de Ockham – disse Maya.

– O quê?

– “Ente todas as hipóteses possíveis, a que possui menos premissas deve ser a escolhida.” – Maya riu. – Trocando em miúdos, a resposta mais simples geralmente é a resposta correta. Joe não sobreviveu àqueles tiros. Mas era nisso que vocês queriam que eu acreditasse.

Judith olhou para os dois filhos, depois para Maya.

– Foi você, Judith, que montou aquele circo todo da câmera escondida. Falou pra Rosa e pros filhos dela que fui eu quem matou o Joe, mas que não havia como provar. Então resolveu mexer os seus pauzinhos.

Judith não se deu ao trabalho de negar.

– E daí? – disse ela com uma frieza polar. – Não há nenhuma lei que proíba uma mãe de tentar descobrir quem matou seu filho, há?

– Não que eu saiba – concedeu Maya. – Eu já desconfiava. Desde o início. Claro, você é uma mulher manipuladora. Faz anos que trabalha com isso. Manipulando a cabeça das pessoas.

– São experimentos psicológicos, Maya, e você sabe muito bem disso.

– Uma questão de semântica. Mas vi o Joe morrer. Sabia que ele não podia estar vivo.

– Ah, mas estava escuro – disse Judith. – Você podia ter se enganado. Você deu um jeito de levar meu filho até aquele lugar. Aquele ponto específico do parque. Ele também poderia ter ludibriado você. Sei lá. Poderia ter trocado as suas balas por festim.

– Mas não trocou.

Neil pigarreou, depois disse:

– O que você quer, Maya?

Maya não lhe deu atenção. Manteve os olhos plantados sobre Judith.

– Mesmo que eu não acreditasse que ele estava vivo, mesmo que não cedesse à pressão e acabasse confessando, você sabia que eu reagiria.

– Sabia.

– Eu acabaria descobrindo que alguém estava tentando me enlouquecer. Começaria a investigar. Talvez desse um passo em falso, aí você aproveitaria a oportunidade pra me incriminar. Além disso, vocês todos precisavam descobrir o que eu já sabia. Aliás, desempenharam muito bem os seus respectivos papéis no “experimento psicológico” da mamãe. Caroline veio com aquela história de que os irmãos estavam vivos, que o Kierce estava na folha de pagamentos da família. Tudo mentira. Mas era muita coisa na minha cabeça: a câmera escondida, a camisa desaparecida, os telefonemas... Qualquer pessoa no meu lugar começaria a duvidar da própria lucidez. Eu também duvidei. Teria de ser realmente louca pra não aventar a possibilidade de que estava enlouquecendo.

Judith sorriu para ela e disse:

– O que te trouxe aqui afinal, Maya?

– Tenho uma pergunta pra te fazer, Judith.

Judith ficou esperando.

– Como você descobriu que matei o Joe?

– Então você admite.

– Claro. Mas como foi que você descobriu? – Maya olhou para Neil, depois para Caroline. – Ela contou pra você, Caroline?

Caroline franziu o cenho e virou-se para a mãe.

– Eu simplesmente sabia – respondeu Judith. – Coisa de mãe.

– Não, Judith. Você descobriu porque sabia que eu tinha um motivo.

– Do que ela está falando? – interveio Caroline.

– Joe matou minha irmã.

– Isso não é verdade! – reagiu Caroline, no tom de uma criancinha petulante.

– Joe matou a Claire – disse Maya –, e sua mãe sabia disso.

– Mãe?

Os olhos de Judith ardiam em chamas.

– Claire estava roubando da nossa família – disse ela.

– Mãe...

– Mais que isso – prosseguiu Judith. – Estava tentando destruir nossa família. Nosso nome, nossa fortuna. Joe tentou argumentar com ela, convencê-la a parar...

– Joe torturou minha irmã.

– Porque entrou em pânico. Isso eu admito. Ela se recusava a dizer o que tinha feito, a dar as informações que ele pedia. Não aprovo o comportamento dele, mas foi sua irmã que começou. Tentou destruir esta família. Você, como ex-militar, precisa entender. Sua irmã era o inimigo. E o que a gente faz com o inimigo? Ataca com força total. Com as armas que tem. Ninguém se apieda do inimigo.

Maya sentiu um remoinho de fúria brotar dentro do peito, mas não se deixou levar por ele.

– Tão burra e ao mesmo tempo tão maquiavélica... – ronronou ela.

– Opa – disse Neil, vindo em defesa da mãe. – Já deu, Maya.

– Você é outro que não enxerga nada, Neil. Acha mesmo que o Joe estava protegendo a fortuna da família? Que tudo isso tem a ver com a EAC Pharmaceuticals?

Neil olhou para Judith de um modo que, para Maya, confirmava que ela estava certa. Maya quase gargalhou. Virando-se para Judith, disse:

– Foi isso que o Joe contou a todos vocês, não foi? Que a Claire havia descoberto os podres da EAC? E você, Neil, sabendo melhor do que ninguém dos riscos que a família corria, achou que não dava mais pra confiar no plano da mamãe, certo? Ficou apavorado e mandou aquela gente me sequestrar. Precisava saber exatamente o que eu tinha descoberto. Então contou pra eles sobre o meu estado mental. Falou que se eles dissessem que o Joe estava esperando por mim, eu... eu o quê? Desmaiaria? Foi isso que você falou pra eles?

Neil assentiu com seu silêncio. Fuzilava Maya com o olhar.

Judith fechou os olhos e disse:

– Burro...

– “Joe está te esperando”, eles falaram. Esse foi o seu grande erro, Neil. Porque se o Joe estivesse mesmo por trás dessa história, se tivesse mandado aqueles capangas pra me pegar, certamente teria avisado que eu poderia estar armada.

– Maya? – Era Judith. – Você matou meu filho.

– Ele matou minha irmã.

– Joe está morto. Não pode ser condenado. Mas três testemunhas ouviram sua confissão. Vamos levar você à justiça, Maya.

– Você ainda não entendeu – disse ela. – Não foi só minha irmã que o Joe matou. Também matou o Theo Mora...

– Aquilo foi uma brincadeira de mau gosto que desandou.

– Matou o Tom Douglass...

– Você não tem provas.

– E matou o próprio irmão.

Um silêncio pesado desceu sobre a sala, desses em que até os móveis se paralisam de antecipação.

– Mãe? – Era Caroline. – Isso não é verdade, é?

– Claro que não – disparou Judith.

– É, sim – disse Maya. – Joe matou o Andrew.

Caroline virou-se novamente para Judith.

– Mãe?

– Não dê ouvidos a ela, minha filha. Está mentindo.

Maya não pôde deixar de notar um ligeiro tremor na voz da sogra.

– Hoje estive com o Christopher Swain, Judith. Ele me contou que o Andrew estava arrasado, a ponto de dizer pro Joe, naquela noite no iate, que pretendia contar toda a verdade sobre a morte do Theo. Depois subiu sozinho pro deque, e o Joe foi atrás.

Silêncio.

Caroline começou a chorar. Neil olhou para a mãe como se suplicasse por ajuda.

– Isso não significa que ele matou o irmão – disse Judith. – Você até pode achar que sim nessa sua cabecinha doente, dada a fantasias absurdas, mas foi você mesma que me contou a verdade do que aconteceu.

– Sim. Contei que o Andrew pulou no mar. Que ele se matou.

– Exatamente.

– E o Joe estava lá, viu tudo. Foi o que ele me contou.

– Sim, claro.

– Mas não foi isso que aconteceu. Era uma hora da madrugada quando eles subiram pro deque.

– Sim.

– Mas só deram pela falta do Andrew na manhã seguinte. – Maya inclinou a cabeça e disse: – Se o Joe realmente tivesse visto o irmão pular, não teria acionado o alarme imediatamente? Não teria gritado por ajuda?

Os olhos de Judith se alargaram como se ela tivesse levado um soco na boca do estômago. Só então Maya se deu conta de que a sogra realmente estava em negação. Judith sabia de tudo, mas era como se não soubesse. Era impressionante como o ser humano conseguia tapar os olhos diante de verdades tão evidentes.

Em um segundo, Judith caiu de joelhos.

– Mãe? – perguntou Neil.

Judith começou a chorar como um animal ferido.

– Não pode ser verdade...

– Mas é – disse Maya, e ficou de pé. – Joe matou o Theo Mora. Matou o Andrew. Matou a Claire. Matou o Tom Douglass. Quem mais ele terá matado, hein, Judith? Porque na escola ele fraturou o crânio de um garoto com um taco de beisebol. E quase fez churrasco de outro por causa de uma garota. O Sr. Burkett conhecia o filho que tinha. Por isso deixou os negócios nas mãos do Neil.

Judith não fazia mais do que balançar a cabeça.

– Você criou, mimou e protegeu um assassino – desferiu Maya.

– E você casou com ele.

– Pois é, casei.

– Você acha mesmo que ele seria capaz de te enganar?

– Acho, não. Eu sei.

Ainda de joelhos, Judith cravou os olhos nela e disse:

– Você executou meu filho.

Maya não disse nada.

– Não foi em legítima defesa. Você poderia ter denunciado ele pra ­polícia.

– Poderia.

– Mas preferiu matá-lo.

– Você tentaria proteger seu filho de novo, Judith, e eu não podia deixar que isso acontecesse. – Maya deu um passo na direção da porta. Neil e Caroline recuaram. – Mas agora tudo virá à tona.

– Se isso acontecer, Maya, você vai pra cadeia. Vai morrer dentro dela.

– Pode ser. Mas os podres da EAC serão jogados no ventilador. Não tem mais jeito. Acabou.

– Espera – disse Judith, reerguendo-se. – Talvez possamos fazer um acordo.

Maya parou onde estava. Neil disse:

– Mãe, que história é essa de acordo?

– Shhh – disse ela para o filho, e para Maya: – Você queria justiça pra sua irmã. Já conseguiu. Agora vamos todos nos unir outra vez.

– Mãe?

– Preste atenção no que eu vou dizer. – Judith pousou as mãos nos ombros de Maya. – Culpamos o Joe pelo escândalo da EAC. Depois damos a entender que foi isso que levou à morte dele. Está vendo? Ninguém precisa saber da verdade. Além do mais... Talvez você tenha razão, Maya. Talvez eu seja mesmo uma Eva que criou Caim pra matar Abel. Eu deveria ter sabido. Não sei se serei capaz de continuar vivendo comigo mesma, mas de repente... se mantivermos a cabeça fria... de repente posso salvar meus outros dois filhos. Salvar você também, Maya.

– Tarde demais pra fazer acordos, Judith.

– Ela tem razão, mãe.

Era Neil. Maya olhou para ele e deparou com uma arma apontada na sua direção.

– Mas tenho uma ideia melhor – disse ele para Maya. – Você roubou o carro do Hector. Invadiu nossa casa. Está armada, posso apostar. Confessou que matou o Joe e veio aqui pra matar a gente também. Só que eu atiro primeiro. Legítima defesa. Ainda culpamos o Joe pelos podres da EAC, mas agora não precisamos mais passar o resto da vida com medo de uma punhalada nas costas.

Neil olhou para a mãe. Judith sorriu. Caroline assentiu com a cabeça. Uma gangue familiar.

Neil disparou três vezes.

Poético, pensou Maya. Ela também havia atirado três vezes em Joe. Aos poucos ela foi desabando no chão, pernas e braços ao léu. Não conseguia se mexer. Achou que fosse sentir frio, mas não. As vozes eram lampejos à sua volta.

– Ninguém nunca vai saber...

– Reviste os bolsos dela...

– Ela não está armada...

Maya sorriu e olhou para a lareira.

– Está rindo do quê...?

– O que é aquilo em cima da lareira? Parece um...

– Essa não...

Maya piscou os olhos algumas vezes antes de fechá-los. Ficou esperando pela avalanche de ruídos (os rotores, os tiros, os berros), mas eles não vieram. Não dessa vez. E não viriam nunca mais.

Seguiu-se então um breu, depois um silêncio, depois uma paz.