Tudo aconteceu uma semana antes, quando minha mãe estava tendo um ataque por causa de “roedores” e da inspeção da vigilância sanitária, que estava próxima, e que decidiria se ela poderia ou não entrar em ação com o negócio dos bolos.
Nós dois tínhamos ouvido uns barulhos estranhos durante a noite, e apesar de mais parecer barulho de gambá ou de gato que de rato, em minha opinião, eu disse a ela que ia ver o que estava rolando. Naquela noite eu sonhei com vigilantes sanitários rabugentos, ratos enormes vestindo terno e carregando prancheta, pisando nos ratinhos felizes do sótão que tinham ido fazer uma festa na cozinha, e acordei com um barulho de algo sendo arranhado, seguido por um tum vindo lá de cima. Parecia que alguma coisa caíra no chão, e senti meu cabelo arrepiar-se na nuca. Enfiei a cabeça debaixo de um travesseiro, mas aquela arranhação começou de novo. Eu me sentei na cama e encarei a escuridão com a minha lanterna. O vento entrava rasgando pelas frestas da janela, mexendo as cortinas de leve, dando a impressão de que estavam respirando. Tremi de frio e de medo e percorri o quarto com o facho de luz mais uma vez.
Tinha alguma coisa escura perto da porta. Howard fora o responsável por aquela arranhação toda. Vesti um moletom, resmungando mas feliz por levá-lo para passear; é melhor do que ter de limpar alguma coisa biológica no dia seguinte. Além disso, prometi a Howard que ele nunca teria de passar pela indignidade de mijar dentro de casa de novo.
Quando passamos pelo patamar no meio da escada, ouvi outro tum lá em cima.
Na noite seguinte, depois do jantar, quando minha mãe estava totalmente concentrada em sua pesquisa sobre marzipã, entrei no quarto de guardar tranqueira e subi a escada presa à parede que dava num buraco no teto. Quatorze degraus, daqueles arredondados, à moda antiga. E eles machucaram os meus pés, mesmo eu estando de tênis. A escada ficava a apenas uns seis centímetros da parede. Quando cheguei lá em cima e abri o ferrolho emperrado, alguma coisa estava fazendo peso sobre a portinhola. E ela não se mexia por nada neste mundo. Empurrei com toda a força, com o ombro e a cabeça, e ouvi o barulho de alguma coisa pesada caindo no chão do sótão.
Congelei. Alguém tentara bloquear minha entrada no sótão. Fiquei ali imaginando um caleidoscópio de possibilidades terríveis – psicopatas, ratazanas famintas, fantasmas de criancinhas com olhos vidrados, sorrisinhos malvados e tesouras afiadas nas mãos… um vampiro-fantasma? Mas isso seria ridículo. Fantasmas não comem nada. Teria de ser uma coisa ou outra. Chega. Dei-me um tapa mental, comecei a respirar de novo e me aventurei mais um degrau acima para dar uma olhada.
Passei o facho de luz da lanterna ao meu redor. Nada passou correndo, nem pulou da escuridão em minha direção, então me ergui e fiquei de pé no sótão.
Como o restante da casa de Adelaide, aquele espaço era grande, empoeirado e cheio de tranqueiras – um monte de baús e caixas de madeira para guardar coisas. Uma caixa de livros que estava bloqueando a portinhola caíra de lado – e os livros caíram no chão, claro. Mas quem colocara aquela caixa ali? Andei ao redor, checando entre os baús e alguns móveis. Quem quer que fosse que colocara a caixa ali usou outra abertura para sair do sótão, ou ainda estava por ali. Senti minha pele se arrepiar.
Devia existir outra saída para o andar de baixo da casa. Eu a encontrei escondida atrás de uma cômoda enorme de canforeiro, e havia uma caixa pesada demais sobre ela. Procurei muito, mas não consegui achar um terceiro ponto de acesso para o andar de baixo. Aquilo estava me deixando nervoso. Apontei a lanterna para cima e olhei para a janelinha no telhado. Era uma janelinha redonda que podia ser vista lá da rua, porém não conseguia imaginar ninguém saindo por ali.
Quando o facho de luz atingiu a parede que separa a casa da casa vizinha, notei um vão entre os tijolos, mais ou menos da largura de uma porta e metade de sua altura, bloqueada do outro lado. Aquela parede separa o nosso sótão do sótão de Estelle. Ao olhar mais de perto, vi que o vão estava bloqueado por umas caixas de papelão dobradas. Empurrei de leve, e elas caíram, fazendo um pouco de barulho. Segurei a respiração, mas não houve reação alguma ao barulho, então me agachei e engatinhei pelo buraco.
Aquilo ali não era lugar de ratazanas, gambás ou fantasmas. À primeira vista, dava para ver que pertencia a uma menina. Estelle. Chequei mais uma vez, para ter certeza de que não ouvia barulho algum, e olhei ao redor com a lanterna. Meu coração parecia que ia sair pela boca. É claro que eu estava invadindo a casa da vizinha, e não estava apenas na propriedade de outra pessoa, aquilo era um espaço muito reservado. Apesar de tudo isso, eu não podia nem pensar em sair dali antes de dar uma boa olhada. Não foi uma decisão consciente; eu simplesmente me deixei levar.
Havia velas por toda a parte – num par de candelabros enormes de prata no meio do quarto, no chão e em suportes altos de cristal ou de vidro colorido. Havia um ninho enorme feito de cortinas de brocado, almofadas desbotadas e colchas de retalhos com padrões intrincados. Ao lado dele ficava uma pilha de livros e um tapete de lã angorá.
Sobre uma pequena escrivaninha ficava um peso de papel de vidro, um armário chinês em miniatura com acabamento de laca preta contendo painéis incrustados de marfim e pintados a mão – não consigo mais parar de catalogar as coisas, por causa do tempo que passei com Posy –, alguns cadernos ou diários muito antigos repletos de anotações numa caligrafia delicada, uma boneca de porcelana vestida de marinheiro francês, alguns livros de exercícios e canetas e um tinteiro esculpido em jade verde-claro. Xales de seda bordados cobriam as paredes. Estelle dera nós nas pontas dos xales e os pendurara nas paredes com tachinhas. Tapetes persas cobriam quase totalmente as tábuas sem verniz do piso de madeira. Algumas das velas deveriam ser perfumadas, porque aquele lugar cheirava a baunilha e a alguma coisa picante.
Abri algumas das gavetas do armário – alguns pirulitos, contas, pompons de seda para cortina, canetas e três besouros dourados mortos, daqueles que surgem no período do Natal.
O barulho de alguém fechando uma porta com toda a força me fez desligar a lanterna e ficar escutando como se eu fosse um ouvido gigante.
Era Estelle, cantando alto, como as pessoas fazem quando estão ouvindo música no iPod. Ela canta bem.
Então ouvi mais alguém, apesar de Estelle obviamente não estar ouvindo nada.
– Estelle, Estelle! Estelle! – Tum, tum, tum, tum, tum.
Aquilo deve ter acabado com o transe, porque Estelle disse:
– O quê?
– “Sim, mãe” – corrigiu a pessoa.
– Sim, mãe. O que foi?
– Vai passar um documentário legal daqui a pouquinho sobre arte no início da Renascença.
– Passo.
– Queria tanto que você falasse frases completas.
– Não estou interessada no documentário.
– Mas como você sabe antes de ver pelo menos um pedacinho?
– Instinto.
Ela deve ter colocado os fones nos ouvidos de novo, porque a mãe dela aumentou o volume para perguntar:
– Como é que você consegue estudar com essa coisa ligada?
– Não estou estudando. Estou de férias…
Então a mãe deve ter ido embora, fechando a porta atrás de si.
– … sua vaca – completou Estelle.
– Eu ouvi isso.
– Essa mulher deveria ganhar a medalha de audiologia geriátrica – disse Estelle.
– Ouvi isso também – retrucou a mãe, do outro lado da porta.
– Bom, se você saísse daqui não ouviria mais nada!
– E, se você continuar ouvindo essa coisa nesse volume, não conseguirá escutar mais nada quando chegar à minha idade.
– Bela merda!
– Chega! Você está de castigo! Você não pode usar esse tipo de linguagem comigo!
– Eu não sabia que você ainda estava aí. Você ainda está aí?
– Para lembrá-la de que você deveria estar fazendo a sua lição de casa. Se for assim, nem sei por que estou gastando esse dinheiro todo com as aulas de francês.
– Então pode parar. Não fui eu quem pediu.
Pelo jeito, a mãe dela desistiu e foi embora.
Havia luz o bastante entrando pela janelinha redonda para que eu conseguisse sair do sótão sem tropeçar em nada. Mas então havia o problema das caixas de papelão. Fora fácil empurrar tudo e passar por elas, mas como fazer a manobra ao contrário? Empilhei as caixas e as deixei apoiadas contra a parede. Engatinhei até o meu sótão e tentei puxar as caixas de volta para tapar o buraco, no entanto era impossível. Eu precisava de um barbante. Liguei a lanterna e comecei a procurar. Achei um pedaço comprido de uma cordinha presa a uma cortina dobrada. Eu a arranquei dali e a levei de volta para o vão na parede. Passando por ele de novo, amarrei a cordinha ao redor das caixas. Assim, ao passar de volta pelo vão, eu poderia puxar as caixas e deixar tudo na posição original, e então tirar a corda com cuidado e puxá-la de volta para o meu lado. Fiquei escutando, não caiu nada. Enrolei a cordinha e a deixei ali no chão, para a próxima vez.
Eu provavelmente deveria ficar preocupado por estar planejando espiar de novo, e sem um pingo de culpa. Como aquilo se encaixava em tentar ser uma boa pessoa? De maneira alguma, pelo jeito. Deixei o assunto na lista de coisas com que me preocupar depois.
Notei uma caixinha de papelão minúscula no chão ao lado da parede. Eu tinha visto algumas no lado de Estelle também. Peguei a caixa: “Veneno. Manter fora do alcance de crianças e animais. Dedetização é o nosso negócio. Veneno para roedores. Não manusear”.
Os pais de Estelle devem ter mandado dedetizar o lugar. Voltei lá para baixo satisfeito com a descoberta do sótão.
Rolou mais uma visita ao sótão. Mas é sobre essa que eu não posso falar.