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As (in)certezas da medicina
O enquadramento institucional das questões suscitadas pelo Grande Mal afetou diretamente a comunidade médica nacional que, ao mesmo tempo em que buscava expandir o leque de privilégios que lhe era concedido por Vargas, também compunha forças para garantir relativa autonomia em relação às contínuas intervenções dos setores oficiais.
A década de 30, neste sentido, contextualizou o nascimento e a consolidação de várias entidades representativas dos profissionais da saúde, destacando-se a carioca Federação Brasileira de Tuberculose e, em São Paulo, o início de funcionamento da Associação Paulista de Medicina e da Associação Paulista de Homeopatia, além de outras congregações de clínicos que, atuando em nível regional, expressavam as diversas especialidades hipocráticas.
Os tisiologistas que praticavam no terreno bandeirante mantiveram-se avessos à organização de um órgão representativo próprio, cedendo à proposta agremiativa somente em novembro de 1949, quando foi criada a Sociedade Paulista de Tisiologia. O prestígio acumulado por esses especialistas, entretanto, ensejou que desde o início da década de 30 fosse reconhecida a existência de uma comunidade que foi usualmente definida como ‘escola paulista de tisiologia’, considerada por vários pesquisadores como a mais eficiente equipe de clínicos e cirurgiões voltada para as tarefas de prevenção e de tratamento da tuberculose, em todo o país.
Apesar de a maioria das unidades sanatoriais do estado localizarem-se nos municípios de Campos do Jordão e São José dos Campos, era na cidade de São Paulo que se situavam os dois principais núcleos paulistas de ensino, pesquisa e tratamento cirúrgico dos consuntivos, sendo o Instituto Clemente Ferreira e o Hospital-Sanatório São Luiz Gonzaga os postos fomentadores das mais importantes ações estaduais contra a Peste Branca.
Se as atividades do Instituto fundado pelo Dr. Ferreira encontravam-se em franca decadência desde o instante em que a entidade fora estatizada, o mesmo não se pode falar do Hospital-Sanatório São Luiz Gonzaga que, desempenhando as funções de sanatório de isolamento e de nosocômio especializado no tratamento dos pectários, concretizou-se como instituto pioneiro no contexto médico nacional. Inaugurado nos primeiros dias da chamada ‘Revolução de 32’ e mantido pela Irmandade de Misericórdia da Santa Casa de São Paulo, o Hospital do Jaçanã – como ficou também conhecida esta casa de saúde – localizava-se no limite norte do município, ocupando as antigas instalações do Leprosário do Guapira.
A condição de este sanatório estar filiado administrativamente à Santa Casa e também atuar como campo de ensino permitiu que o hospital especializado contasse com um quadro clínico altamente qualificado, atraindo médicos de todo o país, unidos pelo interesse de treinamento na área tisiológica. Como um dos principais centros de referência nacional para o tratamento da Peste Branca, o Sanatório do Jaçanã formou uma elite de especialistas que iria ocupar posições dirigentes não só nas casas de saúde voltadas para o atendimento dos fimatosos, mas também nos novos postos de tratamento dos pectários que foram instalados em São Paulo, inclusive no Hospital-Sanatório do Mandaquí e no setor de doenças pulmonares da Escola Paulista de Medicina.
Nesse contexto, foi-se firmando o espírito corporativo que colocou em contato os tisiologistas do estado de São Paulo e de todo o Brasil. A consolidação do ensino médico sobre a tuberculose em São Paulo e no Rio de Janeiro permitiu que se tornasse regra a cobrança do diploma de especialista a todo clínico que se propusesse a assistir doentes do peito. Caso tal documento não fosse apresentado, o facultativo ‘infrator’ era denunciado como intruso que, no mais das vezes, relegava a segundo plano o compromisso de assistência aos infectados pelo bacilo de Koch, em favor dos ganhos pecuniários resultantes do atendimento aos pacientes consuntivos.
A determinação exclusivista passou a alimentar os discursos da corporação dos tisiólogos. As acusações movidas contra os clínicos gerais, especialmente os atuantes nos ambientes interioranos, tornaram-se corriqueiras, havendo denúncias que tais esculápios omitiam o estado contaminado de seus pacientes endinheirados para assim lucrarem com o alongamento da série de consultas realizadas pelo enfermo.
Na seqüência, os especialistas foram a público por meio de artigos estampados na Revista Paulista de Tisiologia e na Revista Brasileira de Tuberculose para alertar a sociedade sobre a precariedade dos conhecimentos de seus colegas não iniciados nos segredos da tísica, apresentando-os como tão despreparados para o diagnóstico e tratamento da doença pulmonar que muitos deles nem mesmo sabiam distinguir um aparelho de Raio X de outros instrumentos utilizados pela medicina.
Harmonia e conflito: a construção da especialidade médica
A consolidação do prestígio das novas equipes tisiológicas que foram montadas em São Paulo e no Rio de Janeiro refletiu na avaliação do desempenho do professor Clemente Ferreira e de outros médicos que comandaram a luta contra a Peste Branca nas três décadas anteriores a 1930.
Reverenciado como um dos principais mentores da medicina pulmonar brasileira, o diretor da Liga Paulista Contra a Tuberculose passou a ser tachado – não sem uma certa dose de ironia – como um ‘médico antigo’ e defasado, uma espécie de filantropo que distribuía remédios, roupas e dinheiro aos seus pacientes, mas que se distanciara das modernas técnicas de combate à moléstia consuntiva.
Em resposta às críticas das quais vinha sendo alvo e também à marginalização oficial de sua pessoa, Clemente Ferreira buscou exponenciar a importância de seu trabalho por meio da composição de minuciosos relatórios anuais sobre os trabalhos desenvolvidos pela Liga que dirigia e também mediante a fundação da Revista Paulista de Tisiologia, publicação bimestral que começou a circular no mês de janeiro de 1935. Para sustentar o empreendimento editorial, o Dr. Ferreira contou com o auxílio de seus mais diletos discípulos, encontrando recursos econômicos para a impressão e distribuição do periódico na abertura da coleção para anúncios de laboratórios e casas de saúde que vendiam produtos e serviços ligados ao Grande Mal.1
Criado com o intuito de divulgar as pesquisas realizadas no estado de São Paulo, o periódico ferreiriano tinha como objetivo secundário servir como veículo da desaprovação dos facultativos paulistas sobre a política de saúde centralizadora de Getúlio Vargas, que os havia excluído do centro decisório da administração sanitária nacional e, em alguns níveis, do comando da Saúde Pública estadual.
Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, Clemente Ferreira havia adotado a terra paulista, fazendo estampar a bandeira estadual na capa de vários números da sua Revista. Sob este direcionamento, a publicação especializada buscou dar destaque aos tisiologistas de São Paulo como autores das principais tentativas formuladoras do pensamento tisiológico nacional e, por contraste, os higienistas radicados no Distrito Federal como os responsáveis pelas estéreis reorganizações sanitárias que se sucederam no decorrer dos anos 30.
Nesta rota, a Revista Paulista de Tisiologia ocupou a posição de porta-voz privilegiada dos interesses e dos dilemas que pontuavam as ações dos profissionais dedicados à luta contra a Peste Branca, anunciando as tendências de congraçamento e os confrontos que davam vida aos debates corporativos.
As tentativas congregadoras
Desde os primeiros números da Revista, encontram-se artigos assinados pelo grupo ferreiriano, cujo teor básico constitui-se nos reclamos contra a inoperância governamental em relação à Peste Branca e também nas denúncias sobre o isolamento do alto escalão da administração sanitária estadual em relação à maioria dos médicos que atuavam no setor.
Tornou-se corriqueira a publicação especializada divulgar textos como os subscritos por médicos que, embora ocupassem postos no Serviço Sanitário paulista, faziam do periódico um canal de comunicação com os seus superiores da administração pública, oferecendo sugestões e reparos às ações que o Estado vinha realizando – ou deixando de realizar – na assistência aos tuberculosos. E isso tudo como se os articulistas fossem pessoas estranhas ao setor higienista oficial.
Paralelamente à publicação das declarações críticas assinadas pelos facultativos, a tentativa mais significativa da Revista para congregar os tisiologistas de São Paulo constituiu-se na realização, no decorrer do primeiro semestre de 1935, de um amplo inquérito que deveria servir de base para a elaboração de uma proposta paulista a um possível plano federal contra a tuberculose.
Questionário destinado a ser respondido por todos os especialistas na Peste Branca que atuavam no estado, de tudo perguntava-se aos clínicos, desde a origem dos recursos que subsidiariam o plano, até a localização geográfica ideal dos sanatórios a serem construídos, o critério de triagem dos fimatosos encaminhados para internamento, os hospitais que deveriam se encarregar das tarefas tisiocirúrgicas e os canais de treinamento especializado dos profissionais da saúde.
O primeiro médico a responder ao questionário foi Raphael de Paula Souza, que entre outras funções ocupava o cargo docente no Instituto de Higiene da Universidade de São Paulo. Segundo este clínico, todas as campanhas contra a enfermidade de Koch deveriam ser patrocinadas pelos cofres públicos, mas o gerenciamento das ações sanitárias ficaria obrigatoriamente a cargo de médicos não comprometidos com os grupos que se engalfinhavam na arena política. Mais ainda: o Dr. Paula Souza declarou que, no contexto regional, inexistia uma entidade formalmente direcionada para aprimorar o conhecimento sobre os mecanismos da fimatose, situação que delegava aos sanatórios a tarefa de formação e atualização do agrupamento tisiológico.
Na seqüência, inúmeros facultativos atenderam ao inquérito, e algumas das respostas foram reproduzidas nas páginas do periódico dirigido por Clemente Ferreira. O empenho da Revista em expor o descontentamento dos médicos em relação ao Estado varguista frutificou, mas também permitiu que clareassem os antagonismos doutrinários e os interesses institucionais divergentes que impregnavam os debates sobre a Peste Branca.
Assim, tem-se como exemplo as sucessivas discussões em torno da prática de cirurgias torácicas. Para alguns médicos, não só os sanatórios instalados nas estações de cura de Campos do Jordão e de São José dos Campos – áreas que foram definidas administrativamente como ‘prefeituras sanitárias’ –, como também os Postos de Higiene espalhados pelo estado estavam plenamente capacitados para proceder às intervenções cirúrgicas mais simples.
Lançado o argumento, vários integrantes da equipe médica que atuava no Hospital São Luiz Gonzaga postaram-se energicamente contra a proposta, alegando que a precariedade das enfermarias sanatoriais e o despreparo dos profissionais alocados na maior parte dos Postos de Saúde desaconselhavam que as operações fossem realizadas em outro ambiente que não o próprio Sanatório do Jaçanã.
A tentativa de articulação de um projeto paulista único e de autoria dos especialistas na Peste Branca mostrava-se cada vez mais difícil. Para além dos interesses institucionais, outros clínicos aproveitaram a oportunidade aberta pelo inquérito para expor idéias que, pelo momento político, certamente suscitavam constrangimento e receio entre o agrupamento médico de São Paulo.
Nesta direção, o Dr. Ivan de Souza Lopes, clínico de Campos do Jordão, respondeu ao questionário de maneira incisiva e única, criticando tanto os políticos que interferiam no planejamento sanitário quanto os docentes da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo que, segundo este tisiologista, ofereciam um ensino de péssima qualidade aos seus alunos. O que mais importunou os leitores da Revista, porém, foi a manifestação desqualificadora do saber médico como o principal instrumento para conter a disseminação do Grande Mal. Lembrando as críticas anarquistas elaboradas nas décadas anteriores, foi com estas palavras de alerta que o Dr. Souza Lopes definiu as condicionantes básicas do alastramento da tísica no corpo coletivo:
O problema da tuberculose é, antes de ser um problema médico, um problema social. Querer resolve-lo por meio de instituições ou de organizações é procurar desconhecer voluntariamente a verdadeira realidade. Essas instituições só poderão fazer ‘prophylaxia directa’, quando a questão é essencialmente de ‘profilaxia indirecta’, isto é, de combate à miseria, à falta de conforto, à subalimentação, ao trabalho excessivo. Não se póde, na lucta contra a tuberculose, esquecer, logo, o aspecto fundamental da questão, numa cumplicidade flagrante com as causas principaes do flagello. A unica lucta consequente seria, sem duvida alguma a lucta pela elevação do nivel economico e cultural das populações brasileiras. (1935:299)
Entre a velha “prophylaxia directa” e a nova “profilaxia indirecta” existia um abismo desafiador dos cômodos esquemas explicadores da problemática sanitária nacional. Os temores de uma medicina sempre cautelosa em assumir a ‘causação’ social e coletiva das enfermidades somavam-se aos dispositivos repressores que vigiam no período getulista, impondo que nenhuma resposta fosse endereçada ao libelo assinado pelo Dr. Souza Lopes. Perpetuava-se, assim, a definição epidemiológica da Peste Branca como ‘moléstia social’pelo fato desta patologia estar disseminada amplamente na trama coletiva, nada mais do que isso.
Sintomaticamente, desde a veiculação das idéias do clínico de Campos do Jordão, a série dirigida por Clemente Ferreira não mais se reportou ao inquérito, como se jamais ele tivesse existido. Como muitas outras tentativas corporativas dos anos 30, a proposta de elaboração de um projeto sanitário paralelo ao assumido pelo Estado esvaiu-se em um silêncio intimidado, legando aos médicos escritores como Amando Fontes e Ranulpho Prata a tarefa de apresentar a tísica, por meio da ficção, como mortal resultado das desigualdades sociais que marcavam a sociedade brasileira.
O compromisso grupal que regia os primeiros momentos da publicação especializada teve seus rumos corrigidos quando a Revista Paulista de Tisiologia convenceu-se de que o Estado getulista não se afinava com os pronunciamentos de crítica à postura governamental. Mesmo que se mantivesse acesa a explicação que situava a fimatose como flagelo que ‘aniquilava a raça’, ‘devastava a população’ e, em continuidade, ‘desfalcava o capital humano e empobrecia o país’, as declarações médicas fugiram das especulações que apontavam a moléstia pulmonar como produto dos desregulamentos da sociedade, fazendo predominar os estudos centrados na organização das campanhas contra a tuberculose, nas técnicas terapêuticas e nos assuntos corporativos.
Em decorrência, um dos novos temas utilizados na tentativa de mobilização da categoria tinha base nos ecos provenientes do estrangeiro. Da França chegavam notícias que asseveravam a desnecessidade do asilamento sanatorial no tratamento dos pacientes consuntivos.
Contra tal proposta insurgiram-se os clínicos que atuavam nos sanatórios paulistas, especialmente o Dr. Manuel Corvello Junior que, na condição de tisiologista assistente de duas casas de saúde de renome, considerou a idéia absurda. Espelhando o posicionamento que não era aceito por todos os seus pares, este clínico desqualificou a possível eficiência do tratamento domiciliar dos infectados, alegando que os detratores do regime de isolamento hospitalar eram pessoas “má intencionadas” (Corvello Junior, 1936:96) que, indo contra os ensinamentos dos “grandes mestres”, ocultavam interesses escusos que o médico não soube esclarecer quais eram.
As dificuldades encontradas para consolidar os vínculos comunais exigiam que, periodicamente, fossem lembrados os riscos de infecção inerentes à prática tisiológica. É digno de nota o empenho do Dr. Xavier do Prado para sensibilizar os ‘bons corações’ em prol da construção de um sanatório exclusivo para o tratamento dos facultativos contaminados. A urgência de socorro aos ‘companheiros consuntivos’ foi explicada por meio de palavras tão francas quanto dolorosas: “seja elle medico ou não, o tuberculoso é sempre despresado, para muitos até um indesejavel” (Prado, 1936:154).
Até mesmo a campanha liderada pelo Dr. Xavier acabou submergindo no desencontro de idéias entre os membros da corporação. Instalado o debate, a comunidade clínica dividiu-se sobre o local apropriado para a instalação da casa de saúde dos facultativos, uns apoiando a construção do sanatório nas montanhas jordanenses, enquanto outros preferiam a periferia paulistana. Como em outros momentos, o conflito resultou em seguidos desentendimentos que acabaram tornando impraticável a proposta assistencial.
Neste emaranhado de confrontos, foram raras as questões que garantiram uma certa harmonia entre os tisiólogos. A primeira delas constituiu-se no interesse grupal para exponenciar a lucratividade da profissão de médico dos tuberculosos. Em um país onde havia escassez de leitos mesmo para os infectados que contavam com recursos econômicos, tornou-se freqüente os movimentos que visavam à organização de empresas que, compostas exclusivamente por facultativos, tinham como objetivo a construção e o funcionamento de sanatórios particulares.
No ano de 1941, por exemplo, ganhou destaque na imprensa médica a movimentação em torno da venda dos últimos lotes de ações do Hospital Santo Antônio S.A., um sofisticado nosocômio para tísicos que estava sendo construído na zona norte do município de São Paulo, em terreno próximo ao do Sanatório do Mandaquí. Anunciado nas páginas da Revista da especialidade como um “excepcional negócio”, os compradores das ações teriam obrigatoriamente de apresentar o diploma de graduação em medicina, exigência que alinhou como sócios mais de uma centena de clínicos, encabeçados por quatro professores titulares da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo: Celestino Bourroul, Eduardo Monteiro, Rubião Meira e Raphael Penteado de Barros. No final do documento, os dirigentes do negócio anunciaram aos seus pares acadêmicos a alta lucratividade da empresa exploradora da tuberculose: “Por ser um negócio rigorosamente de médicos, deve merecer o seu apoio. Apresenta-se como ótima oportunidade para nele o Snr. inverter, muito vantajosamente, algumas economias, cuja multiplicação ser insofismável”.
Outro assunto que favorece uma comunhão entre os médicos adestrados na doença pulmonar configurou-se na apologia grupal do processo de roentgenfotografia, aperfeiçoado no ano de 1936 pelo clínico carioca Manoel de Abreu e que foi imediatamente rebatizado pelos especialistas com o nome de ‘abreugrafia’. Consistindo em recurso mais rápido, econômico e eficiente para, por meio do Raio X, revelar as lesões tuberculosas ainda nos estágios iniciais, a “fotografia do écran fluorescente” foi assumida como contribuição genuinamente nacional para o controle da Peste Branca, sendo objeto de louvor por toda a medicina brasileira.
Quebrando a regra desmerecedora do que era produzido pelos tisiologistas cariocas, os médicos de São Paulo mostraram-se sensíveis à campanha liderada pelo próprio Manoel de Abreu, que propunha a realização de um recenseamento torácico em escala nacional. Em nome da proteção da saúde coletiva, o cientista requereu ao presidente Vargas a aprovação de leis que obrigassem toda a população a se deixar examinar dos pulmões, compromisso que permitiria a organização de um cadastro social onde o Estado saberia quem e quantos eram os consuntivos residentes no país.
Amparado no sucesso de seu invento, coube também ao professor Abreu a criação de um novo personagem disseminador do bacilo de Koch: o ‘aparentemente sadio’. A partir de então, não eram só os tipos abatidos, descarnados e ‘promíscuos’ que chamavam a atenção dos sanitaristas, mas também os indivíduos gordos e que apresentavam boa disposição física. Tanto uns quanto outros poderiam ocultar em seus corpos o micróbio causador da corrupção pulmonar, sendo por isso conveniente a averiguação do estado pulmonar de todos os cidadãos (Abreu, 1938:1943).
Imediatamente após a divulgação da proposta do inventor da abreugrafia, os médicos paulistas somaram-se nos pedidos ao governo estadual para que os cofres públicos financiassem a aquisição de várias unidades do ‘aparelho revolucionário’. Segundo um dos requerentes, o novo engenho permitiria o diagnóstico precoce da infecção, protegendo a sociedade de seus perigosos membros contaminados:
O exame sistematico pulmonar das coletividades foi ensaiado primeiro nos exércitos e nas armadas de diferentes paízes europeus e americanos. Os resultados foram os mais interessantes, e grandes as supresas! Individuos de ótimo físico, aviadores, esportistas (...) apresentavam graves lesões tuberculosas pulmonares à radiografia. (Franco, 1937:77)
Apesar da veemência dos pedidos, foi apenas em meados de 1938 que o Departamento de Saúde paulista recebeu o aparelho de abreugrafia que, inexplicavelmente, foi utilizado em raras ocasiões por aquele órgão oficial. Isso porque logo que foi incorporado ao acervo estadual, a ‘máquina de Abreu’ foi emprestada à Universidade de São Paulo para a realização do exame pulmonar dos alunos ingressantes naquela instituição de ensino. Na seqüência, o governo cedeu o aparelho para o Instituto dos Bancários que, até o final da década de 40, foi a única entidade previdenciária a realizar o recenseamento torácico de todos os seus associados.
O restrito uso do dispositivo desenvolvido pelo Dr. Abreu, entretanto, não inibiu os líderes da tisiologia de São Paulo a se convencerem da necessidade da contínua vigilância dos ‘pretensos sadios’. Na ausência do recurso desenvolvido pelo clínico carioca, os higienistas se convergiram para a realização de pesquisas na comunidade por meio do emprego da tuberculina como estratégia identificadora dos grupos que apresentavam a ‘tuberculose-infecção’ e – quem sabe? – a moléstia propriamente dita.
Como resultado, se o período anterior à incorporação da figura do ‘tísico inaparente’ como tema epidemiológico testemunhou apenas três avaliações coletivas, a partir de 1936 e até 1945 foram realizados pelo menos vinte recenseamentos deste tipo. A comunidade estudantil foi o estrato mais visado da população estadual, instruindo onze inquéritos com base no exame dos alunos matriculados nas escolas de educação elementar e também duas pesquisas centradas nos estudantes dos primeiros anos dos cursos oferecidos pela Universidade de São Paulo.
Os conflitos doutrinários
O fato de o Brasil apresentar-se como um país de acanhada tradição no desenvolvimento científico impôs que os Hipócrates nacionais, com exceção de Manoel de Abreu, pouco contribuíssem com novidades para o esclarecimento da moléstia pulmonar, fazendo moeda corrente as monótonas repetições das idéias esboçadas no estrangeiro. Neste contexto, as disputas acadêmicas forçavam a contínua publicação de textos que, de regra, reproduziam as análises da tisiologia européia, chegando ao ponto de alguns esculápios nativos não se furtarem de enveredar pelos sombrios becos do plágio.
A precariedade geral de recursos e mesmo de conhecimentos aprofundados sobre o Grande Mal induziram os facultativos a advogarem uma série de procedimentos que, por serem demasiadamente desatualizados ou simplistas, selavam a imagem de uma medicina periférica e sempre defasada em relação às concepções em voga na Europa.
Assim, no período em que os especialistas do Velho Mundo já preconizavam a recorrência ao exame de escarro e mesmo ao Raio X para diagnosticar a infecção tísica, o professor Antonio Austragesilo (1908) – docente da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro – ensinava que a melhor estratégia para o reconhecimento da fimatose consistia na percussão do tórax do paciente com “um lapis commum ou um estylete qualquer”, “antes de qualquer observação”. Caso o enfermo acusasse dor na região perscrutada, lá certamente se encontraria a sede da infecção de Koch.
Com o decorrer dos anos, a tendência imitadora dos modelos clínico-cirúrgicos esboçados sobretudo na França consolidou-se como padrão orientador dos médicos brasileiros. No início dos anos 30, a cristalização dos debates nacionais em torno dos enunciados da tisiologia francesa chegou a tal ponto que muitos profissionais da saúde se negavam a discutir as experiências realizadas em outros centros científicos da Europa e dos Estados Unidos.
No ano de 1932, quando o Dr. Tisi Netto foi indagado por um jornalista sobre a eficácia de um remédio contra a tuberculose desenvolvido na Alemanha, o clínico paulista manifestou-se incapaz de avaliar a descoberta. Na continuidade, o médico declarou a vários órgãos da imprensa desconhecer as pesquisas germânicas, acrescentando que “aqui no Brasil, a litteratura scientifica que acompanhamos, com segurança e repetidas informações, é a litteratura francesa”.
A francofilia assumida pela medicina brasileira, quando ameaçada, tornou-se causa de discórdia no interior da comunidade tisiológica paulista. O médico Eduardo Etzel (1987), um antigo cirurgião do Hospital do Jaçanã, informou que o motivo que fez a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia inaugurar o Sanatório São Luiz Gonzaga deveu-se ao surgimento de uma desavença doutrinária entre seus principais colaboradores.
A maior parte dos clínicos que prestava serviços no Hospital Central da Santa Casa era filiada à escola francesa, aceitando com reticências a companhia do médico Alvaro Lemos Torres, que havia realizado cursos de especialização nos Estados Unidos. A situação tornou-se ainda mais crítica a partir do momento em que o professor Lemos Torres passou a instigar seus alunos da Faculdade de Medicina a se guiarem pelos manuais norte-americanos, o que resultou na exclusão do médico e de seu grupo de discípulos do Hospital Central. Foi-lhe então entregue o antigo Leprosário do Guapira para lá instalar um sanatório para tuberculosos. Assim, segundo o Dr. Etzel, nasceu uma das mais renomadas casas de saúde do Brasil.
No desenrolar do confronto, a facção mais significativa dos tisiologistas bandeirantes manteve-se leal à tradição francesa e parcialmente à italiana, fechando os olhos para as novidades produzidas nos outros países. Importantes recursos desenvolvidos pela Saúde Pública tardaram a ser incorporados à prática dos especialistas nacionais, comprometendo a eficácia de atuação de uma área do conhecimento por si própria ferida por perigosas lacunas.
Neste contexto, dentre os recursos desprezados pelos higienistas locais encontrava-se a bioestatística, técnica que havia ganho sofisticação na Inglaterra e nos Estados Unidos e que, no Brasil, durante muito tempo, resumiu-se à distribuição do número de casos de enfermidade segundo as variáveis do espaço e do tempo.
Mesmo o Instituto de Higiene paulista, filiado desde seu nascimento à medicina norte-americana por meio da Fundação Rockefeller, manteve-se afastado das análises quantitativas, apesar de ter sido o Dr. Paula Souza – um dos luminares desse centro de pesquisa – o orientador da tese de doutorado de Walter Leser, a qual marcava pioneirismo ao emprestar recursos da matemática para analisar os eventos epidemiológicos. Na introdução desse trabalho acadêmico, o Dr. Leser (1933) explicou o objetivo de seu estudo: “apresentar as principais aplicações dos métodos estatísticos à medicina e à higiene”, já que reinava uma grande indiferença no meio científico em relação a esta questão.
No tocante às atividades clínicas, o apego francófilo também se fez sentir negativamente. O interesse pelo tratamento da doença consuntiva parecia não incentivar o enriquecimento do saber sobre as demais enfermidades que afetavam o funcionamento pulmonar, resultando em freqüentes diagnósticos equivocados.
A constatação da existência de pacientes não consultivos que tinham sido isolados em ambientes sanatoriais fez com que, em 1941, a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo incumbisse os Drs. Floriano de Almeida e Carlos da Silva Lacaz (1942) da tarefa de analisar o fenômeno. No final do processo, os clínicos chegaram a uma conclusão constrangedora, pois ‘desmeritória’ para a propalada “escola paulista de tisiologia”: de regra, os especialistas em tuberculose desconheciam a maior parte das micoses que comprometem o trato respiratório, situação que os fazia declarar consuntivos pacientes que padeciam de outras patologias.
Apesar da fragilidade da tisiologia brasileira, o agrupamento dos especialistas foi marcado pela constância de debates entre as vertentes doutrinárias que também agitavam a Higiene Pública e a ‘medicina colonial’ francesa. O que se constituiu certamente no principal foco nacional de celeuma referia-se à validade do clima como elemento terapêutico eficiente para os infectados. Desde que Brehmer e Dettwiller estabeleceram os primeiros sanatórios nas montanhas européias, a questão climatoterápica consolidou-se como tema polêmico, aflorando em momentos específicos, como motivo de disputas.
No Brasil, desde a última década do século passado o problema foi assunto de discussões, resultando porém em debates de escassas conseqüências. A dúvida sobre o valor do ‘tratamento pelos ares’ foi retomada somente na abertura dos anos 30, quando da inauguração do Hospital do Jaçanã que, fugindo à regra até então seguida, estava situado nos subúrbios da capital paulista. Apesar de o nosocômio se localizar nas ‘franjas’ da Serra da Cantareira – domínio que guardava alguma semelhança com o de Campos do Jordão – inúmeras foram as vozes que se levantaram para denunciar como desarrazoada a decisão de instalar um sanatório numa região relativamente afastada das estações de cura situadas no território bandeirante.
A situação ganhou ainda maior intensidade quando o assunto foi incorporado às discussões veiculadas nas páginas da Revista Paulista de Tisiologia. O questionamento sobre o melhor local para a instalação de sanatórios recebeu divergentes respostas, estimulando a Associação Paulista de Medicina a promover um ciclo de debates sobre a validade dos princípios climatoterápicos. Um dos resultados deste movimento foi a publicação de um livro que enfeixava os textos elaborados para o debate, obra que exacerbou ainda mais a polêmica entre os especialistas, inclusive porque foi patrocinado por cerca de quinze laboratórios que comercializavam drogas contra a tuberculose (Souza, 1936).
Na série de conferências, realizadas a partir de maio de 1935, percebe-se que as discussões sobre o valor terapêutico do clima estavam contaminadas pelos interesses econômicos dos grupos que vinham enriquecendo com a exploração das instituições de saúde instaladas nas prefeituras sanitárias. A partir disto, mais que a defesa dos ares como recurso terapêutico das cavernas pulmonares, vários tisiologistas empenharam-se em defender a continuidade de seus negócios centrados na Peste Branca.
Assim, a tendência geral dos clínicos e dos higienistas que atuavam nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro era reconhecer que o ambiente montanhoso atuava no refortalecimento dos ‘organismos debilitados’ sem, contudo, garantir a recuperação da saúde das vítimas do bacilo de Koch. Alguns palestrantes, como os Drs. Paula Souza e Aloysio de Paula, asseveravam que a fé no potencial terapêutico do clima havia perdido confiança entre os facultativos, resistindo apenas como ‘crendice popular’. Para estes tisiologistas, a única medida eficiente contra a tuberculose consistia na combinação do isolamento sanatorial e intervenção cirúrgica, independente do padrão morfoclimático da região onde os hospitais estivessem localizados.
Para tornar ainda mais tensos os debates, Clemente Ferreira – que anteriormente havia se distinguido como intransigente defensor da climatoterapia – aproveitou o ciclo de conferências para declarar que o propósito de instalação de sanatórios nas montanhas era guiado por critérios de ordem econômica e política, acrescentando que somente os tísicos endinheirados reuniam recursos suficientes para prolongar a permanência na Serra da Mantiqueira. Mais ainda, o Dr. Ferreira colocou em dúvida as propriedades curativas do clima, informando que a medicina não dispunha até aquele momento de elementos confiáveis para comprovar a eficiência do tratamento realizado nos ‘terrenos de altitude’.
Em oposição, insurgiram-se os médicos que atuavam nas tisiópolis de São José dos Campos e de Campos do Jordão. O Dr. Ruy Dória, que sempre se apresentara avesso aos debates clínicos, saiu das sombras de diretor-proprietário de uma casa de saúde na estação joseense para comandar os brados contestadores contra a dilapidação do ideário climatoterápico, não hesitando pela vez única em sua vida de se confrontar com os mais renomados tisiologistas do país.
Exibindo-se como representante dos sanatórios e dos facultativos que clinicavam nas estâncias de cura, o Dr. Dória discorreu sobre o mérito terapêutico do clima do Vale do Paraíba e da Serra da Mantiqueira para a maior parte dos fimatosos, avaliando negativamente a localização dos nosocômios nas periferias metropolitanas. Referindo-se implicitamente ao Hospital do Jaçanã, o médico de São José dos Campos observou:
Assim, é uma collina qualquer nos arredores de cidade grande que passa a substituir quasi grotescamente o clima de altitude, ou é um arrabalde um pouco menos populoso que figura como succedaneo do clima de planicie (...) julgamos que reconhecida a influencia dos factores climaticos, se encontrar em melhor condições de tratamento em Campos do Jordão do que na Cantareira, um doente cujo caso se enquadra nas indicações de cura de altitude.(1936:62)
Não de todo satisfeito com a justificativa que ele próprio declinara, Ruy Dória anexou aos seus argumentos uma extensa e variada lista de casos clínicos em que o pleno restabelecimento da saúde deu-se rapidamente, às vezes sem qualquer tipo de apoio medicamentoso que não fosse o repouso absoluto e o clima que bafejava as prefeituras sanitárias do estado de São Paulo.
O médico igualmente serviu-se da participação nos debates para expor um arsenal de motivos paralelos para advogar a instalação de sanatórios exclusivamente nas duas estações de cura que representava: o fator psicológico do isolamento dos infectados em áreas distantes, fazendo com que os pacientes se preocupassem menos com suas famílias; a vigilância contínua e a reeducação dos consuntivos, só conseguidas em casas de saúde afastadas do burburinho e da agitação metropolitana e, principalmente, a retirada dos tísicos dos centros urbanos, operação que inibiria a disseminação do bacilo da peste.
Em conclusão, o médico do Vale do Paraíba sugeria que a terapêutica climática era o principal e mais seguro recurso para o tratamento dos tuberculosos, criticando por sua vez as tentativas cirúrgicas e quimioterápicas de cura dos infectados, as quais o Dr. Dória diagnosticou como de ‘valia reduzida’, quando ministradas em territórios com condições climáticas ‘impróprias’ para os consuntivos.
Outra questão que deu redobrado vigor aos debates tisiológicos referiu-se à vulnerabilidade das raças humanas frente à contaminação kochiana, assim como a capacidade dos brancos, negros e amarelos desenvolverem a enfermidade e se recuperarem ou falecerem em conseqüência da tísica. A especificidade racial, enfatizada pelo movimento eugenista, tornou-se um dos principais eixos discursivos sobre a ‘nacionalidade’ brasileira, cabendo à medicina conferir legalidade científica a uma possível biologia diferenciadora dos grandes grupos humanos frente aos fenômenos patológicos.
Conferindo encaminhamento próprio aos debates realizados no exterior – que se mostravam cada vez mais reticentes em aceitar a tese sobre a condicionante racial como elemento significativo no processo tuberculoso – tornou-se comum no contexto nacional considerar que os negros e os mulatos compunham o agrupamento humano mais propenso ao desenvolvimento das moléstias em geral e da tuberculose em particular.
As primeiras reações clínicas a esta perspectiva ocorreram em 1934, durante a realização do Primeiro Congresso Afro-Brasileiro, quando o clínico Alvaro de Faria abordou o tópico, anunciando não haver comprovação científica alguma da propalada ‘fragilidade racial’ dos negros em relação à fimatose pulmonar. O médico informou que a maior incidência da tísica entre os ‘homens de cor’ devia-se à recente incorporação dos negros à ‘civilização’ e ao cotidiano do ambiente citadino, fenômenos que estimulavam o estreito contato entre os indivíduos sadios e os infectados, situação que favorecia o contágio (Faria, 1935).
O mesmo expositor acrescentou ainda que o ‘déficit nutritivo’ que caracterizava a população pobre e de origem africana era um fator co-responsável pela disseminação da enfermidade entre os negros e mestiços brasileiros. Qualquer outra possibilidade explicativa para o fenômeno da infecção tísica foi rejeitada pelo facultativo, pois, segundo ele, obrigatoriamente convergia para o preconceito e para a desqualificação social da comunidade com raízes fincadas na África.
Apesar da ausência de observações detalhadas sobre a presença da tísica entre os brasileiros negros e mulatos, o tema se manteve controverso, sendo que no final dos anos 30, vários especialistas voltaram a discuti-lo, durante a realização do Primeiro Congresso Nacional de Tuberculose. A presença de Alvaro de Faria na direção dos debates não foi suficiente para garantir a harmonia do encontro, pois, enquanto este especialista continuava advogando a tese com base no conceito de virgin soil, alguns outros estudiosos localizavam as diferenças da biologia racial como fator explicativo da alta incidência do Grande Mal entre a população afro-brasileira. Afastados dos debates públicos nos primeiros anos da década, os intelectuais que advogavam a condição de inferioridade da raça negra em relação aos brancos ganharam novo incentivo e voz com a ascensão do nazismo na Europa, interferindo nos debates tisiológicos.
Seguindo esta linha de entendimento, o médico paraense Henrique Esteves opôs-se às idéias esposadas pelo Dr. Faria, asseverando que a comunidade de origem africana era biologicamente mais susceptível à infecção que a branca, assim como os negros e os mulatos respondiam negativamente às variadas estratégias terapêuticas, chegando a óbito em um tempo muito menor que os contaminados de outras raças. Após a análise de dezenas de consuntivos negros, Esteves (1939) explicou a incidência da Peste Branca entre os indivíduos de sangue africano como um fenômeno exclusivo e de origem “possivelmente bioquimica ainda desconhecida”, fato que permitia o “bom desenvolvimento do bacilo”.
A intensidade das opiniões que alimentavam os debates exigiu que os médicos paulistas saíssem do isolamento e incorporassem a variável racial em suas averiguações sobre a Peste Branca. Os clínicos Souza Soares e Lincoln Faria (1939) inauguraram a série de estudos locais, tomando para análise não a comunidade negra, mas sim um grupo de cerca de 500 japoneses e seus descendentes que, radicados no estado de São Paulo, foram diagnosticados fimatosos.
A principal conclusão emitida pelos dois tisiologistas surpreendeu a todos, abrindo novo campo de discórdia entre os especialistas: a ‘raça amarela’ era tão vulnerável à infecção pulmonar quanto a negra, esclarecendo ainda que as condições de vida que marcaram o processo migratório em nada tinham influenciado as taxas de morbi-mortalidade dos grupos de japoneses que haviam se transferido para o Brasil.
Alguns anos depois, João Grieco (1942), clínico do hospital São Luiz Gonzaga, acrescentou novos elementos à questão ao considerar a pesquisa realizada pelos Drs. Soares e Faria como trabalho de pouca credibilidade acadêmica, colocando em dúvida não só a precisão dos dados quantitativos analisados, como também o pensamento explicador da saúde coletiva que renega as condicionantes culturais e socioeconômicas.
Nesta cirurgia, o Dr. Grieco buscou corrigir as conclusões esboçadas anteriormente pelos seus pares, anunciando que o perfil tisiológico dos homens de pele amarela aproximava-se ao dos negros e que isso não ocorria devido a qualquer determinismo biológico, mas sim porque, no contexto nacional, os representantes de ambas as raças tendiam a ocupar as tarefas mais árduas e de menor remuneração e, por extensão, desconheciam as regras elementares de higiene e de prevenção do contágio kochiano.
Delineava-se assim a linha mestra dos ensaios médico-sociais que, combinando doença, miséria econômica e padrões culturais destoantes com a modernidade, definiam as principais moléstias infecto-contagiosas como marca dos indivíduos insuficientemente preparados para viver nos grandes centros urbanos do país.
Identificado com a medicina norte-americana e com as mensagens políticas expedidas pelos países que compunham o grupo de Aliados na Segunda Guerra Mundial, o trabalho do Dr. Grieco foi alvo de vários prêmios acadêmicos, condenando seus opositores ao ostracismo.
Representando o paradigma de outras pesquisas sanitárias, o texto assinado por João Grieco refletia a opção tisiológica americanizada do Sanatório do Jaçanã, favorecendo a substituição das análises centradas no papel diferenciador das raças pelos estudos que focavam os grupos pobres e ‘incultos’ de migrantes nacionais, especialmente os nordestinos, como as principais vítimas e também como agentes disseminadores da moléstia do peito nos ambientes metropolitanos.
O próprio doutor Grieco assinalou que, com a paralisação da imigração estrangeira, a capital bandeirante estava recebendo significativos contingentes de migrantes, que se deslocavam das mais diferentes regiões do Brasil para tentar a sorte no estado de São Paulo. Infectados pouco depois de se estabelecerem na ‘cidade grande’, os recém-chegados atuavam como agentes propagadores da Peste Branca entre os paulistanos antigos, inclusive porque a principal ocupação encontrada pelos novos habitantes da urbe constituía-se nos serviços domésticos. Seguindo esta linha de entendimento, o clínico explicou a eventualidade da tísica atingir os lares mais abastados, acusando os serviçais de virtuais algozes dos filhos da riqueza.
A nova orientação sanitária fez com que os olhos epidemiológicos se detivessem na figura do migrante como força perpetuadora da tuberculose nas cidades mais populosas do país. Mesmo antes das observações de Grieco, o tema já vinha sendo minuciosamente examinado pelo Instituto de Higiene da Universidade de São Paulo, desdobrando-se em uma pesquisa dirigida pelo professor Rodolfo dos Santos Mascarenhas e datada do ano de 1939, mas que só recebeu divulgação uma década após o seu encerramento.
Nesse estudo que enfatizou a necessidade de investigações de campo na área da saúde coletiva, o Dr. Mascarenhas acompanhou sucessivos agrupamentos de migrantes oriundos do norte e do nordeste do país e que haviam sido alojados na antiga Hospedaria dos Imigrantes, sendo todos eles averiguados por uma equipe de médicos treinados especialmente para esta tarefa.
Após a realização de exames que avaliaram a incidência de reações positivas à tuberculina, o professor Mascarenhas concluiu que, diferentemente do esperado, os migrantes que se estabeleciam no estado de São Paulo não se tornavam vítimas do ambiente poluído pelo bacilo de Koch que existia nos centros urbanos de maior porte. Pelo contrário, os forasteiros alcançavam as cidades sulistas já corroídos pela enfermidade, tornando-se disseminadores da patologia pulmonar. Por isso, as opções do governo estadual, ainda segundo o Dr. Mascarenhas, eram limitadas:
A medida imediata a ser efetuada ser o exame roentgenfotográfico de todos os imigrantes chegados a São Paulo, quer se trate de nacionais ou de estrangeiros. Uma vez reconhecido como tuberculoso, o imigrante deve ou ser rejeitado ou ser encaminhado a um sanatório, ou ainda ficar sob tratamento e vigilância dispensarial. (1950:108)
Apesar da exposição dessas alternativas, o professor da Universidade de São Paulo parece que optou pela proibição da entrada de infectados no território bandeirante e o pronto retorno dos fimatosos para as suas áreas de origem. Isso porque o tisiologista esclareceu que, apesar de o governo estar naquela época despendendo esforços em prol da saúde pública, o estado não dispunha de recursos econômicos suficientes para: “suportar, sòzinho, o “nus do isolamento do imigrante nacional tuberculoso, sem prejuízo de suas demais campanhas sanitárias” (Mascarenhas,1950:109-110).
Um outro foco de celeuma que atingia os tisiologistas nacionais correspondia aos limites legais da intervenção médica, ganhando destaque os possíveis efeitos da gravidez sobre o processo consuntivo. A doutrina internacional ensinada aos juristas e aos clínicos pontificava que o evento gravídico atuava como fator estimulante das lesões tuberculosas, suportando, porém, que o aborto era crime e que, portanto, mesmo que a prenhez concorresse para a piora do estado da mulher infectada, a gestação deveria ser preservada.
Chegado o momento do parto, caso houvesse risco de vida do nascente, a mãe enferma deveria ser sacrificada em favor da preservação da vida do filho que, afinal, poderia estar imune à infecção kochiana. Assim, a vida da mãe enferma daria lugar a uma existência possivelmente sadia do filho (Schwarcz, 1938).
Entretanto, especialmente entre os clínicos cariocas, surgiu a versão de que a gravidez não interferia no processo consuntivo, ressalvando apenas que os filhos de mães ou pais tuberculosos viriam à luz debilitados e com altas chances de contrair a tuberculose nos primeiros anos de vida.
O professor Mac Dowell (1939) estimulou ainda mais as divergências, alegando em diversos momentos que, inversamente ao que era propagado, a prenhez constituía-se em um elemento dinamizador da cura das mulheres tísicas. Seguindo esta explicação, o facultativo asseverou que muitas de suas pacientes contaminadas recuperaram a plena saúde, sem qualquer tipo de tratamento clínico ou cirúrgico, apenas pelo fato de terem engravidado e dado à luz.
De qualquer forma, existem indícios de que o aborto era a recomendação que a maior parte dos médicos oferecia às pacientes consuntivas que engravidavam. Entre os facultativos paulistas, a questão manteve-se alijada dos debates, apesar de que, sutilmente, a Revista Paulista de Tisiologia, dedicada à especialidade, buscou estabelecer um posicionamento favorável ao aborto terapêutico. Uma prova disso foi a publicação de um artigo assinado pelo Dr. Almeida Gouveia (1936), clínico radicado na Bahia, no qual o autor combateu veementemente a prática do aborto entre as mulheres infectadas, mas, ao mesmo tempo, ensinou sutil e meticulosamente as técnicas que poderiam ser empregadas pelos profissionais da saúde para interromper a indesejada gravidez.
As questões legais suscitadas pelos praticantes da medicina multiplicavam-se aceleradamente, abrindo a cada instante novos pontos questionadores da justeza da doutrina tisiológica. Desacertos de avaliações sobre as linhas que deveriam ser assumidas pela administração de Saúde Pública, a necessidade de isolamento forçado dos enfermos, as modalidades de tratamento dos pectários e até mesmo a legalização da prática de eutanásia nos casos de tuberculose terminal favoreceram a discórdia entre os discípulos de Hipócrates.
Os desentendimentos permitiam inclusive a existência de momentos de delação de rivais frente às autoridades varguistas, reproduzindo no interior da academia as práticas policialescas que marcavam a administração federal. Como exemplo, tem-se as críticas realizadas ao movimento que deu origem à Associação dos Sanatórios Populares de Campos do Jordão, liderado pelo médico Raphael de Paula Souza.
Como era o clínico dos infectados residentes em Campos do Jordão, o Dr. Paula Souza foi o responsável por uma campanha que, escudada na idéia de que as casas de saúde filantrópicas não precisavam contar com um aparato rebuscado que caracterizava as instituições destinadas aos pacientes pagantes, propôs uma série de opções administrativas e arquitetônicas que, rebaixando o custo dos prédios onde deveriam ser isolados os tísicos, viabilizava o atendimento de um maior número de doentes pobres.
O resultado disso foi a criação, em 193l, da primeira unidade nosocomial, conhecida popularmente pelo nome de ‘Sanatorinhos’, exatamente porque o novo abrigo para consuntivos constituía-se em um simples barracão, contrastando com o estilo monumental dos edifícios que acolhiam os fimatosos endinheirados.
Como primeiro presidente da nova entidade, o professor Paula Souza criticou, em relatório referente ao ano de 1934, os gastos desnecessários que outras entidades particulares ou caritativas estavam realizando com a construção de hospitais luxuosos, concluindo que o ‘lado aparatoso’ do tratamento dos tuberculosos era supérfluo, resultando apenas na elevação dos custos assistenciais e, pior que isso, na escassez de leitos gratuitos aos pectários destituídos de amparos econômicos.
Nos primeiros momentos de vida dos Sanatorinhos, foram raros os médicos jordanenses que concordaram com a proposta do Dr. Paula Souza. Apenas os clínicos Clovis Corrêa, Vicente Marcílio e Lincoln de Faria – que atuavam no Posto de Higiene local – mostraram-se favoráveis ao funcionamento da casa de saúde para os enfermos desamparados, enquanto os demais facultativos manifestaram desinteresse ou aversão pelo movimento.
Em continuidade, em 1939, alguns tisiologistas identificaram publicamente o projeto de Paula Souza com o modelo assistencial proposto pelos socialistas europeus, fato que levou o diretor dos Sanatorinhos e seus seguidores a serem tachados de ‘oposicionistas’ e ‘esquerdistas’, termos que contavam com uma carga incriminadora e portanto perigosa, numa conjuntura que se identificava pelo regime ditatorial.
A multiplicidade de desacordos que pautavam as relações dos tisiologistas atuantes em São Paulo e destes com seus pares de outros estados, especialmente do Rio de Janeiro, estabeleceu os limites da prática médica e da administração sanitária centrada na Peste Branca. As questões que impregnavam as pautas de discussões superavam em muito as incertezas exclusivamente técnicas, confundindo-se com interesses particulares e com o clima político do momento. Assim, o período que se encerrou com o advento do primeiro quimioterápico eficiente contra a tuberculose caracterizou-se pela existência de uma medicina que se consumia em disputas internas, tornando difícil a articulação de um movimento tisio-sanitário em escala nacional.
A precariedade dos recursos preventivos e curativos contra a patologia pulmonar somava-se aos conflitos que paralisavam a comunidade dos tisiologistas e ao gerenciamento público deficiente das questões suscitadas pelo Grande Mal, condenando a especialidade a um comprometedor grau de defasagem em relação às outras nações. Os recursos necessários para a realização de diagnósticos precisos e tratamento dos pectários eram raros e concentrados nos poucos centros médicos do país. Para o geral da população, a clínica dispunha de princípios gerais de atendimento, os quais se mostravam de pouca serventia, mesmo porque mantidos inalterados desde o final do século passado.
Afora isto, o prestígio nacional granjeado pela ‘escola paulista de tisiologia’ não era fruto da coerência de sua proposta doutrinária. Os obstáculos para se alcançar consenso regional sobre o encaminhamento a ser dado aos principais problemas gerados pela Peste Branca conduziram uma parcela significativa dos especialistas de São Paulo a optarem pela intervenção cirúrgica como recurso básico que demandava pouco tempo para a possível cura pulmonar ou que, pelo menos, contribuía para a extensão da sobrevida dos infectados.
Tendência universal a partir da década de 30, a orientação operatória para o tratamento dos consuntivos ganhou dimensões abrangentes no Brasil e especialmente em São Paulo, fato que colocou em lugar secundário as recomendações médicas que apontavam para a climatoterapia e para as soluções medicamentosas, inclusive os compostos de cálcio e de sais de ouro que, durante um breve período, foram considerados como substâncias ‘curadoras’ da tuberculose.
Apostando na positividade das operações torácicas, o Hospital-Sanatório São Luiz Gonzaga patrocinou a formação de uma equipe de tisiocirurgiões cuja eficiência repercutiu na definição da moléstia pulmonar. Apesar das pontificações que, na década de 40, versaram sobre a influência dos ‘padrões culturais’ sobre a incidência da tísica, o encaminhamento preponderante entre os paulistas constituiu-se no enquadramento biológico da doença e na análise das trajetórias individuais dos pectários, marginalizando os questionamentos que, por meio da enfermidade, buscavam averiguar as desigualdades que davam características peculiares à formação social brasileira.
Neste contexto, a educação em saúde despontava como medida preventiva viável para os grandes centros urbanos, pois estava voltada para a ‘reforma’ dos comportamentos individuais.