Três expedientes na loja de caridade e parece que já trabalho ali há uma vida inteira. Ou uma pena de prisão perpétua. Como fui ser tão idiota de pensar que isso aqui era um emprego com salário? E o fato de a Sra. Nelson ser uma das pessoas mais legais que já conheci só deixa tudo ainda pior.
E acho que ela não precisa de ajuda extra. Mas não posso conversar com ela sobre isso. Não quero desistir logo de cara. Hoje somos eu, três mulheres e um cara fazendo serviço comunitário por mandado judicial. Seis, ao todo. Está lotado demais atrás do balcão, então a Sra. Nelson me pede para organizar algumas prateleiras. Coloco coisa demais sobre uma delas e a prateleira cai no chão. Por sorte, só quebrei algumas coisas. Limpar a bagunça pelo menos rende mais alguma coisa para todo mundo fazer. Só tivemos um cliente nos últimos 45 minutos.
Cansei de pedir para mais clientes entrarem na loja e o tempo passar mais rápido, quando Jayzo, Deeks e Dannii aparecem, todos tomando raspadinhas que compraram no posto. Como é que eles conseguem, nesse frio?
– Opa, olha só, é o Cereal – diz Jayzo, passeando pela loja.
– Cereill.
– O que você está fazendo nessa loja de pobre, Cereal?
– Eu trabalho aqui.
Ele faz um gesto insolente com a cabeça em direção a Sra. Nelson.
– Você não vai apresentar a gente para a sua mãe?
– Ela não é a minha mãe – digo num tom tão firme de negação que percebo que posso estar ofendendo a Sra. Nelson.
– Ah, então deve ser a sua namorada.
Deeks e Dannii dão risadinhas.
Fico vermelho de raiva e tento ignorar esses idiotas.
A Sra. Nelson se aproxima e pergunta se eles estão precisando de alguma coisa.
– Nem pensar – diz Dannii, depois de dar uma longa sugada no canudo. – A gente só está olhando mesmo.
Os três perguntam o preço de metade da loja. O cara do serviço comunitário está suando, e as mulheres estão fazendo cara feia. Ao saírem da loja, Jayzo derrama “sem querer” o resto da raspadinha sobre um carrinho cheio de livros de 1 dólar – os itens mais vendidos da loja. Eu me desculpo e tento limpar tudo, sentindo-me obrigado a fazer cara de quem concorda enquanto as mulheres falam sem parar sobre os jovens de hoje e especulam que aqueles provavelmente são dependentes de drogas. O cara do serviço comunitário e eu sorrimos um para o outro. A única droga que aqueles idiotas estavam tomando era açúcar – aliado a uma voltagem cerebral bem baixa.
Então a Sra. Nelson quer os nomes daqueles “valentões” para poder ligar para a escola. Consigo convencê-la de que eles são apenas “problemáticos” e peço para sair dez minutos mais cedo. A Sra. Nelson parece quase aliviada.
Minha mãe está na porta da frente quando chego em casa, parecendo mais feliz que o normal ao me ver. Antes que eu consiga entrar, ela enche meus braços com a comida de Howard, tigelas e brinquedos, me passa a coleira de Howard com Howard junto e diz para a gente desaparecer. Ela não consegue se lembrar se é permitido ter cachorros em locais onde se prepara comida para vender, e não tem tempo de checar as normas antes que os inspetores cheguem.
– Mas eu levo Howard para onde?
– Sei lá. Desapareçam por uma hora.
Eu fico ali, sem saber para onde ir.
– Vai, Dan. Eles vão chegar a qualquer momento – diz ela, dando-me um empurrãozinho encorajador.
Ela poderia ser pelo menos mais educada ao mandar embora seu filho único.
Estou carregando coisas demais para ir dar uma volta no parque. A casa de Fred fica a pelo menos dez minutos. As últimas opções são a casa de Estelle (= vergonha), ou de Oliver, o cara dos estábulos (= possibilidade de assassinato ou sequestro).
Estelle olha para mim, para Howard e para aquela coisa toda, claramente surpresa ao nos ver à porta dela.
– Se você está fugindo de casa, é melhor ir um pouco mais longe – diz ela, com um sorriso encorajador, quase fechando a porta.
– É que a minha mãe… quer dizer, é que Howard…
Ela deixa só um vãozinho da porta aberto.
– Se você está procurando uma família para Howard, não é o nosso caso. Desculpe. É que a gente não é tão legal assim. E todo mundo sabe que ele faz xixi dentro de casa. – Ela fecha a porta com firmeza, ou talvez tenha sido só o vento.
Ando meio quarteirão e viro à direita, ao lado da casa com bicicletas e bandeiras de preces tibetanas na varanda, entro numa rua de paralelepípedos, viro à direita novamente e estou de volta à rua que leva à parte de trás da nossa casa. Continuo andando e paro ao lado da porta do fundo do estábulo. Tem música vindo lá de dentro. The Pixies, “Motorway to Roswell”. Meu pai tinha aquele CD. Para onde foram todos aqueles CDs? Não ficaram com a gente. Será que meu pai levou tudo? Será que os interventores ficaram com eles?
Bom, pelo jeito o cara do estábulo está em casa. Será que me arrisco? Então, percebo que não preciso. Não tem problema nenhum me sentar ali e esperar uma hora. Dilema resolvido.
Se não estivesse tão frio, eu estaria perfeitamente confortável sentado aqui apoiado na nossa lixeira azul para lixo reciclável. Posso sentir o cheiro dos bifinhos de Howard; eles têm um cheiro delicioso de bacon. Ele está vivendo no maior luxo com o estoque que Adelaide deixou. Sendo o cheiro tão bom, será que o gosto é muito ruim?
Ouço um clique e um zumbido eletrônico, e um portão se abre um pouco à frente na rua. Estelle aparece com os braços cheios de jornais. Ela quase pula ao me ver sentado entre nossas lixeiras de reciclagem. Talvez ela tivesse a impressão de que eu estava prestes a comer um biscoito de cachorro. O que se deve dizer numa situação dessas?
Vou de:
– Oi.
– Mas o que é isso? O que você está fazendo aqui? Você se trancou para fora?
Naquele momento, ouço a voz da minha mãe. Ela está falando com os inspetores.
– As latas de lixo nunca passam por dentro da casa; elas ficam na rua de trás – diz ela.
A voz está se aproximando.
– Vou trazer as latas de lixo aqui para dentro agora, se vocês quiserem dar uma olhada. Elas ficam aqui.
– É a sua mãe, não é? Então você pode entrar pelo portão dos fundos – diz Estelle.
Faço que não com a cabeça, furiosamente. Tenho que explicar coisa demais, não há tempo suficiente para isso, e mesmo assim não consigo pronunciar uma palavra sequer.
– O que foi? – pergunta Estelle, perplexa. – Ela o expulsou de casa? – Ela olha para a comida de cachorro. – Você está com fome?
Howard começa a latir e a ganir, como se estivesse preocupado. Bem-vindo ao clube.
Em vez de dar uma resposta racional a Estelle, faço que não com a cabeça de novo e passo a mão em frente ao rosto para lá e para cá numa tentativa demente de dizer “cala a boca” ou “não posso falar”, enquanto nosso portão está sendo destrancado bem atrás de mim.
Estelle fica cada vez mais confusa enquanto pego Howard e toda a sua parafernália, levanto-me e corro rua abaixo o mais rápido que posso, bem na hora em que o portão se abre.
Howard, empolgado com essa agitação toda, late como um doido enquanto saímos correndo. Nem me atrevo a olhar para trás. Ao chegar ao final da rua, eu me agacho, quase sem ar, perto do primeiro portão que vejo aberto. É o quintalzinho da loja da esquina. A cerca que dá para a rua está coberta de jasmim – que está empurrando a cerca ou ajudando a mantê-la de pé. No quintal estão pilhas de caixas e pallets vazios, latas de lixo e um banheiro externo. Um gato preto e outros dois rajados trocam arranhões desanimados numa poça de sol de inverno. Seguro a coleira de Howard com força. Ele está latindo, e os gatos, miando, mas o rabo de Howard está balançando que é uma coisa de louco. Ele deve ter o gene da agressividade contra gatos.
Howard se solta bem na hora em que uma mulher sai pela porta dos fundos da loja. Ele pula em cima dela, com o rabo mais parecendo uma hélice. Ela lhe faz um carinho nas orelhas, bem do jeito que ele gosta.
– E quem é o seu amigo, Howard? – pergunta para ele, sorrindo para mim. – Você é o sobrinho, rapaz?
– Meu nome é Dan. Acho que sou o sobrinho-neto, ou coisa assim.
– Prazer, Dan. Meu nome é Mary Da Silva. Espere aqui só um pouquinho – diz ela.
Ela volta em um ou dois minutos e me dá um saco de papel.
Noto os brincos enormes de diamantes que ela está usando. Então foi ela que ficou com as joias. Os brincos ficam horríveis mas ao mesmo tempo bem legais com o sári rosa-shocking e o moletom felpudo vermelho que ela está usando.
– Ossos – diz ela, apontando para o saco de papel com a cabeça. – Dê um para ele uma ou duas vezes por semana. É bom para os dentes. Antigamente eu alimentava a turma toda quando levava o jantar para Adelaide. Aqueles três ali se mudaram para cá quando o serviço de delivery acabou. Você pode levá-los de volta, se quiser.
Faço que não com a cabeça.
– Minha mãe é alérgica. E acabou de abrir um negócio de comida em casa. A gente nem sabe se vai poder ficar com Howard. – Percebo que estou falando um monte sobre assuntos particulares e, até onde sei, o marido dela poderia ser o inspetor da vigilância sanitária. – Mas não conte para ninguém, por favor. Eu não aguentaria ficar sem ele.
Ela dá um toquinho na lateral do nariz.
– Sou um túmulo, Dan. É assim mesmo que se diz? Ou será que a gente fala “sepultura”? Tipo, “vou levar seu segredo comigo para o túmulo”?
– É isso mesmo.
– Muito obrigada. Sua mãe nunca parou de visitar Adelaide, mas ela não quis ver a sua mãe quando estava no fim. Tentei deixar o pessoal da limpeza entrar também, porém ela não deixou. Ela disse que já tinha visto gente o suficiente, e que já tinha falado o suficiente também.
Howard está olhando para ela com o rabo baixo, como se entendesse o que ela está dizendo.
– Você não precisa de alguém para trabalhar na loja, né?
– Não. Mas você pode tentar no Café Phrenology. Fale com o Ali, o cara alto e careca. Ele está sempre precisando de gente para trabalho temporário.
Tomo bronca em casa por ter ficado perto demais quando os inspetores chegaram, mas não é nada sério. Minha mãe ganhou o sinal verde oficial para a cozinha operar comercialmente. Qualquer um acha que ela ficaria feliz, mas, depois do jantar, ela fica ali sentada com uma cara de cachorro que caiu da mudança ouvindo Radiohead, então a deixo entrar em contato com sua tristeza e sua banda favorita, e vou lá para cima para a minha primeira sessão de malhação com os pesos.
Deitado de costas no chão, e com os braços esticados formando um T, posso ver duas coisas que me deixam desconfortável. A primeira são bolas de poeira que devem estar se reproduzindo em cativeiro debaixo da minha cama. Escondido naquela poeira toda está um presente que ganhei do meu pai, mas ainda não abri.
Parece que seria muito mais fácil acostumar-me com a ideia de o meu pai ser gay se ele tivesse ficado com a gente – assim, eu poderia ter falado com ele. Mas logo de cara eu já sei que não é justo. Ele está me ligando desde que foi embora. Então, tecnicamente, sou eu quem não está disponível para essa conversa.
Howard é o único com quem eu posso falar sobre isso. Estou começando a pensar que me acostumar com esse lance de o meu pai ser gay é tipo entrar no mar. A água fica insuportavelmente gelada por um tempo, mas, quando a temperatura fica gostosa, você fica pensando qual era o problema. Infelizmente, até agora a água não passou das minhas canelas, e estou dando passinhos de formiga.
Levantar os dois halteres é um desastre, e acabará comigo. Não importa quanto eu me esforce: não consigo erguer os dois do chão. Levantar só um, com as duas mãos, até o meu peito é bem mais fácil.
A segunda coisa que não consigo evitar no meu campo de visão é o teto. Logo acima do teto fica o sótão, e ao lado dele fica o sótão de Estelle.
Estou obcecado por Estelle. Está me matando saber o quanto a gente tem em comum, e como eu sou incapaz de falar sobre isso com ela pelo simples fato de não ter habilidade social nenhuma. (Como eu descobri que a gente tem tanto em comum pertence a uma categoria de preocupação que não posso discutir nem com Howard.)
Quando penso na lista dos micos até este momento, parece improvável que venha a conseguir ser amigo de Estelle um dia, e muito mais improvável ainda que a gente chegue a uma situação minimamente romântica.
Estelle já me viu:
Será que dava para eu ter dado uma impressão pior que essa?
Quando é que essa maré vai mudar?
Na minha falta de habilidade para qualquer coisa, perco a conta das repetições e deixo o halter cair na minha cara sem querer.