II

O vento nunca sossegava em Beech, fosse verão ou inverno, nem o moinho de vento em cima do telheiro atrás do hotel chamado The Inn. A engrenagem e a corrente para puxar o leme que virava o moinho para o afastar da corrente de ar partira-se muito antes de os Gordon se terem mudado para lá. Assim, rodava verão e inverno, a haste ligada ao eixo excêntrico a subir e descer lentamente e sem objetivo, sem fazer nada, ligada a coisa nenhuma, a guinchar, a guinchar tão penosamente que os raros visitantes de passagem pela cidade tinham dificuldade em dormir. Pouco depois de os Gordon se terem mudado para lá, Johnny Gordon, o marido, tentara silenciar a maldita coisa após uma queixa veemente; encostou uma escada instável à parede do telheiro, subiu e tentou perceber o que se passava. Nesse momento uma alteração brusca da direção do vento virou contra ele as lâminas rotativas, que lhe rasgaram o casaco e lhe fizeram um corte no ombro. Depois disso, deixou o moinho de vento em paz.

– Nunca devíamos ter vindo para cá – dizia ele com frequência a Rose, a mulher, e quando o dizia ela fitava-o com os seus grandes olhos, implorando-lhe que não voltasse a dizê-lo, mas sem dizer nada com a boca. Era toda olhos, aquela mulher.

No entanto, não tinham sido os olhos a primeira coisa a atraí-lo, em Chicago, onde estava a concluir o estágio num pequeno hospital miserável, cujos pacientes eram maioritariamente pessoas de cor e indigentes. Para escapar à dor e à imundície e à sordidez com que vivia na maior parte do tempo, ele começara a ir ao cinema algumas noites por semana. Oh, pensava, se pudesse encontrar uma rapariga com o calor e a ternura e a força moral da menina Mary Pickford, cujo sorriso e cujos olhos derretiam o coração humano, e as covinhas nas faces, e aquele olhar! Uma vez, ligeiramente embriagado, confessou o seu sonho a dois jovens médicos que se riram dele.

– Falas de mais – aconselharam-no. Mesmo assim ele agarrou-se ao seu sonho e embelezou-o, de tal forma que incluía agora uma casinha coberta de trepadeiras e uma cerca de tábuas brancas.

E, imagine-se! Uma noite, ficou sentado numa fila à frente, perto do piano cujas melodias alegres e ritmo grave explicavam e sublinhavam o drama tremeluzente que se desenrolava no ecrã à sua frente. Depois de as luzes se acenderem, permaneceu ainda alguns momentos perdido no seu sonho. A jovem sentada ao piano tocou no chapéu, ajeitou o cabelo e, enquanto o fazia, virou-se. Imagine-se! Estivera ali sentada a três metros dele, ali sentada de todas as vezes que ele aqui viera. Olharam um para o outro e ele sorriu.

Não sugeriu que ela o acompanhasse ao seu quarto; não parecia esse tipo de rapariga, embora no lugar dele os amigos o tivessem feito de certeza, aqueles que tinham troçado dele.

– Ela podia sempre dizer que não – dir-lhe-iam, talvez.

Mas ele não queria que fosse assim. E o seu palpite estava correto. Imagine-se, convidar para o seu quarto uma rapariga que ao domingo tocava piano na igreja.

Disse-lhe logo que era médico, na esperança de a impressionar, de se impor.

– Há uma feira ao pé do lago – sugeriu. – Dizem que é fantástica. Gosta de feiras?

– É uma das minhas coisas preferidas!

– Ora – disse Johnny. – E qual é a sua coisa preferida?

– Flores – respondeu ela.

– Hum...

– Não era uma indireta. Mas foi você que me perguntou.

O pai dela bem que o mirou de alto a baixo, mesmo depois de ele dizer que era médico.

– Não voltamos tarde, senhor.

O pai olhou para ele de lado, pegou no jornal e mudou-se para a outra sala.

– Bem, senhor Gordon – comentou a mãe dela.

– Doutor Gordon, minha senhora.

– ...é a nossa única filha. Compreende. Talvez um dia possa sentir o mesmo.

– Pode ter a certeza que sim. – Sem fôlego, viu Rose prender as violetas que ele lhe trouxera ao casaco; nunca vira tamanho afeto nos movimentos de uns dedos.

A mãe suspirou.

– Ela sempre adorou flores. Quando era pequena, estava sempre a tocar nas flores das pessoas.

Uma coisa tinha de admitir em relação a ela – estava sempre pronta! Pronta para todos os carrosséis, para a montanha-russa, e oh, céus! O estômago parecia sair pela boca quando o grande pêndulo baloiçava e dava a volta.

– Oh! – exclamou ela, quando foi projetada contra ele, e ele sentiu o perfume das violetas. – Tenho de admitir uma coisa – disse, quando recuperou o fôlego. – Para quem se queixa de não ter muita confiança, teve mais do que suficiente para andar nestas diversões terríveis!

– Oh, a verdade é que me sobra a confiança quando estou na sua companhia.

No entanto recusou-se a entrar nas tendas onde eram exibidas as aberrações, e ele só o sugeriu para ver o que ela pensava de aberrações. Ele detestava, principalmente quando sorriam.

Bom, então a tenda das aberrações estava fora de questão e foram antes ouvir um homem de barba pontiaguda cantar canções de uma nova opereta; e foi assim que Johnny e Rose saíram de lá a trautear canções de The Red Mill. Rose não trazia o pequeno chapéu que ele admirara na primeira vez que a vira, decorado, pensou agora, com flores. Em vez disso, trazia um lenço enrolado à cabeça, quase como uma cigana.

– É um bandeau – disse ela, e recuou para ele ver melhor. – Gosta?

– Oh, parece-me encantador – disse ele.

– Tirei a ideia de uma revista – explicou ela. – É o que a senhora Vanderbilt usa.

– Oh, mas aposto que lhe fica muito melhor a si do que à senhora Vanderbilt – disse ele.

– Não diria uma coisa dessas.

– Diria eu – insistiu ele com ar sério. Lembrava-se de ter visto algures uma fotografia da senhora Vanderbilt a caminhar na direção de um Rolls-Royce e, quem diria, Rose era realmente um bocadinho parecida com a senhora Vanderbilt, mas uma senhora Vanderbilt que a mais leve brisa sopraria para longe. – Sabe que por acaso até é parecida com a senhora Vanderbilt?

– A sério?

Ele riu-se.

– Sim, e sabe muito bem disso.

– Agora conhece o meu segredinho. – Aquela faixa de tecido em torno da cabeça era o seu emblema.

– Diga-lhes você, que eu sou gago – respondeu ele. Era o que toda a gente dizia naquele tempo. E Johnny riu-se.

Mas quando, algumas noites depois, ela acedeu a casar com ele, com os olhos a brilhar e os lábios entreabertos como quem sabe que vai ser beijada, os olhos dele encheram-se subitamente de lágrimas; sentia que a vida, qualquer que ela fosse, estaria incompleta sem ela, e teve medo. Medo por ela ou por si próprio? Não sabia dizer.

– Tudo o que posso dizer-lhe, meu rapaz – comentou o pai dela –, é que seja sempre bom para a minha filha.

– Garanto-lhe que assim farei, senhor – prometeu Johnny.

– Da primeira vez que o vi – disse o pai dela de sobrolho franzido – estava um pouco embriagado.

– É um homem muito perspicaz, senhor – disse Johnny. – Admito-me culpado. Bebi um copo para me dar confiança.

– A bebida é uma coisa perigosa.

– É apenas um medicamento, senhor – disse Johnny –, quando usado da maneira certa.

Não foi convidado a permanecer no hospital quando o estágio terminou; sabia que isso não aconteceria, mas mesmo assim ficou desapontado. Contudo, talvez esse desapontamento lhe tenha chamado a atenção para a sua frágil ligação à realidade. Sentia que se tivesse conhecido Rose mais cedo e arregaçado as mangas, por assim dizer, talvez o tivessem convidado a ficar. Pois a verdade era que, até conhecer Rose, não se esforçara muito mais do que o mínimo indispensável, ou pelo menos fora essa a impressão que deixara no diretor.

– Mas digo-lhe uma coisa, John – disse o diretor, e olhou para o crânio que tinha em cima da secretária. – Tenho olhos e tenho ouvidos e sei que você é provavelmente um dos jovens mais naturalmente bondosos que jamais conheci.

– Bondoso? – perguntou John. – Bondoso? Nunca reparei que era um homem bondoso, senhor.

– Talvez não – disse o diretor enquanto fumava o cachimbo como Johnny gostava de conseguir fumar cachimbo: com autoridade. – Foi por isso que disse naturalmente bondoso. Deriva, dizem-me estes novos tipos da psiquiatria, de uma certa sensibilidade. E...

– E o quê, senhor?

– Por vezes temos de controlar a sensibilidade. Pode ser perigosa. Não sei se será um traço particularmente valioso para um médico. É uma pena, mas aí tem.

– Então o que devo fazer, senhor, em termos de emprego?

– Numa cidadezinha pequena, John. Numa cidadezinha pequena, até se habituar.

Era embaraçoso ser tratado por John. Não se sentia como um John. Sentia-se como um Johnny e talvez fosse esse o seu problema, pois quem é que confia nos Johnnys deste mundo, naqueles que saltitam pela vida fora, a rir e a chorar, mas sempre a saltitar.

Encontrou a cidadezinha pequena. Era aqui – Beech. Esta povoação da qual dizia tantas vezes:

– Nunca devíamos ter vindo para cá.

E depois Rose olhava para ele.

Parecera-lhe tão cheia de possibilidade, um bom sítio para um jovem médico algo inseguro de si próprio se instalar e ganhar a vida. Ficava na linha do comboio. Instalara Rose no hotel em Herndon, a sede do condado, quarenta quilómetros a norte, enquanto fazia algumas investigações em Beech, e toda a gente parecera entusiasmada com a perspetiva de terem um médico local.

– Não temos médico há vinte e cinco anos – disseram-lhe no saloon.

– Isso é muito tempo – respondeu Johnny.

Oh, falaram-lhe sobre os agricultores de sequeiro do outro lado da colina que costumavam vir à cidade, e sobre os grandes ranchos a oeste. Disseram-lhe que se falava de um novo ramal da linha Northern Pacific que viria ao encontro da linha Union Pacific. Beech, mesmo no entroncamento, estava destinada a crescer, disseram. Ainda há poucos meses, disseram-lhe, tinham lá estado agrimensores a trabalhar com os seus instrumentos, e que rapazes de categoria!

Contagiado pelo entusiasmo que se gerara no saloon, Johnny pagou mais uma rodada aos seus novos amigos e todos brindaram a um futuro tão vasto que o deixou sem fôlego, tão vasto como a terra lá fora. E quanto a alojamento para ele e para a esposa?

Ah, era casado? Ora, que maravilha.

Mostrou a fotografia da mulher.

Bom, sem dúvida que era um homem de sorte.

– Parece-me – disse o empregado do bar –, que devia dar uma vista de olhos ao velho hotel. The Inn, era como se chamava.

Um pequeno hotel, com seis quartos idênticos no primeiro andar, cada um com uma cama de ferro, uma bacia, um armário e uma corda muito bem enrolada ao lado de cada janela para o caso de haver um incêndio. O The Inn estava abandonado há tempo suficiente para ter conquistado entre as crianças a reputação de estar assombrado; tinham visto luzes, tinham visto rostos nas janelas. Um dos mais corajosos atirara uma pedra contra uma das janelas de cima e dizia ter ouvido uma espécie de grito. Principalmente quando o luar incidia nas tábuas castanhas descoradas pelo tempo, e iluminava as janelas e apanhava os chifres de veado esbranquiçados por cima do letreiro que dizia THE INN – principalmente nessa altura, o hotel parecia assombrado.

À luz do sol, porém, parecia um edifício sólido e relativamente inocente; o moinho de vento que se erguia em cima do telheiro atrás do edifício conferia à propriedade um ar prático, e Johnny pensou que, até ter o consultório a funcionar a todo o vapor, podiam reativar o hotel – dois coelhos de uma cajadada. Quem é que podia acusá-lo agora de ser pouco prático?

O banco em Herndon era o dono da propriedade e Johnny chegou quase imediatamente a acordo com o indivíduo responsável. A herança da tia que quisera que ele estudasse medicina cobriu o pagamento inicial e deu para comprar o automóvel Ford em segunda mão de que precisaria para as consultas. Sobrou o suficiente para mobilar um consultório num dos quartos no primeiro andar. Uma cadeira metálica engenhosa transformava-se numa marquesa; um esqueleto humano sorria dentro de uma vitrina.

E agora estava a fazer a última coisa necessária.

– Anda cá ver, Rose – chamou.

A sorrir, viu-a levantar-se do chão ao lado do edifício, onde estava ajoelhada a plantar papoilas da Califórnia – uma das poucas flores, diziam, que medrava neste solo de trato difícil. Johnny ainda tinha na mão a pá que usara para abrir o buraco para o poste com a armação de madeira em forma de forca que segurava o letreiro que ele aplainara e lixara e pintara e prendera com quatro parafusos para poder baloiçar.

DR. JOHN GORDON

– Oh, isto aqui é tão ventoso – disse ela, ao ver o letreiro baloiçar –, mas estou a habituar-me e já mal o oiço. Sim, está muito bonito.

– Uma pessoa acostuma-se ao vento – disse ele –, ao fim de algum tempo.

Depois foram para dentro e deitaram mãos às limpezas. Lysol e muito sabão e água quente afugentaram todos os velhos fantasmas.

Foi ele próprio que fez o parto do filho. Foi ele próprio que tirou o seu abençoado filho do ventre da mãe, e juntos cometeram o erro de dar ao menino o nome vagamente epiceno de Peter porque pertencera ao pai de Rose, e esse homem corpulento ficara conhecido como Pete.

Johnny achava nunca ter visto nada mais belo do que a imagem da mulher, deitada na cama, a amamentar o filho; cuidou dela, sentava-se ao seu lado a ler-lhe as obras de Byron, encantado pelo deslumbramento e pela beleza do nascimento. Oh, como todos lhe deram os parabéns, e como se sentava direito atrás do volante do automóvel Ford, a sorrir e a distribuir charutos. Uma vez, ao apanhar um reflexo do seu próprio rosto no espelho, continuou a olhar e a pensar. Pensou em como, sempre que ela erguia os olhos do que quer que estivesse a fazer, sorria sempre. Perguntou a si próprio se mais alguém teria reparado nisso.

As papoilas floriram, murcharam e morreram; o vento do inverno uivou vindo das montanhas distantes, e depois a neve voltou a desaparecer do solo, as papoilas nasceram e floriram mais uma vez, murcharam e morreram. Embora não falassem sobre isso um com o outro, os Gordon estavam preocupados por o rapazinho loiro estar atrasado a começar a andar e a começar a falar, e quando por fim deu os primeiros passos – que dia, esse! – caminhava com um passo rígido e mecânico que recorria pouco ao joelho, um passo que dava a entender que andar era uma habilidade penosamente adquirida e não um instinto humano. E quando por fim falou, o menino espantou-os ao falar com um leve ceceio, numa cadência calculada e adulta que lhes garantiu que ele era avançado e não atrasado, apesar da testa ligeiramente aumentada, dos olhos inocentes e muito abertos e de um hábito inquietante de parecer estar a ouvir sons à distância. Aos quatro anos, já sabia ler.

Johnny rapidamente descobriu um facto curioso que, ao princípio, não o incomodou muito: quando os grandes rancheiros e as suas mulheres e famílias precisavam de médico, iam a Herndon e aproveitavam a viagem para fazer compras e jantar no Herndon House ou no Sugar Bowl Cafe. Gostavam de se sentar nas grandes poltronas de cabedal verdes no átrio do hotel e cumprimentar os amigos, de olhar através das grandes montras para os habitantes da cidade na sua vida e para os seus próprios carros encostados ao passeio lá fora; gostavam de dar uma volta ociosa pela cidade, de admirar o grande relvado bem tratado que se estendia em frente do edifício gótico de tijolo amarelo do tribunal e da cadeia atrás deste, onde o xerife guardava os seus bêbados e vadios de estimação; desfrutavam das ruas ladeadas de árvores no bairro residencial, paravam assombrados e embaraçados em frente das cintas de borracha na montra dos armazéns, iam até à estação ver o comboio chegar. Como a terra tremia! Como era ensurdecedor o ruído do vapor! Depois regressavam ao Herndon House, onde reservavam um quarto com casa de banho, se regozijavam naquele luxo todo e sorriam, na expectativa do filme que veriam à noite no cinema. Não havia luxos destes no The Inn, em Beech não se encontrava tal excitação, lá onde o vento uivava. E não é nada relaxante estar num sítio que tresanda a desespero e fracasso.

Em todos os anos que Johnny Gordon exerceu a sua atividade em Beech, foi fiel, completamente fiel, ao juramento hipocrático, e nunca recusou um pedido de ajuda, quer fosse pago por isso ou não; os seus pacientes eram os agricultores de sequeiro do outro lado das colinas, cujas vidas de certa forma corriam paralelas à dele; tinham sido atraídos para o Oeste por cartazes coloridos impressos pelos caminhos de ferro, a prometer terra barata, que Deus sabia que havia aqui, e chuva, que Deus sabia que não havia. Só os grandes rancheiros, que controlavam os riachos e o rio, prosperavam. Mas pelo menos os agricultores de sequeiro, os noruegueses, suecos e austríacos, podiam fracassar num ambiente limpo.

– Por Deus, Rose – costumava Johnny dizer –, são mesmo asseados. Uma pessoa podia comer daquele chão. Um dia levo-te comigo e fazemos um piquenique.

Chamavam-no para pôr talas em ossos partidos, para tratar de braços rasgados e desfeitos pelos dentes de serras circulares. Ex-habitantes das cidades, desastrados, eram pontapeados nas virilhas por cavalos e vacas. As suas mulheres davam à luz. Quando Johnny chegava no seu Ford, já tinham água a ferver para ele limpar os instrumentos; ele ria-se e dava-lhes os parabéns pelos bebés que fazia nascer, aos gritos ou a chorar para o mundo à sua volta; sentado a mesas de cozinha imaculadas, celebrava com os pais, brincava para desviar a atenção do sofrimento das mulheres.

– Porque é que o Tio Sam usa suspensórios vermelhos, azuis e brancos?

A cantar, regressava a Beech com um garrafão ou dois de vinho de cereja silvestre no banco de trás do Ford.

– Pagarão quando puderem – garantia a Rose. E pagavam, quando podiam.

Mas agora o letreiro com o seu nome pendurado na armação de madeira em frente do hotel estava tão gasto pelas intempéries que era quase ilegível; os chifres de veado esbranquiçados por cima da entrada caíram numa noite de vento; o The Inn precisava de uma pintura, mas por dentro estava tudo desesperadamente limpo, com as janelas a brilhar. Não graças ao salário de Johnny, mas aos caixeiros-viajantes que passavam pela cidade com os seus tecidos e miudezas, a um ou outro comprador de gado que de vez em quando aqui parava para passar a noite e fazer uma refeição – eram eles que pagavam as contas.

Peter sofreu não só todo o espetro de doenças infantis, mas também uma variedade de friagens e febres que lhe sugaram a força e lhe deixaram nos braços e pernas apenas uma fina camada de osso em volta da vulnerável medula. Johnny questionava se as pessoas veriam as maleitas constantes do filho como um reflexo das suas próprias capacidades, e se não existiria algum paradoxo nos livros antigos – como a história da casa de ferreiro – segundo o qual o filho do médico está sempre doente. Mas Peter nunca se queixava nem fazia exigências, e manuseava obedientemente os brinquedos que os pais lhe davam. Aprendeu cedo o que era ser um pária e encarava a vida com os olhos fundos e desprovidos de expressão, que viam tudo ou nada. Não jogava à bola, preferia livros e solidão, tinha aversão à luz do sol e antes de sair fazia sempre uma pausa, semicerrava os olhos e protegia-os com a mão.

As pessoas apagavam cedo os candeeiros em Beech – um sopro pela chaminé afunilada – e assim o mundo ficava entregue a uma luz isolada atrás da janela de um quarto de enfermo, às chamas pálidas e tremeluzentes nas mudanças de agulha perto da estação de comboios, e às vezes à lua. Era então que Peter gostava de sair de casa.

– O que estavas a fazer? – perguntava Rose, ou Johnny, e Peter respondia sempre, nada.

Nada, e eles depreendiam que nada significava que ele caminhara, caminhara sem destino. Mas, uma vez, os ponteiros do relógio da cozinha giraram e giraram até terem passado duas horas e um pânico súbito apoderou-se de Johnny, um aperto nas entranhas; durante quinze minutos permaneceu sentado, a cortar as unhas, com medo de comunicar a Rose este estranho terror.

– Acho que vou dar uma volta e ver o que ele anda a fazer – disse Johnny.

A terra estava lisa e iluminada pela lua, cujos raios captavam as primeiras gotas de orvalho na artemísia e definiam um trilho à sua frente, como luar na água; Johnny não se lembrou de mais nada que pudesse atrair o rapaz a não ser o rio, e nada na margem do rio a não ser um pequeno maciço de salgueiros. Era aí que ele devia estar. Se não estivesse aí, onde estaria, então? Ao aproximar-se dos salgueiros abrandou o passo.

E lá encontrou o rapaz, encontrou-o sentado, encostado ao salgueiro mais perto do rio no ponto onde, no meio, a água se dividia, agitada e cintilante, em torno de um toco de árvore preso num banco de areia, e talvez o murmúrio ondulante tivesse engolido os passos cuidadosos de Johnny, pois o rapaz permaneceu imóvel, o rosto banhado pela radiância fria, a testa ossuda a lançar uma sombra que escondia os seus olhos fundos como um capuz. Johnny hesitou, pressentindo que estava a intrometer-se em algum mistério. Tal como hesitara nas várias ocasiões em que dera com o rapaz a olhar para o seu próprio reflexo no espelho ondulado pendurado sobre o lavatório; Johnny não conseguia perceber, pela expressão neutra dos olhos do filho, se o rapaz estava à procura de alguma coisa, a criticar a sua aparência ou apenas em busca de companhia na sua própria imagem, e quando ele se virava era sem qualquer embaraço – parecia não ter noção da estranheza ou do mal ou do que quer que fosse; era Johnny que sentia as pontadas do sentimento de culpa, e queria partilhar o fardo desses vários incidentes com Rose, mas de todas as vezes manteve o silêncio.

Agora, alguma coisa na forma como caía o tecido do casaco do rapaz, algo na sombra que lhe obscurecia a expressão e na teia de folhas de salgueiro negras que se abriam como um leque por cima dele, fez lembrar a Johnny algo religioso, um monge mergulhado em oração. Ocorreu-lhe que talvez o afastamento habitual do rapaz não fosse a distância do médico ou do cientista, mas sim o recolhimento do místico, do padre. Quando falou, apercebeu-se da inconveniência da sua própria voz:

– Peter?

– Ia já para casa. – Sem qualquer surpresa.

– Vim ver o que estavas a fazer.

– Estava a olhar.

– A olhar?

– Para a lua.

Tal como as galinhas na capoeira bicam até à morte as que são estropiadas ou estranhas, assim na escola Peter era gozado, provocado e chamado de maricas – essa palavra sussurrada estava por todo o lado. Mas só quando chamaram bêbado ao pai é que se virou contra eles. Os outros, mais rápidos do que ele, desviaram-se facilmente e puseram-se em círculo à sua volta, com um brilho divertido nos olhos, as bocas a fazerem em uníssono o som cruel de um «a» anasalado. E assim, sabia ele, em outros círculos tinham estado os pais destes rapazes, e os avôs, a atormentarem um outro pária qualquer, um outro rapaz diferente; tal como os filhos faziam agora.

O doutor Johnny

É um borrachão.

Mais uma vez fez menção de atacar, inclinando os ombros magros, mas depois endireitou-se e ficou imóvel, a olhar primeiro para um e depois para outro, para Fred, que todos os dias vinha para a escola num cavalo com uma sela de cinquenta dólares, para Dick, o filho do empregado do bar, que escrevia nas paredes da casa de banho e fizera um buraco para espreitar para as raparigas e cujas notas nas aulas eram quase tão boas como as de Peter; para o matreiro Larry, que já pesava perto de cem quilos e sorria muito mas falava pouco. E, ao olhar para eles, Peter soube, com a certeza de um velho astuto, que teria de os enfrentar nos seus próprios termos, não nos deles. E percebeu que não era só contra eles que albergava este novo ódio frio e impessoal, mas contra todos aqueles que eram normais, ricos, invejados e seguros e que podiam atrever-se a insultar a imagem privada que Peter guardava dos Gordon.

Essa imagem ganhara forma mais concreta quando ele começou a fazer um livro de recortes com fotografias, desenhos e anúncios cortados de velhas revistas de que poucos neste país tinham sequer ouvido falar – Town and Country, International Studio, Mentor, Century – todas oferecidas à escola por uma mulher invulgar do vale, e que tinham ficado empilhadas e intactas durante anos na escuridão do vestiário, ao lado de caixotes com galochas esquecidas e luvas abandonadas. A professora, uma senhora amável e fleumática que pensava muitas vezes na infância e num gatinho que tivera e amara, não via motivo para que as revistas não pudessem ser recortadas; tinham pouco a ver com aquilo que ela ou os outros alunos achariam valioso. O que caracterizava as imagens que Peter escolhia e cortava e colava com as suas mãos pálidas, era o luxo e a afluência – cenas de transatlânticos a navegar, a partida de um comboio rápido, coleções de joias, casas de campo inglesas, reposteiros pesados, malas de cabedal, a praia em Newport e os automóveis que transportavam até lá os banhistas elegantes – Locomobiles, Isotta-Fraschinis, Minervas. Mas o luxo e a afluência não eram tudo o que caracterizava as suas escolhas: cada desenho, fotografia ou anúncio continha figuras humanas que lhe faziam lembrar o pai ou a mãe: a mãe de pé num terraço a olhar para um relvado imaculado, o pai a dar entrada num grande hotel. Assim, começou a criar um livro de sonhos que se erguia contra o fracasso da família e o gemido omnipresente do vento, um mapa do mundo do futuro. Tencionava tornar este mundo realidade ao ser um grande cirurgião, ao apresentar um artigo perante homens eruditos em França, ao escutar desconhecidos falarem da beleza da sua mãe e da bondade do seu pai.

Agora ficava indiferente quando, na escola, diziam que o pai tinha falado com uma puta.

E era verdade que o fizera, que falara com uma prostituta que começara a trabalhar numa boa casa em Salt Lake City. Depois de a sua frescura se extinguir e de receber algumas queixas, apanhou o comboio para Herndon, onde trabalhou no Red-White-and-Blue Rooms. Foi em Herndon que começou a rezar muito, e era frequentemente encontrada de joelhos ao lado da cama. Procurava igrejas à noite (havia duas que nunca estavam trancadas) e dizia-se que tinha perdido o juízo. Se não tivesse atraído as atenções para si própria com tanto ajoelhar e rezar, talvez tivesse escapado ao olhar atento da sua atual madame, que pensou detetar sintomas de tísica. Gostava de ter uma casa limpa, e sugeriu que a mulher doente, chamada Alma, fosse para Beech, onde precisavam muito de mais uma rapariga e onde a clientela não era tão exigente.

– Talvez Deus te ajude – sugeriu a madame. – Tu que confias tanto nele.

Alma chegou a Beech com uma mala de cartão que continha vários quimonos, um pacote de cigarros Milo Violets e uma velha fotografia do pai que a expulsara de casa. Se pelo menos lhe tivesse dado ouvidos. Se não a amasse, ele não a teria disciplinado.

O doutor Johnny, ao entrar para beber um copo, percebeu logo que o problema de Alma não era a tísica – os olhos revelavam-no, e a tez, e o funcionamento da mente. Ele tinha um dom extraordinário para diagnósticos. Anos mais tarde, na era dos especialistas, podia ter triunfado, podia ter tido um consultório com mobílias espanholas pesadas e tapetes persas – é assim que, às vezes, nascemos no sítio errado e na altura errada. Quando examinava um paciente, parecia-lhe ouvir um murmúrio ao ouvido, talvez através do estetoscópio, e este dom para diagnóstico foi um dom que passou ao filho.

Johnny chamou a prostituta Alma à parte e pagou-lhe uma bebida.

– Não devia estar a trabalhar, sabe? – disse-lhe.

– Deus disse-me para trabalhar – comentou ela, e bebeu um trago.

– Não é só por sua causa.

– Não lhes devo nada – disse ela.

– Deve sim. Sabe muito bem que sim, caso contrário não estaria a falar em Deus. Sabe o que Ele quer.

Ela tocou na têmpora com as pontas dos dedos.

– Se Deus me mentiu, o que hei de fazer? – Passara alguns dias de cama e estava cambaleante.

– Não tenha contacto com ninguém, só por enquanto.

E passou-se mais um mês, muitas noites e muitas madrugadas.

– Não passará de uma semana, de qualquer maneira – disse Johnny a Rose. – Talvez um bocadinho mais, mas não sairá mais da cama; agora dizem que não querem que ela morra lá, e seja como for é um sítio horrível para morrer, naquele quartinho apertado. – Olhou para Rose e acendeu um Sweet Caporal. – Claro que há quem ache que ela não merece mais.

– Não sabes o que dizes, pois não, John? – respondeu Rose. – Já arranjei um quarto para ela aqui.

Com um sorriso de lado, aproximou-se dela e levantou-lhe o queixo.

– Aí está a minha pequena senhora Vanderbilt.

– Não – retorquiu ela. – Senhora Gordon, senhora John Gordon.

Agora, na cidade, chamavam ao The Inn o Hotel das Putas porque uma prostituta louca morrera lá a rezar, e em Herndon e Beech muitas boas mulheres sentiram-se no direito de deixar de falar a Rose, apesar de o seu marido ser médico. E na verdade a beleza dela – inútil e indiferente como uma borboleta – era difícil de perdoar, bem como o seu sorriso pronto e o porte altivo.

– Oh, ele vai ser médico, podes ter a certeza – disse Johnny, fazendo planos. – Da maneira que está sempre a ler? De olhos abertos... já reparaste? Por aí é que se vê, pelos olhos abertos. Ele adora os factos.

Peter adorava realmente os factos, fechado no quarto com a Enciclopédia Britânica; aos doze anos de idade já estava a estudar os desenhos de Vesálio, a ler Hipócrates e certas passagens de Virgílio, e os jornais médicos que o pai já nem desembrulhava.

– Oh – disse Johnny –, ele chegará a sítios onde eu nunca cheguei – e o seu coração enchia-se de orgulho, a sua mente varria a paisagem encantadora do futuro do filho. – Vais ver.

– Tu também és um bom homem – recordou-lhe Rose.

– Bom? Um homem disse-me uma vez que era bondoso, não bom. Não tenho ilusões. É essa a minha virtude. Se reparares, é quase sempre aquilo que um homem quer, é que o filho seja melhor do que ele. Rose, já reparei nisso. E depois, nunca fui muito confiante. Mas todo o homem tem falta de alguma coisa. – E é assim que desculpamos os nossos fracassos, quando os admitimos.

Às vezes, quando bebia, Johnny sentia-se ao nível dos grandes rancheiros: eles tinham dinheiro, mas ele tinha educação. Quando traziam o gado para a cidade, Johnny entrava no saloon depois de o crepúsculo cair, quando os vaqueiros lá estavam a descontrair, e falava – metia o bedelho, como dizia o empregado. Encostava-se ao balcão com os melhores, no seu fato escuro de médico e gola engomada, e desenvolvia as suas teorias sobre política, sobre educação e sobre a Europa.

– Vão ver – dizia. – Vai haver guerra por lá e nós vamos acabar metidos nisso, vocês vão estar metidos nisso e eu também. – Achavam-no doido. Parecia não reparar que os outros se afastavam dele à medida que ficava com a fala entaramelada, quando começava a entornar a bebida para cima de si próprio e a tocar impulsivamente nos braços das pessoas. Na sua maioria, respeitavam-no; alguns tinham pena dele. Alguns lembravam-se de como ele se metera na estrada pouco depois de chegar à cidade, ansioso por ver a sua primeira grande manada de gado, e como um dos homens tinha disparado um tiro por cima da cabeça dele e o amaldiçoara, e como ele fugira e se escondera atrás do terminal de carga. Céus, tinha lá ficado umas boas três horas.

Mas, uma vez, Johnny meteu conversa com o rancheiro errado. Via-se que o homem estava a ficar irritado, ali de pé com o copo na mão, enquanto Johnny dava voz ao mais recente fantasma na sua mente – a falta de orgulho cívico em Beech. Porquê, queria ele saber, porque é que não pintavam a escola? Porque é que deitavam o lixo na colina, para todo o mundo ver? Porquê macular esta paisagem tão bonita?

– Ora, olhem para ali, agora mesmo! – ordenou, e olhou pela porta do saloon para o sítio na colina onde o sol se refletia nas mais recentes latas e vidros partidos. – Mais três metros e teriam atirado o lixo para o cemitério. É uma monstruosidade, é o que eu chamo àquilo.

O rancheiro falou.

– É o que eu lhe chamo a si – disse.

– Como disse, senhor? – perguntou Johnny, sem compreender.

O rancheiro não disse nada, mas um murmúrio de concordância percorreu o saloon.

– As flores, por exemplo – continuou Johnny. – Quando entramos numa cidadezinha e vemos flores aqui e ali, por todo o lado, sabemos que as pessoas dessa cidade têm aquilo a que se chama orgulho cívico, do latim civitas que significa cidade. Nas estações de comboio, mesmo em Herndon aqui tão perto, têm um bonito canteiro de flores à entrada, no meio de um relvado bem tratado. Quem passa nas carruagens olha pela janela e vê, e saem da cidade com uma excelente impressão. Ninguém ficaria espantado se às vezes essas pessoas voltassem para assentar arraiais nessa cidadezinha, pois não? – Johnny fez uma pausa e olhou pensativamente para o copo. O silêncio na sala encorajou-o. – As flores, por exemplo – recomeçou. – Vejam o que nós fizemos, a minha mulher, o meu filho e eu. – Ele e a mulher e o filho tinham embelezado o hotel, não sabia se tinham reparado? Trepadeiras de lúpulo nas laterais do alpendre, e era preciso o tipo de cordel certo para elas subirem, senão quando chegavam lá acima, pumba, caíam num grande monte por causa do próprio peso. Bom, as trepadeiras e as papoilas e as capuchinhas. Todas estas plantas cresciam bem aqui em Beech, só precisavam de ser regadas. – Provavelmente já nos viram cá fora a regar as plantas.

O rancheiro falou de novo.

– Era isso que estava a fazer aqui há uns anos, quando tive de dar um tiro por cima da sua cabeça?

– Como disse, senhor?

– Perguntei se andava a regar as suas flores quando disparei a arma por cima da sua cabeça?

– Então foi o senhor que fez isso? Tenho de admitir que estava a pedi-las. Não sabia muito sobre os costumes, nessa altura.

– Não me diga? – disse o rancheiro.

– No inverno não há flores, pois não? – disse Johnny. – Por isso o meu filho e a minha mulher, é por isso que no outono eles vão aos prados nos arredores da cidade e recolhem aquilo a que algumas pessoas chamam ervas daninhas, e depois tingem-nas, e temos flores o inverno inteiro.

– Não me diga? – murmurou o rancheiro, e alguém tossiu.

– E não é tudo – continuou Johnny, e deitou cuidadosamente mais um trago de uísque no copo. – O meu filho tem mãos de cirurgião, mãos muito inteligentes. Consegue pegar em papel crepe e enrolá-lo e fazer flores artificiais, e essas, senhor, são as que encontrará na nossa mesa de jantar nos meses de inverno. Imagine – disse Johnny –, um rapaz de doze anos a estudar os desenhos de Vesálio e a ler material muito complexo, com apenas doze anos! Imagine.

– E a fazer florzinhas de papel também – disse o rancheiro.

– Senhor? – Johnny olhou de um lado para o outro, para os rostos dos homens encostados ao balcão. Agora sentia uma súbita necessidade de os impressionar mais ainda e citou um grego qualquer sobre flores.

– Como disse? – perguntou o rancheiro.

Johnny sorriu, um sorriso radiante.

– É grego, senhor. Um médico estuda a língua grega, como parte da sua formação intensiva.

– Não me parece grego – disse o rancheiro.

– Posso garantir-lhe que é, senhor.

O rancheiro riu-se.

– Sendo assim, é melhor voltar para a sua escolinha, onde quer que seja. A palavra em grego para esse tipo de flor é Jóos. É o que põem nas campas.

Os risos soaram como tiros, e Johnny, inseguro, tentou compreender e concentrar-se em algum rosto que o pudesse reconfortar. Não encontrou nenhum.

– Bom, senhor...

Agora o rancheiro falou e a sala silenciou-se de novo, um silêncio pesado.

– Conhece esta, doutor? – e o rancheiro citou uma frase de Ovídio em latim. – O que acha desta?

Johnny compreendeu e o seu rosto ficou corado, cor de sangue.

– Porque havia de me dizer uma coisa dessas? – perguntou.

– Porque acredito em dizer a verdade, doutor. Quer explicar aqui ao resto dos rapazes o que significa?

– Não, senhor. Não quero.

– Então eu explico – disse o rancheiro. – Significa que você é um burro de merda. E, já agora, o maricas do seu filho também.

Johnny tirou o chapéu, alisou o cabelo e voltou a pôr o chapéu. Não tirou os olhos do rancheiro.

– O meu filho não é maricas.

– É o que dizem os rapazes por aqui.

– Porque ele lê. Porque ele pensa.

– Porque ele faz florzinhas de papel. Porque ele não percebe nada de basebol.

Era insensato da parte de um homem franzino como Johnny atacar. Insensato da parte dele dizer:

– Não pode chamar maricas ao meu filho! – porque o rancheiro podia, e foi o que fez, e fez, e voltou a fazer.

O rancheiro agarrou em Johnny pelos colarinhos da camisa branca engomada, levantou-o do chão e sacudiu-o, e depois esticou o braço e arremessou-o como se fosse um trapo molhado contra a parede em frente, onde ele caiu desamparado. Johnny tentou levantar-se mas tombou de novo. Depois, ao fim de algum tempo, sem olhar para ninguém, levantou-se e viram-no atravessar a estrada e o terreno baldio em direção à estalagem. O seu progresso assustou algumas pegas que tinham encontrado um esquilo morto e que piaram em protesto.

– Meu Deus, o que te aconteceu? – gritou Rose. – Quem rasgou, quem te rasgou a camisa?

– Meti-me numa luta, Rose.

– Por favor diz-me, estás ferido?

– Não, Rose. Não estou ferido. Só quero ir para a minha cama.

– Para a cama, John? Se não estás ferido, porque queres ir para a cama?

– Não sei. Mas quero ir para a cama. – Levantou-se da cadeira. – Onde está o rapaz, Rose?

– Não sei onde ele está.

– Onde achas que estará?

Rose falou baixinho.

– Acho que foi até ao rio.

– Não queria que ele me visse metido em lutas.

– Por favor, não te preocupes com isso.

– Rose... Rose?

– Sim, John?

– Rose, eu não estava a dizer a verdade. Não estou preocupado por ele me ver metido em lutas. Talvez o meu problema seja que não aguento a verdade?

– Não sei bem do que estás a falar, John.

– Há um minuto, disse que não queria que o Peter me visse metido em lutas. Foi o que eu disse.

– Sim.

– E não era verdade.

– Porquê? Com certeza que não querias que ele te visse lutar.

– Queria sim.

– Porquê? Porque havias de querer tal coisa?

Johnny franziu o rosto.

– Para lhe mostrar que sou bom lutador.

– Um homem pode ser coisas melhores. Sabes bem disso.

– Um bom lutador consegue derrubar qualquer pessoa que lhe rasgue a camisa e o atire contra a parede e diga que o filho... que o filho é um maricas. – Johnny fechou os olhos. – Pronto, já disse.

– Já disseste o quê, John?

– Já disse toda a verdade. O que eu não queria era que ele visse o pai atirado contra a parede, com toda a gente a ver.

– Ele não viu, John.

– Quem pode ter a certeza? Com aquele barulho todo? Sabes quando as pessoas ouvem uma voz, como se juntam todas?

– Tenho a certeza de que ele está ao pé do rio. Tem um sítio para onde gosta de ir.

– Percebes, que humilhação – disse Johnny, e fitou os olhos da mulher por um instante. – Uma humilhação terrível, terrível. Para um rapaz.

– Humilhação? – disse Rose. – Para o rapaz ou para ti? Como pode haver humilhação se formos humildes, como Cristo diz?

– Cristo – disse Johnny. – Arranjas-me uma toalha fria?

Ela arranjou-lhe a toalha e aplicou-a e ficou a observá-lo até ele adormecer. Esperava o costume quando ele acordasse, que lhe pedisse uma bebida; nos dias seguintes dar-lhe-ia apenas o suficiente, cuidadosamente medido, para ele conseguir funcionar; ele nunca pedia mais do que aquilo que ela considerava necessário.

Mas desta vez quando acordou ficou ali deitado, de olhar perdido, sem pedir nada. Nada. Desta vez foi ela que lhe sugeriu que bebesse qualquer coisa, pois ele dissera-lhe muitas vezes que o uísque matava a dor, e era disso que ele sofria.

– Não – recusou ele.

Ela trouxe-lhe sopa. A sopa arrefeceu, intacta. Ele ficou deitado com os dedos entrelaçados por cima das cobertas; o dia prolongou-se, a luz desvaneceu-se, os gansos voaram para sul. Do saloon do outro lado do terreno baldio chegava até eles o som animado do piano.

– Por favor, fecha a janela, Rose.

Não foi Rose que lhe respondeu, mas sim Peter.

– Vim trazer-lhe uma coisa, pai.

Johnny abriu os olhos e sorriu. O filho estava de pé no meio do quarto.

– Trazer-me uma coisa?

– Consegue ver com esta luz, pai?

– Oh, com certeza.

– Fiz isto para si. No verão.

Johnny sentou-se e o filho colocou-lhe as almofadas atrás das costas.

– Assim está melhor, Peter. As almofadas. Ora bem, o que tens aí?

– Estes desenhos, pai.

Pai, pensou Johnny. Meu Deus, que palavra, que responsabilidade, e pegou nos desenhos. Eram dez, todos eles dos sistemas de raízes das plantas perto do rio. Johnny fechou os olhos e mordeu o lábio. Como o faziam lembrar, pela sua excelência, dos fracos desenhos saídos da sua própria mão!

– Estou muito orgulhoso – disse Johnny. – Nunca consegui desenhar tão bem.

– Foi o pai que me ensinou – disse Peter. Depois de ele sair, Johnny virou o rosto para a parede. Então o rapaz sabia, ou ouvira dizer, pois que outro motivo haveria para lhe estar a trazer presentes, além da pena?

No ano seguinte, não bebeu. Já não cantava; o seu rosto emagreceu e os olhos não convidavam qualquer intimidade. Falava com poucos e já ninguém lhe chamava Johnny. Uma tarde de outono, com o ar a cheirar a neve, Johnny regressou de uma viagem às colinas por trás da cidade. Tinha ajudado uma mulher a dar à luz um bebé morto.

Que criança de sorte, pensou. Uma alma que nunca falharia, que nunca se acobardaria perante o princípio naturalista inexorável – que os fracos são destruídos pelos fortes. Enquanto se dirigia no velho automóvel Ford àquela barraca de cartão alcatroado, olhara para baixo, do cimo da colina, e vira a poeira levantada pelas carroças e pelos velhos cavalos dos índios, expulsos do que restava das suas terras no vale – trinta famílias, a caminho da reserva, agora a cargo do governo, alvo de caridade. Assim, os fortes desalojam os fracos. Alguns são especialmente selecionados.

– Vi aqueles índios – disse a Rose nessa noite.

– Talvez, de certa forma, estejam melhor assim?

– De certa forma? Mas desalojados, desalojados. Rose, onde está o rapaz?

– No telheiro lá atrás. Diz que tem mais coisas para te mostrar.

– Não devia estar a trabalhar à luz do candeeiro. Os olhos dele.

– John?

– Rose?

– John, estás bem?

– Sim, claro.

– Por um minuto, ficaste estranho.

– Estranho?

– Como se tivesses partido. Como se me tivesses deixado.

– Está tudo bem. – Sorriu, aproximou-se subitamente dela e beijou-a. – És uma pessoa muito corajosa – disse. – Agora vou ver do Peter e depois acho que vou para cima.

– Queres alguma coisa? Precisas de alguma coisa?

– Não, não preciso de nada, Rose.

O telheiro, sobre o qual girava o moinho de vento, estava encostado à estalagem; um pequeno fogão a lenha tornava-o confortável, e cheirava a fumo e querosene. Nas paredes, Peter construíra prateleiras, agora ligeiramente vergadas sob o peso morto dos livros de medicina de Johnny. Aí se encontravam também os corpos empalhados de esquilos e coelhos, as provetas e retortas e outra parafernália química; aqui, Peter escapava ao sofrimento da Getsémani diária na escola, o gozo e as provocações; aqui, perdia-se num mundo privado, o mundo de que nunca duvidava; sentado aqui à sua secretária, os seus olhos viravam-se para dentro, adquiriam a expressão reservada e atenta dos surdos. O seu rosto pálido era tão liso que Johnny se interrogava se ele alguma vez teria de fazer a barba, e nada traía a sua emoção senão o leve latejar de uma veia na têmpora direita.

– A tua mãe diz que tens uma coisa nova para me mostrar – disse Johnny.

– Este novo diapositivo, pai.

Johnny aproximou-se.

– Peter, parecias estar a ouvir alguma coisa.

O rapaz tinha afixado uma lanterna a um suporte de madeira que apontava os raios de luz exatamente para debaixo da lente.

– Hum, este é raro. – Era o diapositivo de um bacilo que mata roedores. – E muito bem desenhado, também. – Johnny endireitou-se lentamente, e, como um velho, levou a mão ao fundo das costas e pressionou, com uma pequena careta. – Tens umas boas mãos, Peter. Mostra lá a tua mão. – Pegou na mão de Peter e olhou para a palma lisa. – É estranho, sabes?

– O que é que é estranho, pai?

– Oh – e Johnny sorriu –, acho que é estranho que seja tão difícil para um pai falar. Talvez o meu próprio pai tenha sentido o mesmo. Talvez seja por isso que nunca falou. Mas eu vou dizer, só uma vez, o que quero dizer. E o que quero dizer, Peter, é que... amo-te.

Peter ficou então em silêncio e fixou no pai os olhos enormes, olhos que pareciam refletir toda a sala, todo o mundo. Mas a veia azul na sua têmpora, retorcida como uma minhoca, aumentou um pouco. Johnny estava prestes a virar costas quando Peter falou.

– Pai – disse –, eu também te amo.

Johnny mordeu o lábio e, quando conseguiu falar, disse:

– Assim sendo, está tudo bem. E se eu fosse dizer-te uma coisa, sabes o que seria?

Por cima deles o moinho de vento girou sob o vento frio e seco, aquele moinho que girava sem objetivo, sem fazer nada, a trabalhar por trabalhar. Johnny nem sequer isso conseguira conquistar, pois o moinho virara-se contra ele e cortara-o muito antes de este seu filho brilhante nascer.

– Não tenho a certeza, pai – murmurou Peter.

– Diria, Peter, para nunca quereres saber do que as pessoas dizem. As pessoas nunca conhecem o que vai no coração dos outros.

– Nunca hei de querer saber do que as pessoas dizem.

– E, Peter, por favor não o digas bem assim. A maioria das pessoas que não querem saber... a maior parte delas torna-se dura, endurece. Tens de ser bondoso, tens de ser bondoso. Acho que o homem que serás um dia conseguiria magoar terrivelmente os outros, porque tu és forte. Compreendes o que é bondade, Peter?

– Não tenho a certeza, pai.

– Bom. Ser bondoso é tentar remover os obstáculos do caminho daqueles que nos amam ou precisam de nós.

– Isso compreendo.

Johnny mordeu novamente o lábio.

– Eu sempre fui um obstáculo, de certa forma, Peter. Mas agora sinto-me bem. Obrigado por compreenderes. E assim sendo, vou andando.

Mas demorou-se mais um momento, com um leve sorriso nos lábios, e depois avançou subitamente e pousou a mão na cabeça de Peter.

– És um bom rapaz, mesmo bom rapaz – disse. Depois saiu e subiu para um dos quartos no primeiro andar.

Foi lá em cima que Peter o encontrou mais tarde, depois de ouvir um barulho.

– Peter? – chamou Rose. – Peter? O que estás a fazer aí em cima?

Peter não respondeu. Ela chamou de novo, num sussurro projetado ao fundo das escadas.

– Tenta não acordar o teu pai. Acho que ele está muito cansado.

– Vou já para baixo.

Quando desceu, parou à entrada da cozinha e dirigiu-se a ela como «Mãe», não «Rose». A palavra na boca dele era tão estranha, tão formal, que ela se virou do fogão, onde estava a ferver água para o chá.

– Sim, Peter?

Aparentemente, ele acabara de pentear o cabelo loiro, pois ainda trazia na mão direita o pente de bolso preto que tinha sempre consigo, e antes que ela dissesse mais qualquer coisa passou o polegar sobre os dentes do pente, uma e outra vez. Ela achou o som arrepiante.

– Peter, por favor.

Ele olhou para além dela, para a parede em frente. Ela virou-se para seguir o olhar do filho.

– O que vês ali?

Peter estava a pensar nas palavras que devia usar para lhe dizer que encontrara o pai lá em cima, e que acabara de cortar a corda com a qual ele se enforcara, uma daquelas cordas que tinham enroladas junto à janela para as pessoas poderem fugir em caso de incêndio.