Capítulo 15

Sabe quem é um cara legal? – pergunta minha mãe enquanto comemos mingau de aveia, num tom que sugere que estávamos falando sobre um cara que não era legal; e a gente não estava falando sobre nada disso.

– Não.

– Thom Yorke. Ele é um cara legal de verdade. – Ele é o vocalista e compositor da banda britânica Radiohead. Parece que esse interesse exagerado não passará tão cedo.

– E por que você acha isso?

– Porque ele faz tudo com paixão, Dan; ele se importa de verdade com tudo, ele tem paixão. A gente só precisa ver o cara cantando para perceber isso. Parece que ele vai estourar cada vaso sanguíneo da sua cabeça.

– E por que isso é uma coisa boa?

– Ele também é um ativista ambiental. – Ela coloca açúcar no chá, com uma expressão meio boba no rosto. – Ele se importa com as mudanças climáticas. Ele foi à conferência em Copenhague, pelo amor de Deus! Ele está ajudando o planeta!

– Tá. – Estou arrumando meu almoço para levar para a escola. Preciso sair daqui.

– E ele tem mais ou menos a minha idade, sabia?

– Não.

– Pois é. Então, por que é que eu não acabei ficando com ele em vez de ter me casado com o seu pai?

Quem é que sabe a resposta certa para essa pergunta? Hum… Porque vocês moravam em continentes diferentes? Porque você não conhece o cara pessoalmente? Porque ele é baixinho e você é alta? E nem vou mencionar que sou o resultado da união dela com a porcaria do marido. Não acho que sou o maior consolo nesse caso.

É óbvio que tenho de proteger minha mãe dos trotes ao telefone nesse estado tão frágil em que ela está, então faço uma coisa que nunca fiz antes na aula. Quando o Sr. Pittney termina um ponto da aula ainda de manhã com um “Então é isso?”, eu me levanto e falo para todo mundo da classe ouvir. Voluntariamente. E não é para nenhuma avaliação. É estranho, não foi uma decisão que eu tomei conscientemente; é como se eu estivesse me vendo fazer uma coisa e não tendo poder nenhum para impedir isso de acontecer, apesar de saber que vou me dar mal.

Vou até a frente da sala e levanto um folheto, e meu rosto fica cada vez mais vermelho enquanto penso no que estou fazendo ali. Mas agora é tarde demais.

– Essa aqui é a empresa da minha mãe. Ela faz bolos para casamento. E ela está passando por dificuldades. Meu pai saiu de casa faz uns dois meses. E perdeu todo o dinheiro que tinha. Ou a gente não tinha grana, sei lá, foi algo assim. Então minha mãe tem de fazer esse negócio dar certo, ou não vamos mais conseguir sobreviver. E não estou falando de viajar nas férias, nem dirigir um carrão de luxo; estou falando de comida mesmo. Então, por favor, não liguem para esse número, a não ser que precisem encomendar um bolo de casamento.

Estava na cara que Pittney não estava prestando muita atenção, como sempre.

– Obrigado. Bom, então, se quiser um bolo de casamento, já sabe onde encomendar. Mas não quero mais saber de gente fazendo propaganda na aula, tá? Obrigado, Cereal.

– Cereill.

– Claro, Cereill.

Estelle está me olhando com cara de curiosa. Provavelmente está adicionando “ele esfrega assuntos de família na cara de todo mundo” à minha lista. Jayzo está dando risadinhas maldosas, mas encaro os olhos dele do jeito mais ameaçador que consigo. É melhor ele entender a mensagem logo ou vou ter de tomar medidas mais drásticas, como… não tenho a menor ideia. Até meus músculos se desenvolverem, palavras atravessadas são a única coisa no meu arsenal.

Jayzo grita:

– Quem quer pus e miolos crus?

Nossa, que beleza. Agora ele está tentando me fazer desmaiar, enfiando o dedo na ferida. Lou lança um olhar de compaixão para mim.

– E que tal um fígado cru e um pouco de ranho? – pergunta Jayzo.

Volto para o meu lugar bem a tempo, em meio a risadinhas e os “vamos fazer silêncio” meio confusos do Sr. Pittney.

Naquela noite recebemos mais cinco trotes. Parece que ter ido falar à frente só inspirou o pessoal que ainda não havia ligado aqui em casa. Atendo o telefone e digo para minha mãe que é engano.

Talvez não devesse ser um negócio tão importante, mas é. Odeio usar minha voz profissional e educada e falar o nome imbecil dessa empresa, só para tomar na cabeça, sabendo que é alguém que vou ver na escola na manhã seguinte. O anonimato transforma a classe inteira em inimigos. Se todo mundo sorri, parece que estão tirando uma da minha cara. O pessoal continua ligando por mais alguns dias.

Na escola, eles me chamam de “menino do bolo”, o que não é melhor nem pior que idiota, ou cereal, mas eu me sinto mais exposto que antes. Eu apelei para a bondade das pessoas, e contei o que estava rolando em casa, e agora elas estão usando tudo isso para me atingir ainda mais.

Estou cheio de uma raiva sem sentido da minha mãe e da porcaria da empresa dela se intrometendo na minha vida. Eu sei que quem começou tudo isso foi meu pai, no entanto, ele não está por perto para levar a culpa e, além disso, acho que eu nem conseguiria ficar mais bravo com ele do que já estou. Mas está na cara: o problema não é com meus pais, é comigo, e com a minha falta de noção para lidar com essas coisas.

A vida na nossa casa gelada fica ainda mais fria. Eu mal falo com minha mãe. E ela mal percebe. Acho que ela está sempre tendo umas conversas íntimas (e mudas) com Thom Yorke. Às vezes, ela e Oliver tomam uma garrafa de vinho, mas, até onde eu sei, ela não se encontra mais com os antigos amigos.

Decidi que minha mãe provavelmente tem razão sobre Oliver. Ele parece ser um cara bem normal que dificilmente começaria a matar as pessoas por aí. Ele tem bom gosto musical, as pessoas que vêm visitá-lo aparentemente vão embora sem ter nenhum pedaço faltando, e não há montinhos de terra suspeitos no jardim.

É lá no jardim que converso com ele às vezes. Ele me conta que a cerca viva que vai até os fundos da casa e tem umas flores com cheiro de limão se chama dafne e que a árvore perto da minha janela é uma magnólia-branca.

E ele não se importa quando eu faço perguntas do tipo:

  1. 1) – Você sempre foi legal assim?

Ele só ri. E por um bom tempo.

  1. 2) – O que torna uma pessoa legal?

– Não é a coisa mais óbvia. Não é nada aparente. A coisa mais legal é ser a gente mesmo.

  1. 3) – E se você for um psicopata?

– Se você for um psicopata, então é melhor não ser você mesmo.

  1. 4) – O que você acha de alguém decidir que é gay aos 39 anos de idade?

– Acho que é melhor do que fazer isso aos 40. E ele está sendo ele mesmo.

  1. 5) – Como você acha que a minha mãe está lidando com tudo isso?

– Bom, ela não está ótima, mas também não está péssima.

  1. 6) – O que você acha desse lance do Thom Yorke?

– É uma fase. Ela não é louca. É tipo comer chocolate quando você fica triste. Mas muito mais saudável. E ela tem bom gosto.

Ele se dá bem com Howard e se oferece para levá-lo para passear quando tenho de ir para o café depois da escola, o que agora acontece às quartas e sextas-feiras – e Ali irá avaliar a minha situação daqui a uma semana, quando eu fizer 15 anos.

Ele me cumprimenta com um “oi, cara”, mas que não soa imbecil quando ele diz. Quando ele sugere que eu deveria fazer a barba, solto um “eu não sei como é que faz”. E foi assim que comecei a visitar o estábulo, porque ele disse que eu poderia ir lá ver como é que ele se barbeia. Parece pessoal demais, eu sei, mas pensei “E daí? Não tem mais ninguém se oferecendo”.

Ele transformou o estábulo num loft enorme. O lugar é forrado de estantes altas cheias de livros, CDs e DVDs. Num canto, fica a cozinha e, no outro, o banheiro. Depois de um lance de escadas, fica um mezanino com a cama dele e, depois de mais um lance de escadas, outro mezanino com um tipo de escritório. O loft tem uma mesa de jantar comprida com 12 cadeiras, um “U” gigante feito de sofás bem fofos e uma tela enorme na parede. A bicicleta dele fica pendurada na parede como se fosse uma obra de arte, e também tem bastante arte de verdade por ali. Dou uma olhada rápida, mas sei que é exatamente o tipo de casa que quero ter quando for mais velho.

– Gostou? – Oliver pergunta.

Faço que sim com a cabeça.

– Como é que você veio morar aqui?

– Você sabe que Adelaide era amiga da minha avó e que eu cuidava dos jardins aqui quando ainda era estudante. Um dia, perguntei a ela se podia alugar o estábulo.

– E já era assim?

– Não, estava uma bagunça. Telhado quebrado, um monte de passarinho aqui dentro. Então fizemos um acordo: eu arrumaria tudo em vez de pagar aluguel. E ela gostou de ter mais alguém morando aqui, sentiu-se mais segura.

– Você sabia que ela deixaria o estábulo para você?

– Não fazia nem ideia.

Fazer a barba não parece ser tão difícil assim. Passe a espuma. Estique a parte do seu rosto que está sendo barbeada com as contorções necessárias. Passe a lâmina de barbear de baixo para cima, de cima para baixo ou de um lado para o outro, sempre na direção do cabo, e não na direção das lâminas. Oliver me dá um barbeador novo, me deseja boa sorte e me manda para casa. Talvez ele termine com a namorada, apaixone-se pela minha mãe e venha morar na casa grande – e eu poderei me mudar para o estábulo. Demais. Imagino festinhas legais e informais com Estelle e nossos amigos. É claro que só tenho Fred e Lou, mas esses detalhes não podem atrapalhar uma fantasia perfeita.

O trabalho no Phrenology é mais difícil do que parece. Nos primeiros turnos, eu acabo quebrando algumas coisas, mas não muitas. E tenho a oportunidade de conhecer o temperamento de Ali logo de cara. Ele é um perfeccionista impaciente, e os xingamentos voam pelo café como grãos de pimenta-do-reino, no entanto ele também relaxa rapidinho.

Estou aprendendo a usar a máquina de lavar louça que fica sobre o balcão, e a lavar a louça à mão quando a máquina está cheia – copos megalimpos, sem nenhum traço de batom. Aprendo a varrer de maneira metódica, colocando as cadeiras sobre as mesas, começando ao redor dos rodapés e em cada cantinho e indo até o meio do piso. Ali fica doido da vida ao me ver tentar limpar uma mesa pela primeira vez.

– O que é isso? – ele ruge, passando o dedo pelo borrão meio úmido que deixo sobre a superfície.

– Não sei… – E não sei mesmo o que fiz de errado.

– Isso aqui é vagabundagem. Parece que você é cego. E folgado. Faça isso mais uma vez e irá para o olho da rua.

Ele me mostra como fazer direito. Um pano bem quente, e torcido até ficar quase seco. Pegue todas as migalhas e sujeira na mão, e não deixe nada cair no chão.

– E o ingrediente essencial? – pergunta com cara de quem está me ameaçando.

Fico mudo.

– Força no cotovelo. Vai lá, moleque. Use os músculos!

Pratico com vontade na primeira semana até quase quebrar as costas. E então eu aprendo de vez. Ele nem precisa me lembrar de novo. Assim que me acostumo com Ali latindo na minha orelha, ele para. A gente borrifa e limpa a mesa ao final do dia com uma mistura de água e óleo de eucalipto. Aquele cheiro fresquinho se mistura com os cheiros da manhã. No meu primeiro turno de sábado de manhã, fico conhecendo Anne, a mãe de Ali. Ela começa a cozinhar às seis da manhã. Entro e já sinto o cheiro de alguma coisa no forno com casca de limão, pistache, nozes, mel e água de rosas. O aroma do primeiro café da manhã se mistura ao cheiro dos bolos. Ali é a única pessoa que pode ficar perto da máquina de café.

Eu limpo os copos e as panelas e tento aprender a andar entre as mesas e as cadeiras sem tropeçar. É como aprender passos de dança. Você anda para lá e para cá bem rápido. “Opa, atrás de você!”, a gente vive dizendo para evitar colisões com outras pessoas que passam costurando pelo mesmo espaço.

Anne cozinha com toda a graça e faz tudo parecer tão fácil! Ela geralmente trabalha com sua amiga Irena. Elas conversam e dão risada enquanto enrolam, descascam, batem e mexem a massa. É como se elas tivessem feito isso sempre, a vida toda – tão diferente da abordagem focada, emburrada e científica da minha mãe.

O Café Phrenology está indo bem, mas a “Eu Aceito” Bolos de Casamento não está conseguindo decolar. Apesar da nossa discussão racional mais recente, minha mãe aconselhou duas clientes potenciais a não se casarem mais. Quer dizer, eu só sei dessas duas. Sabe lá quantas mais minha mãe já assustou.

A Sra. Da Silva não parece surpresa quando conto sobre as clientes perdidas da minha mãe.

– O problema é o casamento, Dan. E não tem como resolver isso se o negócio é de bolo de casamento. Talvez a gente consiga convencê-la aos poucos a fazer bolos para outras ocasiões especiais.

– Você acha que poderia falar com ela? Ela odeia quando venho com esse papo.

– Claro! – Ela faz que sim com a cabeça. – Você pode tomar conta da loja enquanto vou buscar uns ossos para Howard?

Fico atrás do balcão, olhando para o nada. Se minha mãe não conseguir fazer esse negócio virar, o que será da gente? Meu emprego no Phrenology ainda não é nada garantido, e não será suficiente para cobrir coisas como a conta de luz, que já atrasamos duas vezes – e na segunda vez veio em papel vermelho.

A Sra. Da Silva volta com os ossos e também me dá um saco de pirulitos – ela mesma faz os doces em casa e vende cada um por 50 centavos – por ter tomado conta da loja. Eu protesto, mas ela é uma mulher determinada.

Quando chego em casa, acabando com o último pirulito, minha mãe está sentada à mesa da cozinha, chorando. E não é um chorinho à toa: ela está soluçando, com o nariz escorrendo. Com base no rosto inchado e vermelho, posso dizer que ela deve estar chorando há um bom tempo.

– Eu achei que você estivesse trabalhando – ela diz.

– Já acabei. É hora do jantar.

– Eu não fiz nada.

Estou morrendo de fome. Sei que deveria oferecer compaixão e conforto à minha mãe. Sei que ela está passando por um momento difícil. E fico sentindo pena, mas não dela. Sinto pena de mim. Estou trabalhando pra caramba e aguentando merda na escola por causa da empresa dela, enquanto ela espanta as clientes. Eu entendo o transtorno de estresse pós-traumático na teoria, mas só consigo pensar que quero minha vida fácil – e a minha mãe – de volta. E o jantar.

Então, como um moleque mimado, eu digo:

– Não faz nada mesmo.

É como se eu tivesse dado um tapa nela.

– O que você falou? O que você acabou de dizer?

Pelo menos eu reconheço que é hora de calar a boca. Uma fúria repentina e incandescente substitui as lágrimas. Agora ela está berrando por entre os soluços.

– Você sabe como a minha vida está uma merda neste momento? Você sabe que a gente estaria morando na rua se não tivesse esta casa? Não temos dinheiro guardado, e se eu ficar doente vamos… e este lugar é um chiqueiro! Eu deixo a cozinha sempre limpa, mas você não levanta um dedo para me ajudar.

– Você nunca me pediu.

– Não pedi porque esperava que uma pessoa com quase 15 anos teria mais noção das coisas e seria capaz de colocar a roupa suja na máquina de lavar e não deixar uma trilha de bagunça pela casa, e que estaria aqui para me ajudar, pelo menos às vezes.

– Eu não fico em casa porque estou tentando ganhar dinheiro. Porque eu tenho de economizar para ir ao baile da escola e para comprar roupas que sirvam direito em mim.

Merda. Por que tive de falar sobre o baile? Eu nem vou a essa festa idiota. Mas ela está passando mal, e não vai se lembrar de nada do que eu disse mesmo.

– Não se atreva a gritar comigo. Estou tentando ganhar dinheiro também. E está muito difícil.

– Não seria tão “difícil” assim se você parasse de espantar suas clientes.

– Mas eu não espanto! Eu só as ajudo a mudar de ideia sobre o casamento.

– Ou talvez elas reconheçam uma louca quando vêm aqui e resolvam encomendar a porcaria do bolo em outro lugar!

Saio andando. Não consigo aguentar isso. Ando pisando firme pela casa, louco para quebrar alguma coisa, porém me contento em bater a porta do meu quarto, abrindo a porta de novo e a batendo com tudo mais uma vez. Um pedaço de gesso de cima da porta cai sobre uma grande pilha de meias e cuecas recicladas que venho usando ultimamente. Eu me deito no chão e pego os halteres. Estou puxando ferro duas vezes por dia agora, então está ficando mais fácil. A adrenalina invade meu sistema; nunca consegui fazer tantas repetições assim antes.

Minha mãe bate na porta do meu quarto.

– Dan? – Ela tenta virar a maçaneta. A porta está trancada.

– Vá embora.

– Fiz um sanduíche para você.

– Não quero. – E por acaso eu tenho cinco anos? Mas ela deve saber que estou mentindo, mesmo assim.

Eu a ouço deixar o prato perto da porta, com um suspiro alto. Ainda estou mordido de ódio e um impulso mesquinho me diz para não comer o sanduíche. Minha mãe parece não perceber que as coisas estão tão ruins para mim quanto para ela. Será que ela sabe como eu estou? Ou pergunta? Será que ela acha que foi divertido para mim ser expulso da minha vida e jogado nesse museu triste e frio?

Sempre achei que, comigo por perto, minha mãe teria de saber lidar com tudo e achar que a vida dela vai bem. Mas com certeza esse não é o caso. Isso tudo só me faz sentir vazio e desesperançado.

– Bom, pelo jeito, eu e Thom Yorke não somos o suficiente, Howard.

Ele me lança aquele olhar inabalável de psicanalista: se vira, cara.

– Mas eu não consigo. É por isso que estou falando com um cachorro. E imaginando que um cachorro está falando comigo.

Ele se vira para o outro lado, ofendido. Agora o mundo todo está contra mim.

– Desculpe. Eu não quis desdenhar da sua espécie.

Ele volta e fica quieto ao meu lado. Você poderia interpretar isso como uma tentativa dele de ficar mais quentinho, mas para mim parece perdão. Não sei exatamente quando isso aconteceu, porém ele é o meu cachorro e eu sou o humano dele.

Ouço um barulho vindo lá de cima. A menina inalcançável. Tão perto, mas que nunca esteve tão longe…