Parece que fico pensando em Estelle na maior parte do tempo. É como se alguém tivesse mudado as minhas configurações para “Estelle” sem a minha permissão, ou se ela tivesse se tornado a imagem de proteção de tela do meu cérebro. O desejo se misturou com um sentimento nobre (totalmente extraterrestre) de querer oferecer a Estelle só o melhor de mim. O que complica, porque não sei o que existe de melhor em mim. Mas precisa ser mais do que isso aqui que está rolando agora.
Toda essa agitação e eu ainda nem falei com ela. O que ela vai achar de mim? Do meu eu meio loser? Do eu-tentando-esconder-que-sou-nerd?
Mas é pior do que não conseguir ser legal. Ainda por cima, estou passando por uma fase transitória meio esquisita. Não é que eu seja feio, tenho certeza de que não sou. Sou alto e mais para magro. E cresci bastante ultimamente, mas ainda não encorpei. Pedi para minha mãe comprar proteína em pó, mas com o orçamento da família no zero, a reação não foi nada positiva. E mais: minha experiência com meninas não é muito grande, ou, para falar a verdade, é zero. Eu nunca beijei uma menina. E tenho quase 15 anos.
Minha mãe me dá o saco de papel com meu almoço dentro, e olha para cima. É, agora sou mais alto que ela, que me diz, preocupada:
– Seja você mesmo.
Eu mesmo. Eu mesmo? E eu sei lá quem é esse? É como se eu fosse uma bolha sem forma, tentando parecer alguma coisa. No entanto, conheço bem as características que não estou a fim de compartilhar com um bando de estranhos.
Não quero ser julgado, nem que alguém tenha pena de mim; só quero ficar pianinho enquanto vejo o que vai rolar ao meu redor.
A minha antiga escola tinha a variedade normal de grupos de atletas, gente que estuda muito para passar, nerds, um povo mais punk e as turminhas mais legais. E também o pessoal que não se enquadrava em nenhum deles, como eu. Tecnicamente, eu me qualificava para o grupo dos nerds, mas não estava a fim de ficar preso a eles.
Ficar de fora não é uma característica muito social, então foi sorte ter me tornado amigo de Fred.
Você provavelmente está pensando: se sou tão inteligente, então por que tive de sair da escola? Será que eu não tinha bolsa? Eu tinha, mas a bolsa só cobria metade da mensalidade. Minha mãe chegou lá para explicar a situação da família e ver se eles me dariam uma bolsa integral. Mas eles disseram não.
– Quem saiu perdendo foi a escola – ela disse. Mas vi que ela ficou arrasada.
O diretor disse que eles não podiam dar uma bolsa integral para um cara que passava meio despercebido. Ele devia estar falando da minha falta de talento para o esporte. Além disso, essas escolas particulares querem que você contribua para a “vida escolar”, tipo aulas de música e debates. E eu nunca fui de falar muito na escola.
Cheguei cedo demais. Ficar andando por aqui é um castigo. Não conheço ninguém. Estou me sentindo um limão na banca de maçãs da feira. Estou com vontade de dar meia-volta e ir para casa. Mas me seguro. Nem sempre as pessoas conseguem uma segunda chance. Posso ser quem eu quiser. “Tímido”, “brega”, “nerd”. Posso arrancar todos esses rótulos e deixar tudo para trás. Quem sabe eu consiga me enturmar? Eu posso ser uma maçã.
Ouço alguém gritar:
– Ei, idiota! Você. Idiota!
Olho para trás.
Por quê? Por que eu fui fazer isso?
O carinha que berrou e a turma dele caem na risada, histéricos.
– É, era só para ter certeza de que era você mesmo, idiota.
Eles não estão se aguentando. Mas que ótima maneira de começar o dia. Eles comemoram e dão tapinhas nas costas uns dos outros.
Não reaja. Não dê esse gosto a eles.
Acho que poderia ter sido pior: Estelle poderia ter visto isso. E, bem na hora, quando viro a cabeça para o prédio principal, lá estava ela, com duas amigas. Está na cara que elas viram tudo.
Então é o terror, e não a decepção. Estelle está na minha sala. E aquele cara idiota também. O nome dele é Jason Doyle, e seu apelido, que dá vontade de vomitar, é “Jayzo”. A sala se dividiu em grupinhos diferentes: Jayzo e sua turma, os machos-alfa; o grupinho legal com sua interpretação criativa do uniforme da escola, todos ignorando o menino novo; alguns estranhos com cara de gente boa que me recebem com um aceno de cabeça, e que pelo jeito passam um tempão colocando piercings e torturando o próprio cabelo; um bando de nerds falando sobre matemática; as loiras com cara de Miss Estados Unidos. Por que ninguém diz para elas que isso é (nem pensar) (aimeudeus) (tipo) (total) (lixo) (gay) e (cara) (fala sério) (legal) ou (sei lá)? Já estou ligado. Elas só usam umas 20 palavras intercambiáveis, o que é bem eficiente, eu acho. O último conjunto é formado pela bela Estelle e suas duas belas amigas, que flutuam sobre a plebe com suas expressões imparciais e uma conversa necessária e em voz baixa. E também tem bastante “gente-plasma”. Primeira impressão: sei lá o que tem lá dentro.
E não importa o quanto cada um deles tente ser diferente: todos os grupos têm uma coisa em comum, uma variante que eu pelo jeito pareço não ter. Na bagunça entre o toque do sinal e a entrada do professor na sala, vejo Jayzo oferecendo uma parede de músculos abdominais realmente impressionantes para ser socada. É ridículo como ele gosta de aparecer. Fico pensando na minha própria barriga reta, porém sem definição, e quase perco o ar. Tenho de fazer alguma coisa a respeito disso.
– Não, não senti nada – diz ele a Dannii, uma das meninas dos parênteses intercambiáveis. – Bate com força.
– Nem pensar. – Ela dá uma risadinha.
– O mais forte que você conseguir. Tá com medo de quê? De quebrar a mão?
Ela repete a rotina do soquinho ridículo e dá uma risadinha igualmente ridícula.
– Você é tão forte!
– Vai, mais forte. – E ele nota que estou olhando para eles. – O que você está olhando, sua bicha? Nunca viu um tanquinho assim antes?
Eu me viro para o outro lado.
– Idiota, estou falando com você.
Até parece que vou cair nessa de novo.
O professor chega bem nesse momento oportuno. Ele estuda a turma com uma cara de quem não está reconhecendo todos eles.
– Temos um aluno novo começando hoje. Quem é… – Ele dá uma olhada num bilhete. – Dan Cereal?
Alguém ri ao ouvir o nome.
– Cereill – respondo. – E se pronuncia “surreal”.
Ele toca o bigode cortado rente com a ponta da língua e me mede de cima a baixo. Será que gosto de me meter em confusão? Será que estou tirando uma da cara dele? Ele não consegue decidir.
– Se você prefere, então é Cereill.
Sim, prefiro que meu sobrenome seja pronunciado corretamente. Mas devo ser louco, pelo jeito.
Ele faz o restante da chamada com a voz nasalada. As amigas de Estelle se chamam Uyen Nguyen e Janie Bacon.
Minhas falhas na vida social vão além de nunca ter beijado uma menina e ter uma barriga sem músculos. Nem sequer conheço uma menina. E mesmo no ensino fundamental, quando eu conhecia algumas, eu nunca estava na mesma sintonia que elas.
Eu era tímido, e a minha mãe me dizia “você tem de participar”. Mas não deu muito certo. Ainda fico com vergonha ao me lembrar dos meus piores micos. No quinto ano, eu estava ao lado de uma menina de quem gostava, preparando-me para dizer alguma coisa, qualquer coisa, quando ela começou a conversar comigo.
– Tem um garoto que eu adoro de verdade – sussurrou ela. A gente tinha de desenhar um mapa das áreas dos parques nacionais no Território do Norte.
– Tem um Garoto que eu adoro também – retruquei, participando. – É aquele bombom de chocolate branco com a embalagem amarela e vermelha. Acho que só vem um em cada caixa.
– Estou falando de um menino, não de um bombom. É um amigo seu.
– Ah, é? Quem?
Mas estava na cara que o momento “confissões” chegara ao fim.
– Esquece.
Ela virou as costas para mim, apontando os joelhos para o corredor da sala. Ela não conseguia acreditar como eu fora imbecil. Nem eu.
Bom, o negócio só piorou desde então.
E agora meu plano de evitar o status de nerd e refugiado de escola particular está indo para o brejo com apenas um comentário sem noção do professor.
– Seu histórico escolar na Gresham é impressionante, Sr. Cereill. Espero que sua presença na aula de matemática seja uma inspiração para todos nós.
Talvez, quem sabe, se eu não disser absolutamente nada na aula, ainda haja uma chance de ficar pianinho nessa escola. Faço cara feia e fico ainda mais corcunda na minha cadeira. Alguém atrás de mim dá um chute tão forte no encosto que sinto minha coluna tremer.
As principais diferenças entre a minha antiga escola e a nova são de aparências. Minha escola antiga vivia empanturrada com gerações de mensalidades e doações para financiar melhorias e consertos que não acabavam nunca; assim, as aulas de música, os apitos dos juízes e as bolas de tênis quicando sempre vinham acompanhados pelo barulho incessante da furadeira. Os prédios dessa escola são acabados e têm um cheiro que me faz pensar que a limpeza não é lá essas coisas. Não tem muito espaço ao redor deles e o campinho é careca e cheio de lama, cercado de arame farpado, decorado com ervas daninhas e lixo. Eles já desistiram de limpar as pichações da fachada. E o sinal é uma sirene bem alta, que me faz sentir como se estivesse prestes a levar um tiro.
Consegui viajar tanto na aula de matemática que, quando o professor me fizer uma pergunta, eu sinceramente não saberei a resposta.
Ao sair da sala, na hora do almoço, Jayzo joga o corpo de lado contra o meu, arremessando-me contra uma fileira de armários do mesmo jeito casual que os atletas valentões da minha antiga escola faziam. Imbecil.
Eu sento sozinho lá fora. Uma menina nerd me convida para ir lá sentar com o grupinho dela, mas eu lhe digo que está tudo bem. Estou mentindo. Não estou nada bem. Estou o oposto do bem. Não consigo me sentir confortável nem para engolir.
Quando um aluno novo chegava à minha antiga escola, ele ganhava um orientador para cada tipo de atividade, era apresentado a todo mundo, matriculava-se em coisas para fazer depois da aula, ou seja, era integrado à força, e depois totalmente monitorado. Aqui, parece que estou sozinho mesmo. Isso quer dizer que será difícil mudar de imagem a não ser que eu converse com as pessoas. As únicas coisas que elas devem saber sobre mim são: alto, às vezes atende por “idiota”, fica quieto na sala, faz cara feia, fica corcunda na cadeira, seu sobrenome se pronuncia como “surreal”, e não “cereal”, mastiga de boca fechada.
Acho que seria mais fácil tatuar loser na testa e acabar com isso de uma vez por todas.
Depois da aula, passo andando por entre o pessoal berrando e se empurrando para sair, e vou para a casa de Fred. Ele mora bem no meio do caminho entre a escola e a minha casa. A Plano B e o Gazela trabalham na universidade. Fred é o único cara da minha antiga turma que ainda mora neste lado da cidade.
Depois de um dia dessa mudança impossível de imagem – que, no final das contas, se resumiu à pessoa aqui tentando parecer ser legal (e eu não sou) –, é um alívio ir para a casa de Fred, que gosta de mim mesmo quando estou esse caco.
Ao chegar lá, interrompo sem querer o showzinho “Fred x Madrasta: o tratamento para acne”.
– Mas não está melhorando; eu quero os remédios mais pesados – diz Fred.
– Mas você tem de dar um tempo para o creme funcionar – diz a Plano B.
– Por que a gente não pode andar logo com isso? Ir direto ao ponto?
– A gente está fazendo exatamente o que o dermatologista recomendou. E ponto final.
Fred muda de tática.
– Tenho certeza de que a minha mãe concorda comigo.
– Não comece, Fred. Sua mãe, seu pai e eu vamos conversar; não quero saber de chantagem emocional.
– Mas a injustiça já começa aí. Eu sou o único filho de pais separados que não pode fazer chantagem.
– Eu também! – digo. – Também não posso fazer chantagem.
– Como vai o negócio da sua mãe, Dan? – pergunta a Plano B.
– Ela ainda está testando as receitas. Mas vai visitar o primeiro cliente hoje.
– E o cheiro da casa, já saiu?
– Eles iam dar um jeito hoje.
– E a temperatura?
– Ainda é uma geladeira. – Faço cara de dó, e dá certo. Ela me oferece um muffin.
– Mande um abraço para ela. E você – ela diz, olhando para Fred –, leve seu casaco e aproveita para cortar o cabelo, já que vai sair mesmo.
– A que horas o Gazela chega em casa?
– Ele chega lá pelas sete e eu queria tanto que você parasse de chamar seu pai assim. Ele está tentando emagrecer – ela diz.
Passamos pelas lojas a caminho da minha casa.
Fred compra chocolate para nós. Ele sabe como andam as finanças da minha família.
– Isso aqui não é a comida favorita das espinhas? – pergunto.
– Conversinha ridícula. É tudo coisa de hormônios e genes. Eu coloco a culpa no Gazela.
Nós vamos passeando, comendo os chocolates e olhando as vitrines das lojas.
Paro bem em frente à loja de caridade Sagrado Coração. É simplesmente tudo que eu precisava: um conjunto enorme de halteres.
Eles custam 5 dólares, mas, quando Fred diz à vendedora que estou quebrado, ela me deixa levar tudo por 1 dólar. E Fred paga.
Saímos andando com os halteres na mão. Eles são bem pesados, uns cinco quilos cada um. Então vejo Estelle vindo em nossa direção. É tarde demais para tentar sair dessa.
Sinto meu coração batendo contra as costelas. Esse será nosso primeiro encontro face a face. Eu quero que seja perfeito. E sei que é mais fácil o inferno congelar. Ela me dá um meio sorriso. Ou talvez seja mais uma meia erguida de sobrancelha. Em vez de erguer as sobrancelhas de volta, eu paro e falo de uma vez:
– Isto aqui não é para mim.
– E é para quem, então? – pergunta Fred, surpreso.
– Bom, é para mim, mas eu não uso isso aqui como peso, eu uso como…
Fred finalmente se liga, antes tarde do que nunca, e vem me salvar.
– Como peso de porta?
– Isso. Peso de porta.
Ela sorri.
– Ah, tá.
Ela diz isso bem devagar, meio que pensando por que é que estou lhe contando isso. Estou pensando na mesma coisa.
Ela continua andando.
– Tchau, Estelle – digo para as costas dela.
Ela se vira.
– Como é que você sabe o meu nome?
Congelo. Não apenas sei o nome dela, como também sei que ela foi batizada assim em homenagem à sua avó que mora em Londres. Eu sei de coisas que não deveria saber.
– Estamos na mesma classe – consigo falar.
– Ah. Tá. É – diz ela, e sai andando.
– Quem é ela? – pergunta Fred com a boca cheia de chocolate e caramelo.
– Ela é minha vizinha.
– Gata.
Como sempre, meu amigo não consegue ser nem um pouco exagerado. Pelo contrário.
– Criada para partir corações? – Ele está se referindo à quase xará dela, Estella, no livro Grandes Esperanças, de Charles Dickens. A gente leu na aula de inglês avançado no ano passado.
– Do jeito que tenho sorte, provavelmente nunca vou saber.
– É, e valeu por me apresentar – diz ele.
– Ela é a minha menina impossível.
– Mais uma razão para ter nos apresentado. Provavelmente ela tem umas amigas impossíveis que seriam perfeitas para mim.
Continuamos andando, com peso nos ombros, literal e metaforicamente.