Capítulo 13

Ao chegar da escola no dia seguinte, vejo que minha mãe mandou imprimir uma pilha de folhetos na Officeworks da esquina. Dou um suspiro de alívio. Alguma coisa do que eu disse na noite passada deve ter funcionado. Quem sabe ela voltou ao mundo normal?

No entanto, minha alegria não dura muito. Ela quer que eu leve um monte de folhetos para a sala dos professores na escola. Será que ela está de brincadeira? Não. E é difícil discutir com a sua lógica. Sempre tem algum professor que está prestes a se casar. É o passatempo número um deles, ou alguma coisa assim.

Tenho certeza de que virar garoto-propaganda de bolos de casamento é mais um degrau na escala do suicídio social, então chego bem cedo na manhã seguinte para enfiar uns folhetos por debaixo da porta da sala dos professores. E é isso. Depois da aula vou distribuir o restante numas lojas. O alívio de cumprir a minha missão sem ninguém me pegar em ação não dura muito também – Jayzo pega um punhado de folhetos da minha mochila no armário.

– Vai dar uma festinha, idiota? – Mas, provando que na verdade sabe ler, ele diz: – O que você tem a ver com esse negócio imbecil de bolo de casamento?

Tento ignorar o cara. Na teoria, é uma ótima tática. Mas e o nível de sucesso? Para mim, as chances devem ser de uma em 20. Ele esfrega um folheto na minha cara. E machuca meu rosto, que já estava acabado.

– Eu fiz uma pergunta para você.

– É a empresa da minha mãe – digo entredentes.

– Ah, é?

Ele dobra o folheto com todo o cuidado e o coloca no bolso, com uma risadinha.

Enquanto ele sai andando, Lou diz:

– Acho que ele gosta de você.

Tenho de apresentar Lou a Fred.

A caminho de casa, paro em todas as lojas para distribuir folhetos. Quando chego ao Café Phrenology, o cara careca, Ali, está sentado num banco de bar perto da janela, falando com um velho. Então eu entro e espero.

É um café confortável e caseiro. Piso de concreto vermelho, um balcão comprido de mármore, biscoitos naqueles vidros antigos de farmácia, cadeiras de madeira de vários estilos, bolos em suportes decorados, xícaras e pires com estampas florais e descombinadas numa prateleira na parede, tulipas amarelas numa chaleira de ágata azul, cardápio na lousa, lâmpadas penduradas em fios compridos em vez de lustres, um baú de madeira bem fundo pintado de verde-alface e cheio até a metade de baguetes. Eu quero trabalhar aqui.

Duas mães estilosas estão entretidas em sua conversa enquanto seus filhos transformam um pedaço de bolo numa bagunça cheia de baba – espalham um pouco na roupa, na mesa e, por incrível que pareça, também conseguem comer um pouco.

Ali nota a minha presença e lança um olhar impaciente para a menina atrás do balcão, que está lavando copos.

– Pois não? – ele pergunta, chamando a atenção dela. Reconheço o cabelo ruivo-escuro antes que ela olhe para mim com uma expressão de reconhecimento. É a amiga de Estelle, Janie. Ela enxuga as mãos no avental preto.

– Pois não? – pergunta ela com um sorriso aparentemente educado, mas sei que está louca para me mandar para aquele lugar.

Eu finjo estar concentrado nos bolos e pães doces empilhados numa estufa de vidro sobre o balcão.

– Esses daí estão com uma cara boa.

Janie revira os olhos cheios de rímel.

– Você vai escolher um? – E então, baixando a voz: – Ou prefere que eu leia a sua mente?

– Eu vim perguntar se vocês têm uma vaga – respondo. Se eu tivesse dinheiro, teria perdido a coragem, comprado um pedaço de bolo e saído correndo.

– Ele quer saber se tem vaga – ela diz para Ali e caminha para a pia.

Ali tem uns 35 anos. Calça jeans preta, suéter preto, barba por fazer meio preta. Alto, com cara de poucos amigos. Ele seria um segurança perfeito. Ele me olha com tanta atenção que, ao ir até ele, sinto que estou carregando uma placa enorme no pescoço que diz:

DESAJEITADO

SEM EXPERIÊNCIA

NÃO ME CONTRATE

– Oi, meu nome é Dan – apresento-me, enquanto uma dica do meu pai vem à superfície: olhe nos olhos dele e aperte a mão do cara. O aperto de mão dele mais parece um torniquete.

– Quantos anos você tem?

– Quase 15.

– Volte depois do seu aniversário.

Eu estava esperando por essa.

– Estou disposto a treinar sem ganhar nada até fazer 15 anos. Eu preciso muito de um emprego.

– Você tem experiência?

– Não nessa área.

O único emprego que tive na vida foi como jornaleiro quando eu tinha uns 12 anos, mas, em vez de andar para distribuir os jornais, meu pai acabava me levando de carro, na maior parte das vezes.

– E por que você acha que tem talento para trabalhar em um café?

– Eu adoro comida e tenho interesse na indústria de serviços.

Eu ensaiei tudo isso, mas acaba soando como alguma passagem de “Primeiras Entrevistas de Emprego para Idiotas”. Será que ele acreditará em mim?

– Você consegue aguentar um chefe que grita às vezes?

Bom, de acordo com a Sra. Da Silva está mais para “o tempo todo”, então estou preparado para essa também.

– Estou acostumado. Meu pai vivia gritando.

– E ele parou?

– Mais ou menos. É que ele não mora mais com a gente.

O olhar pensativo dele me faz falar sem parar. Espero que ele não ache que meu pai mora na minha cabeça, ou alguma coisa assim.

– Então agora somos só eu e minha mãe. Minha mãe e eu. Ela também tem uma empresa de comida. Bolos de casamento. – Tiro um folheto da minha mochila. – Será que posso deixar isso aqui na sua janela?

Ele dá uma olhada no folheto.

– Claro. Tá, vou lhe dar uma chance, mas você será remunerado. Se der tudo certo, a gente pode conversar sobre uma vaga de meio período quando você fizer 15 anos. Tudo o que você quebrar sairá do seu salário.

Vou começar no turno da manhã do sábado, da sete ao meio-dia e meia. Fantástico. Quando digo a ele que posso ajudar levando para casa a comida que sobrar, ele simplesmente sorri e sai pela porta dos fundos.

Assim que ele desaparece, Janie vem falar comigo. Sou tonto e dou um sorriso, imaginando que ela vai me parabenizar por ter conseguido o emprego. Mas ela só diz:

– Pare de ficar encarando a minha amiga o tempo todo na aula. Ela acha você esquisito.

Hoje é o solstício de inverno. São quase cinco horas, e o vento balança os galhos desfolhados das árvores contra o céu, que está escurecendo. Ao seguir para casa, passando pelas calçadas cheias de poças d’água, fico pensando se olho mesmo demais para Estelle na aula. Eu achava sinceramente que fazia isso de um jeito normal. Será que ela acha mesmo que sou esquisito ou isso é coisa de Janie? Será que Estelle me chamou mesmo de esquisito? Ou será que ela disse algo tipo “é meio esquisito quando um cara me encara assim na aula”? Faz toda a diferença.

Quando chego em casa, o telefone está tocando e minha mãe não está. Apesar de estar com a cabeça cheia de preocupação, eu me lembro de atender o telefone do jeito certo.

– “Eu Aceito” Bolos de Casamento. Pois não?

A voz do outro lado parece ser de alguém da minha idade.

– Pois não, idiota?

Ouço duas pessoas rindo ao fundo. E eles desligam. Valeu, Jayzo.

Meu coração está disparado, e sinto meu rosto queimar de raiva. O telefone toca de novo.

– O que você quer? – lato ao telefone. É a minha mãe.

– Dan, quantas vezes a gente vai ter que discutir isso? Por favor, atenda o telefone dizendo o nome da empresa. Você está sempre prontinho para me dizer como fazer as coisas, mas tem de fazer a sua parte também.

Ela liga para avisar que está num seminário sobre microempresas na biblioteca e que tem comida na geladeira.

Quando o telefone toca de novo dez minutos depois, acho que é ela ligando de novo para saber se está tudo bem. Mas não; é mais um trote.

– Você pode me ajudar a me jogar debaixo de um caminhão? – pergunta uma voz de menina.

Mais risadas, e eles desligam na minha cara de novo. Minutos depois, eles ligam de novo. Caramba, a turma toda deve estar lá.

– “Você Aceita” Bolos de Casamento? Ah, mas eu não aceito, não.

As brincadeirinhas não param. Eles ligam mais quatro vezes na próxima hora e não aguento mais. Ligo a secretária eletrônica. Ah, mas que surpresa: os trotes param na hora. Estou soltando fogo pelas ventas. Estou envergonhado. Preciso falar com Fred, mas quando ligo para ele, o Gazela me diz que ele está na aula de debate.

Antes de me preparar para ir dormir, libero um pouco da raiva com uma sessão de halteres. Por que eu continuo insistindo, apesar da dor nos braços e no rosto? Bom, agora é mais que necessário ficar mais forte e com uma aparência mais legal. Quero ser capaz de enfrentar Jayzo – e seu bando de hienas que adoram um trote –, o que inclui partir para cima dele, se for o caso. E, contra todas as probabilidades, não consigo parar de imaginar o inimaginável: que, de alguma maneira, vou ao baile da escola com Estelle. Apesar de saber que essa ideia é ridícula e que eu sou ridículo, graças às últimas notícias, imagens de nós dois juntos continuam invadindo meu pensamento.

Eu consigo ouvir Estelle no sótão, enfrento a zona da dor e entro de novo na zona da vergonha enquanto me lembro da minha segunda visita ao sótão.