Capítulo 9

Depois que Fred foi embora, vim aqui para baixo de novo, ainda com fome e fuçando em busca de comida. Sei que tem a ver com o fato de eu estar crescendo tanto, mas não existe um momento do dia em que eu não teria o maior prazer em devorar uns hambúrgueres ou tortas de carne se estivessem dando mole por aí.

– Não tem nada para comer.

– Tem pão. E frutas.

– Mas não tem nem uma fruta boa. Aquelas maçãs estão prontas para virar adubo – resmungo, com meu mau humor induzido pela fome. – E não tem nenhum biscoito de chocolate, nem muffin, nem batatinha, nem biscoito salgado.

– Mas agora eles são um luxo, sinto dizer.

– A gente não tem nem mais comida que sobra da véspera! – Fecho a geladeira com força.

– É porque agora a gente come aquilo que compra, e não está sobrando nada no nosso orçamento para jogar comida boa no lixo.

Agora ela está ficando nervosa, ou com raiva, então fico esperto antes que isso vire uma discussão.

Olha só aonde a nossa vida veio parar. Estamos presos no iceberg dos itens básicos, vendo todas as coisas gostosas passando pela gente a bordo do iceberg dos supérfluos. Antigamente eles navegavam juntos. Quando ela sugere que a gente faça barrinhas de cereal, eu concordo com uma empolgação falsa, mas a fome é verdadeira. Não é muito difícil. É só misturar aveia, açúcar, farinha e coco ralado com um pouco de manteiga derretida e mel – mas a gente usa xarope de milho porque é mais barato –, colocar a mistura numa assadeira e botar no forno.

– O seu pai ligou.

Não respondo.

– Eu entendo como você deve estar se sentindo, mas pelo menos faça um esforço para manter contato com ele. Outros pais já teriam desistido há muito tempo com esse silêncio todo.

Como é que ela pode entender o que estou sentindo? Eu é que não entendo. Porém não posso pedir uma explicação milagrosa – essa conversa não acabaria nunca. Compartilhar situações de adversidade deveria ser uma experiência para nos aproximar, mas ainda não rolou.

– Se ele quisesse tanto me ver, então teria vindo para esse cafofo com a gente.

Ela coloca o braço ao redor do meu ombro e me dá um apertão. Levanto o cotovelo para que ela não consiga se aproximar mais.

– Ele está tentando.

– É culpa dele você ter de fazer tudo isso – digo para ela, olhando ao redor da cozinha –, os contêineres industriais de farinha e frutas secas, o forno megalargo, a variedade de assadeiras que um dia produzirão andares e mais andares de bolo de casamento.

– Eu não me importo. Sou uma ótima cozinheira. E encontrei um nicho com um bom preço e alta margem de lucro para me especializar. Tenho experiência em marketing. O banco tem fé suficiente em mim para me dar um empréstimo. Está tudo sob controle.

Dá para ver como ela está relaxada.

Ela ainda está correndo para lá e para cá movida pela adrenalina pós-separação. A ficha ainda não caiu. Infelizmente, vou ser o único por perto para dar uma força quando isso finalmente acontecer. Eu já procurei no Google. Ela precisa expressar sua raiva para que isso não a leve ao transtorno de estresse pós-
-traumático, que se manifesta em ansiedade, depressão e, por fim, abuso de substâncias químicas.

Ela fica de olho enquanto engulo metade da fornada das barrinhas de cereal.

– Você precisa expressar sua raiva – digo.

– Mas a que isso levaria? – ela me pergunta, sorrindo por algum motivo.

Não quero mencionar o risco de abuso de substâncias químicas – vai que a conversa piora –, então mudo de assunto.

– O que tem para o jantar?

– Curry de legumes e grão-de-bico e arroz.

Resmungo por dentro. Ela sempre faz um panelão disso. É nutritivo, substancioso e barato. Essa é a palavra-chave. Mas estou cansado de olhar para aquilo, sentir o cheiro daquilo, o gosto daquilo. Macarrão à la quase-nada e sopa com um monte de pão são os novos pratos da casa. Bifes suculentos, carne assada de sobra para fazer sanduíches depois e comer fora uma vez por semana são lembranças de um passado distante.

Ela fica me encarando com aqueles olhos de raios X bem na hora em que embarco numa expedição nostálgica pelas minhas comidas favoritas, que a gente ia buscar naqueles restaurantes “para viagem”:

  1. 1) Pizza margherita.
  2. 2) Sanduíche de almôndegas.
  3. 3) Nachos. Mas sem creme de leite.
  4. 4) X-tudo com tudo. Menos beterraba.
  5. 5) Macarrão tailandês com frango.
  6. 6) Peixe frito com batata frita.

– Mas, então, como é que foi na escola, de verdade?

O peixe frito com batata me pega de surpresa e tenho de engolir as lágrimas ao lembrar-me do cheiro de vinagre, da sensação de rasgar o pacote de papel quentinho, os pinheiros ao redor do parque, o píer, meu pai… Quantas vezes a gente fez aquilo?

– Foi tudo bem.

– Já conversou com alguém?

– Não.

– Você vai fazer amizades, Dan.

– Isso é uma ordem?

Ela prefere ignorar minha falta de educação.

– Fica difícil conhecer alguém se você não conversar.

– Na verdade, eu estava planejando me comunicar apenas com o poder das minhas ondas cerebrais. Acho que vou ter de arrumar outro plano – digo. Isso é ridículo, mas não tive tempo de editar antes de falar.

Ela me responde com os lábios tensos e estreitando os olhos, e um olhar “você está sendo difícil, mas estou guardando minha raiva para os assuntos mais importantes”.

Sou salvo pelo gongo – ou melhor, por alguém batendo à porta dos fundos. É o cara dos estábulos. Parece que ele tem quase 30 anos, ou seja, dez menos que a minha mãe. Ele tem um leve sotaque londrino – que parece coisa do passado, mas que faz questão de manter porque parece legal. Um idiota, está na cara.

Enquanto eles se apresentam – o nome dele é Oliver –, ele admira a reforma que minha mãe fez na cozinha.

– Nossa, Julie, eu nem teria reconhecido este lugar. Posso sentir que vai dar muito certo.

E por acaso ele é vidente? Lê bola de cristal? É o médium dos bolos de casamento?

– Então, são só vocês dois aqui? – ele pergunta.

E o que ele tem com isso? Será que está pensando em alugar os quartos vazios?

Minha mãe faz que sim com a cabeça.

– Rob e eu nos separamos recentemente.

Ah, não, nada de ficar abrindo o coração agora.

Pausa desconfortável.

– Espero que vocês não se importem comigo morando ali – diz Oliver. – Fico me sentindo um intruso.

É isso aí, amigo.

– Imagine. Por favor, nem pense nisso. Adelaide adorava Lettie. E também tinha muito carinho por você.

– O carinho era mútuo. Ela foi uma mulher incrível.

Acho que vou vomitar.

Oliver olha para mim.

– Lettie era a minha avó.

– Tá – digo. E eu com isso? O que ele ainda está fazendo aqui? Tentando amaciar o coração da minha mãe? Dar um upgrade nas acomodações e se mudar dos estábulos para a casa grande? Tento descobrir que tipo de trabalho ele faz ao examinar suas roupas. Ele está usando jeans de uma cor estranha, meio azul com preto, uma blusa de lã verde de mangas compridas demais, que cobrem até a metade de suas mãos, e botas pretas de montaria, com um elástico vermelho. Cabelo loiro liso repartido de lado, óculos com aros de metal sem graça… estou entre cineasta e arquiteto.

– O que você faz? – pergunto.

– Sou analista de tendências e faço previsões.

– E o que é isso mais exatamente?

– Dan. – Sei que é a bronca do “tom rude na voz”, mas dá para ver que Oliver é confiante demais para se sentir ofendido.

– Eu vou para a cidade, passo um tempo andando pelas ruas e em baladas e bares, vendo e falando com as pessoas para ver o que elas estão vestindo, comendo, bebendo, discutindo, ouvindo, que brinquedos e eletrônicos estão usando. E então eu gravo algumas cenas, tiro algumas fotos, faço um relatório e mando para agências de publicidade e os clientes delas. Depois de fazer uma apresentação sobre isso, vou para algum lugar diferente. Então, eu basicamente ajudo publicitários a seguir os passos dos consumidores.

– Que emprego divertido – diz minha mãe.

Parece legal mesmo, mas esse cara já está impressionado o bastante consigo mesmo; não preciso entrar para o fã-clube.

– Vou levar o cachorro para passear – digo.

Howard fica de pé num segundo e vai andando devagar até a porta dos fundos. Ele parece um pouco irritado. Rabo para baixo. Mas os cachorros não estão sempre prontos para dar uma volta, a qualquer hora do dia ou da noite?

– Olha só, ele deve saber o que “passear” quer dizer – diz minha mãe.

– Howard sabe de muitas coisas – Oliver comenta, passando a mão no cachorro.

O rabo de Howard vai para cima de novo. Ele balança a cabeça e faz uma pose, todo altivo – quer dizer, tão altivo quanto um cachorro pequeno consegue.

Estou levando Howard para passear por vários motivos. Também espero encontrar Estelle na rua. Meia hora depois, num frio de arrepiar até o tutano dos ossos, ainda não há nem sinal dela. É estranho como a gente pode se sentir aliviado e arrasado ao mesmo tempo. Vou em direção à rua cheia de lojinhas – preciso arrumar um emprego. A maioria dos negócios na rua são cafés e lojas de comida gourmet, tipo massa feita em casa, verduras orgânicas, algumas lojas de roupas e uma galeria de arte. Então vem a loja da instituição de caridade, outra de ferragens e uma banca de jornal. Um bonde faz um barulho agudo e penetrante na esquina enquanto amarro Howard no pé de um banco e me preparo para entrar na loja da instituição de caridade para pedir emprego. Nem posso acreditar quando eles me contratam logo de cara: terças e quintas depois da aula. Fácil!

Estou indo para casa quando pessoas começam a sair aos montes por uma porta alta entre duas lojas. Elas parecem ter a minha idade e conversam sem parar. Noto que elas são deficientes, a maioria tem síndrome de Down, acho eu. E Estelle vem andando atrás delas, caminhando ao lado de uma menina, segurando a mão dela.

O sorriso de Estelle deve ter um quilômetro de largura. Ela tem cabelo castanho-claro e muito liso, repartido no meio e preso atrás das orelhas. O cabelo dela é tão brilhante! Ela deve lavar a cabeça todos os dias. As orelhas dela são bonitas. Os olhos são azul-escuros ou cinza. Ainda não tive tempo o bastante para olhar direito.

Quando ela me vê, seu sorriso diminui um pouco – dá para ver –, mas ela não pode me ignorar. Estou no meio do grupo, e esse pessoal está andando e brincando, despedindo-se – eles não têm pressa alguma. Estelle está presa. É provavelmente a única razão para ela me dizer “oi”.

– Quem é você? – pergunta a menina ao lado dela.

– Phyllis, esse é o… desculpe, é Dan, né?

– Dan, isso – respondo. “Danisso”? Dá nisso? Mas o que é isso? Isso não é nada bom.

– Ele acabou de se mudar para a casa ao lado da minha – explica Estelle, provavelmente torcendo para que fique bem claro para Phyllis que essa é a única razão pela qual ela está falando comigo.

– A casa de Adelaide? – pergunta Phyllis.

– Isso mesmo – digo. Ai, como eu sou idiota. Por que eu não consigo simplesmente dizer “é”?

Agora eu mais pareço um apresentador de programa de TV.

– Ela morreu na cama dela – diz Phyllis.

– É. – Agora consigo soltar um “é”, mas totalmente fora de hora. Isso me faz parecer insensível, o tipo de cara que não está nem aí para onde uma velha morreu.

Fico desesperado para prolongar e, de preferência, melhorar a qualidade do meu tempo com Estelle, então ofereço um pouco de informação, o que não é nada fácil para mim.

– Acabei de conseguir um emprego.

– Onde? – ela pergunta.

– Na loja da instituição de caridade.

– Trabalho voluntário – diz Phyllis. – Que legal você ajudar.

É óbvio, mas nem me liguei. E não é a primeira vez. É claro que aquela loja não paga ninguém. Para alguém que deveria ser inteligente, acabei de receber o prêmio “maior idiota de todos os tempos”. Sinto meu rosto ficar vermelho de tanta bobeira, e espero que passe com o efeito do vento gelado.

– É, eu acho muito importante fazer algum tipo de, ahn, contribuição. Também estou procurando trabalho pago, se souber de alguma coisa.

– Vamos ficar de olho – responde Estelle. Ela está prestes a ir embora, e faço um segundo esforço hercúleo para mantê-la por perto.

– Onde é que vocês estavam ali? – Isso está me matando; parece que estou aprendendo a falar agora.

– É um programa para quem gosta de artes – explica Phyllis. – Os artistas trabalham com a gente, lá em cima. – Ela aponta para o primeiro andar, acima das lojas. E, então, presumindo minha próxima pergunta, ela completa: – Eles não estão precisando de ninguém.

– A não ser de mim – diz Estelle –, mas é trabalho voluntário também.

– Vocês se conheceram lá?

As duas caem na risada.

– Não. No ensino fundamental – diz Estelle.

– Você sabe o que aconteceu com o cachorro de Adelaide? – pergunta Phyllis.

Aquilo me atinge como uma frigideira gigante nos desenhos, deixando-me atordoado.

Howard! Eu me esqueci totalmente dele. Ele ainda está amarrado ao banco do outro lado da rua – se eu tiver sorte. Isso se ele já não foi levado pela Sociedade Protetora dos Animais, ou sequestrado.

– Ele meio que veio com a casa. E eu o deixei lá do outro lado da rua. Preciso ir – respondo rápido e saio correndo, quase atropelando um ciclista, que não poupa palavrões no seu caminho.

Que alívio ver o velho Howard ainda sentado ali, com uma paciência de Jó. Ele dá um latido agudo enquanto o desamarro.

– Eu sei, eu sei. “Guia para idiotas sobre como criar cachorros: leve o cachorro para passear, porém o leve de volta para casa”.

Geralmente é o humano que treina o cachorro. Mas, quando Howard abana o rabo, sou eu quem responde na hora e tenta lembrar-se da lição para a próxima vez.

Estelle e Phyllis estão indo embora, e eu perdi a chance de caminhar um pouco com elas. Apesar de que, graças ao meu jeito tranquilo, eu provavelmente não conseguiria lidar com a situação de andar lado a lado com duas meninas e mais um cachorro na coleira, caminhando e falando ao mesmo tempo sem tropeçar em alguém – incluindo eu mesmo.

Howard e eu seguimos desanimados para casa, e fico de olho nas vitrines em busca de um emprego de verdade. O único anúncio é na loja de roupas e diz “indispensável experiência em varejo”. A Sra. Nelson, da loja de caridade, acena quando passamos pela vitrine de novo. Faço um tchauzinho de volta, sentindo-me o maior idiota do mundo.

Quando chegamos em casa, minha mãe e Oliver já parecem bem à vontade, com uma garrafa de vinho quase vazia sobre a mesa. Ele deve ter trazido o vinho, já que é um artigo de luxo. Pela maneira como ele olha para mim – com compaixão, compreensivo (por que todo mundo acha que entende o que está rolando?) –, dá para perceber que ela já contou tudo sobre a catástrofe da família. Mas o que ela está pensando? A gente nem conhece esse cara. Depois de anos me enchendo do maior medo, será que todo o conceito do perigo que envolve falar com estranhos não significa mais nada para ela? Será que eu é que tenho de me preocupar com tudo nesta casa? Não e sim, pelo jeito. E o que aconteceu com a noção de privacidade? Coisas que são assunto meu, e que eu posso não estar a fim de compartilhar com o mundo todo? Já era.

Mal posso acreditar no que estou ouvindo quando ela o convida para jantar. Ainda bem que ele tem outro compromisso. O que meu pai acharia disso tudo? Bom, é claro que ele não se importaria. Se ele se importasse, estaria aqui, passando por tudo isso com a gente. Em vez disso, ele… sei lá o que ele está enfrentando sozinho, mas a escolha é dele. Então, vá se ferrar, pai, e espero que você se sinta tão mal quanto eu. Mas, não sei por quê, sinto-me ainda pior ao pensar no meu pai sozinho.

Tento escapar logo depois do jantar, e quem dera ter tanta sorte assim.

– Dan, você não vai a lugar nenhum; preciso da sua ajuda – diz minha mãe.

Eu fico, mas agora ela está enchendo o meu saco porque eu respondi “tanto faz”. Ela odeia essas palavras. E fica falando e falando ao fundo enquanto fazemos uma limpeza pesada na cozinha e penso no meu pai. Como ele estará? Onde ele estará morando? Será que ele também está com fome como eu, agora que a gente não tem dinheiro? Será que pensa na gente? Quando? Será que eu deveria falar com ele quando ele liga aqui em casa? Por quanto tempo ele insistirá antes de desistir de mim? Antes de ir embora, como outro iceberg que vivia grudado ao nosso de maneira tão segura?

– Dan, preste atenção! Você está inundando a cozinha.

Que exagero. Derrubei um balde no chão. Não é assim que eles lavam os deques de madeira nos filmes? E existe outra maneira de lavar o chão? Desde que eu era pequeno, a gente sempre teve várias Sras. Fulanas. Alguém que vinha limpar a casa, e eu nunca tive de participar desse tipo de coisa antes. Será que ela acha que é instintivo? Os bebês já nascem sabendo dessas coisas? Faz parte do nosso DNA? Duvido.

– Dan!

Vixe! Mais água pelo chão. Não estou conseguindo me concentrar.

– Deixe que eu termino isso aqui, você não está ajudando em nada – diz a minha mãe, com o rosto vermelho de raiva e de tanto esforço. Ela também não está acostumada a fazer limpeza. – Amanhã vou mostrar a você como limpar o banheiro.

Mal posso esperar.

Lista dos “não consigo”.

  1. 1) Não consigo lavar o chão.
  2. 2) Não consigo falar com meninas, principalmente com Estelle.
  3. 3) Não consigo arranjar um emprego que pague alguma coisa.
  4. 4) Não consigo tomar conta de Howard quando o levo para passear.
  5. 5) Não consigo confiar no cara dos estábulos.
  6. 6) Não consigo falar com o meu pai.

E tem mais, vamos ser sinceros. Esta lista poderia chegar aos milhares de itens.