Capítulo 19

 

 

 

 

 

«O que sentis é a mágoa da perda»,

disse Meg.

«O que sentis é amor. E»,

continuou, enquanto o pequeno pássaro azul regressava,

voando pela janela dentro e pousando na mão do rei,

«isso também é amor.

«Não compreendo»,

disse o rei.

«Que sentis agora?»,

perguntou Meg.

O Rei Coração Fechado franziu a testa

enquanto acariciava a cabeça pequena do pássaro.

«Alegria. Felicidade.»

«É a alegria do amor.»

Meg sorriu. «Para sentirdes o amor pelo pássaro,

tereis de estar disposto a deixá-lo partir.

E, em troca, o pássaro demonstra o amor que sente por vós,

regressando.»

excerto de REI CORAÇÃO FECHADO

 

 

 

«Santo Deus.»

Temperance sentiu os joelhos cederem. «Mary Whitsun não. Não a sua querida Mary Whitsun.»

Sentiu Nell envolvendo-a com um braço. Lady Hero parecia preocupada. Mr. St. John acompanhou Lady Caire e o seu acompanhante para o interior e, após uma breve troca de palavras com Winter, fixou em Temperance um olhar preocupado antes de acompanhar a senhora ao piso de cima. Winter levou-os a todos para a cozinha. Temperance deixou--se cair sobre uma cadeira. Precisava de salvar Mary, mas como podia fazê-lo se nem sequer sabiam para onde Mary fora?

– Temos de procurá-la – disse Winter. – Onde estava o bebé que Mary queria trazer?

Alguém batia com violência na porta da cozinha.

– Temperance!

Era a voz de Caire. Temperance ergueu-se com um salto e voou até à porta, destrancando-a com dificuldade usando as mãos trémulas.

Abriu a porta e caiu nos braços de Lazarus. Por um mo-mento, limitou-se a ficar ali, tremendo contra ele. Era tão grande, tão quente e estava ali quando mais precisava dele.

Lazarus apertou-a contra o peito.

– Estás bem?

– Não. – Abanou a cabeça contra ele. – Mary Whitsun desapareceu.

Lazarus ergueu o queixo.

– Eu sei. Está nas mãos de Mãe Coração-Tranquilo.

– O quê?

– Venho do estabelecimento de Mistress Whiteside. Mãe Coração-Tranquilo é Mistress Whiteside. Aparentemente, atraiu Mary Whitsun ao local com a ajuda de uma das suas prosti-tutas.

– Teremos de ir imediatamente. – Temperance retirou a capa pendurada de um cabide junto à porta.

– Espera. Não é tudo. – Caire segurou-a pelo braço, mas as suas palavras dirigiam-se a Winter. – Mãe Coração-Tranquilo é a assassina.

Temperance olhou-o fixamente.

– A assassina de Marie? Foi ela que…

Acenou afirmativamente.

Soluçou uma vez antes de se recompor.

– Nesse caso, o assunto torna-se ainda mais urgente.

– Sim – concordou Lazarus delicadamente. – Mas também é possível que seja uma armadilha. Mãe Coração-Tranquilo sente uma antipatia particular por ti, ao que parece.

Winter mostrou-se inquieto.

– Nesse caso, não deverás ir.

Temperance olhou-o, furiosa.

– Não devo ir? Trata-se de Mary Whitsun! Não a posso deixar com aquela mulher. Seja uma armadilha ou não.

Winter começou a protestar, mas Caire olhou-o.

– Irei com ela e garantirei a sua segurança.

– Prometeis?

– Pela minha vida.

– Podes levar também os meus peões.

Voltaram-se todos ao ouvir a voz. Lady Caire tinha entrado na pequena cozinha com o seu acompanhante. Dois peões encorpados erguiam-se atrás dela. Fixou os olhos em Lazarus por um momento.

Este acenou afirmativamente.

– Obrigado.

Caire pegou na mão de Temperance e saíram para a noite, seguidos pelos peões.

– Que quer ela com Mary Whitsun? – perguntou Temperance, ofegante, enquanto se moviam apressadamente.

Caire abanou a cabeça.

– Poderá ser apenas um isco. Se for esse o caso, será provável que não corra perigo.

Temperance estremeceu.

– Mas Mãe Coração-Tranquilo odeia-me. Foste tu quem o disse.

– De acordo com Pansy. – Hesitou, olhando à sua volta enquanto dobravam uma esquina. – Matou já Tommy Pett.

– Santo Deus. – Temperance tentou dominar o seu pânico crescente. Porque nunca dissera a Mary quanto a amava? Porque se mantivera sempre tão distante? – Então poderá matá-la apenas para me fazer sofrer.

Lazarus não respondeu, limitando-se a apertar-lhe a mão.

A viagem pareceu demorar horas, mas passaram apenas minutos quando chegaram à taberna de Mãe Coração-Tranquilo com os dois peões.

Lazarus olhou a porta e puxou a lâmina escondida na bengala.

– Fica atrás de mim – disse a Temperance. – Vocês os dois – indicou os peões com o queixo –, um de cada lado.

Temperance acenou afirmativamente, vendo-o abrir a porta com um pé.

O que viram no interior foi bizarro. A taberna estava quase vazia, mas as mesas viradas e cadeiras partidas testemunhavam uma luta. Havia dois corpos no chão: os guarda-costas de Mãe Coração-Tranquilo. A criada zarolha encolhia-se sobre os restos de uma mesa. No centro, erguia-se o Fantasma de St. Giles, encostando a ponta da espada ao pescoço do último guarda-costas. Quando entraram, os olhos atrás da máscara negra fixaram-se neles, mas não se moveu nem produziu qualquer som.

– Não sei onde está! – gaguejou o guarda. – Mãe Coração-Tranquilo ouviu-te chegar e fugiu pela porta das traseiras. Pode estar em qualquer sítio.

O Fantasma limitou-se a pressionar a espada contra a garganta do homem, fazendo-o guinchar enquanto um pingo de sangue lhe escorria pelo pescoço.

– Não! – gritou a criada. – Não faças mal ao Davy!

Os peões olharam Caire sem saber o que fazer.

– Então diz-lhe onde está Mãe Coração-Tranquilo – disse Lazarus com voz calma.

Temperance viu um canto da boca do Fantasma erguer-se em aprovação sardónica.

– Decidiu procurar-vos. – A rapariga apontou Temperance.

– Onde? – perguntou Temperance.

– No vosso lar – disse a rapariga. – Disse que ia garantir que deixaríeis Saint Giles de uma vez por todas.

Temperance franziu a testa, partilhando um olhar intrigado com Lazarus.

– Estava sozinha? Tinha uma rapariga com ela?

– Tinha uma das vossas raparigas – disse a criada. – Agora deixem o meu Davy em paz. Já vos disse que não está aqui!

– Será melhor levar-te de volta ao lar – afirmou Lazarus com severidade.

– Mas que pretende ela? – gritou Temperance. O facto de Mãe Coração-Tranquilo ter levado Mary com ela quando fugiu arrepiava-a.

– Não sei. – Lazarus olhou o fantasma. – Estás connosco?

O arlequim acenou afirmativamente e, com uma pirueta graciosa, saiu pela porta, correndo pela rua com passos ligeiros.

– Depressa! – disse Caire aos peões. Pegou novamente na mão de Temperance e voltaram pelo mesmo caminho.

A noite caíra por completo. As tabuletas dançavam no alto, chiando sinistramente com o vento. Ocasionalmente, conseguiram ver a Lua, flutuando, inchada e com luz débil atrás das nuvens. O Fantasma de St. Giles corria à sua frente, quase sem produzir qualquer ruído com os seus passos. Quando se aproximaram do lar, Temperance viu um estranho brilho alaranjado sobre o telhado, tímido e esbatido, mas tornando-se cada vez mais intenso.

A seguir, sentiu o cheiro do fumo.

– Santo Deus! – Não conseguiu sequer traduzir o seu medo em palavras.

Dobraram uma esquina e viram. O lar ardia. Por um momento tenebroso, o som pareceu imobilizar-se nos ouvidos de Temperance e tudo o que conseguiu ouvir foi um ruído arrastado. Estranhamente, olhou Lady Caire, de pé no centro de Maiden Lane. A mãe de Lazarus cobria a boca com uma mão e olhava para cima, para o topo do lar de órfãos. Ver aquilo trouxe Temperance de volta à realidade, subitamente. Ouviam-se gritos. Nell estava ali, agitando um braço, e o cheiro do fumo denunciava o caos no interior.

– Saíram? – perguntou a Nell. Tinha crianças à sua volta. – As crianças saíram todas?

– Não sei! – replicou Nell.

– Precisamos de fazer uma contagem! – gritou Temperance.

Maiden Lane sucumbia ao caos. As pessoas gritavam e corriam para trás e para diante. Os aristocratas que tinham vindo visitar o lar misturavam-se com a população de St. Giles. Formara-se uma cadeia de transmissão de baldes. O sapateiro esfarrapado que vivia na cave do edifício ao lado passou um balde a um peão de libré, que o passou à mulher do peixeiro, que o passou a um lorde com peruca alva como a neve, e assim sucessivamente. Era uma visão bizarra. Temperance virou-se e olhou o lar.

E susteve a respiração.

As chamas saíam pelas janelas dos pisos de cima, com o fumo formando uma nuvem cinzenta-escura. Nesse momento, Winter e St. John saíram, cambaleando.

Winter! – chamou Temperance.

Trazia um rapazinho nos braços.

– Não havia mais ninguém nos quartos. Acho que conseguimos trazê-los todos. Contaste as crianças?

Temperance voltou-se para Nell.

– Vinte e seis. Estão todos menos Mary Whitsun.

Temperance apertou o braço de Lazarus.

– Onde está ela? Para onde poderá Mãe Coração-Tranquilo tê-la levado?

Mas, quando o olhou, viu que fixava os olhos no topo do edifício.

– Sangue de Cristo.

Seguiu-lhe o olhar. No telhado, uma mulher alta e magra vestida com uma casaca militar vermelha avançava sobre as telhas. O arlequim passou por eles em silêncio e desapareceu pela porta do edifício ao lado.

– Onde está Mary Whitsun? – Temperance levou uma mão ao peito. Não. Não podia ser. Ninguém seria terrível ao ponto de deixar uma criança naquele inferno.

Mas era óbvio que Mãe Coração-Tranquilo estava sozinha.

Temperance irrompeu em lágrimas. Santo Deus. Mary Whitsun estava num edifício em chamas. Morria.

– Tomates sangrentos de Deus – murmurou Caire. E, antes que Temperance pudesse dizer alguma coisa, tinha partido.

Para o interior do lar em chamas.

 

 

OS PISOS INFERIORES pareciam relativamente seguros, mas, enquanto Lazarus subia as escadas de madeira, o fumo intensificou-se rapidamente. Cobriu a cabeça com a capa, colocando uma ponta contra a boca, mas pouco o protegia do fumo. Engasgou-se, lutando contra o ímpeto natural de regressar para o ar puro. Santo Deus. Mal conseguia ver. Respirar era quase impossível. O fumo estava por toda a parte. Procurou no piso onde as crianças dormiam.

– Mary!

O seu grito transformou-se em tosse e perdeu-se no rugido das chamas. Podia nem sequer estar ali. O seu esforço poderia ser uma missão fatalmente inútil. Mas ver o desespero de Temperance fora demasiado para conseguir suportar. Se a criança estivesse ali, encontrá-la-ia.

As chamas gemiam como uma criatura viva, devorando o piso superior, o piso onde Temperance e o irmão tinham os seus quartos. Semicerrou os olhos que lhe ardiam para tentar protegê-los do fumo e subiu pela escada instável. Se sobrevivesse àquele inferno, asseguraria que o lar teria melhor construção. Escorreram-lhe lágrimas pela face, mas o calor fez com que se evaporassem quase de imediato.

O corredor superior enchia-se com fumo tórrido.

Onde poderia uma louca esconder uma criança? Lazarus caiu de joelhos, rastejando, com as lágrimas turvando-lhe a visão. Se a rapariga estivesse no extremo oposto do corredor, estaria já morta, mas o quarto de Temperance ainda não tinha sido engolido pelas chamas. Teria de verificar, pelo menos.

Estendeu uma mão para rodar a maçaneta da porta, abrindo-a com o ombro.

– Mary!

Um grito em resposta.

Estava cego e usou a mão para adivinhar o caminho, encontrando e segurando um pequeno pé. Estava presa, deitada no chão junto à cama. Pressionou-se contra ele como se pudesse fundir o seu pequeno corpo com o dele e Lazarus sentiu o pelo trémulo do gato que segurava nas mãos. Desembainhou a espada e usou-a para cortar a corda que lhe prendia as pernas e os braços. A seguir, prendeu-a por baixo de um braço e arrastou-a em direção às escadas. O calor das chamas queimava-lhe a cara e feria-lhe a garganta, tentando incendiá-lo de dentro para fora. Doíam-lhe os pulmões. Um trovejar terrível preenchia-lhe os ouvidos e percebeu, de forma repentina e determinante, que a casa se desmoronava. O gato saltou dos braços da rapariga.

Temperance amava aquela criança, mesmo que nunca o admitisse.

Empurrou o pequeno corpo de Mary à sua frente. Santo Deus, que sobrevivesse ela, pelo menos.

– Corre! Depressa!

Poderia ter dito mais, mas, nesse momento, o inferno abriu-se e engoliu-o inteiro.

* * *

O LAR PERECIA e Caire e Mary Whitsun continuavam no interior.

Temperance viu uma parte do telhado deslizar repentinamente e embater contra o empedrado. Por um momento, duas silhuetas recortaram-se contra as chamas: a forma cadavérica de Mãe Coração-Tranquilo e a forma rápida do Fantasma de St. Giles. No momento seguinte, tinham desaparecido os dois. Temperance não conseguia reunir energias para pensar no que lhes tinha acontecido. Toda a sua força de vontade, toda a sua esperança e as suas orações se concentravam em Lazarus e Mary.

O fogo saiu por uma janela partida, com a divisão do outro lado inteiramente devorada pelas chamas. A multidão serenara, como se o assombro a dominasse. A linha de transmissão de baldes mantinha o seu esforço heroico, mas os esforços não tinham efeito visível no incêndio.

Ouviu-se um guincho repentino e Temperance viu, alheada, o Fantasma de St. Giles arrastar Mãe Coração-Tranquilo do interior do edifício vizinho. Era uma visão bizarra. Mãe Coração--Tranquilo lutava como uma loba enraivecida, mas o Fantasma prendia-lhe o braço com uma mão, imobilizando-a sem esforço. Empurrou-a na direção de St. John, usando um dedo enluvado para apontar primeiro o lar em chamas e, logo a seguir, a mulher que gritava, como se qualquer um deles precisasse de uma explicação. A expressão de St. John tornou-se mais grave e chamou dois peões próximos para o ajudarem a imobilizar a assassina.

A seguir, o Fantasma de St. Giles limitou-se a avançar entre a multidão. Ninguém tentou travá-lo.

Temperance não se importou.

– Tenho de entrar – disse, não se dirigindo a ninguém em particular, e começou a avançar, descobrindo que uma mão firme de Winter lhe prendia o braço.

– Solta-me. – Voltou-se para ele, com expressão de súplica.

Conseguia ver-lhe as lágrimas nos olhos.

– Não, irmã. Tens de ficar aqui.

– Mas morrerá queimado – sussurrou ela, voltando-se para as chamas. – Morrerá queimado e não sei se aguentarei.

Winter não disse mais nada, mesmo quando Temperance caiu de joelhos. Estava derrotada, sobre o empedrado lamacento, vendo o seu amor morrer. E era o seu amor. Sabia-o, apesar de ser demasiado tarde para lho dizer. Caire era simultaneamente mais forte e mais vulnerável do que qualquer homem que alguma vez tivesse conhecido. Via as suas falhas, via a sua raiva e a sua avidez sexual, via a forma como fingia ser alguém melhor do que era realmente, e não se importava. Era estranho. Sempre pensou que amaria alguém que visse apenas o que tinha de bom quando, afinal, o homem que amava era alguém que via tudo, o bom e o mau.

E era demasiado tarde.

Sentia a garganta dorida e percebeu que gritava, tentando arrastar-se para diante. A mão de Winter segurando-lhe o braço impedia-a.

No momento seguinte, viu uma forma pequena passando pelo fumo e pelo fogo. Mary Whitsun emergiu do lar em chamas como um milagre. Viu Temperance e correu para ela. Temperance abraçou-a, chorando e beijando-a na face, apertando-a tanto por mágoa como por alegria.

Até Mary Whitsun erguer a face marcada pelas lágrimas.

– Lorde Caire ainda está lá dentro. Veio buscar-me, mas empurrou-me pelas escadas baixo. Ainda está lá dentro.

Algo cedeu dentro dela enquanto a fachada do lar se desmoronava.