Ao chegarmos à minha casa, vemos uma mangueira enorme, prateada e suja, saindo pela porta da frente e ligada a um caminhão que está fazendo o maior barulho. Os caras do Milagres do Carpete estão fazendo sua mágica lá dentro, e entro em casa pela primeira vez sem sentir náusea.
Fred cheira tudo como um cachorro.
– Mas que melhora incrível!
Seguimos em frente naquele lugar frio e triste. Howard vem latindo para nos receber, e minha mãe emerge da parte de trás da casa com uma moça que parece ter chorado um tempão.
– Muito obrigada – diz ela, segurando a mão da minha mãe. – Eu poderia ter acabado me casando com... o meu pai.
Em resposta ao olhar-de-alerta-de-programa-de-TV-da-tarde de Fred, eu digo que ela deve estar falando do tipo de personalidade do cara, e não do seu pai de verdade.
– Volte quando encontrar seu príncipe encantado – diz minha mãe, que parece meio chorosa também.
A mulher soluça e funga porta afora.
– Não dá para ter uma confeitaria de bolos de casamento se você convence todo mundo a não se casar – eu digo.
Minha mãe ignora essa observação totalmente pertinente.
– Como foi a aula?
Fred tenta distrair a atenção dela.
– Eu só volto para a escola amanhã.
– Dan?
– Ahn.
Não satisfeita com o meu “ahn”, ela está prestes a me bombardear com perguntas irritantemente específicas, então mudo de assunto.
– Tem alguma coisa para comer?
– Claro. Amostras de bolos de casamento. Fiquem à vontade. Mas só comam os bolos mais velhos, no final do balcão. Para que é isso?
Os halteres.
– Peso de porta – responde Fred. Engraçadinho.
– Que bom. A gente bem que precisa de mais tralha por aqui mesmo. – Ela volta para a cozinha.
Fred e eu passamos pelo corredor com piso de tabuleiro de xadrez, por estantes enormes cheias de livros com capa de couro rachada, brochuras antigas e guias de viagem laranja e verde da Editora Penguin, e paredes lotadas de gravuras do século XVIII, mapas caindo aos pedaços e bordados fossilizados e emoldurados. Fred pega um livro, As Crisálidas, de John Wyndham, e quase o deixa cair, chocado.
– Que demais!
Ele me mostra o livro. Uma vespa construiu seu casulo ao longo de metade do comprimento do livro, e o ninho encaracolado e delicado grudou as páginas como cimento. Os habitantes originais foram embora há muito tempo. Uma aranha seca e leve como uma pluma fez seu próprio ninho numa das caverninhas.
– Pode ficar com ele – digo.
– Mas os livros não são do patrimônio histórico também?
– Eles já levaram todos os livros valiosos. Esses aqui não valem muita coisa, estão todos cheios de mofo.
Subimos. As cores escuras do carpete florido me lembram a ilustração de um livro de contos de fadas de algum canto da minha memória. Cada degrau da escada tem uma haste de cobre para segurar o carpete. Deve ter sido um saco para os caras do Milagres do Carpete.
Fred para e observa com atenção. Ele ainda está tentando entender o que é essa casa. Até mesmo o patamar entre um andar e outro é uma tranqueirolândia. Ele dá um passo para trás, e chuta sem querer um negócio que parece um pé de elefante, mas está cheio de bengalas e guarda-chuvas velhos.
– Que saco você não poder ficar com nada disso. Você estaria feito.
– É tipo viver cercado de muita água, água por toda a parte, e não beber nem uma gota – digo.
– Total – concorda ele.
Isso vem de um poema que a gente teve de estudar, sobre pessoas perdidas no mar, morrendo de sede, mas isso já estava na cara, né?
No meu quarto, Howard se prepara para tirar uma soneca. O processo envolve andar em círculos cada vez menores, arranhando e socando a cama dele até ela ficar no formato certo. Ele é muito específico e não relaxa até ficar satisfeito. Então, ele se enrola como um tatu-bola, solta um suspiro respeitável e começa a roncar em um segundo. Já me acostumei com os barulhos dele durante a noite, é como aquelas maquininhas que fazem barulho para ajudar a gente a dormir.
– Quando a gente veio morar nesta casa, Howard correu aqui para cima e arranhou como um maluco a porta do quarto de Adelaide. Deixamos o cachorro entrar e desde então ele sempre me segue até o meu quarto.
Howard ergue uma orelha, como sempre faz ao ouvir seu nome.
– Ele lembrou onde ficava a cama dele? Mas que beleza! – diz Fred.
– E acho que a cama dele lembra Adelaide também. É um monte de blusas de lã dela costuradas juntas.
Howard dá uma fungada mais profunda, ouvindo tudo e concordando.
– Quem é aquele cara? – pergunta Fred, olhando pela janela.
Tem um cara cheio de malas ali, e está entrando na outra casa que fica no fundo do quintal.
– Deve ser o cara do estábulo. Ele pode morar lá enquanto quiser. Como a gente aqui nesta casa.
– O patrimônio histórico deve adorar a ideia de dar um fim nele e na sua mãe.
Eu já pensara nisso.
– Já falei para ela tomar cuidado. Ela disse que essa é a última das nossas preocupações neste momento.
– De que lado Estelle mora?
– Ali, ó – digo, apontando para a esquerda.
– Ah, então você consegue ouvir quando ela está no quintal.
– É.
Ele olha para cima e para os lados.
– Você compartilha uma parede com ela – ele diz. – Pelo menos, vocês têm alguma coisa em comum.
– Ótima conversa para quebrar o gelo, Fred. Vou experimentar essa.
– Cadê o seu laptop?
– A escola pegou de volta. Você sabe que eles são só emprestados…
Dá para ver que Fred ficou se sentindo mal de ter perguntado. Ele ainda não teve tempo suficiente para se ajustar à minha vida sem grana.
– Eu estava mandando e-mails para você da biblioteca municipal quando você estava viajando.
– Isso é um saco.
– É um saco para mim – digo, tentando deixar o clima mais leve –, significa que tenho de ver você pessoalmente… e falar com você de verdade.
– E o seu celular?
– Já era. Mas, quando eu arrumar um emprego, vou pegar um pré-pago.
– Essa porta dá onde?
– É tipo um quarto de guardar tranqueira, meio armário, e para guardar a roupa de cama também.
Fred tenta abrir a maçaneta. A porta não abre porque eu a tranquei, e a chave está no meu bolso.
– Está emperrada – minto. Howard dá uma bufada. Mesmo semiconsciente, ele está de olho em mim. Como é que pode?
Fred vai embora para fazer a lição de casa das férias, mastigando um pedaço de amostra de bolo de casamento, é a única coisa que tem aqui para a gente beliscar, e eu volto lá para cima e me sinto mal, de novo, por causa da minha visita ao sótão.