Capítulo 8

 

 

 

 

 

Foi uma sucessão de acontecimentos muito infeliz

para a pobre Meg, pois as masmorras do Rei Coração Fechado

não eram muito agradáveis.

As paredes pingavam água fétida e ratazanas

e outras criaturas nefastas corriam pelos corredores.

Não havia luz ou aquecimento e, à distância,

ouviam-se os gritos de outros tristes habitantes daquele sítio.

As coisas pareciam muito desesperadas, mas,

porque Meg nunca tivera uma vida muito fácil,

decidiu enfrentar a crise com o máximo de coragem

que conseguiu invocar.

E jurou também que, independentemente do que acontecesse,

diria sempre a verdade…

excerto de REI CORAÇÃO FECHADO

 

 

 

Temperance voltou para casa na carruagem de Lorde Caire enquanto Londres amanhecia. Adormeceu durante a viagem, acordando apenas quando a carruagem parou ao fundo de Maiden Lane. Estava tão cansada dos cuidados prestados a Caire que as consequências de uma noite passada fora de casa nunca lhe ocorreram até se abaterem sobre a sua cabeça com o peso de um grande penedo quando entrou no lar.

– Onde estiveste? – perguntou Concord, o seu irmão mais velho, com um tom de profunda reprovação.

Talvez fosse injusto comparar Concord com um grande penedo, mas encontrá-lo do outro lado da porta do lar foi um choque considerável. Quase enchia completamente o corredor e o seu desagrado era palpável.

– Eu… hmm… – gaguejou Temperance, sem grande eloquência.

Concord franziu muito a testa, com as sobrancelhas farfalhudas cinzentas e castanhas quase fundindo-se sobre o nariz severo.

– Se foste retida contra a tua vontade por esse aristocrata de que Winter nos falou, exigiremos uma reparação.

– Vamos dar-lhe cabo da cara. É isso que faremos – rosnou Asa, o irmão que se seguia em idade, erguendo-se atrás de Concord.

Temperance pestanejou ao ver Asa. Não o via há meses. Aquilo não era nada bom. Asa e Concord raramente concordavam em alguma coisa e, com efeito, tinham feito um esforço para conversarem o mínimo possível um com o outro durante anos. Naquela manhã, no entanto, erguiam-se lado a lado no corredor estreito do lar de órfãos, unidos na sua fúria contra Caire e no desagrado que sentiam com o comportamento da irmã. Concord era o mais alto dos dois. O cabelo castanho cada vez mais grisalho estava penteado para trás e, tal como acontecia com os seus outros irmãos, não o empoeirava.

O cabelo de Asa tinha uma coloração castanha-dourada contrastante. Era a cor de um leão e, apesar de ser vários centímetros mais baixo que Concord, os ombros quase preenchiam por completo a largura do corredor. A camisa e a casaca esticavam-se para cobrir um peito que parecia pertencer a alguém que fizesse trabalho físico todos os dias da sua vida. Mas ninguém na família sabia ao certo como Asa ganhava a vida e, quando alguém o questionava, as respostas eram sempre muito vagas. Temperance desconfiava há muito que os seus outros irmãos receavam insistir demasiado, prevendo que o seu trabalho não fosse inteiramente respeitável.

– Lorde Caire não me deteve contra minha vontade – disse-lhes.

A expressão de desagrado de Concord intensificou-se.

– Então que fizeste na sua casa durante toda a noite?

– Lorde Caire estava doente. Limitei-me a ajudar à sua recuperação.

– Que doença o aflige? – perguntou Asa.

Temperance olhou o fundo do corredor, vendo a porta da cozinha atrás dos seus irmãos. Onde estava Winter?

– Tem uma infeção – afirmou com cautela.

O olhar de Asa tornou-se mais intenso.

– Uma infeção de quê?

– De um ferimento no ombro.

Os seus irmãos trocaram um olhar.

– E como foi ferido? – questionou Concord.

Temperance encolheu-se.

– Foi atacado há poucas noites por salteadores. Um deles apunhalou-o no ombro.

Por um momento, os dois irmãos limitaram-se a olhá-la. A seguir, Concord semicerrou os olhos.

– Passaste a noite com um aristocrata que se deixa atacar por salteadores.

– Dificilmente terá sido por culpa sua – protestou Temperance.

– Seja como for – começou Concord, pedante.

Felizmente, Asa interrompeu-o.

– Parece prestes a cair para o lado, Con. Continuemos esta discussão na cozinha.

Concord olhou com desagrado o seu irmão mais novo e Temperance pensou que poderia recusar apenas para o contrariar. Mas pressionou os lábios e acabou por dizer:

– Muito bem.

Voltou-se e percorreu o corredor com passos pesados. Asa gesticulou a Temperance que caminhasse à sua frente. O seu olhar era indecifrável. Temperance inspirou fundo, desejando poder adiar a confrontação até depois de ter dormido.

A cozinha do lar de órfãos estava habitualmente cheia de manhã (pouco passava das oito), mas, naquele dia, havia apenas uma figura solitária sentada à mesa longa.

Temperance parou na porta, olhando Winter.

– Porque não estás na escola?

Winter fixou nela os olhos castanhos ensombrados.

– Fechei a escola hoje depois de passar a noite a procurar-te.

– Winter, sinto muito. – A culpa levou-lhe o pouco vigor que lhe restava. Temperance deixou-se cair sobre uma das cadeiras da cozinha. – Não podia deixá-lo na noite passada. Juro que não. Não tinha mais ninguém que pudesse ajudá-lo.

Concord roncou de forma nada agradável.

– Um aristocrata? Não tem a casa cheia de criados que se possam ocupar dele?

– Havia criados, mas ninguém que se im… – Quase disse «que se importasse com ele», mas, no último instante, conteve as palavras. – Ninguém que tomasse o controlo da situa-ção.

Asa olhou-a, pensativo, como se tivesse percebido as palavras que contivera a tempo.

Mas Concord limitou-se a apertar o queixo nos dedos, um hábito seu quando se sentia incomodado.

– Que te levou a procurar a companhia de tal homem?

Temperance sentia a cabeça dorida e custava-lhe pensar. Olhou Winter, tentando pensar nalguma desculpa credível para a sua amizade com Lorde Caire. Mas estava demasiado cansada para mentir.

– Levou-me a um recital na noite passada – disse Temperance. – Queria conhecer alguém que pudéssemos persuadir a apadrinhar o lar. Precisamos urgentemente de fundos para manter o lar aberto.

Olhou Winter quando terminou de explicar, vendo-o fechar os olhos. A boca de Asa comprimiu-se enquanto Concord franzia tempestuosamente a testa. O silêncio que se seguiu foi pesado.

A seguir, Concord falou.

– Porque não nos informaram do apuro?

– Porque sabíamos que quererias ajudar, irmão, apesar de não estares em condições de o fazer – explicou Winter em voz baixa.

– E a mim? – perguntou Asa.

Winter olhou-o sem dizer nada. Apesar de terem discutido a possibilidade de pedir ajuda a Concord, nunca discutiram recorrer a Asa.

– Nunca pareceste interessado no lar – disse Temperance, serenamente. – Quando o pai falava dele, quase troçavas. Como poderíamos saber, Winter e eu, que nos ajudarias?

– Ajudar-vos-ia, apesar do que pensam de mim, mas, de momento, passo por uma situação de escassez de capital. Dentro de três meses, talvez…

– Não temos três meses – afirmou Winter.

Asa abanou a cabeça, com uma madeixa castanha caindo. Foi colocar-se junto à fogueira, afastando-se da sua família como parecia fazer sempre.

Concord voltou-se novamente para Winter.

– E permitiste isto?

– Não me agradou – replicou prontamente Winter.

– E, mesmo assim, permitiste que a nossa irmã se prostituísse pelo lar.

Temperance abriu a boca, horrorizada, sentindo que o seu irmão a esbofeteara na face. Winter levantou-se, falando em tom severo com Concord enquanto Asa gritava, mas tudo o que Temperance ouviu foi um rugido abafado. Concord acreditaria realmente que era uma pega? Teria a sua maior vergonha marcada na face para que todos a vissem? Talvez tivesse sido por aquele motivo que Caire fizera os seus comentários indecorosos. Talvez tivesse percebido com um único olhar que poderia ser facilmente corrompida.

Cobriu a boca com uma mão trémula.

– Basta! – Asa ergueu a voz para pôr fim à discussão dos seus irmãos. – Quer Winter seja culpado ou não, Temperance está quase a desmaiar de exaustão. Deixemo-la ir para a cama enquanto continuamos a discutir o assunto. Aconteça o que acontecer, parece-me óbvio que não poderá voltar a ver este Lorde Caire.

– De acordo – disse Winter, recusando-se a olhar Concord.

– Naturalmente que não – disse o irmão mais velho depois de ponderar o assunto.

Que maravilha. Para variar, os seus irmãos estavam de acordo. Temperance quase sentiu uma pontada de culpa.

– Não.

– O quê? – Asa fitou-a.

Ergueu-se da mesa, apoiando as mãos abertas sobre o tampo para se equilibrar. Qualquer sinal de fraqueza em relação àquele assunto poderia ser fatal.

– Não. Não deixarei de ver Lorde Caire. Não, não abdicarei de procurar um patrono.

– Temperance – murmurou Winter em tom de advertência.

– Não. – Abanou a cabeça. – Se a minha reputação já tiver sido comprometida, como Concord diz, de que servirá desistir? O lar precisa de um patrono para sobreviver. Poderão clamar contra Lorde Caire e falar da minha virtude, mas não podem negar esse facto. Além disso, nenhum de vós tem uma solução para o problema, não é assim?

Olhou a expressão enrugada e cansada de Winter, os olhos atentos de Asa e, por fim, o porte reprovador de Concord.

– Não é assim? – repetiu, mantendo a voz serena.

Concord saiu bruscamente da cozinha.

Temperance expirou, sentindo-se quase eufórica.

– Parece-me suficiente como resposta. Agora, com a vossa licença, vou para a cama.

Virou-se para fazer uma saída em grande, mas foi travada por uma figura atravessada na porta.

– Com a vossa licença, senhora – murmurou Polly.

A ama trazia um volume embrulhado nos braços e Temperance susteve a respiração quando o viu. Não. Não aguentava mais um desgosto. Não naquele momento.

– Santo Deus – disse Temperance. – Está…?

– Não, senhora – apressou-se a dizer a ama de leite. – Não é isso.

Afastou um canto do cobertor e Temperance viu olhos azul-escuros fitando-a com curiosidade. O alívio foi tão intenso que mal ouviu as palavras da ama.

– Vim dizer-vos que Mary Hope começou finalmente a mamar – disse Polly.

 

 

QUEIMOU A CARNE.

Silence agitou um pano sobre a carne fumegante nessa noite, tentando afastar o odor acre. Estúpida. Estúpida. Estúpida. Deveria ter-se mantido mais atenta ao jantar em vez de fitar o vazio e de se preocupar com o futuro, o seu e o de William. Mordeu o lábio. Mas era tão difícil não pensar nos seus problemas.

A porta dos seus aposentos abriu-se e William entrou. Olhou-o, ansiosamente, mas percebeu de imediato que não recuperara a carga. A sua face vinha alterada pela preocupação e a pele parecia acinzentada na sua palidez, apesar de queimada pelo sol durante a sua estadia no mar. Tinha a camisa enrugada e o colarinho torto, como se a agitação o tivesse feito puxá-lo. O seu marido parecia ter envelhecido anos nos dias anteriores.

Silence aproximou-se imediatamente, tirando-lhe a capa e o chapéu e pendurando-os num cabide ao lado da porta.

– Sentas-te?

– Sim – replicou William, parecendo ausente. Passou uma mão pela cabeça, esquecendo que tinha posto a peruca. Disse palavras que, normalmente, nunca diria na sua presença e tirou a peruca, lançando-a à mesa.

Silence pegou na peruca e colocou-a cuidadosamente sobre um suporte de madeira na cómoda.

– Há notícias?

– Nenhumas que nos beneficiem – murmurou William. – Os dois marinheiros deixados a guardar o navio desapareceram. Estarão mortos ou terão fugido com o suborno.

– Sinto muito. – Silence ergueu-se inutilmente ao lado do marido até o fedor a carne queimada lhe recordar o jantar.

Pôs a mesa apressadamente com o serviço de peltre. O pão, pelo menos, era fresco, tendo sido comprado ao padeiro naquela manhã, e as cenouras cozidas pareciam apetitosas. Trouxe os picles preferidos de William e serviu-lhe a sua cerveja antes de trazer a carne para a mesa. Trinchou o naco modesto e colocou um pedaço no prato dele com trepidação, mas William pareceu nem notar que a carne estava negra por fora e ainda em sangue por dentro. Silence suspirou. Era uma cozinheira tão miserável.

– Foi Mickey O’Connor – murmurou subitamente William.

Silence olhou-o.

– O quê?

– Mickey O’Connor foi o responsável pelo roubo da carga.

– Mas isso é maravilhoso! Se sabes quem foi o ladrão, certamente poderás informar um magistrado?

William riu-se, produzindo um som desagradável.

– Nenhum magistrado em Londres se atreverá a levantar um dedo contra Mickey Encantador.

– Porque não? – perguntou Silence, perplexa. – Se é um ladrão comprovado, será sua obrigação levá-lo a tribunal?

– A maioria dos magistrados é subornada por ladrões e por outros criminosos. – William olhou o prato. – Só atuam contra os que são demasiado pobres para pagar subornos. E os magistrados que escapam a isto sentem tanto medo de O’Connor que não arriscarão a vida para o processar.

– Mas quem é ele? Porque o receiam tanto os magistrados?

O seu marido afastou o prato sem tocar na comida.

– Mickey Encantador O’Connor é o mais poderoso ladrão das docas de Londres. Controla os cavaleiros noturnos, os ladrões que roubam de noite. Todos os navios que atracam em Londres subornam Mickey. Chama-lhe dízimo.

– Isso é blasfémia – sussurrou Silence, chocada.

William acenou afirmativamente, fechando os olhos.

– É verdade. Diz-se que vive numa casa arruinada em Saint Giles com luxo digno de um rei.

– Chamam encantador a este monstro? – Silence abanou a cabeça.

– É muito vistoso e as senhoras gostam dele, segundo dizem – afirmou Mickey em voz baixa. – Os homens que incomodam Mickey Encantador desaparecem ou são encontrados a flutuar no Tamisa com uma corda à volta do pescoço.

– E ninguém lhe toca?

– Ninguém.

Silence olhou o seu prato, tendo perdido a fome.

– Que faremos, William?

– Não sei – respondeu o marido. – Não sei. Os armadores dizem agora que terei sido cúmplice do roubo.

– Isso é ridículo! – William era um dos homens mais honestos que Silence alguma vez conhecera. – Porque te acusam?

Fechou os olhos, fatigado.

– Saí do navio mais cedo na noite em que atracámos. Deixei apenas dois guardas a vigiá-lo. Dizem que terei sido subornado para ajudar.

Silence cerrou os punhos por baixo da mesa. William tinha saído do navio mais cedo para voltar para ela. A culpa provocou-lhe dor no peito.

– Receio que precisem de um bode expiatório – afirmou William em tom pesado. – Os armadores falam em processar-me por roubo.

– Santo Deus.

– Lamento, querida. – William abriu finalmente os olhos verdes tristes. – Lancei esta catástrofe sobre nós.

– Não, William. Não. – Silence cobriu a mão do marido com a sua. – A culpa não é tua.

Voltou a rir-se. Era o mesmo som forçado e terrível que começava a odiar.

– Devia ter deixado mais homens a guardar a carga. Devia ter assegurado que a carga estava segura. Se a culpa não é minha, de quem será?

– Desse Mickey Encantador – disse Silence, subitamente furiosa. – É ele quem vive às custas de homens honestos. Foi ele quem roubou a carga por ganância.

William abanou a cabeça, afastando a mão da dela enquanto se erguia da mesa.

– Poderá ser como dizes, mas não temos forma de lhe exigir reparação. Não se importa connosco ou com quem quer que seja.

Ergueu-se por um momento, olhando-a, e, pela primeira vez, Silence viu-lhe o desespero na face.

– Receio que estejamos condenados.

Voltou-se e saiu, fechando a porta do quarto atrás de si.

Silence olhou a refeição patética que preparara. Queria atirar os pratos velhos, a carne queimada e as cenouras demasiado moles ao chão. Queria gritar e chorar, puxando o cabelo e permitindo que o mundo conhecesse o seu desespero. Mas não fez nada disso. Nenhuma dessas ações ajudaria o homem que amava. Se William estivesse certo, ninguém que conheciam poderia ajudá-los. Estavam por sua conta. E, se não conseguisse encontrar uma forma de recuperar a carga de Mickey Encantador, William morreria na prisão ou seria enforcado como ladrão.

Ergueu os ombros. Não permitiria que acontecesse.

* * *

LAZARUS PRECISOU DE UMA SEMANA para recuperar do ferimento. Ou, pelo menos, precisou de uma semana até se sentir suficientemente bem para procurar Mrs. Dews. Saíra da cama dias antes, mas não permitiria que a pequena mártir voltasse a vê-lo tão fraco. Por isso, não teve pressa, comendo pacientemente as papas que Small insistia serem adequadas a um doente em recuperação. Chamaram outro médico, mas Lazarus gritou-lhe quando o novo carniceiro começou a falar em sangria. O homem bateu em retirada sem demora, mas não sem antes deixar um frasco de um nocivo «medicamento» líquido. Lazarus deitou fora o frasco, sem se preocupar com a conta que lhe seria enviada mais tarde pelo elixir.

Passou o resto da sua convalescença ansiando por voltar a ver Mrs. Dews e desgostando-se pela demora. De alguma forma, a mulher tinha conseguido infiltrar-se no seu sangue, tal como o veneno da ferida. Durante o dia, recordava conversas que tinham tido, lembrando a expressão magoada nos seus olhos dourados quando dizia alguma coisa particularmente rude. A dor que lhe causara provocava uma estranha ternura. Quis sarar os ferimentos e voltar a feri-la novamente apenas para poder voltar a sará-la. Era impossível repelir pensamentos acerca da sua gentileza, da sua sagacidade e da vivacidade da sua mente. Os seus sonhos noturnos eram muito mais elementares. Mesmo durante a doença, acordava todas as manhãs com a carne entre as pernas ansiando por ela.

Talvez devesse ter permitido que o carniceiro o sangrasse. Talvez assim o seu corpo se libertasse não apenas do veneno, mas também de Mrs. Dews.

Pensou em abdicar da sua ajuda e não voltar a vê-la, mas foi um pensamento fugaz. Na noite em que Small o considerou recuperado, Lazarus vagueou pela viela atrás do lar de órfãos.

Não a avisara de que vinha e sentiu uma incerteza nada caraterística acerca da sua receção. A noite estava escura e fria e o vento soprava-lhe a capa à volta das pernas. Lazarus hesitou na viela fétida. Pousou uma mão na porta da cozinha como se, assim, conseguisse sentir a mulher no interior.

Tolice.

Ponderou entrar sem ser convidado como fizera antes, mas a prudência acabou por o fazer bater na porta com determinação. Foi aberta quase de imediato. Lazarus fitou os olhos castanho--claros salpicados com estrelas douradas. Mrs. Dews pareceu sobressaltada, como se não esperasse vê-lo ali. Tinha o cabelo solto, caindo-lhe pelos ombros e formando caracóis molhados no calor da cozinha.

– Laváveis o cabelo – afirmou estupidamente. Imaginar uma intimidade tão mundana motivou uma ânsia não apenas nas suas virilhas, mas também no peito.

– Sim. – As suas faces tingiam-se de rosa.

– É belíssimo – disse ele porque o cabelo dela era realmente belíssimo, espesso e chegando quase à cintura. Ondulava e encaracolava com abandono despreocupado. Como deveria odiar que fosse assim.

– Oh. – Olhou para baixo e, depois, sobre o ombro. – Não desejais entrar?

A insegurança que demonstrava fê-lo sorrir, mas disse tão delicadamente quanto lhe era possível:

– Obrigado.

A cozinha do lar de órfãos estava húmida e quente naquela noite. Uma fogueira dançava sob uma panela enegrecida. A habitual acólita de Mrs. Dews, Mary Whitsun, franziu-lhe o sobrolho sobre uma bacia de água na mesa. A seu lado, erguia-se um rapazinho. Uma jovem mulher de proporções generosas com face corada jovial e cabelo loiro quase branco sentava-se ao canto, dando de mamar a uma criança de tenra idade. Ergueu o olhar quando entrou e cobriu despreocupadamente o seio exposto com um lenço.

– Esta é a Polly, a nossa ama de leite – disse Temperance distraidamente. – Trouxe Mary Hope e os seus filhos para passarem a noite connosco.

– Achei que seria melhor. Estão a fazer um velório no quarto ao lado do meu – explicou Polly. – Torna-se um pouco barulhento e desvairado.

– É um prazer conhecê-la, senhora. – Lazarus baixou a cabeça e olhou o bebé que dava às pernas. – Então a criança está melhor?

– Está a sair-se bem, senhor. Está, sim.

– Agrada-me ouvi-lo.

Lazarus encostou-se a uma parede, vendo Mrs. Dews e a rapariga retirando a bacia da mesa. Quando voltaram as costas, o rapaz aproximou-se mais. Tinha a cara sardenta e, aos olhos pouco treinados de Lazarus, parecia um pouco tra-vesso.

– Que grande pau – referiu o rapaz.

– É um pau que se transforma numa espada – explicou Lazarus cordialmente. Torceu o castão e desembainhou a espada afiada.

– Ena! – exclamou o rapaz. – Matou alguém com ele?

– Matei dúzias de homens – afirmou Lazarus com altivez. Afastou da mente a imagem do atacante sem nariz, fitando com olhos mortos. – Prefiro começar por esventrá-los e cortar-lhes as cabeças a seguir.

Arr! – exclamou o rapaz.

Lazarus considerou que a sílaba isolada seria uma demonstração de profunda estima.

– Lorde Caire! – Obviamente, Mrs. Dews tinha ouvido o fim da sua conversa.

– Sim? – Lazarus arregalou os olhos inocentemente.

O rapaz começou a rir.

Mrs. Dews suspirou.

Polly puxou o bebé de baixo do lenço.

– Podeis segurá-la um pouco, senhora, enquanto me componho?

A ama de leite estendeu a criança adormecida, mas Mrs. Dews recuou prontamente.

– Mary Whitsun pode pegar-lhe.

A rapariga aceitou o bebé sem hesitar. Nem ela nem Polly pareceram estranhar as ações de Mrs. Dews, mas Lazarus olhou-a, intrigado.

Polly ajeitou as roupas e levantou-se.

– Podes passar-ma. Penso que precisa de uma sesta.

Dizendo aquilo, levou o bebé para fora da cozinha.

Mrs. Dews acenou com a cabeça a Mary Whitsun.

– Diz, por favor, a Mister Makepeace que pretendo sair esta noite. E leva Joseph Tinbox contigo.

As duas crianças saíram obedientemente da cozinha.

– Nunca antes haveis informado o vosso irmão do que pretendíeis fazer. – Lazarus aproximou-se da lareira e olhou o interior da panela. Um resto de sopa de algum tipo borbulhava no fundo.

– Como sabeis? – perguntou ela atrás dele.

Voltou-se e viu-a passar um pente pelo seu cabelo maravilhoso.

– Nunca antes me convidastes a entrar.

Viu-a abrir a boca, mas, nesse momento, Winter Makepeace entrou na cozinha. Não parecia surpreendido por ver Lazarus, mas era evidente que não sentia qualquer agrado pela sua presença.

– Não te esqueças de levar a pistola – disse à irmã.

Mrs. Dews acenou afirmativamente sem o olhar.

– Vou prender o cabelo.

E saiu.

O irmão aproximou-se de Lazarus.

– Certificai-vos de que não lhe acontecerá nada.

Lazarus arqueou as sobrancelhas ao ouvir a ordem do jovem.

– A vossa irmã nunca foi ferida na minha companhia.

Makepeace grunhiu com azedume.

– Certificai-vos de que a vossa sorte continua. Temperance terá de voltar para casa antes que raie o dia.

Lazarus inclinou a cabeça. Não tinha qualquer intenção de manter Mrs. Dews nas ruas de St. Giles durante mais tempo do que o necessário.

Regressou nesse momento com o cabelo seguro sob uma touca branca. Moveu um olhar intenso entre o seu irmão e Lazarus, que pôde apenas esperar que o jovem tivesse anulado a expressão de animosidade que antes tivera na face.

– Estou pronta – disse, pegando na capa.

Aproximou-se dela e retirou-lhe dos dedos a capa esfarrapada. Abriu-lha. Olhou-o com incerteza antes de a vestir. A seguir, Lazarus abriu a porta.

– Cuidado – avisou Makepeace.

A noite estava húmida e uma névoa suja cobriu-lhe imediatamente a cara. Lazarus ajustou a sua própria capa sobre os ombros.

– Mantende-vos perto de mim. Não tenho qualquer dúvida de que o vosso irmão me esquartejaria se vos trouxesse de volta com um cabelo fora do sítio.

– Preocupa-se comigo.

Hmm. – Lazarus olhou em redor e, a seguir, olhou-a a ela. – Tal como eu. O ataque que sofremos na última ocasião foi inusitado.

Os olhos castanho-dourados arregalaram-se.

– Tendes a certeza?

Lazarus encolheu os ombros e começou a andar.

– Vi um dos assassinos no estabelecimento de Mãe Coração-Tranquilo. Foi uma coincidência e tanto.

Mrs. Dews parou de repente, fazendo-o parar também para não se afastar dela.

– Mas isso significa que alguém tentou matar-vos!

– Sim, é isso que significa. – Hesitou e, a seguir, disse lentamente: – Duas vezes, creio. Na noite em que nos conhecemos, fui atacado pelo que julguei ser um salteador comum.

– O homem sobre o qual vos ajoelháveis no chão!

– Sim. – Olhou-a. – Interrogo-me agora se desejaria roubar-me a vida em vez da bolsa.

– Santo Deus. – Baixou o olhar para o chão, pensativa. – Se o homem sem nariz estava na taberna de Mãe Coração-Tranquilo, isso significa que o assassino também lá estaria.

Lazarus baixou a cabeça, olhando-a.

Enfrentou-lhe o olhar, intrépida.

– Assim sendo, deveremos regressar à taberna para ver se conhece o homem.

– É essa a minha esperança – disse ele enquanto recomeçava a andar. – Mas quis que compreendêsseis a gravidade dos meus esforços. Antes, precisava apenas de lidar com os perigos corriqueiros de Saint Giles. Agora, parece-me que poderei ter despertado a atenção de um assassino impiedoso. – Olhou-a de soslaio. – Se desejardes desistir da caçada, Mistress Dews, não deixarei de honrar a minha parte do acordo.

O capuz da capa dela ocultava-lhe a maior parte do perfil, mas conseguiu ver-lhe os lábios pressionarem-se.

– Não renegarei o que acordámos.

Inclinou-se para ela, baixando a cabeça.

– Nesse caso, será melhor que vos mantenhais perto de mim.

Hmpf. – Olhou-o e Lazarus percebeu que franzia a testa. – Com quem falastes na noite em que nos conhecemos? Na noite em que fostes atacado pela primeira vez?

– Com uma das vizinhas de Marie. Uma prostituta. – Os seus lábios contorceram-se. – Ou tentei falar com ela, pelo menos. A mulher bateu-me com a porta na cara quando soube o que pretendia

– Não compreendo.

– O quê?

– Estarão relacionadas de alguma forma. A prostituta e a taberna de Mãe Coração-Tranquilo. Mas não percebo como.

Lazarus encolheu os ombros.

– Talvez seja apenas uma questão de vizinhança. O assassino descobriu que questionava a vizinha de Marie e sabia também que tinha questionado Mãe Coração-Tranquilo.

Mrs. Dews abanou a cabeça.

– Teria de ser muito fácil de assustar para enviar um assassino atrás de vós apenas por fazerdes perguntas. Não. Penso que tereis descoberto alguma coisa.

Olhou-o, intrigada.

– Se descobri, eu próprio não sei o que é. – Riu-se com uma gargalhada um pouco sinistra.

Passaram o resto do percurso até à taberna de Mãe Coração-Tranquilo em silêncio. Lazarus manteve-se alerta, mas não viu ninguém seguindo-os exceto um rafeiro sarnento e esquelético, que os acompanhou durante um minuto ou mais.

Quando Lazarus passou a porta baixa da taberna, o calor e o cheiro atingiram-no em cheio na face. Segurou o braço de Mrs. Dews, olhando a sala apinhada. Rugiam chamas na lareira ao fundo e um grupo de marinheiros embriagados cantava à volta de uma mesa longa. A criada zarolha serpenteava entre as mesas, evitando todos os olhares, sobretudo o de Lazarus. Não havia sinais de Mãe Coração-Tranquilo.

Mrs. Dews puxou-lhe o braço e colocou-se em bicos de pés para lhe dizer ao ouvido sobre o ruído na taberna:

– Dai-me algumas moedas.

Olhou-a, arqueando uma sobrancelha e puxou pela bolsa, colocando alguns xelins na sua mão. Viu-a acenar afirmativamente e, sem uma palavra, começou a avançar por entre a multidão, perseguindo pacientemente a criada. Lazarus não pretendia afastar-se dela entre aquela companhia. Seguiu-a, observando-lhe os movimentos e arregalando os olhos quando um marinheiro tentou segurar-lhe a mão.

Alcançou finalmente a criada zarolha perto da lareira. A rapariga voltou-se com relutância, parecendo mais interessada quando Mrs. Dews lhe colocou uma moeda na palma da mão. Trocaram sussurros e a criada afastou-se.

Mrs. Dews voltou para junto de Lazarus.

– Diz que Mãe Coração-Tranquilo está na sala das traseiras.

Lazarus olhou a porta tapada por uma cortina.

– Então procuremo-la.

Ergueu a cortina e avançou. Atrás da porta, havia um corredor curto e escuro. Um rapaz encostava-se à parede, limpando as unhas com a ponta assustadoramente afiada de uma faca.

Não se deu ao trabalho de os olhar quando entraram.

– Isto é privado. Voltem para a taberna.

– Desejo falar com Mãe Coração-Tranquilo – disse Lazarus com voz serena.

O rapaz não era muito alto, mas parecia ser veloz. Antes de responder, Mãe Coração-Tranquilo abriu uma porta atrás dele. Uma rapariga saiu, equilibrando-se com dificuldade sobre as chinelas de tacão alto. Olhou o guarda sem lhe dar importância, mas abrandou ao ver Lazarus. Este virou-se de lado para lhe permitir que passasse e a rapariga agradeceu-lhe com um sorriso malicioso e uma piscadela de olho. Sentiu-se bastante seguro de que, se tivesse demonstrado algum interesse, aceitaria uma conversa rápida num canto da taberna. Olhou Mrs. Dews e surpreendeu-o ver a sua expressão de cen-sura.

– Mistress Dews – disse Mãe Coração-Tranquilo da porta. – Não estais ocupada que chegue com o vosso pequeno lar? É a segunda vez em quinze dias que visitais a minha parte de Saint Giles. E com Lorde Caire, bem vejo. Não esperava o vosso regresso, milorde.

Lazarus sorriu.

– Porque acreditava que me teriam matado na casa de Martha Swan?

A mulher inclinou a cabeça e esboçou um sorriso malicioso e bastante repelente.

– Ouvi dizer que tivestes problemas lá. Pobre Martha Swan! É perigoso ganhar a vida nas ruas.

– Não lhe parece curioso que tenha sido esventrada tal e qual como Marie Hume?

Encolheu os ombros ossudos tão largos como os de um homem.

– Muitas raparigas têm mau fim em Saint Giles.

Por um momento, Lazarus estudou a velha. Sabia qualquer coisa. Disso não havia dúvida. Mas, se o seu envolvimento era motivado por dinheiro, pelo desejo de proteger os seus interesses misteriosos ou por ter algum intuito mais sinistro, não conseguia perceber ao certo.

– Seja como for, o homem que me atacou estava sentado na sua taberna na noite em que vim fazer-lhe perguntas. Tinha uma pala sobre o nariz.

Viu-a acenar afirmativamente.

– Sim. Vi-o por aí.

– Sabe quem poderá tê-lo contratado para me matar? Quem não quer que o assassino de Marie Hume seja encontrado?

– Matar-vos? – Escarrou na palha suja que cobria o chão. – Não me diz respeito o que as pessoas fazem depois de saírem da minha casa. Deve ter visto a bolsa que mostráveis nessa noite e pensou que seríeis um alvo fácil.

– Sabe se tem amigos? Homens com quem bebesse?

– Não sei e não me importa. – Voltou a encolher os ombros e virou costas. – Tenho um negócio para gerir, milorde.

Lazarus viu-a fechar a porta. Mãe Coração-Tranquilo parecera bastante ávida pelo seu dinheiro na primeira visita, mas, naquela noite, nem sequer sugerira que aceitaria pagamento. Teria medo? Alguém a teria avisado?

Mrs. Dews suspirou a seu lado.

– Não me parece que vos diga mais que isto.

O rapaz que passara aquele tempo todo encostado à parede pigarreou. Lazarus olhou-o, mas os seus olhos fixavam-se em Mrs. Dews.

– Querem saber da Marie Hume?

A sua boca mal se mexeu. As palavras foram quase inaudíveis. Mesmo assim, Mrs. Dews acenou com a cabeça em silêncio e colocou o resto das moedas que Lazarus lhe dera na mão do sujeito.

– Há uma casa em Running Man Courtyard. Conhe-cem-na?

Mrs. Dews ficou hirta, mas acenou afirmativamente.

– Perguntem pelo Tommy Pett e não digam a ninguém quem vos disse o nome dele. Entendido?

– Sim. – Mrs. Dews voltou-se e regressou à taberna.

Lazarus esperou até subirem as escadas para a noite fria.

– Sabeis o caminho para Running Man Courtyard?

Pressionou os lábios como se não lhe agradasse.

– Sim.

Lazarus olhou para os dois lados da rua escura.

– Conheceis aquele rapaz? Podemos confiar nele?

– Não sei. Nunca o tinha visto antes. – Puxou mais a capa sobre os ombros. – Achais que poderá ser uma armadilha?

– Ou um esforço em vão. – Lazarus franziu a testa. – Mãe Coração-Tranquilo poderá ter-lhe ordenado que nos desse esta informação.

– Porque faria isso?

– Não sei, maldição. – Suspirou ruidosamente. – É esse o problema. Não conheço nenhum dos atores desta história. Sou um elemento demasiado externo.

– Se ajudar, parece-me que o medo de ser ouvido por ela era genuíno.

Lazarus sentiu um sorriso surgir-lhe subitamente nos lábios. Curvou-se numa vénia demorada, retirando o chapéu da ca-beça.

– Nesse caso, Mistress Dews, peço-vos que mostreis o caminho.

Quase lhe retribuiu o sorriso. Lazarus teria jurado que sim. Mas controlou a expressão e partiu, caminhando com passos rápidos e fazendo os sapatos ecoar sobre o empedrado. Lazarus seguiu-a de perto, mantendo-se alerta. A névoa contornava as esquinas dos edifícios e reduzia a luminosidade das poucas lanternas que iluminavam o caminho. Seria uma boa noite para uma emboscada, pensou, severamente.

– Quando regressava da vossa casa na semana passada, fui recebida pelos meus irmãos mais velhos – disse, subitamente. Tinha a cabeça virada e não conseguiu ler-lhe a expressão.

– Que disseram?

– Que não queriam que voltasse a acompanhar-vos, claro.

– E, no entanto, aqui estais. – Dobraram uma esquina e chegaram a uma rua mais larga. – Deverei sentir-me lisonjeado?

– Não – disse ela, sem hesitar. – Faço isto pelo lar, nada mais.

– Ah. Naturalmente.

Um grupo de três homens cambaleou para fora de uma porta mais à frente, obviamente bêbados. Lazarus ergueu uma mão e puxou-a para ele, ignorando o seu guincho de surpresa. Parou nas sombras e envolveu-a com a capa, escondendo-a quase por completo.

Baixou a cabeça para lhe murmurar ao ouvido.

– O mais triste em ser virtuoso é que, quando tentamos mentir, não funciona muito bem.

Abriu a boca para responder e Lazarus viu o brilho da raiva nos seus olhos, mas os bêbados passavam por eles nesse momento.

– Silêncio – sussurrou-lhe. Assim tão próxima, conseguia sentir o cheiro das ervas doces que usara quando lavara o cabelo. Quis puxá-la mais para si, pressionar as suas ancas contra as deles, lamber aquela orelha delicada.

Mas os bêbados tinham passado e soltou-a.

Deu imediatamente um passo atrás e olhou-o com desagrado.

– Não tenho qualquer desejo da vossa companhia. Faço isto apenas pelo lar e pelas crianças.

– Tão nobre, Mistress Dews. Pareceis ser uma verdadeira santa. – Sentiu-se esboçar um sorriso nada agradável. – Dir--me-eis o que é esta casa em Running Man Courtyard?

– É a casa de Mistress Whiteside – murmurou antes de se virar rapidamente, afastando-se.

Lazarus sentiu as sobrancelhas erguerem-se com surpresa sincera enquanto acelerava o passo para alcançar a sua guia. Seria realmente muito interessante.

Já que a Mrs. Whiteside geria o bordel mais célebre em St. Giles.