22
O vento soprou no telhado e tirou as telhas do lugar. Assobiou alto debaixo da porta fechada. A chaminé fez sons temerosos de protesto quando foi invadida pelos sopros urgentes.
A um quilômetro e meio, o velho Kansas City Kate (o trem admirado, porém importante demais para parar em Stamps) passou no meio da cidade, tocou seu sinal de aviso e continuou para um glamoroso destino desconhecido sem olhar para trás.
Haveria uma tempestade, e era uma noite perfeita para reler Jane Eyre . Bailey tinha terminado suas tarefas e já estava atrás do fogão com Mark Twain. Era minha vez de fechar o Mercado, e meu livro, pela metade, ficou em cima da bancada de doces.
Como o tempo ficaria ruim, tinha certeza de que o tio Willie concordaria e até me encorajaria a fechar cedo (para poupar eletricidade) e a me juntar à família no quarto de Momma, que servia como sala. Poucas pessoas sairiam em um tempo que ameaçava virar furacão (pois apesar de o vento soprar, o céu estava tão limpo e parado como em uma manhã de verão). Momma concordou que era melhor fechar, e fui até a varanda, fechei as janelas, passei a barra de madeira na porta e apaguei a luz. As panelas faziam barulho na cozinha, onde Momma estava fritando bolinhos de milho para acompanhar a sopa de legumes do jantar, e os sons e aromas caseiros me embalaram enquanto eu lia sobre Jane Eyre na mansão inglesa fria de um cavalheiro inglês mais frio ainda. Tio Willie estava absorto no Almanac , sua leitura noturna, e meu irmão estava longe em uma jangada no rio Mississipi.
Fui a primeira a ouvir o barulho na porta dos fundos. Um sacolejo e uma batida, uma batida e um sacolejo. Mas, desconfiando de que podia ser a esposa louca na torre, não dei atenção. Mas tio Willie ouviu e chamou Bailey de volta do mundo de Huck Finn para abrir a tranca.
Pela porta aberta, o luar se espalhou pelo aposento em uma luz fria que rivalizava com nosso lampião fraco. Nós todos esperamos — eu com expectativa temerosa —, pois não havia ser humano nenhum lá. O vento entrou, lutando contra a chama fraca no lampião a óleo. Empurrou e espalhou o calor familiar do nosso fogão à lenha. Tio Willie achou que devia ter sido a tempestade e mandou Bailey fechar a porta. Mas, pouco antes de prender a tábua de madeira, uma voz chegou pela rachadura; chiou dizendo “Irmã Henderson? Irmão Willie?”.
Bailey quase fechou a porta de novo, mas tio Willie perguntou “Quem é?”, e o rosto marrom repuxado do sr. George Taylor apareceu na escuridão. Ele verificou se não tínhamos ido dormir mesmo e foi recebido em nossa casa. Quando Momma o viu, ela o convidou para ficar para jantar e me mandou botar umas batatas nas cinzas para aumentar a refeição. O pobre irmão Taylor fazia refeições por toda a cidade desde que enterrara a esposa no verão. Talvez por causa do fato de eu estar no período romântico, ou porque as crianças têm um aparato de sobrevivência embutido, temi que ele estivesse interessado em se casar com Momma e vir morar conosco.
Tio Willie aninhou o Almanac no colo. “Você é bem-vindo aqui a qualquer momento, irmão Taylor, a qualquer momento, mas esta é uma noite ruim. Está escrito aqui” — com a mão aleijada, ele bateu no Almanac — “que em doze de novembro, uma tempestade vai chegar a Stamps pelo leste. Vai ser uma noite difícil.” O sr. Taylor ficou exatamente na mesma posição que assumiu quando chegou, como uma pessoa com frio demais para ajustar o corpo até para chegar mais perto do fogo. O pescoço estava inclinado, e a luz vermelha brincava na pele polida da cabeça sem cabelo. Mas seus olhos carregavam uma atração única. Afundavam no rosto pequeno e dominavam completamente as outras feições com uma redondeza que parecia delineada em lápis preto, dando a ele uma aparência de coruja. E, quando sentiu que eu estava olhando para ele tão fixamente, sua cabeça mal se moveu, mas seus olhos desviaram e pousaram em mim. Se o olhar dele contivesse desprezo ou condescendência ou qualquer emoção vulgar revelada pelos adultos no confronto com crianças, eu teria voltado facilmente ao livro, mas os olhos dele exibiam um nada aquoso... um vazio completamente insuportável. Vi um olhar vidrado, observado anteriormente apenas em bolas de gude novas ou em uma garrafa presa em um bloco de gelo. Seu olhar se afastou de forma tão rápida de mim que era quase viável achar que eu tinha imaginado o gesto.
“Mas, como eu disse, você é bem-vindo. Podemos sempre abrir lugar embaixo do nosso telhado.” O tio Willie não pareceu reparar que o sr. Taylor estava alheio a tudo que ele disse. Momma levou a sopa para o quarto, tirou a chaleira do fogo e colocou a panela fervente no lugar. Tio Willie continuou: “Momma, falei para o irmão Taylor que ele é bem-vindo aqui a qualquer momento.” Momma disse: “Isso mesmo, irmão Taylor. Você não deve ficar naquela casa solitária sentindo pena de você mesmo. O Senhor deu e o Senhor tira”.
Não sei se foi a presença de Momma ou a sopa borbulhante no fogão que o influenciou, mas o sr. Taylor pareceu bem mais vivo. Ele mexeu os ombros como se afastando um toque cansativo e tentou abrir um sorriso que fracassou. “Irmã Henderson, eu agradeço... quer dizer, não sei o que eu faria se não fosse todo mundo... quer dizer, você não sabe o quanto é importante para mim poder... Bem, quero dizer que estou agradecido.” A cada pausa, ele esticava a cabeça sobre o peito como uma tartaruga saindo do casco, mas os olhos não se moveram.
Momma, sempre constrangida com exibições públicas de emoção não relacionadas a uma fonte religiosa, me chamou para ir com ela levar o pão e os pratos. Ela levou a comida e fui atrás, carregando o lampião.
A nova luz deixou o quarto em uma perspectiva sinistra e severa. Bailey estava imóvel com o livro no colo, um gnomo corcunda Negro. Um dedo acompanhando os olhos na página. Tio Willie e o sr. Taylor estavam paralisados como pessoas em um livro sobre a história do Negro americano.
“Vamos, irmão Taylor.” Momma estava empurrando um prato de sopa para ele. “Você pode não estar com fome, mas tome a sopa como nutrição.” Sua voz tinha a preocupação carinhosa de uma pessoa saudável falando com um inválido, e a declaração soou verdadeira. “Eu agradeço.” Bailey saiu do estado distante e foi lavar as mãos.
“Willie, faça a oração.” Momma colocou o prato de Bailey de lado e inclinou a cabeça para a frente. Durante a oração, Bailey ficou parado na porta, uma figura de obediência, mas eu sabia que sua mente estava em Tom Sawyer e Jim, assim como a minha estaria em Jane Eyre e no sr. Rochester se não fossem os olhos cintilantes do velho sr. Taylor.
Nosso convidado obedeceu e tomou algumas colheres de sopa e mordeu um semicírculo no pão, depois botou o prato no chão. Alguma coisa no fogo chamou sua atenção enquanto comíamos fazendo barulho. Ao reparar o distanciamento, Momma disse: “Não adianta você ficar assim, eu sei que vocês ficaram juntos muito tempo...”.
Tio Willie disse: “Quarenta anos”.
“... mas já tem seis meses que ela foi descansar... e você tem que manter a fé. Ele nunca nos dá mais do que conseguimos suportar.” A declaração animou o sr. Taylor. Ele pegou o prato de novo e passou a colher pela sopa densa.
Momma viu que tinha feito contato, e assim prosseguiu: “Vocês tiveram muitos anos bons. Você tem que sentir gratidão por eles. A única coisa é que é uma pena vocês não terem tido filhos”.
Se minha cabeça estivesse abaixada, eu não teria visto a metamorfose do sr. Taylor. Não foi uma mudança que tenha acontecido em etapas, mas me pareceu bem repentina. O prato dele foi para o chão com um baque, e o corpo se inclinou na direção de Momma a partir dos quadris. Mas o rosto foi a característica mais impressionante de todas. A área marrom pareceu escurecer e ganhar vida, como se uma agitação interna estivesse ocorrendo embaixo da pele fina. A boca, aberta e exibindo os dentes compridos, era um salão escuro mobiliado com algumas cadeiras brancas.
“Filhos.” Ele mastigou a palavra na boca vazia. “Sim, senhor, crianças.” Bailey (e eu), que éramos chamados assim, olhamos para ele com expectativa.
“É o que ela quer.” Os olhos estavam cheios de vida e tentando pular da prisão das órbitas. “Foi o que ela disse. Filhos.”
O ar estava pesado e denso. Uma casa maior tinha sido colocada no nosso telhado e estava nos empurrando imperceptivelmente para baixo.
Momma perguntou com a voz gentil: “Quem disse o quê, irmão Taylor?”. Ela sabia a resposta. Nós todos sabíamos a resposta.
“Florida.” As mãos pequenas e enrugadas estavam fechadas em punhos, se abriram e se fecharam de novo. “Ela disse isso ontem à noite.”
Bailey e eu nos olhamos, e cheguei minha cadeira mais perto da dele. “Disse ‘Eu quero filhos’.” Quando elevou a voz até o tom agudo que ele considerava feminino, ou pelo menos ao que correspondia ao tom de voz da sra. Florida, sua esposa, ela se espalhou pelo ambiente, ziguezagueando como um relâmpago.
O tio Willie tinha parado de comer e estava olhando para ele com algo que parecia pena. “Pode ser que você estivesse sonhando, Irmão Taylor. Pode ter sido sonho.”
Momma se manifestou para apaziguar a situação. “É verdade. Sabe, as crianças leram uma coisa para mim outro dia. Dizia que as pessoas sonham com o que está na cabeça na hora que elas vão dormir.”
O sr. Taylor se empertigou. “Não foi sonho nenhum. Eu estava bem acordado, como estou agorinha.” Ele estava com raiva, e a tensão aumentou sua máscara de força.
“Vou contar o que aconteceu.”
Ah, Senhor, uma história de fantasmas. Eu odiava e temia as longas noites de inverno em que os clientes noturnos entravam no Mercado e ficavam sentados em volta do aquecedor torrando amendoins e tentando superar uns aos outros nas histórias apavorantes de fantasmas e sustos, espíritos e maldições, vodu e outras histórias antivida. Mas uma verdadeira, que aconteceu com uma pessoa de verdade, e na noite anterior? Seria intolerável. Levantei e fui até a janela.
O enterro da sra. Florida Taylor, em junho, aconteceu logo depois das nossas provas finais. Bailey, Louise e eu tínhamos nos saído bem e estávamos satisfeitos conosco e uns com os outros. O verão se prolongava em dourado à nossa frente, com promessas de piqueniques e pescaria, buscas por amoras e partidas de croquet até escurecer. Seria preciso uma perda pessoal para penetrar no meu sentimento de bem-estar. Conheci e me apaixonei pelas irmãs Brontë e substituí “Se”, de Kipling, por “Invictus”. Minha amizade com Louise foi solidificada com jogos de bugalha, amarelinha e confissões profundas e sombrias trocadas muitas vezes depois de “Jura por Deus que não vai contar?”. Nunca conversei com ela sobre St. Louis, e tinha passado a acreditar que o pesadelo e sua culpa e medo companheiros não tinham acontecido comigo de verdade. Aconteceu com uma menina ruim, anos e anos antes, que não tinha ligação nenhuma comigo.
Primeiro, a notícia de que a sra. Taylor tinha morrido não me pareceu uma informação muito nova. Como acontece com as crianças, eu achava que, como era muito velha, ela só tinha uma coisa a fazer, e essa coisa era morrer. Ela era uma mulher agradável, com os passos diminuindo com a idade e as mãozinhas parecendo garras gentis que gostavam de tocar pele jovem. Cada vez que ia ao Mercado, eu era obrigada a ir até ela, ocasiões em que passava as unhas amarelas nas minhas bochechas. “Você tem a pele tão linda.” Era um elogio raro em um mundo de raríssimas palavras elogiosas, então equilibrava o toque dos dedos secos.
“Você vai ao enterro, irmã.” Momma não estava fazendo uma pergunta.
Momma disse: “Você vai porque a irmã Taylor gostava tanto de você que lhe deixou seu broche amarelo”. (Ela não dizia “de ouro” porque não era.) “Ela disse para o irmão Taylor: ‘Quero que a netinha da irmã Henderson fique com meu broche dourado’. Então você vai ter que ir.”
Tinha seguido alguns caixões colina acima da igreja até o cemitério, mas como Momma dizia que eu tinha coração mole, nunca fui obrigada a assistir a um funeral. Aos onze anos, a morte é mais irreal do que assustadora. Pareceu desperdício de uma boa tarde ficar sentada em uma igreja por causa de um broche velho e bobo, que não só não era de ouro, mas também era velho demais para eu usar. Mas se Momma disse que eu tinha que ir, estaria lá.
Os enlutados dos bancos da frente estavam sentados em uma obscuridade de sarja azul e vestidos de crepe preto. Um hino funerário se espalhou tediosamente pela igreja, mas com sucesso. Penetrou no coração de todos os pensamentos alegres, aos cuidados de cada lembrança feliz. Estilhaçando as luzes e as esperanças: “Do outro lado do rio Jordão, há paz para os exaustos, há paz para mim”. O destino inevitável de todas as coisas vivas parecia estar a uma curta distância. Eu nunca tinha considerado antes que morrer, morte, morto, falecido, eram palavras que pudessem estar ligadas a mim, ainda que ligeiramente.
Mas, naquele dia pesado, oprimido sem chance de alívio, minha mortalidade caiu sobre mim em ondas arrastadas de condenação.
Assim que a canção triste terminou, o pastor subiu no altar e fez um sermão que, no meu estado, ofereceu pouco consolo. O assunto foi: “Tu és meu servo bom e fiel, com quem estou bem satisfeito”. Sua voz se entremeou nos vapores sombrios deixados pela música. Em tom monótono, ele avisou aos ouvintes que “este dia pode ser seu último” e que a melhor garantia para não morrer pecador era “acertar as coisas com Deus” para que, no fatídico dia, Ele dissesse “Tu és meu servo bom e fiel, com quem estou bem satisfeito”.
Depois de botar medo do túmulo frio em todos nós, ele começou a falar da sra. Taylor: “Uma mulher temente, que dava aos pobres, visitava os doentes, doava para a igreja e, em geral, viveu uma vida de bondades”. Nesse ponto, ele começou a falar diretamente com o caixão, no qual eu tinha reparado quando cheguei e evitei cuidadosamente depois.
“Senti fome e me deste de comer. Senti sede e me deste de beber. Fiquei doente e tu me visitaste. Desde que tenhas feito o mínimo disso, tu fizeste por Mim.” Ele desceu do tablado e se aproximou da caixa de veludo cinza. Com um gesto imperioso, ele puxou o tecido cinza de cima da aba aberta e olhou para o mistério embaixo.
“Dorme, alma graciosa, até Cristo chamar-te para ir para Seu luminoso paraíso.”
Ele continuou falando diretamente com a mulher morta, e quase desejei que ela se levantasse e respondesse a ele, ofendida pela brutalidade da abordagem. Um grito soou vindo do sr. Taylor. Ele se levantou de repente e esticou os braços para o pastor, o caixão e o cadáver da esposa. Por um longo minuto, ficou parado, de costas para a igreja enquanto as palavras instrutivas se espalhavam pelo salão, carregado de promessas, cheio de avisos. Momma e as outras mulheres o seguraram para levá-lo de volta ao banco, onde ele rapidamente se encolheu como um boneco de pano.
O sr. Taylor e os representantes da igreja foram os primeiros a se aproximarem do caixão para se despedirem da falecida e terem um vislumbre do que estava aguardando todos os homens. Depois, com pés pesados, ainda mais ponderosos pela culpa dos vivos vendo a morta, a igreja adulta foi até o caixão e voltou para seus lugares. Os rostos, que mostravam apreensão antes de se aproximarem, revelaram, no caminho pelo corredor oposto, uma confirmação final de seus medos. Olhar para eles foi um pouco como espiar por uma janela quando a cortina não está fechada. Apesar de não tentar, foi impossível não registrar os papéis deles no drama.
Então, a ajudante de preto fez sinal para as fileiras das crianças. Houve uma agitação inquieta, mas finalmente um garoto de quatorze anos nos guiou, e não ousei ficar para trás, por mais que odiasse a ideia de ver a sra. Taylor. No corredor, os gemidos e gritos se misturaram com o cheiro doentio de roupas pretas de lã usadas no calor do verão e de folhas verdes murchando sobre flores amarelas. Eu não conseguia distinguir se estava sentindo cheiro do som sufocante da infelicidade ou se estava ouvindo o odor intoxicante da morte.
Teria sido mais fácil vê-la através do tecido fino, mas olhei para o rosto rígido que pareceu de repente tão vazio e mau. Conhecia segredos que eu nunca queria compartilhar. As bochechas tinham caído até as orelhas, e um agente funerário solícito tinha colocado batom na boca preta. O odor de decomposição era doce e envolvente. Tateava em busca de vida com uma fome ávida e odiosa. Mas era hipnótico. Eu queria me afastar, mas meus sapatos estavam grudados no chão, e tive que me segurar nas laterais do caixão para permanecer de pé. A parada inesperada na fila em movimento fez as crianças se espremerem, e sussurros mal-intencionados chegaram aos meus ouvidos.
“Ande, irmã, ande.” Era Momma. Sua voz puxou minha vontade, alguém me empurrou por trás e fiquei livre.
Na mesma hora, me entreguei à tristeza da morte. A mudança que ela conseguiu executar na sra. Taylor mostrava que não era possível resistir à sua força. Sua voz aguda, que cortava o ar no Mercado, estava silenciada para sempre, e o rosto marrom e gorducho tinha murchado e ficado achatado como um excremento de vaca.
O caixão foi transportado em uma carruagem puxada por um cavalo até o cemitério, e durante todo o caminho, comunguei com os anjos da morte, questionando sua escolha de hora, lugar e pessoa.
Pela primeira vez, uma cerimônia de enterro teve significado para mim.
“Das cinzas às cinzas e do pó ao pó.” Era certo que a sra. Taylor estava voltando para a terra de onde viera. Na verdade, depois de pensar, concluí que ela parecia um bebê de lama, deitada no cetim branco do caixão de veludo. Um bebê de lama, moldado por crianças criativas em um dia de chuva, que logo voltaria para a terra.
A lembrança da cerimônia triste foi tão real para mim que fiquei surpresa de erguer o rosto e ver Momma e o tio Willie comendo junto ao fogão. Eles não estavam ansiosos nem hesitantes, como se soubessem que um homem tem que dizer o que tem que dizer. Mas eu não queria ouvir, e o vento, se alinhando a mim, ameaçou o cinamomo lá fora.
“Ontem à noite, depois que fiz minhas orações, eu me deitei na cama. Bem, você sabe que é a mesma cama onde ela morreu.” Ah, se ao menos ele calasse a boca. Momma disse: “Irmã, sente-se e tome sua sopa. Em noites frias assim você precisa de uma coisa quente na barriga. Continue, irmão Taylor. Por favor”. Sentei o mais perto possível de Bailey.
“Bom, alguma coisa me mandou abrir os olhos.”
“Que tipo de coisa?”, perguntou Momma, sem baixar a colher.
“Sim, senhor”, explicou tio Willie, “pode haver uma coisa boa e uma coisa ruim.”
“Bom, eu não sabia, então achei melhor abrir, porque podia ser qualquer uma das duas. Abri os olhos, e a primeira coisa foi que vi um bebê anjo. Era gordo como uma bolota e estava rindo, os olhos muito azuis.”
Tio Willie perguntou: “Um bebê anjo?”.
“Sim, senhor, e estava rindo bem na minha cara. E então, ouvi um gemido comprido, ‘Ahh-h-h’. Bom, como você disse, irmã Henderson, nós ficamos juntos quarenta anos. Conheço a voz de Florida. Não senti medo na hora. Eu disse ‘Florida?’. E o anjo riu mais e o gemido ficou mais alto.”
Coloquei o prato no chão e cheguei mais perto de Bailey. A sra. Taylor era uma mulher muito agradável, sorria o tempo todo e era paciente. A única coisa que me perturbava e incomodava quando ela ia ao Mercado era sua voz. Como as pessoas quase surdas, ela quase gritava, em parte sem ouvir o que estava dizendo e em parte torcendo para que os ouvintes respondessem da mesma forma. Isso quando estava viva. A ideia da voz saindo do túmulo e indo colina abaixo até minha cabeça foi suficiente para deixar meu cabelo em pé.
“Sim, senhor.” Ele estava olhando para o fogão, e o brilho vermelho iluminava seu rosto. Parecia que tinha um fogo ardendo dentro da cabeça. “Primeiro, chamei: ‘Florida, Florida. O que você quer?’ E aquele anjo diabólico continuou rindo como louco.” O sr. Taylor tentou rir e só conseguiu parecer assustado. “‘Eu quero...’ Foi quando ela disse ‘Eu quero’.” Ele fez a voz parecer o vento, se o vento estivesse com pneumonia. Ele chiou: “‘Eu quero fiiii-lhos’”.
Bailey e eu quase caímos no chão.
Momma disse: “Ora, irmão Taylor, pode ser que você estivesse sonhando. Você sabe, dizem que o que você leva para cama na cabeça...”.
“Não, senhora, irmã Henderson, eu estava tão acordado quanto estou agora.”
“Ela deixou que você a visse?” Tio Willie estava com expressão sonhadora no rosto.
“Não, Willie, só vi o bebê anjo, gordo e branco. Mas não dava para confundir aquela voz... ‘Eu quero filhos’.”
O vento frio tinha congelado meus pés e minha coluna, e a imitação do sr. Taylor tinha congelado meu sangue.
Momma disse: “Irmã, pegue o garfo comprido para pegar as batatas”.
“Senhora?” Ela não podia querer dizer o garfo comprido que ficava pendurado na parede atrás do fogão da cozinha — a um milhão de quilômetros apavorantes de distância.
“Eu disse, vá buscar o garfo. As batatas estão queimando.”
Desenrolei as pernas do medo paralisante e quase tropecei no fogão. Momma disse: “Essa criança tropeçaria no desenho de um tapete. Continue, irmão Taylor, ela disse mais alguma coisa?”.
Eu não queria ouvir o que era se ela tivesse falado, mas não estava ansiosa para sair do quarto iluminado, onde minha família estava sentada em volta do fogo amistoso.
“Bem, ela disse ‘Aaah’ mais algumas vezes, e aquele anjo começou a andar pelo teto. Estou dizendo, fiquei quase duro de medo.”
Eu tinha chegado ao oceano sem dono da escuridão. Nenhuma grande decisão era necessária. Eu sabia que seria tortuoso passar pela escuridão densa do quarto do tio Willie, mas seria mais fácil do que ficar e ouvir a história apavorante. Além do mais, eu não podia me dar ao luxo de irritar Momma. Quando ficava aborrecida, ela me fazia dormir na beirada da cama, e naquela noite eu sabia que precisava ficar perto dela.
Um pé na escuridão, e a sensação de distanciamento da realidade quase me fez entrar em pânico. Passou pela minha cabeça que eu talvez nunca mais visse luz de novo. Rapidamente, encontrei a porta que levava de volta a onde estava a família, mas, quando a abri, a história terrível se projetou e tentou segurar meus ouvidos. Fechei a porta.
Naturalmente, eu acreditava em assombros e fantasmas e nas “coisas”. Tendo sido criada por uma avó Negra do sul extremamente religiosa, seria anormal se eu não fosse supersticiosa.
A ida até a cozinha, e a volta, não podia ter demorado mais de dois minutos, mas naquela vez andei por cemitérios pantanosos, subi em lápides poeirentas e desviei de bosta de gatos pretos como a noite.
De volta ao círculo familiar, pensei comigo mesma como a barriga do fogão quente e vermelho parecia um olho de ciclope.
“Me lembrou a época em que meu pai morreu. Você sabe que nós éramos muito próximos.” O sr. Taylor tinha se hipnotizado até o sinistro mundo dos horrores.
Interrompi as lembranças dele. “Momma, aqui está o garfo.” Bailey tinha se deitado de lado junto ao fogão e seus olhos estavam brilhando.
Ele estava mais fascinado com o interesse mórbido do sr. Taylor na história do que com a história em si.
Momma colocou a mão no meu braço e disse: “Você está tremendo, irmã. Qual é o problema?”. Minha pele ainda estava arrepiada pela experiência do medo.
O tio Willie riu e disse: “Pode ser que ela estivesse com medo de ir à cozinha”.
A risadinha dele não me enganou. Todos estavam incomodados de serem chamados para o desconhecido.
“Não, senhor, eu nunca vi nada tão claramente como aquele bebê anjo.” Seus maxilares estavam cortando mecanicamente as batatas doces já moles. “Só rindo, como uma casa pegando fogo. O que você acha que quer dizer, irmã Henderson?”
Momma tinha se encostado à cadeira de balanço, um meio sorriso no rosto. “Se você tem certeza de que não estava sonhando, irmão Taylor...”
“Eu estava tão desperto quanto estou”, ele estava ficando zangado de novo, “quanto estou agora”.
“Bom, então talvez queira dizer...”
“Eu sei quando estou dormindo e quando estou acordado.”
“... talvez queira dizer que a irmã Florida quer que você trabalhe com as crianças da igreja.”
“Uma coisa que eu sempre disse para Florida, as pessoas não deixam ninguém falar...”
“Pode ser que ela estivesse tentando dizer...”
“Não sou maluco, sabe. Minha mente continua tão boa quanto era.”
“... que é para você dar aulas aos domingos...”
“Trinta anos atrás. Se eu disser que estava acordado quando vi o anjo pequeno e gordo, as pessoas deviam...”
“A escola dominical precisa de mais professores. O Senhor sabe.”
“... acreditar quando eu digo.”
Os comentários e respostas deles pareciam um jogo de pingue-pongue com cada jogada passando por cima da rede e voando para o adversário. O sentido do que eles estavam dizendo se perdeu, e só o exercício permaneceu. A troca foi conduzida com a certeza de uma quadrilha ensaiada e tinha a agitação da roupa lavada de segunda sacudindo ao vento — agora soprando para leste, depois para oeste, com a única intenção de tirar a umidade do pano.
Em poucos minutos, a intoxicação da desgraça sumiu, como se aquilo nunca tivesse acontecido, e Momma estava encorajando o sr. Taylor a acolher um dos garotos Jenkins para que o ajudasse na fazenda.
O tio Willie estava assentindo para o fogo, e Bailey tinha fugido novamente para as aventuras tranquilas de Huckleberry Finn. A mudança no ambiente foi impressionante. Sombras que tinham se esticado e escurecido sobre a cama no canto tinham desaparecido ou se revelado como imagens escuras de cadeiras familiares. A luz que oscilava no teto se firmou, e imitava coelhos, e não mais leões, eram burros em vez de demônios.
Coloquei um colchão para o sr. Taylor no quarto do tio Willie e subi na cama de Momma, que soube pela primeira vez que era tão boa e correta que era capaz de controlar os espíritos inquietos, como Jesus controlou o mar. “Paz, fique parada.”