Capítulo 12

Obviamente, minha mãe não consegue ouvir meu gemido de dor por cima dos gemidos de dor do Radiohead – de outro modo, tenho certeza de que ela teria vindo correndo escada acima. Assim, tenho eu mesmo de aplicar os primeiros socorros. É fácil fazer uma compressa fria quando a água que sai da torneira mais parece gelo. Acho que fiz tudo direito, então fico surpreso ao ver como meu nariz e meu olho esquerdo estão inchados na manhã seguinte. Parece até que levei uma baita surra.

Enquanto ensaio uma conversa básica de gângster comigo mesmo no espelho – “Ah, mas você precisa ver o outro cara” –, percebo que preciso muito fazer a barba. Já faz um tempão. Mas como é que se faz isso? É o tipo de coisa que eu já teria perguntado ao meu pai se soubesse que ele ia sair de casa. Apesar de todas as outras coisas no banheiro, do paracetamol aos absorventes internos, virem com instruções e avisos detalhados, a lâmina de barbear não vem. Não quero me arriscar a tirar um bife do meu lábio superior, mas não posso nem sonhar em pedir instruções à minha mãe – seria como esfregar sal na ferida-do-pai-ausente. Talvez exista um produto tipo “minha primeira lâmina de barbear”, com ilustrações passo a passo para gente sem noção. Ou talvez não. Bom, vou adicionar “pelos faciais desgrenhados de alguém que foi criado por lobos” à minha longa lista de características charmosas.

Bem-acostumada ao meu jeito atrapalhado, minha mãe solta apenas um “Ó, querido” meio distraído ao me ver. Ela tenta adivinhar – “tropeçou na sua calça”, “caiu da cama”, “abriu a janela e acertou o rosto” – e faz que sim com a cabeça quando conto o que aconteceu.

– Nota dez em originalidade – diz ela, bagunçando meu cabelo antes de sair de casa.

Quando chego à escola, o Sr. Pittney me dá uma olhada e me pede para segui-lo. Depois que eu finalmente convenço o cara de que não estou sofrendo bullying, ele assume uma expressão mais calma e começa a me perguntar como é que estão as coisas em casa. Digo a verdade: o melhor possível diante das terríveis circunstâncias, que incluem a perda repentina de nossa fortuna, a mania de Radiohead da minha mãe, que só está piorando… Mas ele me interrompe. Ao me levar para fora da sala, ele me garante que ouvir o rádio é bem seguro, e que a porta dele está sempre aberta. Ele a fecha na minha cara, enquanto ainda fico imaginando se posso perguntar a um cara de bigode sobre como se barbear sem parecer que estou tirando uma da cara dele. “O senhor sabe usar uma lâmina de barbear, Sr. Pittney?”. “Alguma dica sobre barbeadores e afins, Sr. Pittney?”

Ah, não ia rolar mesmo.

Na hora de ir para casa, o corredor da escola está cheio de uma energia meio maluca, que se alastra com uma velocidade incrível. Todo mundo está falando, gritando, rindo, berrando. Conversando sobre limusines e vestidos e quem-vai-com-quem. Acabaram de anunciar que vai rolar um baile do Nono Ano. Fico de olho na multidão em busca de outro rosto nada animado: Lou. Muito obrigado. Ela vem falar comigo.

– É o primeiro baile da escola em dois anos. Por isso esse nível de histeria – ela explica. – O último foi por água abaixo quando alguém dedurou para a polícia que estavam usando drogas na escola.

– E eles encontraram alguma coisa?

– Quase nada, mas a reputação ficou. E o jornal daqui deu uma manchete com algo como “orgia de menores movida a drogas”, então foi bem engraçado.

– Você vai? – pergunto.

– Não, a não ser que seja obrigatório – ela diz.

– Eu também não – respondo. Mas na verdade estou pensando “a não ser que eu vá com Estelle”.

Meu armário foi arrombado de novo. Esse é outro grupo que estou aprendendo a amar: os caras que sonham ser manos mas nunca conseguem evitar as pegadas de suas patas encardidas. É impossível ficar bravo com esse pessoal idiota o bastante para deixar sua marca registrada na cena do crime. Um cara da turminha de torcedores do FBK me cumprimenta com um aceno reservado de cabeça. Respondo na mesma moeda.

Ao enfiar a mão no meu armário, percebo uma porção preocupante de pulso e antebraço saindo do meu moletom cinza. Acho que já deveria estar usando um tamanho maior de roupa, mas, quando a gente comprou essa blusa nas férias, servia direitinho e ainda tinha espaço para crescer. Olho para baixo. Minha calça também está curta demais. Isso é bom. Pelos no rosto, nariz inchado, olho roxo, roupas que não me servem direito – esse lance de me tornar um cara descolado está dando supercerto!

Ao entrar em casa, consigo ouvir uma gritaria abafada vindo dos fundos. Largo minha mochila e vou para a cozinha. Quando abro a porta, pronto para dar o bote, se necessário, minha mãe levanta as mãos como quem diz “espera aí”. O CD “Amnesiac” está tocando ao fundo, e uma moça está apontando para uma cadeira vazia, soluçando:

– … e esse casamento não é só para mim, não tem a ver só com o vestido, o meu bolo e a minha mãe. Graças a Deus eu descobri que monstro mesquinho você é antes que fosse tarde demais.

Ela olha para a minha mãe, que faz que sim com a cabeça calmamente em seu sinal de aprovação. E então a mulher se levanta e chuta a cadeira.

– Cachorro!

Pelo jeito, a cadeira vazia é seu em-breve-ex-noivo. Ela cai no choro e joga os braços ao redor da minha mãe.

Mais um que vai pras cucuias.

Howard e eu vamos ao Edinburgh Gardens para dar umas voltas na pista oval. Ele está arrastando um pouco as patas, no entanto, consegue manter o ritmo.

Já estamos correndo há uma hora e ainda não consigo descobrir uma maneira de fazer a minha mãe parar de convencer suas clientes contra a ideia do casamento. Ela está dando um tiro no pé, mas quem sou eu para falar alguma coisa? Não é óbvio que as pessoas têm de seguir em frente com o casamento para encomendar o bolo?

Quando chego em casa, minha mãe está cantando toda feliz ao som de “No Surprises”, que deve ser sua música favorita do Radiohead.

– Ela mudou de ideia? Vai encomendar o bolo?

– Ah, não – responde vagamente.

– Então por que é que você está cantando? Você não acabou de perder mais uma cliente?

– Sim, mas ela ia encomendar o Rosa Errante.

O Rosa Errante é o bolo mais caro da linha toda. São três andares cobertos com rosas cor-de-rosa feitas de chocolate e fitas de marzipã.

– Mas não vai mais?

– Mas só porque ela não vai mais se casar. Ela adorou o bolo!

– Mas que… beleza.

Subo para tomar banho. Ela está iludida e talvez precise de ajuda profissional. O que é que eu faço? Meu pai saberia o que fazer. Mas, se ele estivesse aqui, ela não estaria passando por isso. E ele não está, então eu terei de fazer alguma coisa. Não quero voltar lá para baixo e dar uma de adulto. Prefiro ser o filho cujos pais estão passando por maus momentos.

Para me preparar, tento incorporar o espírito do meu pai: firme mas bem-humorado. Respiro fundo o bafo de tomate e alho e vou de cabeça.

– Você não pode continuar convencendo as pessoas a desistirem do casamento.

– Mas eu só quero que elas considerem os prós e os contras.

– Mas você está exagerando nos contras. E esse não é o seu trabalho. O seu trabalho nisso tudo é fazer o bolo.

– Eu preciso conhecer as pessoas melhor para poder oferecer o bolo certo. E como é que posso fazer um bolo ético para elas se acho que estão cometendo um grande erro?

– Você está jogando todo esse lance anticasamento para cima delas.

– Não estou, não.

– Tudo o que você precisa saber é a data do casamento e o número de convidados e fazer com que elas escolham um bolo do álbum de fotos.

Fico esperando a resposta.

– E esse negócio da cadeira? Pelo amor de Deus! Você não é uma psicóloga desses programas vespertinos da TV!

Ela serve o arroz. Expressão: neutra. Ela está pensando, absorvendo tudo. Espero.